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Sumario / Fevereiro 2008
Os faraós negros.
Pág 2.
Em 730 a.C., um homem chamado Pié decidiu que, para salvar o Egipto de si mesmo, a única solução seria invadi-lo e tomar o império pela força. A magnífica civilização que outrora construíra as pirâmides perdera o rumo, dilacerada por conflitos entre pequenos senhores da guerra. Antes da “salvação”, porém, muito sangue haveria de correr ao longo do Nilo.
Durante duas décadas, Pié governara o seu próprio reino na Núbia, uma região de África situada maioritariamente no actual Sudão.
Lixo tecnológico.
Pág 34.
Aqui no Gana, Junho é a estação húmida, mas na capital, Accra, a chuva parou. À medida que o sol aquece a atmosfera, colunas de fumo negro erguem-se sobre o enorme mercado de Agbogbloshie. Sigo uma nuvem de fumo até à sua origem, passando por vendedores de alface e de tanchagem, por bancas de pneus usados e por um mercado de sucata metálica onde homens acocorados batem em alternadores e blocos de motores velhos. Pouco depois, o caminho é balizado por televisores usados, torres de computador esventradas e monitores desfeitos numa pilha com três metros de altura.
Japão, a viagem de um poeta.
Pág 60.
“Cada dia é uma viagem e a própria viagem é o lar”, escreveu há mais de 300 anos
o poeta Matsuo Bashô, na primeira entrada da sua obra-prima “O Caminho Estreito para o Longínquo Norte”. Vêm-me à mente estas palavras enquanto me preparo para seguir as pegadas deste poeta, percorrendo o seu caminho – uma rota de dois mil quilómetros por ele seguidos em 1689, atravessando o Japão.
Os hazaras, povo esquecido do Afeganistão.
Pág 74.
No coração do Afeganistão, existe um espaço vazio, uma ausência sentida, no local onde outrora se erguiam os colossais budas de Bamian. Em Março de 2001, os talibãs dispararam contra as estátuas durante dias a fio, rechearam-nas de explosivos que, por fim, foram detonados. Os budas tinham contemplado Bamian durante cerca de 1.500 anos. Comerciantes e missionários de diversas confissões calcorrearam este trilho da Rota da Seda.
Águia-filipina.
Pág 96.
Se a irrevogável transição que faz uma espécie passar de rara a extinta provocasse um rasgão no tecido do nosso planeta, de que tamanho seria o buraco deixado pela perda da águia das Filipinas?
Todos os animais e plantas ajudam a fazer girar as infinitamente complexas rodas da engrenagem da biosfera, mas a perda desta ave privaria o mundo de uma das suas maravilhas. Ela voa planando pelas florestas tropicais das Filipinas, com as suas poderosas asas abertas, navegando com inesperada precisão entre a emaranhada copa das árvores. É possível que alguém tenha descrito esta rara ave de rapina, uma das maiores do mundo, sem aplicar a palavra “magnífica”. E se alguém o fez, o céu deveria curar-lhe a alma.