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Sumario / Setembro 2009
Salvar Veneza.
Pág 2.
Em nenhum recanto de Itália existe uma crise mais bem emoldurada do que em Veneza. Não pertencendo à terra nem à água, mas tremeluzindo algures entre ambas, a cidade flutua como uma miragem no meio de uma lagoa situada no topo do Adriático. Durante séculos a fio, a cidade ameaçou desaparecer sob as ondas da acqua alta, as inexoravelmente regulares cheias causadas pela associação cúmplice entre a enchente do mar e o afundamento dos alicerces, mas esse é o menor dos seus problemas.
Golfinhos do Amazonas.
Pág 28.
Os golfinhos nadam entre as árvores. Curvando os corpos sinuosos, deslizam e enrolam-se como serpentes em redor de troncos suaves. Verdes como rãs e velozes como torpedos, alguns peixes nadam entre as folhas. Rosados como pastilhas elásticas, os golfinhos capturam-nos com os seus bicos longos e repletos de dentes salientes. Não se trata de uma paisagem retirada de um romance de Gabriel García Márquez: é a estação das chuvas no curso superior do Amazonas, a jusante da cidade peruana de Iquitos. O rio inundou a floresta e os golfinhos de água doce aproveitam para ali caçar.
Somália, terra de ninguém.
Pág 42.
Não é um refúgio evidente. Construído há quase um século, o farol italiano deixou de ser utilizado há vários anos. A sua escadaria em espiral está parcialmente em ruínas. As salas despidas cheiram a humidade e a urina. Jovens sentam-se de pernas cruzadas sobre o entulho, mascando qat, uma planta cujas folhas contêm uma substância estimulante, e disputando um jogo de dados chamado ladu durante horas a fio. Alguns comprimem-se a um canto, fumando haxixe. Parecem fantasmas numa cidade abandonada por gente com medo da morte. No entanto, o farol é seguro, se é que existe algum lugar em Mogadíscio que se possa considerar seguro.
Antes de Nova Iorque.
Pág 66.
De todos os visitantes recebidos pela cidade de Nova Iorque nos últimos anos, o mais surpreendente foi um castor a que chamaram José. Ninguém sabe ao certo de onde veio. Conjectura-se que desceu o rio Bronx, procedente do condado de Westchester, a norte. Limitou-se a aparecer numa manhã invernosa de 2007 numa margem do Jardim Zooló-gico, onde roeu um punhado de salgueiros, deitando-os abaixo, e construiu a sua casa.
Orquídeas, amor e mentira.
Pág 80.
Nós, os animais, não damos valor suficiente às plantas. Quando queremos designar a distracção de outro ser humano, chamamos-lhe "cabeça-de-alho-chocho". “Vegetal” é o substantivo usado para nos referimos a alguém reduzido a um estado de impotência total, que perdeu a maioria das ferramentas essenciais para a vida. No entanto, as plantas escreveram uma história de sucesso e já o faziam milhões de anos antes de nós aparecermos.