água

CHINA. Em Setembro passado, peregrinos tiravam selfies em Drolma La, o ponto mais alto da sua kora de 52 quilómetros. Trata-se de um passeio a pé circular, para meditação, em torno do monte Kangrinboqe no Tibete. Esta montanha é sagrada para quatro religiões e quatro dos rios da Ásia Austral nascem perto dos seus pontos cardeais. A nascente do rio Indo situa-se a uma distância de quatro dias a pé desta montanha.

O Indo, um dos mais poderosos rios do mundo, depende dos glaciares dos Himalaia e cordilheiras vizinhas. Na Primavera e no Verão, o rio necessita de um caudal regular de água do degelo. O aquecimento global tem reduzido a extensão dos glaciares e o caudal do rio diminuirá aproximadamente em 2050, pondo em risco milhões de pessoas e aumentando as tensões entre a Índia, o Paquistão e a China.

Texto: Alice Albinia
Fotografias: Brendan Hoffman

A cobertura fotográfica desta reportagem foi parcialmente financiada pela associação de jornalistas da Ásia Austral.

Nas imediações do monte Kangrinboqe, no Tibete, nascem quatro grandes rios, que correm para leste e para oeste, atravessando os Himalaia e desaguando no mar. Assemelham-se aos braços de uma deusa das águas. Nos lugares por onde passam, estes rios defi nem civilizações e países: o Tibete, o Paquistão, a Índia Setentrional, o Nepal e o Bangladesh. 
A forma como a água é utilizada há muito que depende das pessoas a jusante. A forma como os rios são reabastecidos de água depende de dois factores: as chuvas da monção e o degelo dos glaciares. 

Os dois fenómenos, durante milénios pertencentes  ao domínio dos deuses, encontram-se agora também nas mãos dos humanos.

Os rios que correm a partir do Himalaia Oriental, como o Bramaputra, são maioritariamente alimentados pela monção de Verão: é altamente possível que o seu caudal venha a aumentar, à medida que o aquecimento climático liberte mais humidade na atmosfera. Mas a maior parte da água do rio Indo, que corre para oeste a partir do monte Kangrinboqe, provém das neves e glaciares dos Himalaia, do Caracórum e do Indocuche. Os glaciares em particular são “castelos de água”: armazenam os nevões de Inverno sob a forma de gelo, no alto nas montanhas, libertando-o posteriormente sob a forma de água do degelo na Primavera e no Verão. Desta maneira, disponibilizam um caudal regular. A jusante, nas planícies do Paquistão e da Índia Setentrional, o mais extensivo sistema de agricultura de regadio do mundo está dependente do Indo. Os glaciares que o alimentam garantem a sobrevivência de 270 milhões de pessoas. A maioria destes glaciares está a encolher. No início, isso aumentará o caudal do Indo. No entanto, se as temperaturas subirem como previsto e os glaciares continuarem a derreter, o Indo atingirá o “pico da água” em 2050. A partir daí, o caudal começará a diminuir.

Os seres humanos já consomem mais de 60% da água do Indo e a população está a aumentar rapidamente nesta bacia hidrográfica.

Num artigo recentemente publicado na revista “Nature”, um grupo internacional de cientistas (com apoio da National Geographic Society) analisou os castelos de água dos glaciares de todo o mundo. Segundo eles, o Indo é o mais crítico: dado o “elevado stress hídrico de base e a limitada eficácia do Estado” na região, “é improvável que o Indo... consiga resistir a esta pressão.” O Paquistão será o país mais afectado.

Entre 2003 e 2006, percorri os 3.200 quilómetros do curso deste rio, desde o mar da Arábia à nascente, no Tibete, enquanto fazia pesquisa para o meu livro “Empires of the Indus”. Já nessa altura era evidente que o rio se encontrava sob pressão. O Indo definhara devido às exigências do regadio, da indústria e da vida quotidiana. Em virtude das represas e barragens, já não chegava ao mar e o seu delta florestado com mangues encontrava-se moribundo. Os lagos apresentavam-se poluídos por efluentes e esgotos.

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Fiquei impressionada com a forma como o Indo, aclamado desde a Antiguidade em hinos sânscritos sagrados, estava a ser tratado como recurso e deixara de ser objecto de reverência. Todas as pessoas com quem travei conhecimento, dos camponeses aos políticos, consideravam que o rio era mal gerido. Falaram-me em projectos de engenharia corruptos ou ineficientes, na partilha desigual da água e nos ecossistemas destruídos em nome do lucro.

Nessa época, poucas pessoas mencionavam os efeitos do aquecimento global sobre o Indo. Foi só em 2010 que a escala do problema se tornou evidente devido às cheias dramáticas e não à escassez da água. Tem-se registado um claro aumento das chuvas torrenciais. Em Agosto de 2010, quando já estava cheio devido às águas do degelo de Verão, o Indo sofreu os efeitos de uma monção anormal. A chuva torrencial correspondeu, em certas regiões, ao volume de um ano inteiro no espaço de poucas horas. Assim, o Indo transpôs as margens no seu curso meridional.

Mais de 1.600 pessoas morreram e os prejuízos elevaram-se a 8,8 mil milhões de euros.
“Nunca se assistira a uma cheia daquela dimensão”, afi rmou Usman Qazi, residente em Islamabad, especialista em intervenções de socorro após catástrofes do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento. “Mas vai tornar-se mais frequente”, acrescentou. “As cheias associadas ao clima são um dos maiores perigos deste país.”

Esta é a mudança mais sinistra ocorrida desde que escrevi o meu livro: agora, o espectro das alterações climáticas paira sobre todos os debates referentes ao futuro do Indo. O desafio torna-se mais complicado devido ao facto de o Indo e cinco dos seus afluentes serem partilhados pela Índia  e pelo Paquistão, vizinhos e inimigos desde 1947, enquanto a China controla as nascentes. Quando cheguei ao Tibete em 2006, fiquei chocada ao saber que não corria água no Indo: a China represara recentemente as águas no curso superior do rio.

A falta de água atingiu níveis críticos. No Punjab Indiano, as dívidas empurram cerca de mil agricultores para o suicídio todos os anos.

A Índia, o Paquistão e a China têm populações gigantescas. Os três países possuem armas nucleares. Quando pensamos em alterações climáticas, imaginamo-las graduais, quase imperceptíveis. Ao longo do Indo, elas podem desencadear um conflito que mudará o planeta de um dia para o outro.

Noutros tempos, os seres humanos sentiam-se tão gratos pela existência dos rios que os transformaram em divindades.

No Rig Veda, o mais antigo texto sânscrito da Índia, o Indo é o único rio venerado como deus e como deusa, pai e mãe. Na opinião dos especialistas, isso
deve-se, provavelmente, ao facto de ter sido aqui, no vale do Indo, que o hinduísmo assumiu a sua primeira forma. 
A norte de Kangrinboqe, o grande rio emerge do solo a borbulhar modestamente, como se aquela deusa de quatro braços estivesse a expirar. Corre para oeste, atravessando as montanhas, ao longo do Norte da Índia, e transpondo a disputada fronteira com o Paquistão.
No lugar onde os Himalaia se encontram com o Caracórum e o Indocuche, num nó feito de pedra e gelo, o rio faz uma curva brusca para a esquerda e é condicionado para sul, percorrendo 1. 600 quilómetros através das planícies do Punjab e do Sindh até desaguar no mar da Arábia.

Cerca de sessenta quilómetros a norte desse ponto de viragem, no vale do Hunza, um afluente do Indo, desloquei-me a pé até ao Ghulkin, um glaciar ladeado por pomares e aldeias. Do cume, a vista era majestosa. O torrencial rio castanho abre caminho através do vale. Descendo até alcançá-lo, avistavam-se faixas de um tom de verde psicadélico: campos e pomares onde cada folha é regada por canais de irrigação directamente ligados ao glaciar. Na região setentrional do Paquistão, segundo as populações locais, os glaciares avançam porque vão acumulando massa. É verdade, mas, como mais tarde aprendi com a geóloga Bethan Davies, glaciologista da Royal Holloway em Londres, um glaciar também pode deslizar encosta abaixo, como o trenó de uma criança, porque começou a derreter e deixou de estar consolidado.

Poderá ter sido isso que aconteceu em 2018 ao Shisper, outro glaciar situado nas proximidades: de repente, começou a deslizar em direção à cidade de Hassanabad, chegando a avançar 37 metros por dia. “Parecia um comboio”, contou-me o geólogo Deedar Karim. O Shisper transpôs canais de irrigação e embateu contra uma ponte. Quando fui vê-lo, em Outubro passado, abrandara para 30 centímetros por dia – mesmo assim, uma velocidade grande para um glaciar.

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ÍNDIA. Neste viveiro em Sichewali, no Punjab, são cultivadas plantas autóctones que tornam a paisagem mais verde e talvez permitam o reabastecimento dos aquíferos subterrâneos. No Punjab, as reservas de água subterrâneas têm sido gravemente esgotadas em parte pelo regadio do arroz, que foi introduzido na região na década de 1960, no decurso da revolução verde.

Na região superior da bacia hidrográfica do Indo, os glaciares já deixaram de avançar ou retroceder com normalidade. Os glaciares Hoper e Barpu recuaram de tal forma, ao derreterem, que as povoações e as suas redes de irrigação laboriosamente construídas ficaram sem água. Vemo-las abandonadas na encosta da montanha: casas do mesmo tom castanho claro das colinas ressequidas. “Na minha infância, cultivavam-se os campos e as árvores ali”, disse-me Niat Ali, um antigo militar do exército, de 60 anos. Depois, desfiou uma lista de povoações extintas: Shishkin, Hapa Kun, Hamdar, Barpu Giram.

Os glaciares em fusão apresentam outra ameaça premente. Por vezes, a água do degelo acumula-se atrás de uma barreira formada por escombros rochosos ou gelo – a qual pode explodir, desencadeando o “colapso repentino de um lago glaciar”, ou GLOF. Em 2018, no vale de Ishkuman, uma cheia submergiu as aldeias de Bad Swat e Bilhanz. Nayab Khan, de 48 anos, sentiu a terra tremer com “a água a arrastar enormes pedregulhos. Os pedregulhos colidiam uns com os outros. Aquilo durou 12 dias”. Os destroços represaram o rio Immit, formando um novo lago, com seis metros de profundidade. Foram destruídas 42 casas.

As alterações climáticas contribuíram para pôr sete milhões de pessoas na região setentrional do Paquistão em risco de uma cheia deste género. Os três glaciares perto da aldeia de Pasu “são os três dragões”, disse Ashraf Khan, fruticultor de maçãs e professor. “Estamos a viver na boca deles.” Em Agosto passado, a água do degelo de Verão “destruiu um hotel, um escritório dos serviços de informação do exército do Paquistão e um pomar”.

À semelhança de todos os habitantes do Norte, os aldeãos de Pasu conseguem ver o clima mudar. Os verões são agora tão quentes que, pela primeira vez nas suas vidas, as pessoas estão a encomendar ventoinhas vindas de zonas mais baixas do país. Os invernos são mais amenos e a maioria dos habitantes parece grata por isso. Os prospectores de ouro, que migram sazonalmente até ao Hunza para peneirar as suas águas, vivendo em tendas montadas junto do rio, rejubilam com o clima mais quente e até com as cheias. “As cheias extraem mais minério das rochas”, explicou Mahboob Khan. Ele peneirava a areia das águas do rio, rolando-a sobre a palma da mão juntamente com mercúrio tóxico para extrair pepitas de ouro. De nada lhe interessavam as alterações climáticas.

Fiquei espantada ao perceber que poucas das pessoas que conheci no Norte do Paquistão sabiam as razões pelas quais os seus glaciares estavam a derreter ou culpavam o resto do mundo por isso. Mais a sul, nas grandes cidades, está a enraizar-se uma certa sensação de  injustiça. O Paquistão, um país em desenvolvimento com cerca de 230 milhões de habitantes, ocupa apenas o 144.º lugar entre 192 países no que diz respeito às emissões de gases com efeito de estufa. O ministro paquistanês para as Alterações Climáticas, Malik Amin Aslam, apresentou-me o problema nos seguintes termos: “A responsabilidade não é nossa, mas somos nós que sofremos as consequências.”

Quando a independência foi declarada  em 1947 e a divisão da antiga colónia britânica criou a Índia e o Paquistão, ambos os países ficaram com menos do Indo do que pretendiam. A longa secção setentrional, que flui para oeste, situa-se no antigo principado de Jammu e Caxemira e os dois países pretendiam a totalidade do território. A fronteira que divide Caxemira ainda é tensamente disputada. A jusante, nas férteis planícies do Punjab, os britânicos tinham construído represas e barragens no Indo e seus afluentes, desviando água para alimentar uma vasta rede de canais de irrigação. No Punjab, a nova fronteira dividiu os cursos de cinco afluentes, dando ao Paquistão a maior parte dos povoados com explorações agrícolas em torno dos canais, mas deixando à Índia as águas do rio Sutlej, em Firozpur.

A administração pública do lado indiano afirmou de imediato o seu poder na Primavera de 1948, encerrando as comportas de entrada, o que reduziu consideravelmente o caudal no Paquistão. As comportas foram reabertas semanas mais tarde. No entanto, como me explicou Majed Akhter, geógrafo do King’s College de Londres, esse gesto deliberado da Índia foi visto pela administração pública paquistanesa como um acto de “violência inicial”.

O Paquistão obteve algumas garantias em 1960, quando o Banco Mundial persuadiu os dois países a assinarem o Tratado das  Águas  do Indo. O tratado dividiu a bacia hidrográfica do rio, concedendo a água do Indo e de dois afluentes a oeste ao Paquistão, enquanto os afluentes situados a leste foram   entregues   à Índia.

O Paquistão finalizou a Barragem de Tarbela em 1976. A Índia completou o Canal Indira Gandhi, com 640 quilómetros, em 1987, conduzindo as águas e a revolução verde para sul do Punjab, alcançando o deserto de Thar, no Rajastão.

Analistas dos dois países concordam que os canais, ao fornecerem água em abundância a um custo artificialmente reduzido, incentivaram o desperdício. “Cultivamos arrozais no deserto!” exclamou Ali Tauqeer Sheikh, membro do Conselho Nacional para as Alterações Climáticas do Paquistão. Os grandes agricultores formam a “elite política e recusam-se simplesmente a atribuir um preço à água”.

A falta de água nos dois lados da fronteira atingiu níveis críticos. No Punjab indiano, as dívidas empurram cerca de mil agricultores para o suicídio todos os anos. O bombeamento das águas subterrâneas é um processo dispendioso: todos os anos são precisos furos mais profundos, à medida que os lençóis freáticos vão baixando. A diminuição do volume dos aquíferos é provocada pela cultura do arroz, um cereal sedento de água. Entretanto, as águas fluviais são transvasadas para lugares tão distantes como o Rajastão.

Do outro lado da fronteira com o Rajastão, na província paquistanesa de Sindh, desloquei-me a uma região do deserto de Thar irrigada por canais. A água de regadio provinha de um local a quase 300 quilómetros de distância – a Barragem de Sukkur, no Indo, construída pelos britânicos em 1932. Aqui, no final do sistema de irrigação, mulheres e crianças trabalhavam nos campos, fazendo a colheita das famosas malaguetas Dundicut.

A safra de 2019 fora um fracasso, explicou Mian Saleem, presidente da Associação de Cultivadores de Malagueta do Sindh. Condições climáticas extremamente desfavoráveis reduziram a colheita em dois terços. Em Maio, as temperaturas atingiram 47ºC, fazendo murchar as malaguetas. Depois, veio “chuva em Outubro, pela primeira vez na minha vida”, disse Saleem. A colheita foi atrasada e os frutos apodreceram.

Na aldeia de Rano Khan Rahimoon, conversei com meeiros sem terra, hindus e muçulmanos que vivem lado a lado em casas de adobe pintadas. Dedicam-se ao plantio de malaguetas e outras culturas de rendimento e mostraram-se eloquentes quanto à identificação do seu maior problema: a água. “Às vezes, vem água do canal, outras vezes não”, contou Attam Kumar, de 28 anos.

“O problema divide-se em três partes”, prosseguiu. “Escassez de água nos canais, monções invulgarmente fortes e esta água subterrânea envenenada que somos obrigados a beber.” Os poços foram poluídos pelo escoamento de campos adubados. Kumar levantou a camisa de Salaam, um rapaz de 11 anos, para me mostrar a cicatriz de uma intervenção cirúrgica aos rins. Quatro dos 150 aldeãos já tinham sido sujeitos a nefrectomias. Na manhã seguinte, tomei chá com um proprietário de terras e antigo ministro federal e depois conversei com o gerente de uma plantação de mangueiras, que cultiva um roseiral no deserto. Os dois homens queixaram-se das recentes variações erráticas do clima, enquanto abriam garrafas de Evian.

Ainda fiz uma paragem no hospital da aldeia. A médica, Moomal Waqar, estava desesperada com o elevado número de doentes com problemas de rins e cálculos biliares. À semelhança dos meeiros, ela culpava a água não filtrada e poluída pelos adubos. “Quem, aqui, tem dinheiro para comprar água mineral engarrafada?”, perguntou.

A água envenenada encontra-se por todo o lado no Paquistão. Uma equipa chefiada por Joel Podgorski, do Instituto Federal Suíço para a Ciência e Tecnologia Aquática, apresentou em 2017 um relatório segundo o qual 60 milhões de pessoas na bacia do Indo estão sujeitas a ingerir água subterrânea contaminada com arsénico.

O Paquistão apresenta igualmente uma das mais elevadas taxas de subnutrição infantil do planeta – pelo menos um terço das crianças do país são subnutridas. As taxas mais altas a nível nacional, contou Daanish Mustafa, geógrafo do King’s College de Londres, encontram-se “nas áreas de regadio”, onde as práticas agrícolas dão prioridade às culturas de rendimento para exportação.

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PAQUISTÃO. A torrente alimentada pelo gelo das montanhas espraia-se pelas planícies do Sindh, na região meridional do Paquistão. A barragem de Sukkur, que se avista à distância, foi construída na era colonial. Afunila a água do Indo, conduzindo-a por uma rede de canais até aos campos de algodão, trigo e arroz plantados no deserto. Os britânicos criaram ao longo do Indo aquele que ainda é o maior sistema de irrigação do mundo.

Todos estes problemas remontam à forma como a água é utilizada nas planícies do Indo. As barragens, as represas e os canais tornaram a água abundante e barata, retendo os sedimentos férteis do rio nas albufeiras. A revolução verde viabilizou culturas híbridas ainda mais sedentas de água, juntamente com os adubos e os pesticidas. O regadio por inundação dos campos requer grandes quantidades de ambos, uma vez que as águas estagnadas são um vector para as pragas de insectos e a água provoca o escoamento dos produtos químicos e a sua infiltração nas águas subterrâneas. Segundo Abbas, o resultado é o seguinte: “Agora retiramos do rio dez vezes mais água do que precisamos”. A água é escassa e poluída numa terra onde foi, outrora, abundante e limpa.

À semelhança de muitos especialistas em recursos hídricos com quem falei, Abbas defende uma reforma radical do sistema. Quer no Paquistão quer na Índia existem tradições ancestrais de aproveitamento da água, adaptadas aos ritmos do rio e das chuvas, que foram negligenciadas desde a administração britânica. Em vez delas, os dois países privilegiaram projectos gigantescos de engenharia, de barragens e canais.

As alterações climáticas, argumenta Abbas, podem ser uma bênção para o Paquistão, na medida em que são um incentivo para repensar o sistema.

O país pode fazer a transição, passando de dispendiosas barragens hidroeléctricas para energia solar barata. Pode substituir o regadio de inundação pela irrigação gota-a-gota. E pode recuperar as zonas húmidas e as florestas num corredor ao longo do Indo e dos seus afluentes. As barragens e as albufeiras fornecem ao Paquistão água suficiente para apenas 30 dias em caso de seca.

Segundo este especialista, a captação das águas pluviais e fluviais poderia mesmo reabastecer o aquífero existente sob Carachi, a capital comercial do Paquistão. Situada nas margens do delta do Indo, é uma das cidades do planeta que mais sofre de stress hídrico: os seus quinze milhões de habitantes esgotaram a água do aquífero. O lago Kinjhar, uma albufeira alimentada pelo Indo a 100 quilómetros de distância, é a fonte de abastecimento de água mais próxima.

Ao aproximar-se do mar, o rio quase deixou de existir. Numa viela da aldeia piscatória de Goth Ibrahim Haidri, nos arredores de Carachi, passei por uma fila de mulheres que aguardavam para encherem os cântaros com a água trazida por um camião-cisterna. Disseram-me que estavam à espera há três dias. Os ricos reservam a maior parte da água doce disponível no Indo e nos seus lagos, muitas vezes comprando-a ilegalmente. Os pobres aguardam na fila e compram água salobra mais barata.

Ao pôr do Sol, contemplei junto do mar as embarcações de pesca de madeira que regressavam ao porto. Mohammad Ali Shah, chefe do Fórum dos Pescadores do Paquistão (PFF), cresceu aqui e nadou  no mar quando era criança. Agora, nunca deixaria os seus netos fazê-lo – está demasiado poluído.

O PFF faz campanhas em prol da aprovação de uma lei que conceda personalidade jurídica e direitos ao rio Indo. No projecto de lei, o Indo é definido como “maravilha ecológica” com “um valor que ultrapassa a sua utilidade para os seres humanos”. Propõe a inspecção dos projectos hidroeléctricos, o controlo da poluição e a criação de um fundo para recuperar o rio.

O projecto é radical de mais para ser transformado em lei. No entanto, algo precisa de mudar ao longo do Indo. A alternativa, em que o rio continue a ser desperdiçado, é demasiado aterradora. 

Nota: Esta reportagem foi patrocinada pela Rolex, numa parceria com a National Geographic Society destinada a esclarecer os desafios que os sistemas fundamentais de suporte da vida na Terra enfrentam, através da ciência, da exploração e da capacidade narrativa.

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