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O bairro de Dari Ekh, em Ulan Bator, está cheio de migrantes provenientes de regiões rurais, pastores nómadas que vêm para a cidade em busca de emprego. Vivendo em casas simples, ou em tendas redondas  chamadas gers, com pouca ou nenhuma electricidade, queimam carvão para se manterem quentes durante o Inverno rigoroso. Um estudo concluiu que as crianças da capital tinham menos 40% de capacidade pulmonar do que as do campo, um sinal de alerta para problemas de saúde a longo prazo.

A poluição é responsável por sete milhões de mortes prematuras por ano e diversos problemas de saúde. Este é um problema que somos capazes de resolver.

Texto: Beth Gardiner
Fotografias: Matthieu Paley

No momento em que a Covid-19 começou a grassar pelo mundo, Francesca Dominici suspeitou que a poluição atmosférica estava a aumentar a taxa de mortalidade. As comunidades residentes em lugares poluídos têm maior probabilidade de desenvolver doenças crónicas e esses pacientes são os mais vulneráveis à COVID-19. Além disso, a poluição atmosférica pode enfraquecer o sistema imunitário e inflamar as vias respiratórias, deixando o organismo menos capaz de combater um vírus respiratório.

Professora de bioestatística na Faculdade de Saúde Pública T.H. Chan da Universidade de Harvard, Francesca encontrava-se especialmente bem equipada para pô-la à prova. Juntamente com outros colegas, passara anos a criar uma extraordinária base de dados que, desde 2000, compara os dados sobre a saúde de dezenas de milhões de norte-americanos com um resumo diário do ar que respiram. No Verão passado, Francesca explicou-me tudo, durante uma videochamada a partir de sua casa.

Francesca disse-me que todos os anos adquire informação granular (mas tornada anónima) sobre cada um dos cerca de 60 milhões de norte-americanos idosos inscritos na Medicare – idade, género, etnia, código postal e as datas e códigos de diagnóstico de todos os óbitos e hospitalizações. Isto representa metade da base de dados. A outra metade é uma grande proeza. Liderados por Francesca Dominici e Joel Schwartz, um epidemiologista de Harvard, dezenas de cientistas começaram por dividir os EUA numa grelha com quadrados de um quilómetro cada. Depois pegaram num programa de aprendizagem automática e ensinaram-no a calcular os níveis diários de poluentes em cada quadrado ao longo de 17 anos, mesmo sem disporem de um dispositivo para monitorizar a poluição.

Com estes dois conjuntos de dados, Francesca e os colegas conseguiram, pela primeira vez, estudar os efeitos da poluição atmosférica em cada recanto dos EUA. Essa comparação conduziu-os a algumas conclusões preocupantes. Num estudo realizado em 2017, descobriram que mesmo em lugares onde a qualidade do ar cumpria as normas nacionais, a poluição estava associada a taxas de mortalidade mais elevadas. Isso significa que “a norma não é segura”, explicou Francesca.

Dois anos mais tarde, a equipa comunicou que as hospitalizações relacionadas com uma série de doenças, incluindo problemas como insuficiência renal e septicemia, cuja ligação à poluição pouco fora examinada, aumentavam juntamente com a poluição. Essas conclusões juntaram-se a um enorme volume de provas demonstrativas dos perigos dos PM2.5, ou materiais particulados com menos de 2,5 micrómetros, cerca de 1/30 da largura de um cabelo humano. Algumas destas partículas podem entrar na corrente sanguínea. Os cientistas encontraram-nas, incluindo partículas “ultrafinas” ainda mais minúsculas, no coração, no cérebro e na placenta.

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Quando a pandemia começou, Francesca e a sua equipa decidiram rapidamente cruzar os dados sobre a qualidade do ar de todo o país com o número de mortes causadas pela COVID-19, divididas por comarcas, num esforço estatístico promovido pela Universidade Johns Hopkins. As taxas de mortalidade viral deveriam, certamente, ser mais altas em lugares com mais PM2.5, os lugares onde décadas de exposição a ar com má qualidade teriam tornado os organismos humanos mais susceptíveis ao coronavírus. Em todo o mundo, relatou a equipa em Dezembro, a poluição por partículas representava 15% das mortes por COVID-19. Em países muito poluídos da Ásia Oriental, o valor era de 27%.

Foi um choque para muitas pessoas estranhas ao mundo científico. As conclusões chegaram às notícias. “Para mim, não foi surpreendente”, admitiu Francesca. “Fazia sentido.” Ela já tinha muita informação que o público desconhecia. Sabia que o ar poluído põe fim a mais vidas e com muito mais regularidade do que o novo coronavírus.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a poluição atmosférica representa cerca de sete milhões de mortes prematuras por ano a nível mundial. Em algumas investigações, o efeito da poluição é ainda mais elevado do que nas estimativas da OMS. A maioria dessas mortes resulta da poluição atmosférica. As restantes devem-se, principalmente, ao fumo de fogões de cozinha em espaços interiores. A maior parte das mortes ocorre nos países em desenvolvimento, mas a poluição atmosférica continua a ser uma causa de morte relevante nos países desenvolvidos. Segundo cálculos do Banco Mundial, o custo económico global será superior a cinco biliões de dólares por ano.

Nos Estados Unidos, 50 anos depois de o Congresso aprovar a Lei do Ar Limpo [o Clean Air Act], mais de 45% dos norte-americanos ainda respiram ar nocivo, segundo a Associação Americana de Pneumologia. A qualidade do ar provoca mais de 60 mil mortes prematuras por ano sem contar os muitos milhares de pessoas que morreram porque o ar as tornou mais vulneráveis à COVID-19. A poluição é um assassino oculto. Não aparece nas certidões de óbito. Talvez este ano, disse-me Francesca quando conversámos, a sua intersecção com novas e assustadoras ameaças (como o vírus feroz e os incêndios florestais) nos ajude a reconhecer os danos que tem causado desde sempre.

Mais poluição atmosférica significa menor esperança de vida para as pessoas que a respiram. Esse axioma foi estabelecido de forma definitiva por um importante projecto de 1993 conhecido como o estudo “Six Cities”. Os habitantes das seis pequenas cidades mais poluídas dos EUA, estudadas por investigadores de Harvard, tinham mais 26% de probabilidade de morrer prematuramente do que os habitantes das seis cidades mais limpas. A poluição atmosférica roubava-lhes cerca de dois anos de esperança de vida.

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Clique na imagem para ver detalhes. RYAN MORRIS. FONTES: BERKELEY EARTH; ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE; IQAIR; STATE OF GLOBAL AIR 2020 † COM BASE NAS CONCENTRAÇÕES ANUAIS MÉDIAS DE PM2.5, SEGUNDO A OMS (DADOS MAIS RECENTES DISPONÍVEIS). NÃO APRESENTADAS NO MAPA: BAMENDA, CAMARÕES; CAMPALA, UGANDA; E YANBU, ARÁBIA SAUDITA. NOTA: O MAPA GRANDE MOSTRA UMA COMPOSIÇÃO COM AS LEITURAS MAIS ALTAS DE PM2.5 VERIFICADAS EM AMOSTRAS RECOLHIDAS EM INTERVALOS DIÁRIOS ENTRE OUTUBRO DE 2020 E JANEIRO DE 2021 EM MILHARES DE ESTAÇÕES À SUPERFÍCIE. OS DADOS FORAM EXTRAPOLADOS PARA GERAR UMA ESTIMATIVA DAS PIORES CONDIÇÕES DE QUALIDADE DO AR POR REGIÃO. OS MAPAS DOS EUA MOSTRAM MÉDIAS DIÁRIAS DERIVADAS DE DADOS RECOLHIDOS HORA A HORA. AS CATEGORIAS DE SAÚDE SÃO BASEADAS NA NORMA DA EXPOSIÇÃO AO LONGO DE 24 HORAS DA EPA.

“Foi surpreendente. Na verdade, era um efeito tão amplo que nós não acreditámos”, disse o autor principal do estudo, Douglas Dockery, actualmente reformado. Outro conjunto de dados de longo prazo não tardaria a confirmá-lo.

Desde então, outros estudos revelaram mais duas verdades essenciais sobre a poluição atmosférica: ela é prejudicial a partir de níveis muito inferiores aos anteriormente determinados e de muito mais formas. A sua diversidade foi suficiente para deixar assombrado Dean Schraufnagel, professor de medicina pulmonar da Universidade de Illinois, em Chicago, quando, em 2018, encabeçou um painel responsável por rever e resumir décadas de investigação.

Segundo o relatório apresentado pelo painel, o ar poluído afecta quase todos os sistemas essenciais do organismo. Pode estar na origem de cerca de 20% de todas as mortes causadas por AVC e doença coronária, desencadeando ataques cardíacos e arritmias, insuficiência cardíaca congestiva e tensão arterial alta. Está associado ao cancro do pulmão, da bexiga, do cólon, dos rins e do estômago e à leucemia infantil. Danifica o desenvolvimento cognitivo das crianças e aumenta o risco de os idosos contraírem demência ou morrerem de doença de Parkinson. Foi associado à diabetes, obesidade, osteoporose, diminuição da fertilidade, aborto espontâneo, perturbações de humor, apneia do sono – e a lista continua.

“O seu enorme alcance foi a conclusão mais surpreendente”, disse Dean Schraufnagel.

O reverso da medalha transmite mais esperança: uma atmosfera mais limpa produz melhor saúde. Desde a promulgação da Lei do Ar Limpo de 1970, o decréscimo de 77% da poluição prolongou a vida de milhões de norte-americanos. As alterações à lei em 1990 impediram 230 mil mortes só em 2020, segundo uma estimativa da EPA.

Noutras partes do mundo, o ar é muito pior. Eu e o fotógrafo Matthieu Paley visitámos Ulan Bator, na Mongólia, uma das capitais mais poluídas do mundo sobretudo durante o duro Inverno, quando o carvão se torna uma ferramenta de sobrevivência, sendo queimado à tonelada pelas centrais eléctricas da cidade e às sacas dentro das gers (as iurtas mongóis) onde se alojam os migrantes pobres vindos das regiões rurais.

“Já não sei se conheço o som de um pulmão saudável”, afirmou a médica Ganjargal Demberel, que faz consultas ao domicílio num desses bairros. “Todos têm bronquite ou outro problema qualquer, sobretudo durante o Inverno.”

Alguns países europeus vivem com níveis de poluição muito mais graves do que os norte-americanos. Na Europa Oriental e Central, o fumo do carvão, que destrói o clima e a saúde, ainda é expelido por chaminés domésticas e centrais eléctricas. Em Londres, onde vivo há 20 anos, o fumo do carvão cobriu, em tempos, a cidade com uma neblina densa e mortífera, mas felizmente esses dias acabaram muito antes de eu chegar. Agora, o país e os seus vizinhos continentais sofrem com os efeitos de outro combustível tóxico: o gasóleo.

Mais poluente do que a gasolina, há muito que o gasóleo é popular na Europa por melhorar ligeiramente os consumos dos veículos. Sinto a diferença sempre que regresso a Nova Iorque e inspiro ar perceptivelmente mais limpo do que o londrino. Quando regresso à Grã-Bretanha, preocupa-me o efeito que o fumo poderá ter na minha filha adolescente, cujos pulmões ainda estão em desenvolvimento e são vulneráveis.

O problema europeu da qualidade do ar não radica apenas num combustível em particular. Deve-se igualmente ao fracasso político e regulador. Em 2015, o público tomou conhecimento de que a Volkswagen programara 11 milhões de veículos a gasóleo com “dispositivos manipuladores”, software que activava os controlos de poluição durante os testes, mas mantinha-os desligados em seguida. As autoridades norte-americanas obrigaram a empresa a gastar milhares de milhões de euros a indemnizar os compradores e a reparar os veículos ou a retomá-los. A Europa, porém, permitiu que 51 milhões de automóveis e carrinhas (de vários fabricantes) permanecessem em circulação, emitindo dióxido de nitrogénio três ou quatro vezes superiores ao limite, segundo o grupo de defesa Transport & Environment. Essa poluição em excesso causa quase 7.000 mortes prematuras por ano, concluiu um estudo.

Em vez de obrigar os fabricantes de automóveis a corrigir os seus veículos de forma a cumprirem as normas, a Europa opta maioritariamente por delegar o problema nas cidades. Em todo o continente, as autoridades locais estão a proibir a circulação dos veículos mais poluentes ou a penalizar os seus proprietários. É um passo rumo a uma atmosfera mais limpa e existem sinais de que estas medidas estão a afastar os condutores do gasóleo, mas os esforços irregulares não são tão eficazes como uma acção organizada a nível governamental.

Como é evidente, o gasóleo e o carvão não são as únicas forças que estão a contaminar o ar, tanto na Europa como noutras regiões. O fumo gerado pela queima de madeira em lareiras e fogões, carregado de PM2.5, é um problema crescente. Os confinamentos do ano passado proporcionaram aos cientistas uma oportunidade inesperada de observar o que acontece quando algumas fontes de poluição são temporariamente interrompidas. À medida que o vírus assolava o Norte de Itália na Primavera, Valentina Bosetti e Massimo Tavoni, um casal de economistas do RFF-CMCC Instituto Europeu de Economia e do Ambiente, em Milão, permaneceram fechados em casa com os três filhos.

“Em vez de nos matarmos um ao outro e aos miúdos, pensámos que era uma oportunidade para analisar os dados”, disse Valentina. Apesar de os transportes e a indústria terem praticamente parado, o casal constatou que a qualidade do ar não melhorara tanto como muitos dos seus conterrâneos pensavam. “Os jornais referiam que os indicadores pareciam positivos, mas nem por isso”, acrescentou. Em postos de monitorização instalados longe de estradas e fábricas, os níveis de PM2.5 desceram apenas 16% e o dióxido de nitrogénio apenas 33%. Afinal, havia um grande sector que continuava a poluir enquanto as pessoas ficavam em casa: a agricultura.

A agricultura industrial contemporânea é um grande poluente. Um estudo classificou a agricultura como a maior fonte isolada de PM2.5 na Europa, na região oriental dos EUA, na Rússia e na Ásia Oriental. Enormes quantidades de estrume, bem como adubos químicos, libertam amónia, que reage com outros poluentes atmosféricos, criando as minúsculas partículas. Há muito que os cientistas sabem que assim é, mas Valentina Bosetti espera que esta clara demonstração à escala real seja capaz de despertar vontade política de agir.

China continua a ser líder mundial da mortalidade causada por poluição atmosférica, mas fez grandes avanços na limpeza dos seus céus, ao passo que a reacção da Índia tem sido praticamente ineficaz. As cidades indianas ocupam nove dos dez primeiros lugares da base de dados de níveis de PM2.5 da OMS. O custo humano é terrível: na Índia, há quase 1,7 milhões de mortes prematuras por ano. A poluição na Índia deve-se a uma variedade estonteante de causas. A queima de lixo nas ruas, onde o lixo fica por recolher. As frequentes falhas de electricidade, causadoras do uso generalizado de geradores a gasóleo. A queima de lenha, estrume e, até, plástico, pelas pessoas sem abrigo das aldeias e das cidades para cozinharem e se manterem quentes. As queimadas dos campos agrícolas todos os outonos geram nuvens de fumo que pairam sobre Deli, vindos do Punjab e de Haryana.

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Uma máquina asperge água para fazer baixar a poeira num local de construção em Deli. Esta poeira, que pode conter químicos nocivos, é uma grande fonte da poluição atmosférica da cidade. O lixo e os lumes de cozinha, os geradores a gasóleo e as fábricas alimentadas a carvão também envenenam o ar.

“É como se vivêssemos numa câmara de gás”, contou Jyoti Pande Lavakare, escritora e activista de Deli. Diz que, nos meses piores, sempre que sai, fica “com uma dor de cabeça debilitante por causa da poluição. A minha filha também tem dores de cabeça e, por vezes, sente-se um pouco enjoada. Os nossos olhos lacrimejam.” Os norte-americanos tiveram uma breve amostra da poluição habitual em Deli no Outono passado, quando a região ocidental dos EUA foi envolvida pelo fumo dos incêndios florestais.

Antigamente, Jyoti Lavakare vivia na Califórnia, mas em 2009 mudou-se com o marido para perto dos pais. Ficou surpreendida por a poluição na Índia ter piorado tanto. Os seus pais ignoraram a sua sugestão de instalar purificadores de ar, mas sentiram-se melhor depois de ela comprar alguns. Em 2017, a sua mãe foi diagnosticada com cancro do pulmão. “Aconteceu tudo tão depressa”, recordou Jyoti. Os médicos lembraram que ela viveu toda a vida no Norte da Índia, a capital mundial da poluição. A senhora morreu em 2018.

Por essa altura, já Jyoti Lavakare co-fundara um grupo de representação que lutou, com sucesso, pela discussão do assunto no parlamento e até apresentou uma petição de direitos humanos nas Nações Unidas. Jyoti escreveu um livro, “Breathing Here Is Injurious to Your Health”, sobre a saúde da mãe. “Não há nada que ainda não tenhamos tentado”, disse-me. “Infelizmente, acho que não estamos a fazer grandes progressos.”

Durante algum tempo, na década de 1990 e no início do novo século, pareceu haver esperança sobre a melhoria da situação em Deli. Pressionada pelo Supremo Tribunal, a cidade exigiu que os autocarros e os seus omnipresentes riquexós motorizados passassem a usar gás natural comprimido como combustível. No entanto, o crescimento económico não tardou a ultrapassar as medidas antipoluição. O número de carros nas estradas indianas, por exemplo, aumentou mais de quatro vezes de 2001 para 2017. A produção de tijolos intensificou-se para alimentar o crescimento explosivo da construção e os tijolos eram fabricados em fornos que queimavam carvão sem filtrar o fumo.

Nessa situação dramática, houve pelo menos um desfecho positivo: o esforço para dar alternativas aos combustíveis para cozinhar reduziu a poluição nos espaços fechados da Índia rural e salvou centenas de milhares de vidas por ano. Contudo, há uma década que não se registam melhorias significativas da poluição atmosférica em espaços abertos, afirmou Sarath Guttikunda, directora do grupo de investigação Urban Emissions. “Não se observou qualquer decréscimo em nenhuma cidade”, disse.

Jyoti Lavakare tem consciência de que a sua posição é privilegiada: o ar respirado pela população urbana pobre da Índia, que trabalha na rua, é muito pior. À semelhança do coronavírus, a poluição coincide geograficamente com as fracturas existentes nas nossas sociedades.

Com a COVID-19, porém, as mortes “acontecem imediatamente. Com a poluição atmosférica, o número agrava-se com o tempo”, disse Jyoti. “É uma pandemia em câmara lenta.”

Nos EUA, a poluição acrescenta uma dimensão suplementar à desigualdade flagrante do país. Segundo um estudo, os negros norte-americanos estão expostos a cerca de 1,5 vezes mais PM2.5 do que a população em geral e a disparidade é mais étnica do que económica. “Os negros norte-americanos ricos respiram mais ar poluído do que os brancos norte-americanos pobres”, disse-me Francesca Dominici. Essa diferença está a aumentar. “Enquanto limpamos o ar neste país, andamos sobretudo a limpar o ar nos lugares onde os brancos vivem.”

A resistência movida pelas vítimas dessa disparidade está a crescer. Em 2013, quando ainda estava no liceu, no Sul de Baltimore, Shashawnda Campbell soube que o estado do Maryland aprovara planos para construir um novo incinerador, a aproximadamente 1,5 quilómetros da sua escola. A sua reacção foi imediata: “Não precisamos disso. Isto aqui já cheira mal. Já há poluição que chegue.”

Os bairros de Brooklyn e Curtis Bay, onde Shashawnda e os colegas vivem, são pobres e habitados por populações negras e latinas consideráveis. A zona já estava sobrecarregada com um incinerador de resíduos médicos, uma fábrica de produtos químicos, um aterro sanitário e uma enorme pilha de carvão a céu aberto. “Não é por acaso que todas estas coisas se encontram nesta comunidade”, disse Shashawnda. Uma fábrica suja é posta em Brooklyn ou Curtis Bay “porque mais ninguém a quer. Mas ninguém nos pergunta se a queremos”.

As pessoas de cor são frequentemente relegadas para bairros industriais devido a um legado de restrições hipotecárias. E as empresas constroem novas fábricas poluentes nestas zonas porque os terrenos são mais baratos e os moradores dispõem de escassa influência política, disse George Thurston, professor de medicina ambiental da Universidade de Nova Iorque. “Eles evitam os bairros mais ricos onde as pessoas têm esse poder”, disse. “Querem ficar em locais onde encontrem menos resistência.”

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Na zona sul de Baltimore, as preocupações com a poluição levaram Shashawnda Campbell (sentada à frente) e outros jovens activistas a agir para inviabilizar planos de  construção de um incinerador nas proximidades. Os moradores  já vivem perto de outros poluentes industriais, incluindo um incinerador de resíduos médicos, uma fábrica de produtos  químicos e um aterro sanitário.

Shashawnda Campbell não estava disposta a deixar que isso acontecesse outra vez. O movimento Free Your Voice começou a recolher assinaturas. “Sabíamos que tínhamos de ripostar”, recorda. Demoraram três anos, mas venceram.

Hoje em dia, Shashawnda visita escolas para ensinar as crianças a combater o racismo ambiental. No seu antigo liceu, um treinador disse-lhe que não conseguia formar uma equipa de basquetebol “porque todos têm asma. Não conseguem correr o suficiente”. No Verão passado, nas manifestações do movimento Black Lives Matter, os manifestantes disseram-lhe que nunca lhes ocorrera associar a poluição à violência policial. “É racismo de uma forma diferente”, disse Shashawnda.

Do outro lado do continente, o adversário de Anthony Victoria não é um simples incinerador, mas toda a economia de consumo – pelo menos no seu estado actual. Anthony, um jovem de barba e óculos redondos, vive em Inland Empire, na Califórnia, uma região outrora conhecida pelos seus pomares de citrinos. Situada no interior, a cem quilómetros dos portos de contentores de Los Angeles e Long Beach, é agora um pólo de armazéns, distribuindo produtos importados da China e de outros países. “Há um bairro residencial e um mega-armazém enorme do outro lado da rua”, disse Victoria.

O verdadeiro problema é o incessante fluxo de camiões. “É a violência lenta da cadeia de abastecimento que verdadeiramente vai sugando a energia, a saúde e o sustento” das comunidades, disse-me Anthony. O Centro para a Acção Comunitária e Justiça Ambiental, um grupo de representação para o qual trabalhava na altura, deu contadores aos residentes para que registassem o tráfego dos camiões. Ao longo da Estrada Estadual 60, uma via rápida com sentido este-oeste, contaram 1.161 numa hora.

“Facilmente imaginamos os efeitos negativos que isso causa na vida de qualquer pessoa”, prosseguiu Anthony Victoria. “As nossas comunidades são conhecidas como zonas da morte por gasóleo.” Recentemente, a COVID-19 invadiu violentamente alguns armazéns. “Temos pessoas cheias de medo”, disse Anthony. Os trabalhadores dos armazéns “já estavam imunodeprimidos por causa da poluição” e agora estão aterrorizados com a ideia de levarem o vírus para casa, para os filhos ou pais que têm asma ou cancro.

Também aqui há sinais de mudança. O grupo de Anthony apresentou a sua contagem de camiões ao California Air Resources Board, organismo com grande influência no processo legislativo norte-americano. No ano passado, este organismo emitiu outro regulamento: os fabricantes são obrigados a introduzir camiões com zero emissões no estado até 2024, com a quota de novos camiões não-poluentes a aumentar de forma constante até 2035. A agência também está a ampliar um requisito que obriga os navios a desligarem

os motores e usarem energia terrestre enquanto estiverem atracados ou a usarem tecnologia de captação de poluição. Em conjunto, estes regulamentos aplicados aos camiões e aos navios “vão fazer uma enorme diferença”, disse Joe Lyou, presidente da Coalition for Clean Air.

À semelhança de muitas medidas destinadas a reduzir a poluição atmosférica nociva, os novos regulamentos também diminuem as emissões de carbono causadoras do aquecimento climático. Ambas têm a mesma origem: a nossa dependência face aos combustíveis fósseis. E isso significa que é urgente a transição para uma energia mais limpa, evitando o petróleo, o gás e o carvão, não só para evitar um futuro assustador com secas, cheias, incêndios florestais e tempestades, mas também para nos tornar mais saudáveis agora, já que as comunidades mais afectadas serão provavelmente as mais beneficiadas. A simples transição para os veículos eléctricos poderia salvar milhares de vidas e 60 mil milhões de euros anuais em custos de saúde nos EUA, segundo a Sociedade Americana de Pneumologia.

Anthony tem esperança nesse cenário. Na sua opinião, além do ar mais limpo, indústrias como o fabrico de camiões eléctricos podem trazer novas oportunidades económicas à sua comunidade. “Não precisamos obrigatoriamente de sacrificar a qualidade da nossa saúde, nem do ar que respiramos, por causa de um emprego”, disse. “Podemos ter ambos.”

As alterações climáticas e a poluição atmosférica podem ocorrer em escalas temporais diferentes. Um dos aspectos mais impressionantes da poluição atmosférica é o facto de, ao desaparecer, a saúde colectiva melhorar rapidamente. As paralisações económicas desencadeadas pela COVID-19 no ano passado abrandaram as emissões de carbono a nível mundial, mas a quantidade total de carbono presente na atmosfera continuou a aumentar. Em contraste, cada declínio incremental e local em poluentes como os PM2.5 ou o dióxido de nitrogénio traduz-se imediatamente em menos crises de asma, ataques cardíacos e mortes.

Na China, os investigadores chegaram a uma conclusão incrível: a melhoria da qualidade do ar durante o confinamento no início de 2020 salvou mais de 9.000 vidas, segundo um estudo, e cerca de 24.000, segundo outro – em qualquer dos casos, são mais vidas do que as ceifadas pelo vírus, pelo menos segundo as estatísticas chinesas, cujas mortes registadas por COVID-19 se situam abaixo de 5.000. Os cientistas perceberam há muito que a qualidade do ar salva vidas, disse Kai Chen, epidemiologista de Yale e autor principal do primeiro estudo. Mas “é tão dramático” vê-lo acontecer.

A poluição tem merecido muito menos atenção, embora mate muito mais pessoas. Uma das razões para tal, sugere Francesca Dominici, é o facto de ser complicado associar a poluição a mortes concretas. Uma das pessoas que conseguiu mudar isso foi Rosamund Adoo Kissi-Debrah, a activista deste tema mais conhecida da Grã-Bretanha.

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Em Londres, onde vivia Ella Roberta Adoo Kissi-Debrah (à esquerda), a poucos passos de uma via rápida, o gasóleo é uma fonte importante de poluição. Ella padecia de asma grave e era frequentemente hospitalizada quando havia picos de poluição. Morreu, devido à doença,  com 9 anos. “Tenho sauda- des do seu toque na minha cara”, diz Rosamund, a mãe de Ella (à direita), que conseguiu que a poluição atmosférica fosse acrescentada à certidão de óbito. Em Dezembro de 2020, um médico-legista confirmou-o por fim. Fotografias: Hollie Adams, Getty Images (esquerda) Serena Brown (direita)

Ella, a filha mais velha de Rosamund, morreu de asma em 2013, aos 9 anos de idade. A família vive a cerca de 25 metros de uma das vias mais movimentadas de Londres, a South Circular, e Rosamund acha que foram os fumos de escape que fizeram Ella adoecer. Passou anos a travar uma batalha legal para prová-lo. Antes de a dor virar do avesso a sua vida, era professora e acabou por transformar a tragédia num momento didáctico ao conseguir que a poluição fosse oficialmente acrescentada como factor contributivo para a morte de Ella na sua certidão de óbito.

Após a morte de Ella, Stephen Holgate, especialista em asma da Universidade de Southampton, concluiu que muitas das dezenas de hospitalizações da criança, incluindo a última, coincidiram com picos de poluição. Com ar mais limpo, concluiu, Ella poderia estar viva. Para uma mãe, “é algo difícil de aceitar”, disse Rosamund.

Ella era activa e enérgica antes de adoecer, mesmo entre crises asmáticas, recordou Rosamund Kissi-Debrah. “Tudo era fácil para ela”: a leitura, a música, a natação. As crises de Ella eram tão graves que, por vezes, lhe causavam convulsões. Assim que se sentia melhor, porém, “queria saltar para o skate. Era uma verdadeira maria-rapaz”.

No primeiro inquérito, realizado em 2014, o médico-legista determinou que Ella morrera de insuficiência respiratória aguda e asma, sem ter em consideração qualquer causa externa. Rosamund insistiu e a sua luta atraiu cobertura mediática. Poderia não ser um grande consolo conseguir que a poluição constasse, por escrito, na certidão de óbito de Ella (uma circunstância inédita no Reino Unido e talvez no mundo), mas teria força moral e política. Um acórdão judicial declarando que o ar britânico contribuíra para pôr fim à vida de uma criança implicaria, inegavelmente, o perigo para a vida de outras pessoas e a necessidade de agir.

Rosamund Kissi-Debrah sabe que as respostas não são complicadas. As leias com base científica funcionam se os governos as aplicarem. “A minha filha não foi a única”, disse. “Quero uma mudança a sério” para as outras crianças de Londres.

Em Dezembro do ano passado, com o segundo inquérito finalmente em curso, Stephen Holgate comparou Ella a “um canário numa mina de carvão”. Ele declarou que ela sofrera regularmente mais de dois anos de “experiências de quase morte” antes de sucumbir. No final, o médico-legista determinou que a poluição atmosférica (que excedia os limites legais britânicos nas proximidades da casa de Ella) contribuíra, efectivamente, para a sua morte. Por uma vez, os sete milhões de vidas perdidas todos os anos devido à má qualidade do ar eram representados por um rosto. Pertencia a uma menina bonita.

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