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A última viagem do vapor SS Dago. Fotografia: Museu de História de Hull

Texto: Jorge Russo

Ao largo da costa de Peniche, encontram-se dois destroços a apenas 500 metros de distância um do outro e a cerca de 50 metros de profundidade. Os destroços eram conhecidos da população de Peniche, que referia com frequência mergulhos ou pescarias bem sucedidas no “Dago”, mas nunca fora realizada a peritagem para identificar os navios. Em 2005, formou-se uma equipa informal de mergulhadores técnicos com o objectivo de confirmar se um dos destroços correspondia ao SS Dago, um navio com uma história sombria.

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Um aspecto dos trabalhos de pesquisa. Fotografia:Manuel Leotte 

Perto das 18 horas do dia 15 de Março de 1942, o vapor britânico SS Dago foi avistado por um avião alemão, que disparou sobre ele e largou três bombas, tendo o SS Dago ripostado com todo o armamento antiaéreo que possuía a bordo. A primeira bomba do avião destruiu o castelo da proa, a segunda explodiu dentro do porão n.º 2, que estava vazio, e a terceira explodiu na água, a bombordo, mas ainda assim destruiu a ponte e o comando de emergência do motor.

O SS Dago estava perdido e afundou-se pela proa em cinco minutos. Os náufragos rumaram a Peniche e foram recolhidos passada uma hora pelo salva-vidas Almirante Sousa e Faro. Apenas quatro tripulantes ficaram feridos.

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MAPA: NGM-P.  Fonte: Jorge  Russo

O vapor SS Dago saiu de Liverpool a 23 de Fevereiro rumo a Gibraltar. Daí, seguiu para Lisboa e, a 15 de Março, rumou para Leixões, mas foi afundado antes de lá chegar.

Este ataque alemão a um navio britânico na tangente das águas territoriais de Portugal, um país neutro, constituiu um embaraço político e diplomático no plano da aliança luso britânica e das relações com o Eixo. O governo britânico interpretou o ataque como uma violação da soberania de Portugal (até porque o avião alemão sobrevoara espaço aéreo português) e o seu embaixador solicitou medi das vigorosas a Salazar dois dias após o incidente.

Em 2005, iniciaram-se imersões de exploração nos dois destroços. Para determinar qual poderia corresponder ao SS Dago, foi necessário proceder à identificação de estruturas distintivas nos destroços que pudessem ser comparadas com os planos de construção e com o registo original do navio no porto de hull. Para tanto, procedeu-se à arqueografia do destroço, através da medição de centenas de distâncias directas entre pontos, e profundidades absolutas calibradas.

Todas as características distintivas analisadas corresponderam à documentação sobre o SS Dago. tratando-se de uma investigação não intrusiva, nada no destroço foi perturbado, à excepção de um conjunto de três frascos de vidro identificados num dos porões, por se recear que pudessem perder-se. Estes foram recuperados e encontram-se em estudo.

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Os trabalhos de pesquisa, permitiram recuperar um frasco de unguentos. Fotografia:Manuel Leotte

Um dos frascos possuía resíduos do conteúdo original.

Análises por espectrometria de massa realizadas por cristina Almeida e confirmadas por António Alfaia, da Faculdade de Farmácia da universidade de Lisboa, determinaram tratar-se de um esteróide, o que sugere a possibilidade de um produto corticóide. no mesmo porão,

A equipa detectou dezenas de rolos de linóleo, a carga sobrevivente do navio. Identificado o SS Dago e conhecido o seu local de descanso final, resta agora uma questão: que navio corresponde ao segundo destroço? 

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