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Reconstituição de Tróia na fase de maior produção do povoado romano, com as unidades de produção de pescado. 

Este centro, foi escavado por uma rainha e visitado por um dos grandes autores de fábulas infantis.

Texto: Inês Vaz Pinto

Na foz do rio Sado, diante da cidade de Setúbal, numa língua de areia a que hoje chamamos Tróia, floresceu, durante o Império Romano, do século I ao século V, uma das mais importantes indústrias de conservas de peixe da época. Aproveitavam-se os recursos da região – a abundância de peixe, sobretudo a sardinha, e o sal das marinhas do estuário e do rio. Preparava-se peixe salgado e fabricava-se o garum e outros molhos de peixe que eram vendidos na Lusitânia e exportados para Roma e outras províncias.

Os tanques e as oficinas de salga de peixe são a imagem de marca deste sítio. As oficinas de salga eram unidades de produção com fiadas de tanques dispostos em redor de um pátio. As fábricas de salga podiam ter uma ou mais oficinas, além de armazéns e outros espaços. Estão identificadas 29 oficinas de salga em Tróia e ainda são visíveis cerca de 180 tanques.

Calcula-se que, para encher estes tanques, seriam necessárias mais de 700 toneladas de peixe e 300 toneladas de sal. Para embalar uma produção destes tanques, pelo menos 20 mil ânforas tinham de ser fornecidas pelas olarias da outra margem.

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Ruínas de Tróia.

Os vestígios romanos estendem-se ao longo de dois quilómetros na orla do estuário do Sado, mas a maioria foi posta a descoberto pelas marés e sofre o desgaste da forte erosão marinha. Outros vestígios mais bem conservados foram descobertos por escavações realizadas desde o século XVIII até à actualidade. Um percurso de visita com painéis explicativos mostra um conjunto de edifícios emblemáticos deste sítio. Nele se podem ver uma fábrica de salga com duas oficinas, um mausoléu, um cemitério, uma casa e termas. 

As duas oficinas de salga, com os seus tanques, são um bom exemplo das infra-estruturas de produção deste sítio. Estas oficinas estavam originalmente interligadas por um corredor, mas mais tarde foram subdivididas em oficinas mais pequenas. A oficina maior tem tanques que podem atingir a capacidade de 35 mil litros e um poço no seu pátio.

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Esta notável taça romana foi encontrada em Tróia em 1814 e oferecida a Dom Fernando II. Dada como perdida (pois fora mal catalogada), foi reencontrada nas colecções em depósito da Fundação Casa de Bragança, em Vila Viçosa. Fotografia: Nário Rio. Cortesia Fundação Casa de Bragança e Museu Nacional de Arqueologia

Junto da oficina mais pequena, sobre as fundações do antigo armazém da fábrica, está um mausoléu com nichos nas paredes para urnas de cinzas de defuntos e também sepulturas de corpo inteiro. Mostra os dois rituais funerários usados no mundo romano, a cremação e a inumação, tornando-se esta última prática corrente a partir do século III.

Por trás do mausoléu, numa elevação do terreno, está um cemitério tardio, cujas sepulturas em arca guardavam esqueletos que foram escavados nos anos 1960. Junto do cemitério encontraram-se as fundações de um pequeno edifício que seria uma capela.

A Rua da Princesa guarda os vestígios de uma grande casa ainda com paredes do rés-do-chão e do primeiro andar, cuja escavação foi iniciada no século XVIII pela futura Dona Maria I, continuada no século XIX pela Sociedade Arqueológica Lusitana e visitada pelo escritor Hans Christian Andersen em 1866.

No termo do percurso de visita, está o grande edifício das termas, com a sua sala de convívio e exercício, o vestiário, as salas e tanques de banhos quentes e frios e a fornalha ligada a uma câmara subterrânea que aquecia o piso superior.

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A antiga ilha de Ácala (o nome romano para Tróia) contém vestígios de uma das mais extraordinárias unidades de produção de pescado da Antiguidade. Fotografia: Shutterstock

O desenvolvimento económico proporcionado pela indústria de salga de peixe transformou a Tróia romana num aglomerado urbano com vestígios de muitas oficinas e algumas casas, poços e cemitérios, e ainda uma igreja paleocristã com pintura mural romana tardia que aguarda trabalhos de valorização.

Este povoado especializado na indústria da salga de peixe era não só um motor económico do baixo vale do Sado como participava do enorme esforço das províncias romanas que alimentavam a metrópole de Roma.

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Ruínas Romanas de Tróia  

Tróia, 7570           

Horário: 10h – 13h / 14h30 – 18h  

Contacto: Tlf.: +939 031 936

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