Almendres

O monumento que hoje visitamos nos Almendres, apesar da sua singeleza megalítica e do seu eminente carácter pré-histórico é o resultado de um longo e certamente acidentado processo construtivo.

Texto: António Carlos Silva

Bem ao contrário do seu famoso congénere britânico, Stonehenge, desde sempre reconhecido como estrutura megalítica, edificada em tempos remotos, o recinto megalítico dos Almendres está praticamente na infância da sua emergência enquanto monumento pré-histórico, embora não fugindo, na percepção dos que o visitam, à poderosa carga mítica que o monumento britânico acumulou durante séculos de “megalitomania”.

Ainda que a noção da existência de uma forte tradição megalítica no território português remonte pelo menos às primeiras “memórias” da Real Academia de História (século XVIII), a omnipresença das “antas” e estruturas funerárias afins obliterou durante um século de estudos arqueológicos o reconhecimento de um megalitismo não funerário. É verdade que, já na primeira metade do século XX, surgiram as primeiras notícias de menires no território português, mas nada que se aproximasse dos conjuntos ou alinhamentos de outras paragens europeias. A “revelação” aconteceria apenas há meio século, mais precisamente, a 27 de Março de 1964, quando um simples camponês, António Rebocho, guarda na Herdade da Mitra, em Valverde, conduziu ao Alto das Pedras Talhas, um arqueólogo que até aí, como tantos outros antes de si, estudava algumas das numerosas antas dos arredores de Évora.

Henrique Leonor de Pina (1930-2018) reconheceu de imediato estar na presença de um grande recinto megalítico de forma ovalada e delimitado por cerca de 90 menires de diferentes formas e tamanhos. “Todo o conjunto sugere o que na Bretanha francesa é conhecido por ‘cromelech’ e em regra considerado como local sagrado”, escreveu então, acrescentando, desde logo consciente do ineditismo da sua descoberta: “São conhecidos nessa parte da Europa, bem como nas Ilhas Britânicas, mas, que saibamos, nunca foram assinalados na Península Ibérica.”

Começaria então o processo de estudo e “reconstrução“ do recinto megalítico dos Almendres mas também de contextualização espácio-temporal, com a subsequente descoberta de estruturas semelhantes por todo o Alentejo Central, comprovando o velho aforismo de que só vemos aquilo que procuramos. Em meia dúzia de anos, o reconhecimento de numerosos menires e mesmo de novos recintos, como o da Portela de Mogos em Évora, ou os Perdigões, Monte da Ribeira e Xerez, em Reguengos de Monsaraz, vinha confirmar no território alentejano, uma nova realidade pré-histórica que não deixaria de adensar-se com o passar dos anos. Mas foquemo-nos nos Almendres, o recinto que goza ainda da condição de maior “cromeleque” da Ibéria. Inserido numa grande propriedade rural alentejana, o descobridor teve de enfrentar a resistência do proprietário aos primeiros trabalhos de arqueologia. Imaginamos que as dificuldades levantadas não resultavam apenas de algum senso exacerbado de propriedade da parte do engenheiro Miguel Soares. Com efeito, cerca de uma década antes do reconhecimento arqueológico, certamente ciente do significado especial do conjunto, Miguel Soares, recorrendo aos trabalhadores da Herdade, tinha procedido, de forma organizada e regular, à erecção de várias “pedras talhas”, circunstância que explica, na opinião do próprio Leonor de Pina, o estado de conservação do monumento, aquando da sua primeira visita.

Graças ao testemunho de trabalhadores envolvidos mas também às escavações de Mário Varela Gomes na década de 1980, num período em que a Herdade estava ocupada por uma cooperativa local, sabemos que a acção de Miguel Soares, no essencial, não desvirtuou a estrutura original.

Iniciado algures há 7000 anos, com o assentamento na região das primeiras comunidades de agricultores neolíticos, foi certamente modificado e adaptado por quem se reconhecia nos seus propósitos e significados, os quais, provavelmente, também evoluíram ao longo dos tempos. Obsoleto pela perda de função e significado, o monumento cairia no esquecimento na alvorada das grandes transformações do último milénio antes de Cristo, mas graças ao porte da maioria dos seus menires, terá resistido, pelo menos parcialmente, às transformações naturais e humanas da paisagem.

Hoje, após os restauros da década de 1990 e a abertura de novos acessos a partir da aldeia de Guadalupe, o Cromeleque dos Almendres, classificado como Monumento Nacional, enfrenta novos desafios e ameaças que resultam da sua “descoberta” pelo turismo de massas e por alguma incapacidade revelada pelas tutelas patrimoniais para lidar com esta nova circunstância.

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