agosto 2002

O que publicávamos há 20 anos

O aspecto mais desconcertante de revisitar conteúdos publicados há duas décadas é constatar como alguns assuntos se mantêm infelizmente actuais. Em contraste com a imagem de um simpático suricata, a capa desta edição destacava entre outros temas o desafio da escassez de água potável. No interior da edição, a propósito do 10.º aniversário da Cimeira do Rio, sete cientistas avaliavam os sinais de esperança, as derrotas e os desafios crescentes no quadro do acelerado crescimento demográfico e de uma incessante depleção de recursos. Nas páginas seguintes, contrastava um belíssimo ensaio fotográfico assinado por Stuart Franklin que abria uma janela de esperança para redutos naturais que encerram uma poesia onírica.

Aparentemente sem relação com as adversidades de que os humanos são simultaneamente vítimas e responsáveis, o tema de capa revelava o complexo funcionamento social dos suricatas que estão especialmente adaptados a sobreviver em condições adversas graças à colaboração e à força dos laços que os unem. Ainda na sequência dos desafios que já altura se colocavam à humanidade, publicávamos um extenso dossier sobre as desigualdades de acesso e a crescente escassez de água potável.

Em Portugal, esta edição trazia-nos um dos melhores registos fósseis do jurássico no cabo Mondego, o impacte produzido pelo lagostim-vermelho da Louisiana nas espécies de anfíbios autóctones e aquilo que à época era uma novidade e, entretanto, se banalizou: os peneireiros reproduzindo-se em varandas, parapeitos e floreiras no coração da cidade. No Minho, revelávamos uma ferramenta virtual que dava acesso ao passado romano da cidade de Braga e, do Alentejo, chegava-nos um projecto de conservação que acompanhava os sisões com recurso a telemetria. Também nesta região analisava-se a promessa da então recentemente concluída barragem de Alqueva.

Vinte anos depois, a Europa atravessa uma seca sem precedentes e uma reflexão sobre as preocupações espelhadas na edição de 2002 é mais do que uma curiosidade histórica. Constitui uma oportunidade para repensar os caminhos seguidos e para encarar o futuro com determinação redobrada.

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