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A praça de Hannover de Londres, vista a partir de uma das ruas adjacentes cerca de 1775. Os peões já circulavam pelo passeio separados do tráfego. Aguarela de James Miller. Museu e Galeria de Arte de Birmingham.

Em 1762, as autoridades londrinas empreenderam uma reforma das ruas para criar um espaço reservado aos transeuntes, separado do trânsito e da sujidade.

Texto: Manuel Saga

A caminhada pelo passeio é um acto tão comum nos nossos dias que normalmente não se pensa que, tal como tudo, o passeio também tem a sua história. As ruínas de Pompeia mostram como já na Antiguidade existiam ruas com um espaço para os transeuntes, elevado sobre uma berma e reforçado com silhares para os separar do resto do trânsito. No entanto, nas cidades da Europa medieval e moderna, as ruas eram quase sempre meras faixas de terra sem pavimentação por onde os animais e as pessoas se deslocavam misturados. O ideal romântico de “passear pela calçada ”atribui-se às reformas urbanísticas do século XIX, em particular Paris com Napoleão III (18521870). Porém, a cidade de Londres já tinha inventado, ou reinventado, o modelo de rua com passeio através da chamada Lei da Pavimentação e Iluminação de 1766.

Ruas sujas e escuras

No século XVIII, Londres era uma cidade fabril, pioneira na Revolução Industrial. Cerca de seiscentos mil habitantes tornavam-na uma das mais povoadas da Europa. Isto reflectia-se no incessante movimento das ruas. A actividade mercantil alimentava o movimento de centenas de carrinhos de mão, carruagens e de todo o género de comerciantes e trabalhadores, sem esquecer os animais de carga. A todo o instante formavam-se aglomerações em redor de comerciantes ambulantes, reuniões políticas, execuções, incêndios e lutas entre vizinhos.

A travessia da cidade de carruagem podia ser complexa, pois os engarrafamentos eram habituais. Por exemplo, em 1749, formou-se um engarrafamento na Ponte de Londres que precisou de três horas até se resolver e o trânsito voltar a fluir com normalidade. Além disso, as ruas estavam pavimentadas com seixos arredondados pouco aptos para o tráfego, e os buracos e segmentos de terra batida eram comuns.

A situação era pior para os transeuntes, que tinham de evitar as poças de água estagnada e a acumulação de dejectos animais e humanos lançados para a calçada. Nos dias de chuva, cerca de cem por ano, a água misturava todos estes elementos e transformava-os em lama escorregadia que não era possível drenar. Em 1765, um visitante francês referia que as ruas da capital britânica estavam “eternamente cobertas de sujidade” e “pavimentadas de tal forma que quase não é possível encontrar um ponto onde pôr o pé”.

A falta de espaço pedonal delimitado levava as pessoas e os veículos a deslocarem-se juntos. A única separação ocasional encontrava-se à frente dos edifícios importantes e era constituída por fileiras de postes de amarração de madeira onde se atavam os animais. Os postos de venda colocados a meio das ruas eram um obstáculo adicional para os transeuntes. Em 1754, Joseph Massie e John Spranger reagiram contra esta situação e exigiram uma reforma urbana que permitisse caminhar pelas ruas com um mínimo de comodidade e higiene. Era necessário criar, diziam, uma rede de “novas e magníficas ruas”, limpas, pavimentadas e iluminadas. Em 1762, o Parlamento britânico usou a proposta e aprovou a Lei da Pavimentação e Iluminação para o distrito de Westminster que estendeu à City de Londres em 1766.

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Dois transeuntes caminham por uma rua separados da calçada por um poste. Gravura de finais do século XVIII.

A salvo de salpicos

As 42 páginas e 92 artigos da norma introduziram em Londres e na Europa moderna as ruas com passeios que hoje nos são familiares. Pela primeira vez, os peões londrinos podiam caminhar numa plataforma larga e bem pavimentada. O passeio colocava as pessoas num plano acima das carruagens e da lama da rua. Foi dada ordem para que as lojas retirassem as mercadorias da rua e foram eliminados os postes que dificultavam a passagem. As lâmpadas privadas foram substituídas por um sistema municipal de candeeiros de óleo, precursores da iluminação a gás. Para facilitar a orientação dos transeuntes, foram colocados sinais com o nome das ruas e o número dos edifícios. O passeio tornou-se assim um bem público, com leis que o protegiam.

Embora as alterações não se aplicassem de igual forma nem com a mesma rapidez a todas as ruas de Londres, escassos quatro anos depois a capital britânica já era considerada “a cidade mais bem pavimentada e iluminada da Europa”. Após uma viagem que realizou a Inglaterra em 1782, o alemão Carl Philip Moritz manifestou a sua surpresa face à possibilidade de passear com tranquilidade pelos passeios londrinos: “Um estrangeiro agradece as calçadas feitas de pedras largas, que se estendem de ambos os lados das ruas, nas quais se sente tão seguro face ao temível movimento dos carros e carruagens como se estivesse na sua própria casa.”

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