fernão magalhães

A nau Victória figura num mapa do cartógrafo Abraham Ortelius (1527-1598).  Das cinco embarcações da expedição de Magalhães, foi a única que regressou a Sevilha depois de concluir a volta ao mundo. (the picture art collection / alamy)

PARTE 1 de Sevilha às Filipinas

Há 500 anos, a expedição de Fernão de Magalhães completou pela primeira vez a circum-navegação do planeta.

Texto: João Paulo Oliveira e Costa
Infografia: Almudena Cuesta   

Comemora-se este ano o início da expedição que foi comandada por Fernão de Magalhães e que teve consequências extraordinárias para a humanidade. 

Ficou particularmente famosa por um punhado de homens a bordo do único navio sobrevivente ter conseguido regressar ao porto de partida passados três anos, tendo realizado, assim, a primeira viagem de circum-navegação do mundo, depois de tocarem em quatro continentes e atravessarem três oceanos. Magalhães morreu numa ilha das actuais Filipinas e foi Sebastián Elcano o comandante que cometeu a proeza de completar a primeira volta ao mundo. 

Esta viagem em torno do planeta terá sido decisiva para que os mais cépticos se convencessem da redondeza da Terra, embora a tese já fosse aceite há muito pela maioria dos sábios europeus, como se percebe pelo facto de se ter admitido que Cristóvão Colombo tinha chegado à Ásia, na sua viagem de 1492. A denominação de Índias de Castela para os territórios americanos que foram sendo incorporados na coroa castelhana na sequência da viagem colombina é o exemplo claro dessa convicção, que também é demonstrada pelos esforços de Henrique VII de Inglaterra de atingir a Ásia pelo Ocidente e por toda a correspondência que foi mantida entre a coroa de Portugal e a de Castela a propósito dos limites asiáticos do meridiano acordado em Tordesilhas. Aliás, só a redondeza da Terra justificava que as duas monarquias discutissem o prolongamento até à Ásia da linha que tinham combinado
para delimitar as suas áreas de influência no oceano Atlântico. 

Como procurarei demonstrar nas linhas que se seguem, os grandes contributos desta expedição para o conhecimento do planeta relacionavam-se precisamente com as dúvidas criadas pela viagem de Colombo e que tardaram três decénios a ter uma resposta clara: por um lado perceber a configuração do Novo Mundo e saber se era possível contorná-lo pelo Sul; por outro, saber o que existia mais a Ocidente entre esse novo continente e a Ásia das especiarias. 

A resposta a estas duas questões resolveu em primeiro lugar a longa querela diplomática originada pelo Tratado de Tordesilhas e, na sequência da expedição magalhânica, Portugal e Castela retomaram as negociações, entendendo-se finalmente sobre o controlo ibérico das águas da Ásia Oriental. Assim, uma das consequências desta viagem foi a assinatura do Tratado de Saragoça em 1529. 

Além disso, a travessia do Pacífico permitiu conhecer a extraordinária grandeza deste oceano, insuspeitada quando Balboa o avistou pela primeira vez na zona do Panamá, em 1513; a existência desta enorme massa de água pôs fim à disputa entre duas teorias geográficas – a que defendia que as águas eram rodeadas por terra em toda a orbe e a que imaginava as massas continentais rodeadas por água, tendo vingada a segunda. É interessante notar que a última representação cartográfica do mundo colocando os oceanos totalmente encerrados numa massa terrestre foi desenhada por Lopo Homem em 1519, nas vésperas da partida de Fernão de Magalhães.

Deve acrescentar-se todavia que, além de terminar com esta disputa académica, a longa navegação através do Pacífico revelou uma realidade que alterou profundamente a concepção do próprio mundo – afinal, a sua superfície está coberta predominantemente por água, ou seja, foi Magalhães quem deu a conhecer que a Terra é um planeta azul.

Mas voltemos aos antecedentes desta viagem extraordinária e vejamos de que modo o incerto Ocidente foi sendo perspectivado pelas civilizações euro-mediterrâneas antes das descobertas de Fernão de Magalhães. 

No ano em que a expedição de circum-navegação partiu, em 1519, Lopo Homem publicou este peculiar mapa. Representava então as massas oceânicas fechadas, como lagos, sem comunicação entre si. (Mapoteca, ministério das relações exteriores, Brasil)

Os mapas produzidos pelos sábios do mundo euro-asiático na Idade Média eram esquemáticos: distinguiam os três continentes, mas não alcançavam as terras para lá do Saara e ignoravam quase por completo os oceanos. O mapa de Fra Mauro de 1459 é o exemplo mais desenvolvido desta concepção e tem a particularidade de já incluir as primeiras explorações portuguesas para lá do cabo Bojador. O Renascimento, que agitou a Europa tardo-medieval, provocou uma nova busca sobre os Antigos e entre os autores então recuperados contou-se Ptolemeu, um geógrafo de Alexandria, que imaginava o Índico como um grande lago e que ganhou grande reputação no final do século XV depois de a sua “Geografia” começar a ser impressa. 

Sintomaticamente, a célebre carta de Toscanelli aconselhando a busca da Índia navegando para Ocidente foi escrita em 1474 pouco depois de a obra de Ptolemeu ser celebrizada pela imprensa.

Dom João II, porém, teimou na sua demanda pelo sul e, através de Bartolomeu Dias, pôde comprovar que o continente africano não se prolongava infinitamente, pelo que o Índico era realmente acessível a partir do mar que tanto medo incutira durante séculos aos marinheiros euro-mediterrâneos. 

Enquanto o Príncipe Perfeito engendrava a Rota do Cabo, Cristóvão Colombo juntava à ideia de Toscanelli as informações erróneas veiculadas por Marco Polo. Com efeito, o célebre aventureiro veneziano referia na sua obra a existência de uma ilha riquíssima a leste da China que designou por Cipango. Tratava-se, como é sabido, do Japão, que, na interpretação de Marco Polo, seria um país riquíssimo: de acordo com a narrativa ficcionada de Polo, até os telhados das casas seriam de ouro neste território que estaria umas mil e quinhentas milhas para dentro do mar. 

O arquipélago nipónico quedava de facto a essa distância dos portos do Sul da China, onde Polo recolheu as informações, mas estava também a essa distância num rumo nor-nordeste, não muito distante da península coreana, e não a leste no interior do oceano. Quer isto dizer que, ignorando a existência do continente americano e imaginando que a Terra seria mais estreita do que é na realidade, Cipango poderia estar na região onde se situam de facto as ilhas da América Central. 

Ao mesmo tempo que se concebia a travessia para Ocidente, os navegadores portugueses alargavam sistematicamente as navegações pelo Atlântico, afastando-se cada vez mais de África e da Europa. Dom Afonso V e Dom João II estimularam os aventureiros a explorar as águas distantes da Guiné e, numa carta de 1486, o monarca português prometeu pela primeira vez que concederia a um explorador a capitania das terras que viesse a descobrir, fossem ilhas ou terra firme. Quer isto dizer que, por acção de um eventual avistamento fortuito ou em consequência da pertinácia de que Colombo mais tarde daria provas, começava a admitir-se que talvez fosse possível atingir a Ásia pela via do Ocidente. Após mais de meio século de viagens de exploração, o mar-oceano estava prestes a ganhar forma.

A última década de Quatrocentos correspondeu a uma súbita aceleração do ritmo dos Descobrimentos. Após a exploração lenta da costa ocidental africana, num ápice, Cristóvão Colombo, Giovanni Caboto, Gaspar Corte Real e Pedro Álvares Cabral comandaram expedições que permitiram o reconhecimento de terras a ocidente – de norte a sul. 

Os mapas da década seguinte, a primeira da centúria de Quinhentos, são testemunho dessa revolução que ganhou foros de espanto quando se constatou que existia um continente de que nunca sequer se suspeitara nas civilizações do Velho Mundo e que só foi verdadeiramente intuído pela primeira vez um decénio após a viagem inaugural de Colombo, através das descrições de Américo Vespúcio.

Cartógrafos e escritores propuseram diferentes hipóteses e, em 1507, Waldseemüller esboçou a primeira prefiguração do continente americano. No ano seguinte, o veneziano Rosselli imaginou a América do Norte como parte do Extremo Oriente asiático e confinou o Novo Mundo ao que é a América do Sul. De facto, o Ocidente continuou incerto: seria o Novo Mundo toda aquela longa linha de costa que corria de norte a sul sem se lhe encontrar uma interrupção que deixasse prosseguir as navegações mais para ocidente até aos portos da Ásia?

Nos primeiros anos do século XVI, enquanto os castelhanos quase monopolizavam a exploração do Novo Mundo, à excepção da costa do Brasil, sobretudo depois do fracasso dos Corte Real e do alheamento da Inglaterra de Henrique VIII, Portugal forjava o seu império marítimo afro-
-asiático. Logo após o triunfo sobre Calicute, em 1505, Dom Manuel I começou a insistir no alargamento da rede de postos do Estado da Índia até Malaca. Apontou essa preocupação no regimento de Dom Francisco de Almeida, primeiro vice-rei da Índia. Reiterou essa ordem em cartas enviadas em 1506 e acabou por enviar uma expedição directa ao porto malaio em 1508, sob o comando de Diogo Lopes de Sequeira. Na Índia, Fernão de Magalhães juntou-se a esta armada e voltou a Malaca em 1511, quando Afonso de Albuquerque conquistou a cidade. Foi, pois, um dos primeiros europeus com experiência repetida na Sudeste Asiático.

A razão da persistência de Dom Manuel I no avanço para Malaca prende-se, sem dúvida, com a importância estratégica da cidade no contexto do comércio asiático, pois era a escápula entre as rotas do mar da China e as do oceano Índico. No entanto, outra preocupação assaltava o espírito do monarca – nos vinte anos que mediaram entre a expedição de Cristóvão Colombo e a descoberta de Balboa de que a costa da América Central era inteiriça e que do outro lado se avistava outra massa de água, a que chamaram o “mar do Sul”, persistiu o receio de que os castelhanos (ou quaisquer outros europeus) irrompessem pelos mares da Ásia vindos do Novo Mundo. Nesse contexto, Malaca seria a trincheira onde os avanços dos rivais europeus deveriam ser travados. 

Além disso, embora os portugueses tivessem já obtido uma medida do raio da Terra muito próxima da realidade, através de observações astronómicas realizadas perto da linha do equador, os rivais castelhanos não possuíam essa informação e era necessário comprovar esses cálculos secretos pela travessia de toda a orbe terrestre. Quer isto dizer que as incertezas sobre a zona por onde passava no Oriente a linha de Tordesilhas foram alimentadas durante várias décadas pelo facto de o Novo Mundo se ter transformado numa barreira que impedia os navegadores de Castela ou outros de avançarem para Ocidente.

Entretanto, a conquista de Malaca, em 1511, permitiu a expansão dos negócios dos portugueses pelos mares da Insulíndia e mesmo para o mar da China até Cantão. Os oficiais régios logo perceberam que as especiarias raras das Molucas, o cravo, a noz-moscada e a mácide, eram cruciais para o comércio de Malaca, mas a localização dessas ilhas gerava dúvidas sobre a sua relação com a linha de Tordesilhas. Ficavam ainda do lado da demarcação portuguesa ou quedavam já na área de influência de Castela?
A pergunta alimentava uma discussão teórica nas cortes peninsulares, mas como eram os únicos a explorar os mares da Ásia, os portugueses não se preocupavam muito com a dúvida, sobretudo depois de se constatar que os castelhanos estavam bloqueados pelo Novo Mundo.

Foi neste contexto que Fernão de Magalhães decidiu comprovar a correcta posição das ilhas Molucas e propôs a Dom Manuel I ir buscá-las pela via do Ocidente, encontrando uma passagem na costa americana que lhe permitisse atingir o “mar do Sul”. O rei português recusou naturalmente a proposta do seu súbdito, pois a expedição que ele se propunha realizar deveria atravessar toda a área que estava reservada a Castela pelo Tratado de Tordesilhas. Note-se que, apesar de os castelhanos suspeitarem de que os portugueses já teriam ultrapassado na Ásia a linha de Tordesilhas, nunca tinham tentado resolver o problema enviando uma armada aos mares do Oriente pela via do cabo da Boa Esperança. Percebe-se, por isso, que Dom Manuel I fosse igualmente escrupuloso e que não tomasse decisões que poderiam pôr em risco a paz com o reino vizinho, sobretudo para resolver um problema técnico que
não representava qualquer urgência para a coroa de Portugal.

Foi nestas circunstâncias que Fernão de Magalhães se deixou tomar pela ambição de concretizar o seu sonho e que resolveu sair do reino e oferecer os seus serviços à monarquia castelhana, a única que de facto poderia acolher o seu projecto. 

Após a morte de Fernando, o Católico, em 23 de Janeiro de 1516, os reinos de Castela e Aragão estavam concentrados sob a autoridade da rainha Joana, mas esta mostrava-se incapaz de reger os seus domínios e o seu filho Carlos veio à Hispânia assumir a governação em seu nome, nunca a tendo deposto, mas mantendo-a no cativeiro de Tordesilhas onde fora colocada pelo próprio pai. O jovem Carlos, prestes a ganhar a eleição imperial, mas ainda sem dispor das riquezas americanas que lhe cairiam nas mãos, estava naturalmente desejoso de comparticipar no negócio das especiarias que dava fama e riqueza a seu tio (e logo cunhado) Dom Manuel I. 

O aparecimento de Fernão de Magalhães na sua corte estava destinado ao favorecimento régio. Com efeito, Fernão de Magalhães trazia consigo quase um século de experiência náutica acumulada pelos portugueses e também o seu conhecimento do Índico e especialmente dos mares da Insulíndia, pelo que valia a pena Carlos arriscar o investimento na armada que o nobre luso lhe solicitava. 

A organização da armada foi um processo complexo, resultante das naturais desconfianças entre portugueses e castelhanos e da dificuldade em encontrar nobres castelhanos que aceitassem submeter-se à autoridade de um português. O primeiro ano de viagem, conturbado por discussões e princípios de motim a bordo, comprovaria a força e as fragilidades de Fernão de Magalhães como comandante naval.

Note-se que o navegador não tinha qualquer prova de que a passagem para o lado de lá da América existisse e, quando se chegou à conclusão de que a larguíssima foz do rio da Prata não era a boca de um estreito, não lhe restou mais nada senão prosseguir para sul, na esperança de que o continente americano acabasse mais cedo ou mais tarde, ao mesmo tempo que enfrentava a contestação e depois a conspiração dos capitães castelhanos. 

O prosseguimento da jornada ao longo da costa da Patagónia já foi uma espécie de fuga para a frente, pois Magalhães não tinha condições pessoais nem políticas para regressar a Castela sem uma descoberta. Ao contrário de África, que se estende apenas até aos 34 graus de latitude, a placa americana estende-se em direcção a sul por mais vinte graus – umas centenas de léguas que puseram à prova a tenacidade de Magalhães e a disciplina dos seus homens. Muito provavelmente nessas semanas em que percorreram mais de quatro mil quilómetros a sul do rio da Prata sem que a terra terminasse ou sequer flectisse significativamente para ocidente, terão pensado que talvez o mar-oceano estivesse mesmo cercado pelas massas continentais como tinham imaginado os antigos e como Lopo Homem desenhara recentemente. 

fernão magalhães

A passagem lenta pelo estreito de paredes altaneiras terá sido um prolongamento dessa angústia e a chegada ao oceano Pacífico terá suscitado um júbilo e uma alegria fáceis de imaginar mas impossíveis de recriar. Esse foi o primeiro triunfo de Magalhães, ou seja, o primeiro grande contributo para a geografia com a descoberta da passagem que era procurada há 28 anos. No entanto, o estreito estava situado muito a sul e era preciso retornar à zona equatorial, onde se situavam as desejadas ilhas das Especiarias. 

Nos meses que se seguiram, Fernão de Magalhães realizou a sua maior proeza ao compreender o sistema de ventos do oceano recém-descoberto e ao ser capaz de o atravessar e atingir o Sudeste Asiático à primeira tentativa. Foram semanas penosas pela escassez de mantimentos e, uma vez mais, a capacidade de liderança do capitão-mor e a disciplina da tripulação foram fundamentais para o sucesso da demanda. Todavia, ao chegar às ilhas asiáticas, Magalhães já estava desenganado, pois estava consciente de que a sua glória como descobridor correspondia a um fracasso político. Estando o estreito numa zona tão meridional e sendo o novo oceano tão largo, a rota que ele foi capaz de traçar à primeira não era viável para estabelecer uma rota alternativa ao sistema português. Além disso, não podia prosseguir para ocidente sem correr o risco elevado de ser interceptado pelos portugueses, que desejavam a sua morte, e não tinha condições técnicas para regressar a Castela empreendendo uma torna-viagem em direcção ao estreito que descobrira. 

A glória da descoberta de que a Terra é um planeta azul aprisionou-o na teia que ele próprio tecera, e o herói sem rumo acabou morto numa refrega inútil. Ao falecer, porém, deu lugar à lenda que o tornou um dos nomes mais famosos da história da humanidade. 

PARTE 2 das Filipinas a Sevilha 

cabo da boa esperança

No cabo da Boa Esperança, na extremidade meridional de África, confluem os oceanos Índico e Atlântico. No seu regresso a Espanha e após quase três meses de misérias por águas vedadas aos navios espanhóis, Elcano dobrou esse cabo com a única nau que chegaria ao porto, depois da circum-navegação do globo terrestre. (White Fox/AGF/Getty Images.)

Após a morte de Magalhães, Elcano assumiu o comando da expedição até à sua chegada a Espanha. 

Texto: Emma Lira   

No dia 6 de Setembro de 1522, no cais de Sanlúcar de Barrameda, um punhado de sobreviventes derrama lágrimas de emoção ao encontrar-se de novo na terra deixada para trás três anos antes.

Ainda a bordo da nau que os trouxe a casa, Juan Sebastián Elcano escreve uma carta ao imperador Carlos V, com quem nunca imaginara corresponder-se. Regista linhas sóbrias que, com dificuldade, refreiam a emoção do momento. Nelas, dá a primeira notícia da realidade que mudaria a concepção do mundo: “Saiba Vossa Majestade que demos a volta a toda a redondez do mundo.”

Pescadores regressam ao porto com peixe capturado na ilha de Palawan, nas Filipinas. Após a morte de Magalhães, a frota desembarcou em Palawan e os abundantes recursos da ilha salvaram a vida aos tripulantes. Antonio de Pigafetta, cronista da expedição, chamou “terra prometida” àquele lugar.(Cegalerba/ Szwemberg/Hemis / Gtres)

Recuemos até ao fim de Abril de 1521. Falta um ano e meio para este glorioso momento. Muito tempo, muito mundo e muitas mortes ainda ocorreriam. A morte do comandante Fernão de Magalhães, na absurda batalha de ilha de Mactán, não foi certamente a primeira, mas foi a mais contundente. O seu sonho de atingir as Molucas por ocidente culminou muito a norte das almejadas ilhas, nas Filipinas, território desconhecido na Europa. Numa tentativa de dar continuidade ao projecto, Duarte Barbosa, seu cunhado, e João Serrão, são nomeados comandantes da malfadada expedição, mas não por muito tempo. A vitória dos autóctones contra os estrangeiros (ainda hoje comemorada nas Filipinas) não só os privou do líder, mas também de algo muito mais valioso: a sua aura de invulnerabilidade.

No dia 1 de Maio, uma semana apenas após a morte de Magalhães, o pesaroso Humabón, rajá da ilha de Cebu, organiza um jantar de homenagem para o qual convida os principais comandantes da expedição: pilotos, comandantes, mestres e contramestres. Exprime as suas condolências e obsequia-os com riquíssimos presentes para o distante e todo-poderoso rei Carlos, mas já decidiu que a aliança com aqueles estrangeiros não pode durar. A entrega dos presentes é o sinal para a emboscada. João Carvalho, que chega tarde e repara em algo de suspeito, dá o alerta e é o único a alcançar os navios. Os restantes 26 oficiais superiores da expedição são brutalmente assassinados pelos homens de Humabón, escondidos na floresta densa. O notável Antonio de Pigafetta, autoproclamado cronista da expedição, e Juan Sebastián Elcano, mestre da nau Concepción, não se encontram entre os mortos. Os problemas de saúde que os impediram de desembarcar para assistir à homenagem prestada pelo chefe local salvam-lhes a vida. Fazem-se ao mar com os restantes sobreviventes e só param na ilha de Bohol, onde se vêem obrigados a queimar a nau Concepción por não terem tripulantes suficientes para manobrá-la. São 115 os homens que preferem reduzir a cinzas um dos seus navios a vê-lo cair em mãos inimigas.

Um apêndice à “Relação da Primeira Viagem ao Redor do Mundo”, de Antonio de Pigafetta, mostra o mapa com “as cinco ilhas onde cresce o cravo e a sua árvore”. A demanda de uma rota alternativa por ocidente até às ilhas Molucas para negociar o valioso cravo-da-índia foi o motor da expedição que daria  a volta ao mundo. (AKG/Album)

“Faltou-nos, pela sua morte, o dito capitão Fernão de Magalhães, com muitos outros”, escreve laconicamente Elcano, sintetizando numa linha um mundo de incertezas. A expedição, decapitada e dizimada, navegará sem rumo sob o comando de Carvalho e Gonzalo Gómez de Espinosa, fazendo cautelosamente escala em várias ilhas até chegar ao Bornéu. Em Brunei, os aventureiros constatam que as novas terras nada têm que ver com as que tinham deixado atrás de si, em matéria de riquezas, civilização e magnificência. O sultão Siripada acolhe-os e dá-lhes carta branca para realizarem operações comerciais, mas o idílio dura pouco: pouco depois, o desconfiado Carvalho abre fogo contra um grupo de embarcações onde se encontravam alguns filhos de Siripada. Vinte dias depois da chegada, as duas naus abandonam o requintado Bornéu e o seu mundo de possibilidades, sem baixas mortais, mas deixando em terra três prisioneiros. Vistas bem as coisas, poderia ter sido muito pior.

A decisão precipitada de Carvalho, que os expulsou do paraíso, e o seu roteiro errático, que os leva a sobreviver como corsários, dita a sorte do capitão português. No dia 15 de Agosto, é decidida a sua substituição. Espinosa assume o comando da Trinidad e Elcano sobe de posição e passa de mestre a comandante da Victoria.

A partir da morte de Magalhães, as sucessões nos comandos ocorrem sem derramamento de sangue. “A liderança real não pode impor-se por via do medo: é preciso conquistá-la e Elcano consegue-o”, afirma Xabier Alberdi, director do Museu Marítimo Basco. Talvez isto explique que, a partir desse momento, a experiência de marinheiro e o bom senso do navegador basco se imponham. Elcano decide avançar rumo às Molucas. Navega para sul, traz para bordo – de livre vontade ou à força – dois pilotos nativos que afirmam conhecer a rota e, no dia 8 de Novembro, pouco mais de seis meses volvidos sobre a morte de Magalhães, as duas naus fundeiam em frente de Tidore, a principal produtora de cravo-da-índia do mundo. É a ilha com que, sem dúvida, o defunto capitão-general sonhou todas as noites da sua vida.

Aguarda-os uma agradável surpresa: Tidore recebe-os como parceiros de longa data. O seu sultão, Almançor, já fez negócios com árabes e outros estrangeiros. Sabe como funciona o mercado. Assinam-se os contratos necessários e começa a armazenar-se o cravinho para carregar os dois navios. Podemos imaginar os rostos dos marinheiros que, depois de demorarem dois longos anos a alcançar a terra das especiarias, se vêem de súbito com tanta riqueza nas mãos. 

“Um saco de canela equivalia então ao soldo de uma vida”, recorda Luis Mollá, comandante de navio e grande estudioso da gesta associada a esta expedição. À incredulidade e incerteza do regresso, acrescenta-se um novo factor: a pressa. 
É preciso abandonar Tidore o mais depressa possível para evitar o risco de serem descobertos pelos portugueses. Recorde-se que, para a coroa portuguesa, a expedição é considerada uma traição. 

Quando as duas naus se encontram já carregadas até ao limite da sua capacidade, as juntas da Trinidad abrem-se devido ao excesso de peso e o navio mete água. O mais sensato seria permanecer em Tidore para proceder às reparações, mas, para não pôr em risco dois carregamentos e duas tripulações, a Victoria deve partir.

Talvez tenha sido nesse instante que se decidiu que a Trinidad deveria encaminhar-se para o Panamá mal estivesse em condições de navegar, seguindo uma rota mais curta. Além disso, Darién é território espanhol e ali, a nau, os homens e a carga estarão a salvo. A Victoria, em contrapartida, partirá rumo a Espanha, mas não através do Pacífico, seguindo antes pelo Índico.

Decidimos morrer ou, com toda a honra, servir Vossa Majestade para lhe dar a nova do dito descobrimento e partir com uma só nau”, escreve Elcano, já em Sanlúcar. Como foi tomada a decisão de navegar atravessando águas portuguesas, quando o rei espanhol pedira expressamente nas capitulações que isso não fosse feito, para não entrar em conflito com o reino vizinho? Teria Magalhães procedido do mesmo modo? “Sim. Qualquer capitão de um navio no seu perfeito juízo teria tomado a decisão de Elcano”, afirma Luis Mollá. “Teria escolhido a opção mais segura para a sua tripulação, mesmo que isso implicasse desobedecer ao seu próprio soberano.” Para Manuel Vilas Boas, descendente de Magalhães e estudioso da figura do ilustre parente, a situação não é assim tão clara. Como explica no documentário da BBC sobre esta campanha, “creio que ele teria regressado pelo caminho que haviam seguido à ida. Creio que não teria desobedecido ao rei de Espanha, nem incorrido ainda mais na ira dos seus compatriotas”.

Uma linha escura traça o percurso da expedição de Magalhães-Elcano numa cópia de 1544 do mapa do cartógrafo italiano Battista Agnese. Os doze querubins em redor do planisfério terrestre representam os ventos. A expedição, já liderada por Elcano, prosseguiu o seu périplo por ocidente, através do Índico, subindo o Atlântico até Sanlúcar de Barrameda. (Buyenlarge/Getty Images)

Além das hipóteses, o certo é que Elcano enfrentou uma travessia nunca prevista nos planos da viagem. A tripulação dividiu-se entre as duas naus sobreviventes e os aguerridos marinheiros despediram-se a chorar, talvez pressentindo que a grande maioria nunca mais voltaria a ver-se. Esta cena emotiva é descrita por Pigafetta, o qual, embora mais tarde omitisse Elcano das suas crónicas, optou por embarcar com ele a bordo da Victoria.

A sorte de Elcano é conhecida, mas raramente se conta o que aconteceu a Espinosa e à Trinidad, que partiu três meses depois da sua companheira e na direcção oposta. A sua rota até terras americanas foi extraordinariamente intuitiva, mas os ventos e as tempestades impossibilitaram a travessia. Três dezenas de homens morreram, segundo o testemunho de Ginés de Mafra. Os restantes não tiveram outro remédio senão regressar a Tidore, ao amparo de Almançor, para de novo repararem uma nau ferida de morte. Nunca lá chegaram. Os portugueses interceptaram-nos em Ternate e a Trinidad foi desmantelada e afundada, depois de resgatada uma carga de cravinho que, nos mercados, valia mais do que as vidas dos homens que a transportavam. Submetidos a maus-tratos, apenas três dos tripulantes regressaram a Espanha cinco anos mais tarde, em 1527, repatriados pelos portugueses. De uma forma mais dolorosa e indigna, também eles deram a volta ao mundo. 

Elcano faz-se ao mar com um objectivo complicado: sem conhecer os ventos que regem mares pouco navegados, pretende navegar fora das rotas portuguesas, tarefa que deveria ser feita sem escalas em terra. No seu périplo, descobre as Molucas do Sul, onde “se dão a noz-moscada e a pimenta”, como referirá no relatório apresentado ao soberano. Em meados de Fevereiro de 1522, parte de Timor para uma viagem em mar aberto de mais de vinte mil quilómetros. A partir dali, o seu único ponto conhecido é o cabo da Boa Esperança. O historiador José Luis Comellas afirma que, com grande intuição, Elcano segue uma rota ortodrómica quase perfeita, ou seja, traça o caminho mais curto quando se cruza a superfície de uma esfera de um ponto até outro. Se tivesse navegado de maneira menos eficaz e se tivesse desviado mais para sul, talvez tivesse descoberto a Austrália. 

População de Timor Ocidental, região política indonésia que ocupa o sector ocidental da ilha do mesmo nome. Depois de carregar cravinho nas ilhas Molucas, em Fevereiro de 1522, Elcano empreendeu a travessia do Índico partindo de Timor: tinha pela frente mais de vinte mil quilómetros de oceano indómito.

São muitas as decisões que a tripulação se vê obrigada a tomar. Decisões que põem em jogo a própria vida e que, segundo Alberdi, “Elcano submete à votação da tripulação, sem imposições; disposto a acatar a opinião da maioria”. A primeira votação prende-se com a necessidade de fazer escala em Madagáscar, o que significaria a rendição aos portugueses. A tripulação decide não o fazer. A segunda votação decorre durante a penosa travessia. Ao dobrarem o cabo da Boa Esperança, têm de decidir se devem alijar a carga de cravinho ao mar, com o objectivo de tornar a nau mais ligeira. Uma vez mais, votam pela negativa: regressar sem as valiosas especiarias seria reconhecer o fracasso de uma expedição que já só navega para garantir a sobrevivência e a dignidade. 

A terceira decisão é tomada quando o mais difícil parece já estar superado. Com o calor e as calmarias da zona equatorial, chegam a sede, a desidratação, a fome e o escorbuto. Elcano resume a situação ao rei de maneira lacónica: “Entre o cabo da Boa Esperança e as ilhas de Cabo Verde, morreram-nos vinte e dois homens”. O terrível paradoxo é que aqueles homens moribundos jaziam tombados em cima de 27 toneladas de cravo-da-índia, extraordinariamente rico em vitamina C. Pigafetta e Elcano salvaram-se, sem o perceberem, porque comeram marmelada, doce reservado aos oficiais, mas o resto da tripulação encontra-se à beira da exaustão. Assim, quando entre Junho e Julho de 1522 se faz nova consulta, perguntando se é pertinente atracar em Cabo Verde, a tripulação decide parar. Desta vez, os homens já não aguentam mais. 

“Desci a terra para ver o cravo em planta viva.  [...] O cravo cresce sobre os raminhos mais tenros, em molhos de dez ou vinte juntos. [...] Ao nascer, é branco; ao amadurecer, vermelho; seco, torna-se negro. [...] Encontram-se também nesta ilha árvores de noz-moscada. [...] A noz, ao ser desprendida, parece um pêssego pequeno, com a mesma penugem e a mesma cor.” — ANTONIO DE PIGAFETTA

Em Cabo Verde, tecem uma intriga, dizendo que regressam das Américas e se atrasaram em relação à frota devido a uma tempestade. 
O plano resulta num primeiro aprovisionamento, mas não no segundo. Não se sabe ao certo o que aconteceu: talvez alguém mencione a morte de Magalhães, da qual ninguém no mundo tem notícia; talvez alguém tente (já sem dinheiro, nem outros bens para trocar por mercadorias) pagar as suas compras com o valioso cravinho. A mentira é descoberta. “O governador apresou-me o batel com 13 homens e queria levar-me com todos os homens numa nau que regressava a Calecute vinda de Portugal, dizendo que só o Rei de Portugal podia descobrir a Especiaria”, conta Elcano a Carlos V. Aquele que será o artífice da primeira volta ao mundo vê-se obrigado a fugir e a lançar a nau Victoria numa corrida desenfreada para escapar à perseguição dos portugueses. Os ventos são de tal maneira contrários que não podem sequer sonhar com uma escala nas Canárias. São obrigados a rumar aos Açores, rumando depois ao continente, dobrando o cabo de São Vicente, antes de avistarem Sanlúcar de Barrameda. Certamente, pareceu-lhes uma miragem.

No dia 6 de Setembro, alcançam a localidade gaditana. No cais, a população não consegue reconhecer a orgulhosa esquadra que dali partiu três anos antes naquele punhado de mortos-vivos. 
A nau e eles próprios encontram-se tão maltratados que pedem a um navio que os reboque até Sevilha. É durante essa espera que Elcano escreve a missiva ao jovem soberano, que deixara como rei e que o recebe agora já imperador. Calcula-se então que, entre desvios, bordos e navegações insulares, os sobreviventes tenham percorrido cerca de 42 mil milhas, ou seja, 78 mil quilómetros. Concluíram não uma, mas quase duas voltas ao mundo. 

Carlos V responde à missiva de Elcano uma semana mais tarde. Pede-lhe que escolha dois homens da sua confiança para se reunir com ele em Valladolid e contar-lhe de viva voz a aventura. “É o imperador do mundo, mas não conhece o mundo”, observa o historiador Carlos Martínez Shaw. “É Elcano quem lho mostra.” Na sua carta, dá como concretizados os dois únicos pedidos que o marinheiro basco lhe fizera: a libertação dos homens que ficaram em Cabo Verde e a parte proporcional que todos os sobreviventes devem receber dos quase seiscentos quintais de cravinho que chegaram ao porto. Ao próprio Elcano é concedido um escudo de armas, com as valiosas especiarias e a divisa primus circumdedisti me  [foste o primeiro a dar-me a volta], e uma tença de 500 ducados anuais. Infelizmente, a burocracia não esteve à altura da glória do momento, nem da magnanimidade do rei. Elcano morreu antes de qualquer um destes pagamentos.

Dois meses depois de escrever a carta de Sanlúcar, Elcano fez chegar a Carlos V outra missiva, que andou perdida até 2016, ano em que foi descoberta pelo historiador Borja Aguinagalde na casa-torre de Laurgain. Nessa carta, solicita uma série de mercês, entre as quais as mesmas concedidas a Magalhães: o hábito de cavaleiro da Ordem de Santiago e a Capitania-Mor da Armada. Nenhuma lhe foi concedida. (Mendi Urruzuno)

Antonio de Pigafetta, cronista incondicional de Magalhães, consegue ser recebido nas cortes de Carlos V, João III de Portugal e Francisco I de França, para lhes dar a conhecer a aventura, e envida esforços para transformar o seu caderno de notas num livro: a “Relação da Primeira Viagem à Volta do Mundo”. A sua pluma e a magia da imprensa encarregam-se do resto: a aura de Magalhães, apresentado como herói da gesta, cresce a nível internacional, enquanto o marinheiro basco é quase silenciado. “Na verdade, ambos são complementares”, afirma Luis Mollá. “A gesta não teria sido possível sem qualquer um deles.” A soma dos dois transforma uma expedição comercial num périplo histórico que abalou crenças antigas, revelou a verdadeira escala do nosso planeta e abriu novas rotas de comércio que se utilizarão durante séculos, até à construção do canal do Panamá. Uma expedição multinacional que se torna universal e traça uma linha sem regresso entre o conhecimento medieval e as inovações do Renascimento. “A classe ilustrada comparou a epopeia com a de Jasão e os argonautas, elevando a história quase a mito”, afirma María Luisa Martín Merás, antiga directora do Museu Naval de Madrid. “Abriram o oceano, o mundo e, com ele, as mentes.”

Hoje, chamamos-lhe globalização. Talvez demorasse algum tempo a germinar, mas aqui se desenvolveu a semente desse conhecimento e comércio transoceânico, com as suas luzes e sombras. “Depois daquilo, a Europa já não podia ser a mesma”, resume o escritor Gabriel Sánchez Sorondo.

Elcano foi incapaz de resolver o problema geográfico que mais preocupava o monarca espanhol: de que lado ficavam as ilhas das Especiarias? Nem ele nem ninguém pôde fazê-lo, uma vez que só passados 250 anos foi inventado o método das distâncias lunares, que permitiu medir a longitude. Além disso, naquela época, a localização das Molucas não interessava. Em 1529, três anos após o seu casamento com Isabel de Portugal, Carlos V renunciou às pretensões sobre as ditas ilhas, em favor do país vizinho. O seu preço, que tantas vidas custou, cifrou-se em 350 mil ducados de ouro.

Termina aqui o relato da expedição que circum-navegou a Terra, mas não o de Elcano. Desejoso de reivindicar as ilhas recém-descobertas, o rei organizou nova expedição três anos depois, em 1525. Foi um fracasso total. À semelhança da anterior, perderam-se navios e vidas, descobriram-se estreitos e registaram-se deserções. Tal como nessa expedição, numa espécie de maldição, os seus comandantes morreram no Pacífico antes de alcançarem as Molucas. No dia 6 de Agosto, o cadáver de Elcano repousou para sempre no oceano no qual quase atingira a glória. Um dos seus homens, Andrés de Urdaneta, lamentou a sua morte no diário de bordo, sem imaginar que seria chamado a dar seguimento à sua façanha, descobrindo, 40 anos mais tarde, o famoso caminho de regresso que ligaria as duas margens do Pacífico através da valiosa rota do galeão de Manila, entre as Filipinas e Acapulco.

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