Alexandre

Alexandre e o seu cavalo Bucéfalo num mosaico romano da Casa do Fauno, em Pompeia, datado de 200 a.C.

Texto: Harald Eggebrecht

A batalha de Granico estava no seu momento mais crítico. Frente à cavalaria persa, erguia-se a selva de lanças das tropas macedónicas. O velho Parménio, general experiente, aconselhou Alexandre a não se precipitar numa ofensiva contra as hostes inimigas.

Mesmo assim, o soberano arremeteu, temerário, contra os persas, sobre o dorso do seu cavalo. Era então um jovem pujante, que não conhecia o medo. Os seus inimigos reconheciam-no com facilidade devido às longas plumas brancas que adornavam o seu elmo. Combatia sem pensar em si, com paixão e precisão assassina. 

Pouco depois, um dardo alojou-se numa junta da couraça de Alexandre. Não o feriu, mas o guerreiro ficou desconcertado e dois persas investiram contra ele. Conseguiu esquivar-se do primeiro, enquanto o segundo abordou o cavalo pelo flanco até chegar junto de si, brandindo o machado sobre a sua cabeça. 

persepólis

Uma das capitais do império persa era Persépolis (na imagem, a apadana, ou sala de audiências, do palácio real). Quando Alexandre ocupou e incendiou a cidade, o fogo endureceu cerca de trinta mil tábuas de argila que hoje fornecem aos arqueólogos informação sobre a vida quotidiana e administrativa daquela época.

“Rasgou-lhe o penacho e a pluma dos dois lados e, embora o elmo aguentasse o golpe, o fio do alfange tocou nos primeiros cabelos.” Foi com estas palavras que o historiador grego Plutarco descreveu o dramatismo deste episódio decisivo ocorrido no ano de 334 a.C. na sua biografia de Alexandre Magno. Quando o  ginete persa se preparava para assestar o segundo golpe, um oficial macedónico chamado Clito, o Negro, antecipou-se e trespassou-o com a lança. Com este gesto, Clito salvou não só a vida do jovem rei macedónico, mas também o seu projecto vital: a conquista e submissão da Ásia. 

A vitória junto ao rio Granico, na actual Turquia, marcou o início de uma formidável campanha militar que, durante onze anos, colocou frente a frente gregos e persas. Alexandre levou-a da Grécia, berço da Europa, até ao rio Indo. No final, os seus guerreiros tinham percorrido mais de 25 mil quilómetros e o seu exército perdera 750 mil homens. Na campanha, Alexandre ordenou que cidades fossem incendiadas, aldeias saqueadas, homens crucificados e mulheres violadas; no entanto, movido pela sua ambição de poder e por uma curiosidade igualmente insaciável, abriu também caminho ao comércio com o Oriente, difundiu a cultura grega e conduziu a civilização europeia a terras longínquas, fundando mais de setenta cidades. A Alexandria egípcia ainda hoje ostenta o seu nome; a Iskenderun turca e a Herat afegã permanecem na actualidade como importantes centros urbanos. 

O que teria passado pela cabeça do rei dos macedónios para, em 336 a.C., congeminar o projecto de atacar a Pérsia, o mais poderoso império da Antiguidade, cujo território se prolongava do vale do Nilo ao Indocuche, e cujo tamanho era cem vezes superior ao do seu próprio reino? 

Alexandre

Alexandre Magno (num mármore do século III), era o ideal do homem jovem, corredor rápido e cavaleiro audaz. O seu pai, Filipe II da Macedónia, incumbiu Aristóteles da educação do jovem príncipe.

A ideia fora um legado de seu pai, Filipe II, o qual, no século IV a.C., transformara a dinastia régia macedónica na força militar mais poderosa da Grécia e conseguira dominar as cidades-estado gregas de Atenas, Corinto e Tebas graças à Liga de Corinto. Uma vez obtida a adesão de todos os gregos a um objectivo comum, propôs uma campanha de vingança contra os persas. Século e meio antes, no decurso das guerras médicas, os “bárbaros” (assim denominavam os helenos as pessoas que não se exprimiam em língua grega) tinham submetido as cidades gregas costeiras da Ásia Menor e destruído a acrópole de Atenas. 

Filipe, porém, foi vítima de uma conjura e foi assassinado. O seu filho, com apenas 20 anos, foi feito rei e chefe da Liga de Corinto, assumindo a liderança do plano com entusiasmo. 

Alexandre III nasceu em Julho ou Agosto do ano de 356 a.C. na capital da Macedónia, no Norte da Grécia. A mãe, Olímpia, princesa do reino da Molóssia, alegava descender do herói mitológico Aquiles e tinha adoração pelo filho. O pai, entre cujos antepassados se conta o lendário semideus Hércules, proporcionou ao inteligente príncipe uma educação requintada. 

Durante três anos, o jovem Alexandre formou-se em retórica, geometria, literatura e geografia com o filósofo Aristóteles, que o instruiu no conhecimento da epopeia homérica da “Ilíada”. Ávido de conhecimento, Alexandre estudou com afinco as façanhas dos seus heróis Aquiles e Hércules e descobriu o oceano, esse rio que, no mito homérico, circundava o mundo e estava na origem dos deuses. Junto ao Indocuche, disse-lhe Aristóteles, poderia contemplar os confins do mundo. 

Alexandria

A cidade mais importante fundada por Alexandre Magno foi Alexandria, banhada pelas águas do Mediterrâneo e actualmente uma metrópole egípcia. Esta cabeça, parte de uma estatueta do conquistador, foi descoberta no decurso de uma escavação arqueológica.

O rei era de estatura bastante baixa, mas tinha compleição atlética. O seu cabelo era ondulado, de cor castanha com madeixas loiras. Não tinha barba no seu rosto rubicundo e possuía, segundo todos os relatos, um carisma magnético. Herdou o carácter expedito e áspero do pai, mas também a sua habilidade diplomática. Do seu lado mais sombrio, que se foi manifestando com clareza crescente nas desconfianças e acessos de ira e, no final da vida, em homicídios, dizia-se que era legado materno. 

Sabemos mais sobre Alexandre do que acerca de outras figuras da Antiguidade graças à crónica da sua vida que nos deixaram camaradas de armas e testemunhas das suas façanhas como Ptolemeu, Aristóbulo, Nearco ou Calístenes. Este último, sobrinho de Aristóteles, era o cronista oficial da corte de Alexandre e, por isso, talvez as suas descrições laudatórias devam ser lidas com reservas. A campanha militar e o reinado de Alexandre ficaram registados, a salvo, em diários que durante a vida do protagonista se foram transformando num acervo de historietas fantasiosas, lendas e mitos, hoje praticamente perdido. Na altura, porém, serviram certamente de fontes a quatro historiadores antigos: Diodoro, Cúrcio Rufo, Plutarco e, sobretudo, Arriano.

Poucas figuras históricas continuam a suscitar opiniões tão díspares como as que se foram formulando sobre Alexandre. Já na Antiguidade se falava do rei (o adjectivo “Magno” foi-lhe acrescentado por historiadores romanos do século II) com contradições evidentes. Diodoro apresentava-o como uma pessoa que, em pouco tempo e graças à sua inteligência e valor, realizou façanhas próprias dos semideuses gregos. Em contrapartida, o filósofo Séneca, tutor do imperador Nero, chamava-lhe desgraçado, vândalo, demente e implacável, e comparava-o com “as feras [que causam] mais estragos do que o necessário para acalmar a sua fome”. 

Que impulso movia o jovem e ambicioso rei? Provavelmente algo que os textos antigos apelidavam de pothos, a ânsia ou desejo de experimentar o inalcançável e o desconhecido. Alexandre era um génio militar, ainda que o seu temperamento exagerado o levasse a correr riscos desnecessários. A luta corpo a corpo fascinava-o e o êxito embriagava-o. Desejava imitar ou mesmo superar os heróis da mitologia grega e, acima de tudo, queria forjar um novo império. 

damasco

De noite, o bulício apodera-se do souk junto à porta de Bab al-Jabiya e das ruínas do templo romano de Júpiter, em Damasco. Nesta cidade, Alexandre capturou o tesouro imperial persa, graças ao qual pôde pagar o soldo aos seus homens. 

A sede de glória e imortalidade convivia no macedónio com um pragmatismo extremamente realista. Nas palavras do historiador e arqueólogo alemão Hans-Joachim Gehrke, “o factor decisivo era aquele afã interior de intensa competição com os heróis, um vínculo obsessivo com o mito, tão difícil de compreender como concreto e racional na sua aplicação”.

Na Primavera do ano 334 a.C., quando Alexandre marchou através do continente asiático, o rei persa Dario III dirigia os destinos de um império que se estendia do Egipto à Índia e que compreendia vastos territórios da Ásia Menor, Mesopotâmia e Pérsia. A campanha militar de uma Europa neófita contra uma Ásia veterana foi uma das mais ousadas da história, mas Alexandre planeou-a ao pormenor. As suas forças incluíam 32 mil soldados de infantaria e cerca de 5.500 de cavalaria, sapadores, engenheiros, bematistas (especialistas em medir distâncias contando os passos), uma unidade de propaganda, e ainda músicos, actores e eruditos. Consultava os livros da sua biblioteca em matéria de estratégia e procurava conselhos de táctica militar na “Ilíada” de Homero, comentada por Aristóteles. Conhecia o livro quase de cor.

Alexandre era hábil na retórica e dominava a arte do acto simbólico. Ao cruzar o Helesponto (os Dardanelos), fez uma oferenda ao deus do mar, Posídon, em plena travessia. Pouco depois, lançou a sua lança sobre a costa anatólica como símbolo de conquista e foi o primeiro a desembarcar, na sua armadura de combate, tal como fizera o herói grego Protesilau na marcha contra Tróia. 

Tróia foi precisamente o primeiro destino ao qual se dirigiu Alexandre, onde realizou uma oferenda à deusa Atena e honrou aqueles que eram supostamente considerados os túmulos de Aquiles e Pátroclo. Deste modo, vinculou de forma irreversível o mito de Tróia à sua campanha contra a Pérsia.

O macedónio venceu no Granico e mostrou-se generoso e compassivo. Permitiu que se enterrassem os inimigos abatidos, visitou os feridos e escutou os seus relatos. De seguida, “libertou” as populações costeiras dos persas. Para atingir esse fim, foi obrigado a pôr cerco a Mileto; também Halicarnasso (a actual Bodrum) opôs resistência prolongada.

Procurando, através de todos os meios, um confronto directo com o “rei dos reis” persa, Alexandre marchou do Sul até ao interior da Anatólia. O seu general Parménio conduzia outra coluna desde oriente até Górdio, a cerca de oitenta quilómetros da actual Ancara, cenário da famosa lenda do nó górdio.

Alexandre

Na colecção numismática dos Museus Estatais de Berlim, conserva-se esta moeda macedónica de ouro com a efígie de Alexandre Magno armado com lança e escudo. A moeda fazia parte de um tesouro descoberto em 1902 em Abukir, no Egipto. Depois da sua morte, Alexandre tornou-se o modelo para os reis helénicos posteriores e foi admirado pelos césares romanos. Chegou a criar modas: na Antiguidade tardia, o uso da barba foi abandonado.

Na cidadela de Górdio, estava guardado o carro oferecido a Zeus pelo rei frígio Górdias como agradecimento por ter sido escolhido para fundador da cidade. Górdias tinha amarrado a lança e o jugo ao carro com um nó impossível de desatar. Segundo a profecia, quem conseguisse fazê-lo reinaria sobre toda a Ásia. Alexandre conseguiu com um só gesto o que outros tinham tentado sem sucesso: cortou o nó com a sua espada. Outra versão da mesma história assegura que Alexandre descobriu que, para desatar o nó, bastava retirar o perno existente entre a lança e o jugo. “Trata-se de uma invenção para abrilhantar a história, mas a lenda do nó górdio ilustra a imagem de Alexandre que então imperava”, afirma Hans-Joachim Gehrke.

Os macedónios fizeram uma pausa prolongada para se reabastecerem e alcançarem Tarso, na orla do Mediterrâneo, transpondo as Portas da Cilícia. Dario compreendera, há algum tempo, o perigo representado pelo jovem comandante. Reuniu um poderoso exército de 100 mil homens e enfrentou Alexandre na antiga cidade costeira de Isso.

O campo de batalha era delimitado pelas montanhas, de um lado, e pelo Mediterrâneo, do outro. Dario dispôs a sua cavalaria no flanco litoral para atacar a ala dos helenos. A temida falange de Alexandre ocupou o centro com a sua selva de lanças de cinco metros, enquanto o próprio assumia a liderança da cavalaria de elite contra as hostes persas, entre as quais se encontrava Dario no seu carro de guerra, rodeado pela sua guarda pessoal. Quando os persas tentaram exercer pressão sobre a falange, abriu-se nesta um buraco por onde Alexandre saiu, penetrando rapidamente. Avançando em combate, conseguiu aproximar-se tanto de Dario que o persa fugiu, com resultados catastróficos para a moral dos seus soldados. A batalha estava decidida.

Depois do combate, caíram nas mãos macedónicas a mãe, a mulher e os filhos do soberano persa, além do séquito real e da tesouraria imperial de Damasco. Com este dinheiro, Alexandre pagou o soldo às suas tropas e fundou a sua primeira cidade: Alexandreta, a actual Iskenderun. 

Entretanto, Dario fez-lhe chegar uma proposta: cederia a Alexandre todo o território até ao rio Halis (o actual Kizilirmak) em troca da libertação da sua família. O macedónio rejeitou-a.

batalha

O famoso mosaico romano da Casa do Fauno de Pompeia espelha o confronto entre gregos e persas durante a batalha de Isso (ainda que alguns especialistas pensem que se trata da batalha de Gaugamela). O macedónio (à esquerda) venceu o rei Dario III (ao centro) em ambas as contendas.

A vitória de Isso aumentou a fama de Alexandre e minou a autoridade e o poder do rei persa. Contudo, em vez de mover perseguição ao seu adversário, o macedónio preferiu conquistar a Palestina e a Fenícia, uma franja estreita na costa mediterrânica oriental, a partir da qual deu continuidade ao seu avanço até ao Egipto. A sua fama precedia-o de tal forma que as cidades fenícias e a armada persa se renderam sem combater. Somente Tiro e Gaza opuseram resistência.

Após sete duros meses de cerco, Tiro sofreu um castigo brutal: os homens foram massacrados (os últimos dois mil sobreviventes foram crucificados ao largo da costa) e as mulheres e crianças vendidas como escravos. Gaza teve um destino semelhante. Por ordem de Alexandre, Batis, o governador persa da cidade, foi atado a um carro e arrastado até morrer. O macedónio entrou na cidade como conquistador.

Dario enviou então uma segunda proposta: Alexandre reinaria até ao Eufrates com estatuto idêntico ao de um rei persa; além disso, receberia uma enorme quantidade de ouro e uma das filhas de Dario em casamento, tudo em troca de libertar a família real e pôr fim à disputa.

Em 332 a.c, o exército macedónio chegou ao Egipto, um antigo reino poderoso e na altura sob domínio persa. Como grego, Alexandre sentia-se atraído pela antiga civilização do Nilo.

Como os dominadores persas não eram bem-amados no Egipto, o macedónio assumiu o controlo do país dos faraós em passeio triunfal. No entanto, os sacerdotes de Mênfis deram-lhe a entender que, se pretendia ser faraó, deveria render culto ao panteão egípcio, um conselho que, por uma vez, Alexandre decidiu seguir. Em Janeiro de 331 a.C. fundou na orla do Mediterrâneo a cidade de Alexandria, destinada nos séculos seguintes a ser uma grande metrópole cultural e encruzilhada de caminhos entre a Europa, África e a Ásia.

Antes disso, porém, Alexandre percorreu mais de quatrocentos quilómetros do abrasador deserto da Líbia, acompanhado por um pequeno séquito, até ao oásis de Siwa para auscultar um dos mais influentes oráculos do mundo helénico – o templo de Zeus Amon, que o apelidou de filho de deuses. A peregrinação a Siwa e o vaticínio do oráculo consolidaram a imagem do estratego como faraó egípcio e líder universal. 

“Quem descendia de Hércules e Aquiles e vivia e competia com eles podia também considerar-se herói e semideus e, assim, procurar a aquiescência de uma respeitada autoridade religiosa”, afirma Hans-Joachim Gehrte.

mênfis

Em Mênfis, capital da antiga civilização do Nilo (na imagem, ruínas de edifícios históricos), Alexandre restaurou os santuários do panteão egípcio, assegurando deste modo a lealdade da classe sacerdotal, que entronizou o rei macedónico como faraó.

No Egipto, Alexandre apresentou-se como um soberano racional disposto a respeitar a religião e as tradições locais, e foi aceite como tal. No entanto, continuando empenhados em submeter o império persa, em Abril de 331 a.C., os macedónios regressaram a Tiro, cruzaram o vale de Bekaa e alcançaram o rio Eufrates, atravessando de seguida a Assíria até chegarem ao rio Tigre. Percorreram cerca de dois mil e quinhentos quilómetros em apenas seis meses. 

Dario reunira cerca de duzentos mil homens a leste do Tigre e escolhera como campo de batalha a planície de Gaugamela. Chegou o dia do confronto. A 1 de Outubro de 331 a.C., os quase cinquenta mil homens de Alexandre defrontaram um exército persa quatro vezes maior. Era uma luta desigual, mas, uma vez mais, Alexandre apercebeu-se de uma falha entre as alas direita e central dos persas e aventurou-se de novo num ataque directo. Nem os carros falcatos, nem os elefantes de guerra nem a esmagadora superioridade numérica do adversário conseguiram travar a sua estratégia, doravante considerada como obra-prima da táctica militar.

O seu ataque temerário contra Dario desconcertou as hostes asiáticas. Ao perceber que tinha o inimigo na sua jugular, o líder persa fugiu em debandada, tal como fizera na batalha de Isso (cena imortalizada com grande dramatismo no célebre mosaico alexandrino de Pompeia, se bem que os historiadores se dividam quanto a identificarem o cenário como Gaugamela ou Isso). Quando a notícia da ignominiosa fuga de Dario chegou aos soldados persas, o exército desagregou-se, desnorteado.

Esta contenda é referida num relato estranho ao universo grego: uma tabuinha de escrita cuneiforme que mostra o desenrolar dos acontecimentos de forma concisa e sóbria: “No dia deste mês, espalhou-se o pânico no acampamento militar... Guerrearam e os gregos infligiram a derrota aos persas. [Pereceram] oficiais importantes. [Dario] deu as costas ao seu exército […] Retirou-se para o país dos gútios.” No mesmo campo de batalha, Alexandre foi proclamado “rei da Ásia”.

Depois de gaugamela, ficava desimpedido o caminho até Babilónia, a esplêndida cidade no coração do mundo então conhecido. Uns meros seis anos depois do início da campanha, com cerca de nove mil quilómetros já percorridos, Alexandre e os seus homens transpuseram a bela porta de Istar, que hoje pode ser admirada no Museu de Pérgamo de Berlim.

Tudo o que os macedónios tinham visto até então empalideceu diante da metrópole do mundo antigo que albergava milénios de história e civilização, um luxo inimaginável, uma arquitectura formidável, jardins e palácios faustosos. Alexandre contemplou admirado os templos e muros titânicos e a rede viária engenhosamente projectada. Não houve saques nem massacre. A capital do mundo submeteu-se sem oferecer resistência. 

Dario I

Dario I, o Grande, reinou como “rei dos reis” do império persa (na imagem, um relevo da sua guarda de Susa, exposto no Museu de Pérgamo de Berlim). O seu filho Xerxes guerreou os gregos, razão pela qual século e meio depois Alexandre Magno empreendeu a campanha militar contra os “bárbaros”, súbditos de Dario III.

Alexandre concedeu cinco semanas de licença aos seus homens, mas a sua sede de exploração não tardou a reavivar-se, juntamente com o fito de capturar, uma vez por todas, o fugitivo rei Dario. Alexandre não seria o seu sucessor legítimo sem primeiro tê-lo nas suas mãos.

Em Susa, uma das residências reais, Alexandre subiu ao trono persa depois de uma capitulação sem derramamento de sangue. Persépolis foi saqueada e incendiada. O “rei da Ásia” fez uma peregrinação até aos túmulos dos reis dos reis e depositou uma oferenda no de Ciro, o Grande

De seguida, retomou a perseguição de Dario, mas chegou demasiado tarde. Bessos, um dos homens do soberano persa, mandara executá-lo. Diante do cadáver do seu inimigo, Alexandre cobriu-o com o seu próprio manto real e ordenou que fosse enterrado com todas as honras junto dos reis Ciro, Dario I e Xerxes I. Quis com isso simbolizar que se considerava a si próprio herdeiro dos soberanos persas.

“Há já algum tempo que Alexandre deixara de identificar-se como chefe de uma guerra de vindicta grega, mas como um soberano do império persa que respeitava as tradições autóctones”, diz Hans-Joachim Gehrke. “Agora que se considerava legítimo rei dos reis e desejava ser reconhecido como tal, apelou aos persas para se vingarem do regicida Bessos. Mas as suas hostes gregas horrorizaram-se com a possibilidade de subitamente pelejar ao lado dos ‘bárbaros’.”

As batalhas e conquistas que culminaram nas entradas na Babilónia, Susa e Persépolis foram, apesar da penúria e das baixas, uma sucessão de aventuras audazes e triunfos deslumbrantes.
O mundo testemunhou a invencibilidade do exército macedónico e viu no seu comandante um herói sobre-humano. Porém, os acontecimentos entre 330 e 326 a.C., e imediatamente depois, lançariam uma luz muito diferente sobre a figura de Alexandre e as suas campanhas militares no continente asiático.

A perseguição movida a Bessos e as expedições posteriores levaram as tropas helénicas à costa meridional do mar Cáspio e a outras regiões ainda mais isoladas, de cuja existência poucos tinham conhecimento, pisando o solo dos actuais Afeganistão, Turquemenistão e Usbequistão. Alexandre deixou de travar grandes batalhas vitoriosas e as suas tropas desgastaram-se nas guerrilhas fugazes. O “imperialismo alexandrino”, como chamou o famoso historiador austríaco Egon Friedell à sua ambição de dominar o mundo, aproximava-se do fim e surgiram resistências até nas próprias fileiras de Alexandre. Muitos gregos foram-se afastando do seu rei, a quem reprovavam a excessiva atracção pelos costumes orientais, que abominavam.

Alexandre acusou de conspiração e executou Filotas, filho do seu general veterano Parménio, o qual também quis executar. Ambos eram macedónios orgulhosos, seguramente pouco entusiastas de uma fusão entre Oriente e Ocidente. Os macedónios também não viam com bons olhos que Alexandre adoptasse a indumentária do rei dos reis e impusesse a proskynesis, o ritual de saudação tradicional dos persas.

Alexandre colocou governadores leais à frente de várias províncias e fundou cidades como Alexandria de Ária (actual Herat) e Alexandria de Aracósia (actual Kandahar). 

 Às portas do indocuche. Na Primavera de 329 a.C., os 16 dias de marcha exigidos para atravessar a passagem de Khawak, a quase quatro mil metros de altitude, transformaram-se num suplício. A caravana militar prolongava-se por mais de 25 quilómetros ao longo de uma estrada sinuosa. O frio era glacial. A neve acumulava-se. 

Os soldados sacrificavam os animais de tiro, mas não havia lenha para fazer fogo e eram obrigados a comer a carne crua. Desfalecidos, chegaram por fim ao reino de Báctria, que capitulou sem oferecer resistência. 

montanhas titânicas

A cordilheira do Indocuche foi um dos maiores obstáculos à campanha de Alexandre. No Inverno do ano 329 a.C., os seus homens precisaram de 16 dias para atravessar a passagem de Khawak, a 4.000 metros de altitude. Os guerreiros morreram de frio, de fome e de sede. As baixas foram incontáveis.

Começavam a recuperar quando retomaram uma marcha ainda mais atroz: 80 quilómetros através de um deserto de dunas móveis e areias movediças até ao rio Oxo, o actual Amu-Dária. O rebelde Bessos atravessara-o na sua fuga e queimara todas as embarcações. Para atravessá-lo, os macedónios tiveram de construir balsas. A sorte voltaria a sorrir a Alexandre em Sogdiana: no Verão de 329 a.C., Bessos foi capturado e entregue pelos seus próprios aliados. O rei ordenou que lhe cortassem o nariz e as orelhas e o crucificassem. Vingada deste modo a morte de Dario, Alexandre era o soberano incontroverso da Pérsia. 

No entanto, a vitória foi enganosa. Os sogdianos levantaram-se contra ele e lançaram guerrilhas às forças alexandrinas que se prolongariam por mais de dois anos. No Verão de 328 a.C., ocorreu uma discussão acesa entre Alexandre e Clito em Maracanda (actual Samarcanda).
Desinibido pelo álcool, este criticou a divinização do novo rei dos reis.
O tom foi subindo e, cego pela ira, Alexandre trespassou com a lança o homem que seis anos antes lhe salvara a vida em Granico, morte essa que haveria de lamentar profundamente.

Em 327 a.C., o conquistador pôde finalmente regressar a Bactros (Balj). Nesse mesmo ano, casou-se com Roxana, numa manobra que poderá ter servido para conquistar os favores dos sogdianos, mas que também terá reflectido o amor que sentia pela jovem e bela princesa.

Os homens de Alexandre, com o seu orgulho patriótico cada vez mais ferido perante o despotismo crescente do rei, rebelaram-se contra ele. Depois do fracasso de uma conspiração organizada pelos seus pajens, Alexandre mandou executar também Calístenes, o cronista oficial da corte, cortando a amizade com Aristóteles. O rei via diminuir não só os seus exércitos, mas também os seus companheiros fiéis. Não lhe tremia a mão para atingir os seus objectivos mesmo que tivesse de derramar sangue, ainda que de aliados. “Possuía a veemência e a indiferença cruel do romântico face à vida, mas era igualmente um homem transbordante de ambição apaixonada que olhava para o desconhecido como uma grande aventura,” escreveu o historiador britânico Robin Lane Fox. “Não acreditava no impossível.” 

No ano de 326 a.C., Alexandre pôs-se de novo em marcha em direcção à Índia. O seu exército arrasou tudo o que encontrou, sobretudo nas regiões montanhosas. Chegou por fim ao Punjab, a região dos cinco rios. Ali, na margem do rio Hidaspes, o rei indiano Poros aguardava-o com mais de oitenta elefantes de guerra, numa formação de batalha impressionante.

Alexandre

Alexandre conquistou a Ásia Central quando o budismo oriundo da Índia se propagava com rapidez naquela região. O contacto entre a Grécia helenística e a nova religião foi apreciável nas representações de Buda da escola de Gândara, com influências gregas como as pregas das túnicas, o penteado e um acentuado antropomorfismo. 

Alexandre 

Foi o último grande combate travado por Alexandre e, uma vez mais, o soberano demonstrou o seu génio militar. Para enganar Poros, dispôs os seus homens ao longo da margem do rio e acendeu fogueiras como se se preparasse para combater. Nessa noite, atravessou o Hidaspes cerca de 27 quilómetros a montante e atacou o rei indiano pelo flanco. Quando Alexandre ordenou que fossem executados os mahouts (os condutores dos elefantes) e o pânico se instalou entre os animais, Poros foi obrigado a render-se. Depois de fazê-lo prisioneiro, Alexandre perguntou-lhe como queria ser tratado. Poros respondeu, orgulhosamente: “Como rei.” E assim foi: Alexandre permitiu-lhe continuar a governar o seu reino mediante um juramento de fidelidade.

Pouco depois da batalha, Alexandre perdeu o seu companheiro mais fiel: Bucéfalo, o cavalo que o acompanhava desde a infância. Para honrá-lo, fundou a cidade de Bucéfala na margem do Hidaspes. Alexandre desejava prosseguir até ao Ganges, mas o Punjab não tinha as vias que facilitaram o seu avanço na Pérsia e na Mesopotâmia. Era a época da monção e as tropas marchavam com enormes dificuldades. Exaustos com a chuva incessante, feridos depois da encarniçada batalha de Hidaspes, os homens negaram-se a cumprir as ordens do seu idolatrado comandante. Finalmente, nas margens do rio Hífasis (actual Beas), Alexandre chegou ao fim do mundo.

O rei recolheu-se três dias na sua tenda, à semelhança do herói por si imitado, Aquiles. Depois, resignado, conduziu os seus homens de volta a Bucéfala. Construíram embarcações para navegar Indo abaixo, mas não havia espaço para todos. Os soldados foram obrigados a atingir a embocadura do rio pelos seus próprios meios.

Uma vez mais, Alexandre sentiu a sede da conquista. Marchou numa travessia atroz, debaixo de um calor tropical e húmido. A malária e a disenteria provocaram estragos entre os combatentes, tal como os tigres, as serpentes e os insectos venenosos. Os ataques dos povos rebeldes da região do Indo não cessavam. Alexandre reagia, crucificando e aniquilando. Quando a monção voltou, no Verão de 325 a.C., Alexandre alcançou por fim a foz do Indo. O “rei da Ásia” zarpou do local, oferecendo libações aos deuses.

A partir daí, o caminho foi sempre um regresso. Uma parte do exército, comandada pelo general Crátero, rumou a noroeste para voltar directamente à Pérsia. Outra, com a missão de explorar a via marítima, percorreu a costa numa frota capitaneada por Nearco. O grosso do contingente seguiu com Alexandre pela árdua rota que cruza as montanhas de Makran. A marcha, através de desertos salgados e rochosos, foi uma catástrofe. Quando em Dezembro de 325 a.C. os sobreviventes destroçados do exército de Alexandre chegaram ao posto avançado persa de Pura (actual Iranshahr), restavam somente 15 mil dos 60 mil que tinham partido do Indo.

Na Primavera de 324 a.C. tiveram lugar em Susa grandes festejos, organizados não só para tentar esquecer os sofrimentos passados e os companheiros perdidos, mas também para fortalecer o vínculo entre gregos e persas e propiciar a miscigenação entre os dois povos. Alexandre casou oitenta dos seus generais e parentes próximos com mulheres da aristocracia persa e legitimou um grande número de crianças, fruto de relações entre os seus soldados com mulheres orientais. As festividades, nas quais participaram actores, narradores, dançarinos e prestidigitadores indianos, prolongaram-se por cinco dias. Alexandre casou-se com a primogénita de Dario III e com uma mulher do clã do monarca Artaxerxes III. 

Alexandre nomeou Heféstion, o seu melhor amigo, como vizir, e Ptolemeu como provador, um cargo clássico da corte de um rei dos reis persa. Macedónios e gregos tinham a sensação de que o seu rei se afastava cada vez mais deles para abraçar os costumes dos “bárbaros”. Na cidade de Ópis, nas margens do Tigre, os seus homens amotinaram-se quando Alexandre anunciou o regresso à Macedónia de grande parte dos seus efectivos. No entanto, a sua capacidade de persuasão voltou a impor-se.

O brilho da estrela de Alexandre diminuiu irremediavelmente no Outono de 324 a.C., em Ecbátana, com a morte inesperada de Heféstion, seu companheiro de sempre e fiel homem de confiança (e talvez também amante, circunstância comum na cultura grega). Alexandre chorou-o, inconsolável. Deixou de comer durante dias a fio, mandou crucificar o médico que o acompanhou e cremou o seu amigo numa pira colossal, de novo imitando na realidade o mito da “Ilíada”. Fora assim que Aquiles honrara Pátroclo.

Na Primavera de 323 a.C. Alexandre regressou à Babilónia. Em apenas uma década, o jovem resplandecente convertera-se num senhor de guerra endurecido, coberto de cicatrizes, atormentado pela dor de velhos ferimentos, marcado pela perda dos amigos. Mas o mundo continuava a admirar a sua figura e as suas façanhas. Alexandre criou um arquétipo de liderança no qual, mais tarde, se viram reflectidos César, Augusto e Napoleão Bonaparte, além dos czares, imperadores, papas e bispos que repetiram o seu nome. 

O seu afã de transpor fronteiras e a sua ambição de poder não perderam uma centelha de intensidade. Alexandre planeou de imediato a sua campanha seguinte, desta feita à Arábia. Também deitaria os olhos sobre Cartago e Roma.

Mas o fim chegou, sem se fazer anunciar. “Depois de uma vida tão cheia de mistérios, uma morte anódina teria sido imperdoável”, escreveu Robin Lane Fox na sua biografia. Depois de dois banquetes onde o álcool correu a jorros, o estratego adoeceu. A febre apoderou-se dele e devorou-o. No dia 10 de Junho de 323 a.C., um mês antes de completar 33 anos, morreu na Babilónia Alexandre III da Macedónia, o “rei da Ásia”, autoproclamado filho de Zeus, o grande conquistador.

Não se sabe ao certo se sucumbiu devido a malária ou se foi envenenado. “Talvez, quem sabe, uma simples gripe ou um processo infeccioso bastasse para acabar com um organismo já muito debilitado por uma sucessão quase ininterrupta de esforços excessivos”, especula Rupert Gebhard, perito na figura do rei macedónio.

No leito da morte, Alexandre terá deixado o seu império “ao mais digno” dos seus homens. Mas esse líder não existia. Durante décadas, disputou-se o seu legado, um vasto império que se desintegrou num abrir e fechar de olhos.  

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