necrópole

Os esqueletos de alguns sarcófagos estavam bem preservados e são fontes de informação vital. Através da análise de ossos, os cientistas podem  determinar como viveram e, por vezes, como morreram estas pessoas.

Os arqueólogos tentam resolver um mistério numa necrópole da época primitiva cristã: a identidade de uma mulher e o motivo pelo qual muitos dos que a seguiram na morte desejavam estar perto dela no além.

Texto: Marjan Žiberna
Fotografias: Arne Hodalič

Quando um grande projecto de construção teve início na baixa de Ljubliana, os arqueólogos eslovenos previram grandes descobertas.

No entanto, não estavam à espera de obter um invulgar vislumbre de uma comunidade primitiva cristã, nem de encontrar uma mulher importante – e ainda desconhecida – sepultada numa necrópole que os seus conterrâneos desejaram seguir rumo à eternidade.

A capital deste pequeno país da Europa Central foi fundada há cerca de dois mil anos. Era então a cidade romana de Emona, povoada por milhares de colonos vindos do Norte de Itália, devido à falta de terras, e por veteranos de guerra que ajudaram a consolidar o Império Romano. A comunidade cristã local floresceu após o final da Grande Perseguição empreendida pelos imperadores romanos do início do século IV e desvaneceu-se com a destruição de Emona pelos hunos no século V d.C.

Graças a escavações prévias, os arqueólogos já tinham conhecimento da probabilidade de existir parte de uma necrópole romana sob a Rua Gosposvetska. Antecipavam por isso a possibilidade de descobrirem mais túmulos antigos. 

mapa

Os habitantes de Emona enterravam os mortos em diferentes tipos de sepultura, desde simples covas e caixões de madeira a sarcófagos e mausoléus. A necrópole descoberta sob a Rua Gosposvetska é típica das fases primitivas do cristianismo. 

“O trabalho de campo foi bastante difícil”, diz o arqueólogo Martin Horvat. “Não é agradável quando um autocarro gigantesco passa a poucos metros de nós.”

As escavações começaram em Agosto de 2017 e revelaram uma necrópole tardo-romana contendo mais de 350 sepulturas – desde simples covas a sarcófagos e mausoléus de família. Estavam dispostas em redor da grande sepultura de uma mulher que, segundo o arqueólogo esloveno Andrej Gaspari, parece ter sido muito influente.

“O estudo de sepulturas é um dos trabalhos de campo mais difíceis da arqueologia”, diz Martin Horvat, que dirigiu as escavações. “A concentração de sarcófagos e de sepulturas comuns com esqueletos era extremamente elevada. Os gigantescos sarcófagos de pedra tornaram a parte logística do trabalho particularmente difícil, pois tiveram de ser cuidadosamente levantados e transportados para salas de armazenamento em museus.”

Os arqueólogos estão interessados em saber como a sepultura da mulher evoluiu ao longo do tempo. Tudo indica que, uma década após o seu sepultamento, um edifício quadrangular terá sido demolido para dar lugar à construção de uma estrutura maior, com 10 por 13 metros, sobre o seu túmulo. Em redor da nova estrutura e no interior, a comunidade cristã de Emona começou a praticar uma tradição funerária conhecida como ad sanctos, ao abrigo da qual os mortos eram enterrados junto dos túmulos de mártires e de outras pessoas consideradas sagradas.

“Ricos e pobres foram enterrados nesta necrópole. A única diferença era que os mais ricos tinham o privilégio de serem enterrados em sarcófagos ou túmulos com paredes”, diz a arqueóloga Mojca Fras.

Mais tarde, foi construído um mausoléu junto da estrutura existente sobre o seu túmulo. Quem era a mulher homenageada neste monumento funerário? Se os arqueólogos estiverem certos e ela tiver sido a primeira pessoa sepultada na necrópole, na medida em que a sua sepultura ocupou a posição original nessa estrutura, é provável que ela tenha sido uma pessoa muito estimada na Emona romana. O seu estatuto social, filiação religiosa e local de nascimento, porém, ainda pertencem ao reino da especulação. A análise dos restos mortais está em curso e talvez possa produzir algumas respostas no futuro.

“Na secção setentrional da necrópole, descobrimos alguns vestígios de frescos e de pavimentos de mosaico que, provavelmente, revestiam todo o local”, diz Andrej Gaspari. “Fragmentos de frescos isolados junto dos enormes alicerces do edifício sugerem a existência de nichos abobadados, cuja finalidade ainda não se conhece.” Fragmentos dispersos de cerâmica e vidro descobertos em sedimentos da antiga superfície sugerem que a necrópole também foi usada para banquetes funerários nos aniversários da morte dos indivíduos sepultados. Relatos literários também descrevem estes banquetes. A comunidade cristã interpretava a morte como dies natalis, o dia em que os crentes renasciam para a nova vida.

O artefacto mais espectacular é uma taça de vidro azul transparente, descoberta junto do corpo da mulher. O recipiente com 1.700 anos tem o exterior decorado com uvas, folhas de videira e gavinhas. O significado da inscrição grega gravada no interior da taça é: “Bebe para viveres para sempre!”

taça

“Bebe para viveres para sempre” é o significado da inscrição grega num recipiente de vidro descoberto no sarcófago de uma mulher de estatuto elevado sepultada numa necrópole de Ljubliana, na Eslovénia.

Esta requintada taça poderá ter sido usada na vida quotidiana e em cerimónias fúnebres. A análise da sua composição química sugere que o artefacto proveio do Mediterrâneo Oriental, comprovando um circuito de trocas comerciais na Antiguidade. O motivo da vinha está ligado à eucaristia cristã e à comunhão, mas teve origem na Grécia, com Dioniso, deus pagão do vinho e do êxtase. A maioria dos artefactos preciosos encontrados na Rua Gosposvetska estão em exibição na Sala do Tesouro do Museu Municipal de Ljubliana. 

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