vidas roubadas

Anjali tinha 16 anos quando se apaixonou por um homem que a convenceu a fugir de casa, no estado indiano de Bengala Ocidental, com promessas de casamento. Em vez disso, ele e um cúmplice venderam-na a um bordel em Mahishadal, perto da cidade industrial de Haldia. Chegou a ser obrigada a ter relações sexuais 20 vezes por dia, até ser resgatada. Durante mais de um ano, viveu no abrigo Sneha, com outras raparigas que compreendiam a sua angústia. Hoje é adulta e vive com a mãe, que gostaria que ela se casasse, mas Anjali jura que nunca mais se apaixonará.

O tráfico sexual é um flagelo mundial que enreda milhões de crianças. Conta-se aqui a forma como duas raparigas cheias de sonhos — uma da Índia, outra do Bangladesh — se viram envolvidas à força na prostituição.

Texto: Yudhijit   Bhattacharjee
Fotografias: Smita Sharma

Nota de reportagem: Para proteger a privacidade das raparigas traficadas e cumprir a legislação indiana que regula a identificação das vítimas de crimes sexuais, não revelamos as suas identidades, nem as dos seus familiares. Fotografámo-las de maneira a obscurecer os seus rostos e alterámos algumas imagens, de modo a ocultar características diferenciadoras. Atribuímos pseudónimos às duas protagonistas desta reportagem.

Antes de serem vendidas ao mesmo bordel, Sayeda e Anjali eram adolescentes típicas. Cresciam em circunstâncias semelhantes a poucas centenas de quilómetros uma da outra: Sayeda na cidade de Khulna, no Bangladesh, e Anjali em Siliguri, em Bengala Ocidental, na Índia.

Alimentavam as aspirações das adolescentes de todo o mundo: queriam escapar ao controlo dos pais, encontrar o amor, concretizar os seus sonhos. Tinham uma visão ingénua do mundo e não conseguiam imaginar as crueldades que este lhes reservava.

Sayeda passou grande parte da infância sozinha. A mãe tinha de levantar-se cedo para trabalhar, limpando lojas. O pai de Sayeda era condutor de riquexó, transportando passageiros a troco de algumas moedas. Aluna com dificuldades académicas, Sayeda abandonou a escola antes da adolescência.

Extrovertida e de espírito livre, Sayeda tinha um sorriso fácil e fazia amigos com facilidade. Gostava sobretudo de dançar. Quando os pais estavam fora, observava as sequências de dança nos filmes da televisão em hindi e bengali, imitando as coreografias. Sayeda era linda, com um rosto de feições delicadamente definidas e olhos amendoados e gostava de maquilhar-se. Começou a trabalhar em salões de beleza, aprendendo vários cortes de cabelo, tratamentos de pele e cosmética. Preocupados por ela chamar muito a atenção dos rapazes, os pais casaram-na aos 13 anos. Embora ilegal, o casamento infantil é vulgar em grande parte da Ásia Austral. O marido escolhido para Sayeda pelos pais era abusivo e ela regressou a casa da família.

De volta a casa, Sayeda implorou à mãe que a deixasse matricular-se numa academia de dança. “Vou conseguir actuar em espectáculos e ganhar algum dinheiro”, disse. A mãe assentiu e Sayeda começou a dançar em casamentos e outros eventos. Foi então que Sayeda se envolveu romanticamente com um rapaz que costumava visitá-la na academia. Ele disse-lhe que iria levá-la para a Índia, onde ela poderia ganhar muito mais dinheiro como bailarina. Sayeda decidiu fugir de casa com ele.

Anjali, uma rapariga graciosa de olhos coruscantes e maçãs do rosto altas, tinha razões semelhantes às de Sayeda para querer fugir de casa. A família vivia num bairro de lata, numa casa improvisada. Criada sobretudo pela mãe, que trabalhava como empregada  doméstica, ela e a irmã eram tão pobres que disputavam entre si o pouco material escolar que conseguiam comprar. Aos 13 anos, Anjali abandonou a escola, uma circunstância normal para muitas crianças de famílias pobres da Índia. Começou a trabalhar numa fábrica, embalando refeições ligeiras.

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Christine Fellenz e Irene Berman-Vaporis. Fonte: Gabinete Nacional de Registo Criminal, Governo da Índia

 

Reservada por natureza, Anjali não tinha muitos amigos. Em casa, a sua confidente era uma cabrinha bebé que adoptara e a seguia por toda a parte, mordiscando a sua comida durante as refeições e deitando-se com ela na cama à noite.

Na fábrica, Anjali travou conhecimento com um jovem que a encantou com palavras sedutoras. Anjali sabia que a mãe andava à procura de um possível noivo para ela, mas decidiu que queria ficar com o homem de quem gostava. Por isso, numa noite de Outubro de 2016, durante o Durga Puja, uma festividade hindu, Anjali esgueirou-se para fora de casa e apanhou o autocarro até uma estação de caminhos-de-ferro para se encontrar com o seu namorado. Para surpresa de Anjali, ele estava acompanhado por outro jovem, mas ela embarcou no comboio para Calcutá com os dois.

Procurando desesperadamente Anjali nessa noite, a mãe percebeu que ela já planeava a fuga há algum tempo. Nos dias que antecederam o desaparecimento, os vizinhos ouviram-na falar com a cabra, dizendo-lhe: “E agora? Quem vai tomar conta de ti quando eu me for embora?”

De todas as depravações que afligem a humanidade, a mais chocante é a escravização de crianças para prazer sexual. Como sucede com a maior parte das actividades criminosas, a escala desta atrocidade é impossível de determinar, mas não há qualquer dúvida de que o tráfico sexual de menores é uma indústria bilionária que abarca todo o planeta.

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Farrak Ali Gayen, detido em Julho de 2017, está em pé entre Jagdeep Singh Rawat, um activista da organização Shakti Vahini, e o agente da polícia Shibendu Ghosh, na esquadra de polícia de  Mathurapur,  perto de Calcutá. Gayen afirmou receber 215 euros por cada rapariga que levasse à irmã em Deli e que ela vendia depois a bordéis. Segundo disse, ele e os outros membros do seu grupo traficaram 11 raparigas, capturadas na zona de South 24 Parganas, ao longo de ano e meio. A irmã e os outros também foram detidos. O processo ainda está em curso.

De acordo com um estudo frequentemente citado da Organização Internacional do Trabalho (OIT), mais de um milhão de crianças foram vítimas de exploração sexual em 2016. Devido à dificuldade de detectar a prostituição infantil, o relatório reconheceu que o número efectivo será provavelmente muito superior. O mais recente Relatório Global sobre o Tráfico de Pessoas, publicado pelo Gabinete das Nações Unidas para as Drogas e o Crime, apurou que o número de vítimas de tráfico comunicado pelos países cresceu de menos de 15 mil em 2010 para quase 25 mil em 2016. A estatísticas abrangem apenas uma fracção do número real de vítimas, que, na sua maioria, não são detectadas. O aumento talvez reflicta um reforço da aplicação da lei, mas, na opinião dos investigadores, reflecte mais provavelmente uma realidade mais sinistra: o tráfico de seres humanos, incluindo o tráfico de crianças para prostituição, está a aumentar.

“Trata-se de uma indústria em crescimento”, afirma Louise Shelley, professora de políticas públicas na Universidade George Mason e autora do livro “Human Trafficking: A Global Perspective”.

Não há praticamente nenhum país que escape ao flagelo do tráfico sexual de crianças, mas algumas regiões do planeta emergiram como centros deste comércio ilícito. Uma das que têm sido especialmente assoladas é esta região onde Sayeda e Anjali cresceram – o estado indiano de Bengala Ocidental e o seu vizinho Bangladesh. Divididos por uma fronteira internacional com 2.250 quilómetros de extensão, mas unidos por um património cultural e linguístico comum, as duas regiões partilham o infortúnio de ver milhares de raparigas vendidas como escravas sexuais todos os anos. O número efectivo é desconhecido, mas os valores documentados ou estimados, embora imperfeitos, apontam para uma elevada incidência de tráfico. Segundo o Gabinete Nacional de Registo Criminal da Índia, a região de Bengala Ocidental representa quase um quarto dos 34.908 casos de tráfico de seres humanos documentados no país entre 2010 e 2016, uma percentagem assustadora para um estado que contém cerca de 7% da população indiana. Só em 2017 foram dadas como desaparecidas em Bengala Ocidental 8.178 crianças, quase um oitavo do total registado na Índia nesse ano. Uma quantidade significativa destas raparigas foi, quase certamente, vendida a bordéis. A situação talvez seja pior no Bangladesh: segundo uma estimativa do governo, 50 mil raparigas são todos os anos traficadas do país para a Índia, ou rumo a outros destinos, passando através da Índia – um número que não inclui as raparigas vendidas como prostitutas no próprio Bangladesh.

Além de um destino, Bengala Ocidental é também um local de origem das raparigas traficadas para prostituição. Na longa fronteira com o Bangladesh, bem como nos 96 quilómetros adjacentes ao Nepal, há muitos troços sem guarda, o que permite aos traficantes contrabandear as raparigas. Algumas acabam por ir parar ao red light district de Calcutá, uma metrópole com mais de 14 milhões de habitantes. Outras são vendidas a bordéis noutros pontos da Índia ou no Médio Oriente. Na Índia, o trabalho sexual com fins comerciais não é interdito, mas muitas actividades relacionadas com o negócio, incluindo o proxenetismo ou a gestão de bordéis, são ilegais, bem como o aliciamento de crianças para a prostituição.

barco

Uma embarcação da polícia de Bengala Ocidental patrulha o rio Hooghly nas Sundarbans, uma zona húmida que abrange a fronteira meridional entre a Índia e o Bangladesh. Os traficantes usam frequentemente os rios para evitarem a detecção quando contrabandeiam raparigas para a Índia.

A principal causa desta tragédia é a pobreza generalizada da região, incluindo um dos maiores bairros da Índia, o South 24 Parganas. Há quadrilhas que se aproveitam das raparigas de famílias pobres, explorando a sua miséria e outras vulnerabilidades. “Se eu for um traficante... tenho de descobrir se a rapariga passa fome e precisa de um emprego ou se está interessada em namorar”, afirma Tapoti Bhowmick, da Sanlaap, uma organização sem fins lucrativos sediada em Calcutá que ajuda vítimas do tráfico. Para as raparigas pobres, a promessa de luxos pode surtir um efeito hipnótico. “Elas desejam o tipo de vida que vêem na televisão, nas telenovelas”, explica.

Os adolescentes e homens novos que trabalham para estes grupos organizam, por vezes, casamentos fingidos e até vivem com as raparigas durante algum tempo. “Se o rapaz tiver gastado 20 mil rupias para seduzir a rapariga, conseguirá vendê-la por 70 mil”, afirma Tapoti. O lucro é substancial: cerca de 536 euros, a mesma quantia auferida numa fábrica por cinco meses de trabalho.

Nos últimos anos, em Bengala Ocidental e noutras regiões, patrulhas policiais antitráfico intensificaram os esforços destinados a descobrir e a resgatar as raparigas vendidas a bordéis, mas estão assoberbadas de trabalho. “Sempre que uma criança desaparece, temos de garantir que a polícia inicia de imediato uma investigação”, afirma Rishi Kant, co-fundador da Shakti Vahini, uma organização sem fins lucrativos que já ajudou a libertar centenas de vítimas.

A Sanlaap e outras organizações sem fins lucrativos gerem programas de reabilitação para estas raparigas, na esperança de conseguirem voltar a juntá-las às suas famílias, superando o estigma social e construindo vidas aceitáveis para si. Segundo Rishi Kant, porém, os governos estaduais precisam de ser mais activos no apoio concedido às vítimas resgatadas. “Elas deveriam poder ter uma vida como a minha e a sua”, diz.

O tráfico acontece a uma escala de tal forma gigantesca que a solução exige uma resposta muito mais substantiva e sustentada por parte dos organismos responsáveis pela aplicação da lei, talvez criando uma agência nacional exclusivamente centrada na investigação dos casos de tráfico.

No dia em que Sayeda saiu de casa, o rapaz com quem fugiu levou-a de Khulna num autocarro até uma cidade na fronteira com a Índia. Chegando de noite, atravessaram a pé uma floresta até à margem de um rio. O rapaz subornou um polícia e os dois entraram numa embarcação que os conduziu à outra margem. Estavam na Índia.

Ficaram numa casa ao pé do rio. Ali, Sayeda encontrou outra rapariga que também viera do Bangladesh e ficou desconfiada. Sayeda confrontou o namorado e ele disse-lhe que ela iria trabalhar num bordel. Quando ela se recusou a fazê-lo, ele disse-lhe: “Mato-te e atiro o teu corpo ao rio.” Sayeda não sabia a quem recorrer para pedir ajuda. Entrara ilegalmente na Índia e não via maneira de se dirigir à polícia. “Tive tanto medo que concordei”, contou. “Disse-lhe que trabalharia como bailarina, mas não faria mais nada.”

O rapaz vendeu-a a um bordel em Mahishadal, um subúrbio de Haldia, em Bengala Ocidental, cerca de 60 quilómetros a sudoeste de Calcutá. Uma dúzia de raparigas que estiveram cativas neste bordel, incluindo Sayeda e Anjali, conversaram comigo. Esta reportagem baseia-se nessas entrevistas. Todas as raparigas contaram histórias semelhantes sobre o seu cativeiro.

O bordel, um dos vários estabelecimentos do mesmo género localizados ao longo de uma auto-estrada, era um hotel de dois pisos chamado Sankalpa, com cerca de 24 pequenos quartos e uma pista de dança. Segundo as raparigas, era dirigido por um homem chamado Prasanta Bhakta. Não consegui contactá-lo e o seu advogado não quis fazer comentários.

Sayeda, então com 14 anos, achava que conseguiria apenas dançar para os clientes. Segundo me contou, Bhakta fez-lhe desaparecer essa ideia de imediato, violando-a. As outras raparigas disseram a Sayeda que aquela era a maneira de ele avaliar quanto dinheiro poderia cobrar aos clientes por terem relações sexuais com elas. As recém-chegadas como Sayeda, por se considerar que estavam mais próximas da virgindade, eram as mais caras: 500 rupias (cerca de 5,5 euros).

As raparigas contaram que Bhakta as obrigava a ingerir bebidas alcoólicas, para as tornar mais dóceis. Embora resistisse, Sayeda descobriu que a embriaguez a ajudava a lidar com o trauma de ser uma escrava sexual. Começou a beber consideravelmente. “Era assim que conseguia passar o tempo, bebendo muito ao longo do dia”, contou.

Sayeda já lá estava há dois anos quando Anjali, então com 16 anos, foi vendida ao bordel. O homem com quem Anjali esperara casar-se e o outro jovem tinham-na conduzido a Calcutá e dali a Mahishadal. O companheiro do namorado comprou-lhe sabonete, champô, um pente e maquilhagem. Mandou-a arranjar-se, dizendo-lhe que, nessa noite, iria levá-la a conhecer alguém.

Quando entraram num quarto fracamente alumiado, começou a sentir-se angustiada. Disseram-lhe que era um hotel e que iria trabalhar lá. “Que tipo de trabalho?” perguntou Anjali, começando a entrar em pânico. Quando lhe explicaram, os seus olhos encheram-se de lágrimas.

Anjali percebeu que qualquer resistência seria inútil. As raparigas disseram-me que tinham um medo aterrador de Bhakta, afirmando que ele as espancava selvaticamente ou as queimava com um cigarro quando não lhe obedeciam.

Para as raparigas, o bordel era uma prisão. O portão da vedação que circundava o edifício e a porta principal estavam sempre fechados à chave ou vigiados por guardas. As raparigas só eram autorizadas a sair à meia-noite, para comerem no restaurante em frente, escoltadas por um guarda idoso. Ele inventava alcunhas para as raparigas e brincava com elas, trazendo um toque de gentileza à realidade sinistra das suas vidas.

Os clientes entravam, de noite e de dia, e as raparigas chegavam a ser violadas 20 vezes por dia. Tomavam analgésicos para aguentarem o tormento físico, mas o sofrimento emocional era inevitável. “Tínhamos muita vergonha quando apareciam clientes que eram homens velhos, mais velhos do que os nossos pais”, disse Anjali.

Ligadas pelo trauma de terem sido traficadas e pelo horror diário da sua existência brutal, as raparigas encontraram apoio uma na outra. Anjali, silenciosa e tímida, não poderia ser mais diferente de Sayeda, tão exuberante quando se embriagava que, por vezes, dava pontapés nos clientes. Apesar do contraste entre as suas personalidades, ou talvez por isso mesmo, tornaram-se amigas.

De vez em quando, havia rusgas da polícia, mas, segundo as raparigas, Bhakta e o seu pessoal pareciam sempre ter conhecimento delas com antecedência. Faziam as raparigas sair à pressa pela porta das traseiras antes de a polícia chegar. No entanto, numa certa tarde de Abril de 2017, uma patrulha da polícia fez uma rusga ao bordel e a outro mesmo ao lado, sem que Bhakta fosse avisado. A polícia deteve-o, juntamente com mais 12 pessoas, ao abrigo da legislação que proíbe o tráfico e a exploração sexual de crianças. Anjali, Sayeda e outras 18 raparigas e mulheres foram resgatadas. Estavam livres, mas ainda não livres de regressarem a casa.

Sayeda e Anjali tinham 17 anos quando as conheci em Sneha, um abrigo gerido pela Sanlaap em Narendrapur, um subúrbio de Calcutá – onde, em tempos, fui repórter de crime. Tinham chegado pouco antes, na companhia de mais dez raparigas resgatadas em Mahishadal. Todas aceitaram conversar comigo.

Um supervisor conduziu-as a uma sala grande e sem mobília, onde eu as aguardava com um representante da Sanlaap. Sentámo-nos em círculo. Quando começámos a conversa em bengali (o idioma que aprendi com a minha família em criança), as raparigas sentiram-se mais à vontade. Sayeda, sentada à minha direita, era a mais conversadora. Descreveu a forma como o pessoal mantinha uma vigilância rigorosa sobre as raparigas e como o dono do bordel, Bhakta, as espancava rotineiramente.

“Só parava quando via sangue”, interrompeu Anjali, sentada ao lado de Sayeda.

“Costumava dizer-nos: se não forem para a cama pelo menos com dez clientes por dia, dou-vos uma sova”, relatou Sayeda.

Voltando-me para Anjali, ela contou-me que fora traficada pelo namorado. “Ele disse-me que queria casar-se comigo”, contou, envergonhada. As outras raparigas riram-se. Pareceu-me que estavam a ser indelicadas, mas, ao longo das nossas conversas, apercebi-me de que não estavam a rir-se de Anjali, mas sim a rir-se com ela. As suas histórias eram semelhantes.

Quando regressei ao abrigo na manhã seguinte, perguntei se Sayeda e Anjali estariam dispostas a conversar comigo outra vez, já que tinham sido as mais participativas. As duas contaram-me os horrores sofridos por ambas, com um desapego que me pareceu angustiante. Sem saber ao certo como conseguir que me descrevesse os seus sentimentos relativamente a estes abusos, perguntei a Sayeda quanto chorara durante os três anos em que permanecera escravizada, apercebendo-me de imediato da superficialidade da minha pergunta. “Oh, chorei e chorei. Quanto mais podia eu chorar?” respondeu, num tom resignado que eu nunca ouvira em ninguém tão jovem. A soma das suas lágrimas nunca seria suficiente para transmitir o peso da sua tristeza.

Perguntei a ambas o que iriam fazer quando regressassem a casa. Anjali mostrou incerteza. “Vais apaixonar-te outra vez?” perguntou Sayeda, a rir-se.

“Não, não vou”, retorquiu Anjali.

Sayeda respondeu que iria tentar arranjar emprego no salão de beleza onde trabalhara antes. “Não voltarei a dançar. Vou tentar fazer os meus estudos.”

“Eu talvez me inscreva em aulas de dança”, disse Anjali.

“Não, não vás para a dança”, preveniu-a Sayeda. “Isso pode meter-te em sarilhos.”

Quando saímos do edifício, Sayeda perguntou-me se eu conseguia usar o meu telemóvel para ver uma imagem da sua cidade.

Queria mostrar-me o bairro onde os pais viviam, perto de uma mesquita bastante conhecida. Não consegui fazê-lo, mas prometi visitá-la em Khulna quando regressasse para junto da família. Sorrindo, correu para um parque de brincadeiras em frente do edifício. Vi-a subir para o cimo de um escorrega e deslizar por ele abaixo. Ouvi as suas gargalhadas enquanto me dirigia para o meu automóvel.

Certa tarde , há dois anos, Giriraj Panda, um advogado de Haldia que tem ajudado a interpor acções judiciais em casos de tráfico sexual, estava a almoçar numa banca de comida rápida perto do tribunal quando uma algazarra súbita interrompeu o bulício habitual. Panda olhou para cima e viu um homem fugir, perseguido por dois polícias. Os polícias foram demasiado lentos. O homem ultrapassou-os e saltou para cima de uma moto, conduzida por um cúmplice. Os dois afastaram-se a toda a velocidade.

Contratado pela Sanlaap para representar as raparigas no processo contra Bhakta e os outros, Panda reconheceu o homem em fuga: era Bhakta. Era aguardado no tribunal quando conseguiu libertar-se dos agentes da polícia que o conduziam ao edifício, agarrando-o pelas mãos. Bhakta já fora presente a tribunal por acusações semelhantes, contou Panda, mas os seus advogados haviam conseguido libertá-lo sob fiança. Segundo parece, Bhakta tentou esta fuga arriscada porque não conseguira livrar-se destas novas acusações. Estivera preso durante mais de um ano e meio.

Os donos de bordéis e os traficantes que exploram menores costumam frequentemente ficar impunes dos seus crimes, não só porque a polícia falha na aplicação da lei, mas também porque o sistema judicial indiano deixa a porta aberta a muitas escapatórias. Os tribunais indianos encontram-se inundados de processos e o número de casos pendentes é tão gigantesco que, com frequência, as pronúncias demoram anos. Por vezes, os tribunais não têm outro remédio senão deixar os arguidos sair em liberdade sob fiança porque os procuradores não conseguem pronunciar a acusação a tempo, seja por incompetência seja por corrupção.

Apesar desta situação sombria, não esmoreceram os esforços para levar os traficantes a tribunal. Panda conta que, nos últimos seis anos, ele e a sua equipa conseguiram condenações em mais de uma dúzia de casos de tráfico na região de Haldia. Segundo nos contou, iria esforçar-se para provar as acusações apresentadas contra

Bhakta, o qual, disse-nos Panda, foi perseguido e detido poucas semanas depois da sua fuga.

O processo continua a tramitar e poderá demorar anos. No princípio deste ano, Bhakta conseguiu sair em liberdade sob fiança, decisão da qual os procuradores irão recorrer, afirmou Panda. “Uma vez que os traficantes e os donos de bordéis têm muito dinheiro para despender em honorários de advogados, é fácil para eles sair em liberdade”, disse. “Mas nós recusamo-nos a desistir.”

Poucos meses depois da minha visita a Sneha, Sayeda começou a sentir dores abdominais agudas. Poucos dias antes, fizera uma actuação entusiástica num espectáculo de dança no abrigo. O pessoal de Sneha apressou-se a levá-la ao hospital, onde ela morreu horas mais tarde. Os médicos atribuíram a morte de Sayeda a insuficiência hepática, muito provavelmente relacionada com o consumo excessivo de bebidas alcoólicas.

Em Novembro de 2018, viajei até Khulna com a fotógrafa Smita Sharma para fazer uma visita à família de Sayeda. Tinha imaginado aquela viagem como um momento de felicidade. Depois de passarmos de automóvel pela mesquita que Sayeda quisera mostrar-me, serpenteámos pelas ruas e estacionámos a viatura ao lado de uma loja de chá. A mãe de Sayeda conduziu-nos por um caminho de terra até à casa onde Sayeda crescera. O pai, um homem magro, de aparência extenuada, cumprimentou-nos debilmente. Uma vez que não havia mobília na sala, convidaram-nos a entrar no seu quarto. Eu e Smita sentámo-nos de pernas cruzadas sobre a cama, enquanto a luz da tarde jorrava janela adentro.

Quando a mãe de Sayeda nos descreveu como a filha adorava cantar e dançar, mostrei-lhe uma fotografia de Sayeda, com Anjali e as outras raparigas, tirada após a sua actuação no espectáculo de dança. Vestindo um sari de cor magenta e uma coroa amarela, Sayeda sorri, radiosa.

A mãe olhou para a fotografia durante uns segundos e começou a chorar. “A minha filha tinha um coração tão simples e ingénuo”, disse, enxugando as lágrimas. “Foi por isso que a perdi.”

Os pais de Sayeda sabiam que a filha fora traficada e escravizada num bordel, mas queriam saber melhor aquilo por que ela passara. Por isso, dei-lhes a conhecer a entrevista que fizera a Sayeda. A mãe inclinou-se para a frente para ouvir. O pai ouviu na sala ao lado, onde se sentou no chão, fitando a parede com um olhar vago. Quando Sayeda começou a contar as agruras que suportara no bordel, a mãe começou a mexer-se agitadamente, em sinal de desconforto, e o pai virou a cabeça para o outro lado.

“Ouvir isto pode fazer-vos sofrer”, disse eu.

A mãe de Sayeda olhou para mim, de olhos transbordantes. “Já estamos a sofrer de qualquer maneira”, disse. “Não há fim para esta dor.”

O pai não pronunciou uma única palavra durante essa tarde. Quando regressei, no dia seguinte, para me despedir da família, falou por fim. Desde a morte de Sayeda, contou, tornara-se errático, falhando refeições e banhos com frequência, sentando-se à beira da estrada durante longos períodos, paralisado pela dor, em vez de transportar passageiros no riquexó.

“A minha filha era o meu mundo”, disse-me. “Estava sempre alegre e tornava os outros alegres. Agora, foi-se embora.”

Depois de passar um ano e meio no abrigo, Anjali regressou finalmente a casa, reunindo-se à mãe em Siliguri, e começou a trabalhar numa fábrica. Quando a visitei, em Dezembro de 2019, Anjali, então com 19 anos, estava a ajudar a mãe nas tarefas domésticas.

Anjali disse-me que se sente sozinha. Sente falta das amigas do abrigo, que compreendiam a sua angústia como mais ninguém compreendia. Não partilhou muito sobre a sua experiência com a mãe. Anjali contou-me que ouvira alguns vizinhos dizer, em voz baixa, que ela tinha uma profissão suja.

“Não lhes respondi”, disse.

Os sentimentos de vergonha impostos pelos vizinhos tinham, evidentemente, aprofundado a sensação de isolamento de Anjali. Ela podia fingir que os vizinhos não existiam, mas era-lhe difícil ignorar as palavras da mãe, que se tornara intensamente protectora, fazendo-a sentir-se demasiado sufocada.

“Ela não me deixa ir a lado nenhum!”, queixou-se Anjali.

“Eu digo-lhe: ‘fica sossegada em casa. Usa o telemóvel. Vê vídeos do TikTok se quiseres’”, contou-me a mãe. “Mas nunca mais voltes a pôr o pé no caminho errado.”

Perguntei-lhe o que queria dizer com aquelas palavras. Não era Anjali a vítima? Era errado uma pessoa apaixonar-se?

“Sim, eu sei que ela se apaixonou. Mas quem poderia saber que o rapaz tinha tão más intenções?”, perguntou a  mãe.  “Ela  é  vulnerável. É jovem. Pode facilmente ser enganada por outro rapaz que prometa casar-se com ela e depois a venda noutro lugar, como já aconteceu antes.” “Uma pessoa só é enganada uma vez”, disse Anjali. “E não vezes sem conta.”

A mãe tentou amaciá-la. “Eu tenho-lhe dito para não fugir de casa. E se encontrar alguém de que goste, espero que ela mo diga para que eu descubra informações sobre o rapaz antes de se casarem.”

Anjali cortou-lhe a palavra. “Eu já não gosto de ninguém”, disse, num tom definitivo.

Na verdade, ela só queria poder ir onde quisesse e quando quisesse. Anjali queria uma motocicleta. Não estava satisfeita por a mãe poupar dinheiro para comprar uma moto destinada ao irmão mais velho.

“Compro-te coisas quando te casares”, disse-lhe a mãe, com um tom meigo.

Anjali fez-lhe um sorriso exasperado. Apesar de aborrecida, sabia que tinha tido muito mais sorte do que muitas vítimas de tráfico cujas famílias não as recebem de volta, por temerem que os vizinhos e os parentes as envergonhem. A luta de Anjali para reconstruir a sua vida estava, evidentemente, longe de ter terminado. Porém, ao ver o apoio que a família lhe dava e a sua determinação serena, parti com a esperança de que, um dia, conseguisse encontrar a liberdade que procura.

COMO AJUDAR

Indicamos três grupos que ajudam vítimas de tráfico sexual na Índia.

A organização Shakti Vahini trabalha para libertar menores de bordéis: shaktivahini.org

A Sanlaap ajuda as raparigas resgatadas ou que se encontrem em risco de serem exploradas: sanlaap.org

A organização New Light ajuda os filhos das trabalhadoras sexuais: newlightindia.org

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