migrante somália

Raxma Xasan Maxamuud, de 36 anos, encontra-se há três anos num campo para deslocados nos arredores de Burco, na Somalilândia. Tem saudades da abundância e felicidade dos seus tempos de pastora, antes de os rebanhos da família perecerem devido à seca.

Movidas pelo medo, pela esperança ou pelo desespero, milhões de mulheres migram todos os anos em busca de uma vida melhor.

Texto: Aurora Almendral
Fotografias: The Everyday Projects

INTRODUÇÃO

Raxma Xasan Maxamuud nunca quis abandonar a sua casa, na Somalilândia. No entanto, um longo ciclo de secas transformou os rios em poeira e ressecou a erva de que o seu gado se alimentava. Nas Honduras, a violência levou Kataleya Nativi Baca, uma mulher transgénero, a empreender uma viagem perigosa até à fronteira dos Estados Unidos.

As mulheres representam cerca de metade de todas as pessoas que migram a nível internacional e dentro das fronteiras dos seus próprios países. Algumas são atraídas por promessas de um futuro melhor, mas, para aquelas que enfrentam a fome ou o perigo no seu país natal, a migração é um risco corrido para assegurar a própria sobrevivência. Para esta reportagem, os fotógrafos de The Everyday Projects, uma rede cuja missão consiste em desafiar estereótipos apresentando perspectivas diferentes, analisam a maneira como as dificuldades e a obrigação, a violência, a pobreza, as alterações climáticas e outras forças prejudicam gravemente as vidas das mulheres, empurrando-as para viagens que alteram a sua existência.

mulheres migrantes

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Segundo a Organização Internacional para as Migrações, 272 milhões de pessoas (entre as quais 130 milhões de mulheres) não viviam no seu país de origem em 2019. Mais de 60% desses migrantes vivem na Ásia e na Europa. No entanto, a maior parte das migrações internacionais acontece a nível regional, com as deslocações para (e entre) países do Médio Oriente, Norte de África e África Subsaariana a aumentarem mais depressa.

Nas últimas décadas, as mulheres têm migrado para países mais ricos, a fim de garantirem, elas próprias, o sustento da família e já não para se reunirem a familiares. Arranjam emprego como prestadoras de cuidados a crianças e idosos ou como empregadas domésticas, bem como na indústria e na agricultura. Já se descreveu essa transição como “feminização das migrações”. Há mais probabilidades de as mulheres migrantes que vivem no estrangeiro serem sobrequalificadas para estes empregos e de ganharem menos dinheiro do que os homens, remetendo uma percentagem superior dos seus rendimentos para as suas famílias, que permaneceram no país de origem.

mulheres migrantes

Para as mulheres que fogem à violência e à pobreza, as rotas clandestinas seguidas tornam-nas mais vulneráveis ao tráfico sexual, à agressão e à violação. E, para as mulheres que partem para países com quadros legislativos débeis, ou mulheres sem documentos, assegurar os direitos fundamentais pode revelar-se impossível.

A migração forçada de refugiados e requerentes de asilo cresceu em média 8% por ano entre 2010 e 2017, em comparação com menos de 2% referente às migrações internacionais. De 33,8 milhões de pessoas obrigadas a migrar para o estrangeiro em 2019, cerca de metade eram mulheres. Nesse ano, outros 33,4 milhões de pessoas, mais de metade das quais mulheres, viram-se obrigadas a migrar dentro dos seus próprios países, 75% das quais devido a catástrofes naturais.

Segundo uma estimativa do Banco Mundial, em 2020 a pandemia da COVID-19 provocou uma quebra inédita de 20% nas remessas mundiais de dinheiro enviado para os países de origem. O medo, a raiva e a pobreza estão a atiçar o ressentimento e a xenofobia e os migrantes vêem-se frequentemente vitimizados como bodes expiatórios, acusados de serem transmissores de doenças ou culpabilizados pelos males sociais exacerbados pela pandemia.

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Relatamos as histórias de cinco mulheres migrantes que exemplificam facetas diversas da experiência de relocalização: a decisão de partir; a esperança e as dificuldades da viagem; a chegada em circunstâncias desconhecidas; a adaptação a uma nova vida; e a consciencialização de que, por muito traumático que seja o desenraizamento, a migração pode ser uma via para a liberdade.

01 SOMÁLIA

somália

MUDAR OU MORRER Depois de a seca matar os seus animais, esta pastora somali não tem outra alternativa senão juntar-se a milhares de outras pessoas que vão vendo o tempo passar num campo para deslocados.

As ovelhas foram as primeiras a morrer. Sem erva para comer, ficaram magras e apáticas e os seus balidos foram enfraquecendo. “Estavam a morrer à nossa volta, como se tivessem sido envenenadas”, conta Raxma. Pastores na aldeia de Haya, na região central da Somalilândia, um autoproclamado estado da Somália que ninguém reconhece, Raxma e a sua família criavam 300 cabras e ovelhas e 20 camelos. Num espaço de quatro semanas de seca, em 2016, todos os animais morreram.

Cerca de seiscentas mil pessoas estão encalhadas na Somalilândia, dependendo de ajuda humanitária para obter comida e água.

Os pastores somalis seminómadas, que contam a passagem dos anos pela chegada regular das chuvas, começaram a reparar que, nos últimos 20 anos, as chuvas eram mais erráticas, deixando de estar alinhadas pelos restantes ritmos da vida. “Se alguém ainda duvidar das alterações climáticas, basta vir cá”, resume Sarah Khan, directora da Subdivisão para os Hargeysa do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados.

Raxma conta-nos que tem cerca de 36 anos. Durante o seu tempo de vida, as secas graves costumavam acontecer duas vezes por década, mas a seca devastadora de 2016 e 2017 destruiu cerca de 70% da economia pastoril da Somalilândia – a indústria primária do país.

Os rios e lagos alimentados pelas chuvas, outrora responsáveis pelo sustento de numerosas gerações de pastores, desapareceram. Em 2016, os poços da aldeia de Haya secaram pela segunda vez em cinco anos.

A aldeia alugou camiões para trazerem água de outra cidade, mas “sentíamo-nos sedentos”, diz Raxma. Os aldeãos não lavavam a roupa. E, ao contrário do que sucedera no ano de abundância em que Raxma nasceu, não deram nomes aos anos maus, na esperança de que esses tempos fossem esquecidos. “Antigamente, vendíamos cabras e tínhamos carne e manteiga. Não precisávamos da ajuda de ninguém. Costumávamos ajudar os outros porque tínhamos bens a mais.”

Os pastores somalis não medem a riqueza em função do que conseguem comprar, mas pela dimensão dos rebanhos. A perda de animais equivale a perder a casa, ver o automóvel roubado e a conta bancária esvaziada – tudo num só dia.

Em Haya, o fedor da morte causado por milhares de carcaças de animais a apodrecer pairava no ar, mas a família de Raxma conseguiu resistir durante três meses, enquanto a seca de 2016 se agravava. As famílias com camelos sobreviventes partilharam o leite com aquelas cujos rebanhos tinham perecido. À medida que a comida escasseava, os adultos reservaram as porções maiores para as crianças mais novas. A diarreia generalizou-se, conta Raxma, e temeu-se pela vida. Quando os animais morreram todos, os aldeãos reuniram o dinheiro disponível e alugaram um camião para serem conduzidos a um campo de PDI (pessoas deslocadas internamente) perto de Burco, na região central da Somalilândia.

Segundo estimativas do Banco Mundial, 143 milhões de habitantes da África Subsaariana, da Ásia do Sul e da América Latina serão obrigados a mudar-se dentro dos seus próprios países devido às alterações climáticas até 2050.

Raxma encontra-se actualmente num campo, à semelhança de mais 600 mil habitantes da Somalilândia, todos dependentes de ajuda humanitária para obterem comida e água. Raxma ainda não perdeu a esperança. Deu à sua filha mais nova, nascida já no campo, o nome de Barwaaqo, uma palavra evocativa da prosperidade, abundância e felicidade vividas quando os rebanhos são saudáveis, as chuvas abundantes e as terras verdejantes. Raxma perdeu quase tudo, mas o nome da sua filha exprime a gratidão sentida pelo facto de a sobrevivência da sua família ser, em si mesma, uma espécie de riqueza.

02 HONDURAS > MÉXICO

honduras

A DURA VIAGEM A expectativa anima esta mulher transgénero durante a travessia da fronteira entre o México e os Estados Unidos. Depois, o desespero instala-se.

Antes de partir de Tapachula, no México, Kataleya Nativi Baca telefonou à sua irmã do apartamento que partilhava com mais duas migrantes da América Central. “Amanhã, vou estar muito mais longe”, disse.

Kataleya, de 28 anos, uma mulher transgénero, era tratada como pária na sua terra natal de San Pedro Sula, nas Honduras. A mãe rejeitou-a. O irmão espancava-a. Num país onde a espiral de violência é alimentada pelo machismo, pessoas homossexuais, bissexuais, transgénero e intersexuais (LGBTQ) são vítimas de assédio, muitas vezes violento. Uma rede de grupos de direitos humanos apurou que mais de 1.300 dessas pessoas foram assassinadas na América Latina e nas Caraíbas desde 2014, 86% das quais na Colômbia, no México e nas Honduras. Para muitas, o desafio dessa viagem perigosa em busca de asilo nos EUA é preferível ao perigo sentido no seu país.

A esperança que impulsionara Kataleya a empreender a viagem até aos EUA foi substituída por um pavor que não consegue evitar.

Tapachula, uma cidade fronteiriça no Sul do México, é um local onde acorrem migrantes da América Central, das Caraíbas e de África. Kataleya passou ali quatro meses, enquanto esperava que lhe fosse concedido um visto através do México até Tijuana, na fronteira com os EUA.

Antes de subir para o autocarro, Kataleya fez as suas despedidas das pessoas por quem passava na rua, dos seguranças do seu restaurante favorito de comida rápida e das suas companheiras de quarto – estranhas que se haviam tornado suas amigas,  no  desafio  partilhado da fuga. “Vou-me finalmente embora de Tapachula”, disse.

Funcionários dos serviços de imigração mandaram o autocarro parar para verificarem os documentos dos passageiros – a primeira de 20 paragens e postos de controlo que haveriam de marcar o ritmo perturbado e angustiado das 72 horas e quatro mil quilómetros seguintes. Muitos migrantes que não conseguem obter os documentos de trânsito preferem atravessar o México à boleia ou a pé, de modo a evitarem as autoridades e o risco de terem de saltar de um comboio em andamento. São sujeitos à violência de quadrilhas criminosas, agressões sexuais, extorsão, recrutamento pela criminalidade organizada e raptos. Kataleya teve sorte: tinha documentos.

Ao terceiro dia de viagem, o fedor da casa de banho era tão intenso que as pessoas enrolavam lenços à volta do nariz sempre que a porta se abria. As mochilas e as carteiras pareciam rebentar, de tão carregadas que iam com roupas amarrotadas e artigos de higiene. Kataleya lavou-se com toalhitas e retocou o batom. Horas depois de partirem de Tijuana, o autocarro irrompeu em grande agitação. Os migrantes acotovelavam-se contra as janelas, espreitando uma linha metálica que serpenteava pela imensidão de erva amarelada. Era a vedação da fronteira com os EUA.

Em Tijuana, Kataleya recebeu o número pelo qual o seu requerimento de asilo seria avaliado: 4.050. Nessa altura, as autoridades estavam a avaliar o requerimento número 2.925. Seis meses mais tarde, e cerca de duas semanas antes da data prevista para a avaliação do seu requerimento, o governo norte-americano encerrou a fronteira devido à pandemia de COVID-19, suspendendo a apreciação dos pedidos de asilo.

Entre a incerteza e a violência na fronteira com o México e a rejeição sentida no seu país, Kataleya apercebe-se de que a esperança que a impulsionara a empreender a viagem até aos EUA foi substituída por um pavor visceral que não consegue evitar. Durante este período, foi assaltada e espancada em abrigos para migrantes LGBTQ. Noutras ocasiões, precisou do apoio financeiro de vários homens. O desespero instalou-se. “Da noite para o dia, tudo se desmoronou”, diz.

03 VIETNAME > SINGAPURA

vietname

O CONTRATO Uma mulher procura segurança financeira para a sua família assinando um contrato de casamento com um homem na rica cidade de Singapura.

No dia do seu casamento, Ngoc Tuyen estava rodeada de estranhos. Sentou-se num banco do jardim botânico de Singapura, com um vestido vermelho debruado a renda preta e uma fita no cabelo bordada com missangas em forma de margaridas. Conhecera o noivo há dois meses e a família deste quando ali chegara, 16 dias antes. O mediador matrimonial interpretou a cerimónia para vietnamita e selaram o compromisso com um beijo seco nos lábios. Após assinar os documentos, o casamento de Tuyen ficou oficializado. “Que bom começo”, disse Tuyen. “Quero trabalhar o mais depressa possível.”

Para trabalharem em Singapura, as migrantes dependem dos maridos para a renovação dos seus vistos.

Tuyen é uma migrante matrimonial – uma de dezenas de milhares de pessoas originárias do Vietname na última década. Tudo começa quando os mediadores matrimoniais avisam mulheres nas aldeias e cidades rurais de que vão receber a visita de homens vindos da Coreia do Sul, China, Taiwan e Singapura. Foi assim que Tuyen, de 34 anos, conheceu Tony Kong, de 45. A sua fotografia apareceu publicada no mural de Facebook de um mediador, acompanhada por um endereço na cidade de Ho Chi Minh e uma data em que ele viria ver e conversar com potenciais esposas.

Os termos eram claros: as mulheres deveriam vir preparadas para negociar mensalidades para si próprias e famílias e os homens deveriam declarar o seu salário. Em retribuição da sua beleza, juventude e companhia, as mulheres pretendem estabilidade financeira e, no caso de Tuyen, a oportunidade de trabalhar e enviar dinheiro para casa, para a família. As remessas de dinheiro são determinantes nas regiões rurais pobres do Vietname.

“Não se trata de amor”, explica Mark Lin, casamenteiro e proprietário da agência matrimonial True Love Vietnam Bride, em Singapura. Mark sabe que a sua indústria se aproveita da disparidade económica. Em Singapura, o rendimento médio anual é de 75.100 euros; no Vietname, é de 6.330. Independentemente dos defeitos que impeçam os seus clientes de arranjar mulheres para se casarem em Singapura, pelo menos têm mais dinheiro do que as suas companheiras vietnamitas.

Tuyen pediu a Tony uma mensalidade de 302 euros, tendo-lhe ele contraproposto 180 euros, o montante que ganharia se tivesse ficado no seu país a vender comida numa banca de rua. Não é suficiente para sustentar a família, mas ela tem esperança de conseguir emprego num salão de manicura, caso a sua licença de trabalho seja aprovada. Poderia assim enviar dinheiro para os pais e para o seu filho de 5 anos.

Para permanecer e trabalhar em Singapura, uma esposa migrante precisa de apresentar um requerimento para a concessão de um visto de visitante de longa duração, que é renovado a pedido do marido anualmente ou de dois em dois anos. Se ele não pedir a renovação, a mulher perde os seus documentos e possivelmente a custódia de todos os filhos nascidos do matrimónio. As mães, que dependem dos maridos para continuarem a viver em Singapura, podem sofrer maus tratos, negligência e infidelidade, segundo notícias da comunicação social e relatórios de organizações que disponibilizam serviços de apoio.

Tuyen, que se exprime rudimentarmente em mandarim, afirma não saber o que o seu novo marido pretende de si e, por isso, cozinha para ele e faz-lhe companhia. Não sabe se, nem quando, conseguirá obter o seu visto de visitante de longa duração. Isso depende do salário mensal do marido e Tony tem estado desempregado.

No entanto, no dia do seu casamento, Tuyen mostrou-se disposta a desempenhar  o  papel de recém-casada.  “Estou  muito  feliz”,  disse. E depois, mais uma vez, perguntou ao intérprete quando lhe seria permitido trabalhar.

04 MYANMAR > AUSTRÁLIA

Myanmar

ENCONTRAR A  PAZ  |  Uma mulher rohingya, cuja família fugiu à violência e à opressão na sua aldeia de Myanmar, saboreia a segurança e a liberdade em Sydney.

A princípio, Sajeda Bahadurmia, então com 26 anos, não sabia se os homens fardados iriam fazer-lhe mal. Corria o ano de 2013 e ela iria passar 14 dias, entre 23 de Abril e 6 de Maio, com o marido e os quatro filhos numa viagem de barco através do mar de Timor, partindo de uma cidade portuária na Indonésia rumo a Darwin, na ponta norte da Austrália.

O navio transportava mais de cem migrantes, incluindo muitos rohingya, como eles, que fugiam à opressão no Myanmar, bem como dezenas de pessoas do Bangladesh e duas da Somália. Sempre que uma onda forte rebentava contra o casco, ela apertava o filho de 1 ano contra o peito, ao ver os tubarões nas águas escuras. A filha Asma, então com 10 anos, perguntou-lhe: “Vamos morrer?”

Na Austrália, Sajeda ouviu as pessoas dizendo o que pensavam e sentiu-se à vontade para fazer o mesmo.

Quando a Marinha de Guerra Australiana os recolheu, ela não sabia se os marinheiros iriam espancá-la, insultá-la ou apalpá-la, como os militares de Myanmar tinham feito no seu país. Mas foram simpáticos, conta. Respeitaram os costumes muçulmanos e os exames sanitários às refugiadas foram feitos por mulheres. Em seguida, as migrantes foram conduzidas a um centro de detenção em Darwin.

Há muito que o governo de Myanmar persegue os rohingya, uma minoria étnica muçulmana. A violência começou em 2012, levando Sajeda e a sua família a fugirem. Em finais de 2017, cerca de um milhão de rohingya já tinham escapado para o vizinho Bangladesh e para outros países.

“Não podemos confiar na noite”, recorda Asma, hoje com 16 anos, referindo-se ao tempo em que os militares lhes entravam pela casa adentro. Violavam as mulheres e arrastavam os homens para a rua, detendo-os ou obrigando-os a trabalhos forçados. O governo de Myanmar proibiu o uso da palavra “rohingya”.

Durante os três meses que passaram no centro de detenção, Asma e Sajeda sentiram-se ofendidas por as autoridades as tratarem por números, consoante o navio em que tinham chegado: ROM006 e ROM007. Mesmo assim, rapidamente se adaptaram à sua nova vida. Quando começou a frequentar a escola pública, Asma não sabia falar inglês, mas sorria e ria à mesa com as suas colegas australianas enquanto comiam pão com salsicha.

“Fiquei obcecada com aquela comida em Darwin”, diz Asma.

Por fim, Sajeda, hoje com 32 anos, e a família foram reinstaladas em Sydney, ao abrigo de um programa australiano que lhes pagou as passagens de avião e subsidiou as suas despesas de sustento durante os primeiros meses. Na qualidade de refugiados, tinham direito a receber ajudas do Estado. Sajeda descobriu o ketchup e perdeu-se de amores pelo churrasco australiano. Ofereceu-se como voluntária para trabalhar numa cozinha comunitária, arranjou um trabalho a tempo parcial na escola dos filhos e aprendeu a conduzir. A família mudou-se para uma casa nova em Lakemba, um subúrbio de Sydney onde se falava rohingya nas ruas. Viu a alegria estampada nos olhos dos filhos quando abriram a porta da sua primeira casa.

“A palavra ‘liberdade’ surgiu, vinda não sei muito bem de onde”, diz Asma. “Estava escrito que era aqui que eu deveria estar. Esse sentimento de pertença inundava-me por dentro.” Em Myanmar, quem dizia o que pensava em voz alta arriscava-se a ser morto. Na Austrália, Sajeda ouviu as pessoas a exprimirem em público os seus pensamentos e ela fez o mesmo. No exterior da mesquita de Lakemba, vendo os muçulmanos espalharem-se pela rua após a oração, ela maravilha-se com o que vê: “É a primeira vez que vejo algo assim.”

05 PAQUISTÃO

Paquistão

NOVAS ESCOLHAS Uma jovem mulher nascida na diáspora afegã do Paquistão deixa a sua casa em busca de mais liberdade através dos estudos.

A cidade de Quetta, no Paquistão, encontra-se rodeada de altas montanhas cobertas de neve, mas Farheen, de 22 anos, nunca se aventurou lá. Não frequentava os bazares da cidade, fazia poucos amigos e evitava os rapazes. Gosta muito de dançar, mas apenas diante do espelho, em casa: na sua cultura, as mulheres podem ser envergonhadas por dançarem. “Não sou conservadora”, diz. “Tenho é muito medo.”

Farheen, que tem apenas um nome, é uma hazara. Pertence a um grupo étnico afegão e a uma minoria religiosa xiita que há mais de um século é perseguida, discriminada e massacrada por grupos étnicos rivais e pelos talibã, entre outros extremistas religiosos. A pobreza e as vagas sucessivas de guerra e violência no Afeganistão empurraram muitos hazara para longe do país.

As hazara vivem em receio constante da violência em Quetta. São frequentemente obrigadas a decidir que, para terem um futuro e prosseguirem os estudos, têm de partir.

Na década de 1960, os avós de Farheen atravessaram a fronteira com o Paquistão e instalaram-se em Quetta, cidade onde vivem actualmente cerca de meio milhão de hazara. Desde 2003, centenas, talvez mesmo milhares, de hazara em Quetta têm sido assassinados durante ataques e atentados à bomba. A cultura hazara pode ser brutalmente patriarcal.

“Falam em homicídios por honra com imensa ligeireza”, diz Farheen, referindo-se à prática de os homens matarem as mulheres que crêem ter envergonhado a família. “Isso assusta-me.”

Farheen dá a seguinte explicação: “Quando uma pessoa parte para Quetta, a sua mente começa a fechar-se. Tal como a mente, o coração.” No entanto, quando alguém se afasta de Quetta, a mente e o coração abrem-se. Os hazara que se irritam com os rigores da vida em Quetta podem decidir que, para terem um futuro, precisam de migrar para países como a Austrália, o Irão e a Turquia. Para muitos jovens hazara residentes em Quetta, os estudos têm sido o seu caminho rumo a uma nova confiança e à liberdade.

Segundo a interpretação hazara dos valores islâmicos, os estudos são socialmente desejáveis e um imperativo religioso. Constituem um objectivo para toda a vida, quer para homens quer para mulheres. Para Farheen, isso implicou deixar Quetta, em 2017, para estudar literatura na Universidade Nacional de Línguas Modernas em Islamabad, a capital do Paquistão.

Uma vez ali chegada, Farheen diz que os seus medos se atenuaram. Começou a viajar de autocarro para as aulas e a frequentar locais públicos cheios de movimento. Ficou com o espírito mais aberto. Quando pela primeira vez ouviu falar em K-pop, o género musical oriundo da Coreia do Sul, desvalorizou-o. “Os rapazes pareciam raparigas e usavam maquilhagem”, diz. Mas as canções, fáceis de memorizar, chamaram-lhe a atenção. Começou a ouvir atentamente as letras e, pouco depois, estava viciada. Agora diz sentir-se mal pelo seu juízo desfavorável. “A K-pop ajudou-me muito a aceitar novas ideias.”

Farheen interessou-se pela cultura coreana.

Estudou o idioma e praticou danças de K-pop. As bandas interpretavam canções sobre homofobia, saúde mental e a dificuldade de ser adolescente, o que a ajudou a emergir de vários anos de ansiedade e depressão.

Ela vê a sua incursão até Islamabad como um primeiro passo no sentido de descobrir um mundo para lá dos limites de Quetta. Depois de se licenciar, gostaria de visitar o Canadá, estudar dança nos EUA ou fazer uma viagem pelo Afeganistão, o seu país natal. Consegue imaginar-se a viver na Coreia do Sul. Acima de tudo, Farheen segue um rumo que a libertará do seu passado e do peso da história de perseguição da sua cultura. Para onde quer ir? Farheen diz: “Para um sítio onde ninguém me conheça.”

Notas:

A rede The Everyday Projects usa a fotografia para desafiar estereótipos e alargar os seus relatos a todo o mundo. Oito fotógrafas juntaram-se para documentar as repercussões da migração sobre as mulheres no mundo.

Esta reportagem contou com apoio da National Geographic Society.

Trabalho fotográfico parcialmente apoiado pela International Women’s Media Foundation.

Um guia criado pelo Centro Pulitzer para alunos do segundo e terceiro ciclos encontra-se disponível em pulitzercenter.org/womenonthemove.

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