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Soldados da Brigada 62 do exército do Paquistão descansam sob as Torres Trango, na ponta do glaciar Baltoro. “É um terreno difícil”, diz um deles. “Mas temos de defender cada centímetro da nossa pátria.” 

Uma minúscula alteração no mapa de um organismo governamental norte-americano pôs a Índia e o Paquistão em guerra no campo de batalha mais elevado do mundo. A identidade do autor dessa alteração era desconhecida. Até agora.

Texto: Freddie  Wilkinson
Fotografia: Cory Richards 

O major Abdul Bilal, do Grupo de Serviços Especiais do Exército do Paquistão, acocorou-se com a sua equipa sob um afloramento rochoso, nas profundezas da cordilheira de Caracórum. Naquele dia 30 de Abril de 1989, um nevão puxado pelo vento foi cercando 11 homens que se esforçavam por respirar o ar rarefeito a mais de seis quilómetros e meio acima do nível do mar. À primeira vista, poderiam parecer montanhistas, não fossem os casacos brancos de camuflagem que traziam vestidos e as armas automáticas a tiracolo.

Qualquer montanhista sentiria inveja deste ponto elevado de onde se usufruía de uma panorâmica das montanhas mais colossais do mundo. O volumoso K2, o segundo ponto mais alto da Terra, pairava acima do horizonte, 80 quilómetros a noroeste. No entanto, a maioria dos picos gelados permanecia sem nome e por escalar, identificados nos mapas apenas por números correspondentes à sua altitude.

Uma ascensão até esta posição, identificada como 22.158, tê-los-ia obrigado a trepar uma vertente de rocha e gelo devastada por detritos de avalanchas. Quatro homens já tinham morrido enquanto tentavam fazê-lo. A equipa do major Bilal fora transportada de helicóptero. Um a um, os homens desceram, pendurados em cordas, enquanto os helicópteros se esforçavam por manter-se estáveis, pairando na atmosfera rarefeita com temperaturas negativas. Largada cerca de 450 metros abaixo do cume, a equipa passou uma semana a reparar cordas e a empreender missões de reconhecimento do terreno para se preparar para este momento decisivo.

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Alguns homens sugeriram que todos os soldados ficassem ligados por cordas de segurança. “Se nos ligarmos uns aos outros com cordas e um de nós for atingido, vamos todos parar lá abaixo”, contrapôs o major. “Usem crampons, mas nada de cordas.” Procederam então a uma última verificação para garantir que as peças móveis das armas não tinham congelado. Em seguida, pouco antes do pôr do Sol, com o vento a uivar atrás das suas costas, Bilal conduziu a equipa em fila indiana, subindo por uma cumeeira em direcção ao topo.

De repente, os rostos escuros, tisnados pelo sol, de duas sentinelas indianas espreitaram do alto de um muro de neve erigido num posto de observação improvisado. O major Bilal falou com elas em urdu: “Estão rodeados por soldados do exército do Paquistão. Pousem as armas.”

Os dois indianos agacharam-se atrás do muro de neve. O major prosseguiu: “O exército indiano vai custar-vos a vida!” Depois, ouviu a cadência inconfundível dos dois cliques de uma AK-47 a preparar-se para disparar.

“Não éramos assassinos gratuitos”, conta Bilal três décadas mais tarde, ao lembrar a história na sua casa de Rawalpindi. “Só queríamos preservar o nosso território. Estávamos dispostos a defendê-lo a todo o custo… Era o nosso dever patriótico.” Ele tem a certeza de que os indianos dispararam primeiro. Bilal e os seus homens devolveram os tiros. Um dos indianos caiu no solo.

Os paquistaneses pararam de disparar e Bilal dirigiu-se ao outro indiano. “Vai-te embora… Não te vamos aprisionar nem te abateremos pelas costas.” O major viu-o afastar-se lentamente, esforçando-se por respirar, até desaparecer na neblina. Poucos repararam no incidente fora do Paquistão e da Índia. Contudo, a Batalha do Pico 22.158 possui uma distinção macabra: é o teatro de guerra mais alto do mundo com mortos registados.

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Soldados paquistaneses descarregam um helicóptero Mi-17 no posto administrativo de Paiju. Os aprovisionamentos essenciais incluem barris de combustível, barras de aço para construção e ovos frescos. Para as tropas posicionadas nos dois lados da cordilheira de Saltoro, os helicópteros são “anjos descidos do céu”, na versão de um oficial.

Vinte e oito anos mais tarde, eu e o fotógrafo Cory Richards caminhávamos desajeitadamente sobre a neve, coberta de marcas de botas, vindos de um heliporto a cerca de sete quilómetros do local onde decorreu aquele recontro. Como montanhistas profissionais, já tínhamos escalado picos em Caracórum e sabíamos os esforços e capacidades necessários para sobreviver ali.

Ao longo de mais de três décadas, a Índia e o Paquistão têm posicionado jovens soldados neste ambiente inóspito, onde permanecem meses a fio, guardando zonas distantes e desabitadas. Os observadores começaram a referir-se a este confronto como conflito do glaciar de Siachen, devido ao monumental manto de gelo que domina a paisagem onde se encontram as contestadas fronteiras entre o Paquistão, a Índia e a China.

Desde 1984, os dois contendores sofreram milhares de baixas. Um cessar-fogo foi acordado em 2003, mas dezenas de soldados ainda morrem todos os anos no local devido a deslizamentos de terras, avalanchas, desastres de helicóptero, doença de altitude e embolismos, entre outras causas. No entanto, todos os anos soldados indianos e paquistaneses voluntariam-se alegremente para prestar serviço militar no local. “É considerado uma medalha de honra”, admitiu um oficial paquistanês.

Livros, notícias e artigos académicos têm sido escritos sobre o conflito e os autores comentam frequentemente o absurdo de existirem exércitos em combate sobre um território tão inútil. E reconhecem que os dois inimigos teimosos, cegos pelo ódio, farão tudo o que puderem para se oporem um ao outro.

No entanto, as circunstâncias que levaram as duas partes a começar os combates nunca foram completamente explicadas. Passei quatro anos a seguir um rasto de documentos recentemente tornados acessíveis ao público e a entrevistar funcionários públicos, académicos e militares na Índia, no Paquistão e nos Estados Unidos, numa tentativa de desvendar o mistério obscuro, mas importante, da saga de Siachen. Agora, eu e Cory viemos ao Paquistão para verificarmos, em primeira mão, as consequências daquilo que pode acontecer devido ao simples acto de desenhar uma linha num mapa.

O GEÓGRAFO

No dia 27 de Junho de 1968, 21 anos antes de o major Bilal conduzir a sua equipa ao cume do pico 22.158, foi enviado o Aerograma A-1245 ao Gabinete do Geógrafo, uma unidade pouco conhecida instalada no Departamento de Estado dos EUA, na Rua C NW, na cidade de Washington. A comunicação foi parar à secretária de Robert D. Hodgson, um geógrafo-assistente de 45 anos.

Assinada pelo encarregado de negócios da embaixada norte-americana em Nova Deli, a carta começava da seguinte forma: “Em diversas ocasiões… o governo da Índia apresentou os seus protestos formais à embaixada devido aos mapas do governo dos EUA que foram distribuídos na Índia, descrevendo a situação em Caxemira como ‘em disputa’, ou de alguma forma separada do resto da Índia.” No final, havia um pedido de orientação quanto à forma de representar as fronteiras da Índia nos mapas norte-americanos.

Quando a Índia Britânica foi dividida na Índia e no Paquistão em 1947, a soberania dos dois países sobre Jammu e Caxemira não ficou definida com clareza. Desde então, ambos os países têm reivindicado o terreno glaciar montanhoso. A disputa sobre as fronteiras criou um problema geopolítico no campo de batalha mais elevado do planeta.

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Para a Índia e o Paquistão, países nascidos do derramamento de sangue que acompanhou a Partição (o termo para a dissolução e subdivisão da Índia Britânica), os mapas eram uma questão de identidade nacional. Para Hodgson e outros funcionários do Gabinete do Geógrafo, em contrapartida, tratava-se de uma tarefa profissional.

Todos os anos, o governo dos EUA publicava milhares de mapas. Era porventura o maior editor de mapas do mundo. A responsabilidade de representar as fronteiras políticas internacionais recaía sobre o Gabinete do Geógrafo.

Devido a esta missão, o gabinete exercia considerável influência sobre ramos poderosos do país, incluindo o Departamento da Defesa e a CIA. O gabinete detinha a derradeira autoridade de representar o alinhamento das fronteiras políticas do mundo no que dizia respeito às políticas oficiais norte-americanas e, por sua vez, ajudou a moldar a forma como os outros países viam os EUA. Isso também implicava que, entre as cerca de 325 fronteiras terrestres reconhecidas pelos EUA, as dúvidas cartográficas mais difíceis recaíssem sobre os ombros de Hodgson e dos seus colegas geógrafos. A resolução destes dilemas exigia o rigor de um topógrafo e a abordagem metódica de um investigador. A expressão utilizada para definir esta tarefa é “recuperar fronteiras”, explica Dave Linthicum, que se reformou recentemente após mais de três décadas de trabalho como cartógrafo para a CIA e para o Gabinete do Geógrafo. “Não andamos a traçar linhas ao sabor da nossa imaginação. Andamos a recuperar as fronteiras nos locais onde estas foram marcadas em 1870, em 1910, ou seja lá quando for, naqueles mapas e traçados antigos.”

Hoje, Dave e os seus contemporâneos passam boa parte do seu tempo a examinar imagens de alta definição captadas por satélite. Em comparação, Robert Hodgson, antigo fuzileiro, iniciou a sua carreira a “caçar mapas” para o Departamento de Estado enquanto esteve destacado na Alemanha entre 1951 e 1957. A caça de mapas significava andar de um lado para o outro de automóvel, revolvendo arquivos cheios de mapas bafientos e verificando, fisicamente, a localização de cidades e marcos geográficos.

Nos primeiros tempos da guerra fria, um erro cartográfico poderia ter consequências cataclísmicas: aviões norte-americanos podiam ser enviados para bombardear a cidade errada ou até o país errado, se a localização no mapa estivesse apenas alguns quilómetros desviada ou se o topónimo fosse escrito de forma ligeiramente diferente.

Dave Linthicum percebe bem a facilidade com que se pode cometer um erro. Há uma década foi incumbido de traçar a fronteira entre a Nicarágua e a Costa Rica, acompanhando o rio San Juan até ao mar das Caraíbas. Marcou a fronteira ao longo de uma antiga via fluvial, e não do curso actual do rio, atribuindo erroneamente alguns quilómetros quadrados de uma ilha à Nicarágua. O Google Maps adoptou a sua fronteira e, pouco depois, a Nicarágua enviou soldados para ocupar a ilha.

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“Às vezes, quando trabalhava com os meus colegas, inquiríamo-nos sobre o motivo pelo qual estávamos a perder tanto tempo com este minúsculo [segmento de fronteira] e depois, duas semanas mais tarde, aquele sítio minúsculo passava a ser muito relevante ou extremamente importante”, diz Dave.

Infelizmente para Robert Hodgson, o conjunto de problemas geopolíticos e fronteiriços surgidos sob a forma do Aerograma A-1245 representava um dos mais difíceis do mundo, um “pesadelo cartográfico”, nas palavras de outro geógrafo. Tratava-se da disputa sobre Caxemira.

Depois da Segunda Guerra Mundial, quando os britânicos renunciaram ao controlo anteriormente detido sobre o subcontinente indiano, tomaram a decisão de dividir a região em dois Estados baseados nas duas religiões dominantes: a Índia para os hindus e o Paquistão para os muçulmanos. Comissões nomeadas pelo vice-rei britânico, Louis Mountbatten, e constituídas por representantes dos dois partidos políticos mais influentes, o Congresso Nacional Indiano e a Liga Muçulmana, foram convocadas para determinar as novas fronteiras. A tarefa era impossível tendo em conta que milénios de sobreposição de culturas e impérios legaram à Ásia Austral populações mistas de hindus, muçulmanos e sikhs.

Ao bater da meia-noite do dia 15 de Agosto de 1947, a Índia e o Paquistão conquistaram a independência. A violência eclodiu quando milhões de pessoas assustadas tentaram transpor as novas fronteiras para se juntarem aos praticantes da sua religião. O conflito mais sangrento aconteceu no Punjab, o coração agrícola do subcontinente. No meio do caos, o número de mortos poderá ter sido superior a dois milhões de pessoas.

Nos termos do plano de Mountbatten, um reino montanhoso a norte do Punjab, oficialmente conhecido como Principado de Jammu e Caxemira, tinha um dilema próprio para resolver. Embora a população fosse esmagadoramente muçulmana, Caxemira era governada por um marajá hindu e foi-lhe dada a possibilidade de escolher o país ao qual se juntaria. Semanas após a independência, porém, milícias de homens das tribos pashtun, com o apoio do incipiente exército do Paquistão, começaram a avançar em direcção ao palácio do marajá em Srinagar para reclamar Caxemira para o Paquistão. O marajá entrou em pânico e assinou um Instrumento de Adesão à Índia. A Índia reagiu com o envio de transportes aéreos e travou as milícias. Semanas mais tarde, os novos países estavam em guerra.

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As cordas garantem a segurança das equipas, durante a travessia de alguns terrenos. Soldados paquistaneses amarram-se uns aos outros para diminuir as probabilidades de se perderem enquanto atravessam o glaciar Gyong. Muitas fendas são conhecidas pelo nome de soldados que morreram nas suas profundezas.

Depois de a poeira assentar, os exércitos rivais permaneceram frente a frente ao longo de uma linha de cessar-fogo que serpenteava por uma região montanhosa no centro de Caxemira. Após um tratado mediado pelas Nações Unidas, em 1949, equipas de topógrafos militares da Índia e do Paquistão, sob supervisão da ONU, foram encarregadas de traçar a linha de cessar-fogo. Depois, em 1962, as forças chinesas conquistaram Aksai Chin, uma região desértica situada a grande altitude no canto oriental de Caxemira, atrapalhando ainda mais a questão das fronteiras.

Quando o aerograma enviado por Weathersby foi recebido, em 1968, Robert Hodgson viu-se a braços com um problema complicado: como deveriam os EUA representar nos seus mapas a situação confusa? Se aceitasse as reivindicações dos funcionários públicos indianos, Caxemira pertenceria à Índia na sua totalidade. Se seguisse a Resolução 47 da ONU, como defendia o Paquistão, Caxemira era uma entidade separada, a aguardar a realização de um referendo público para decidir a qual país se juntaria. Caso decidisse reproduzir a situação realmente vivida no terreno, Caxemira seria partida em duas, sob a jurisdição efectiva dos exércitos da Índia e do Paquistão, com um pequeno recanto controlado pela China.

Ao longo da década de 1960, os diplomatas indianos protestaram contra a representação de Caxemira nos mapas norte-americanos, como um território ocupado ou separado do resto da Índia. “A posição correcta é que a totalidade do estado de Jammu e Caxemira faz, legalmente, parte da Índia, com o Paquistão e a China numa ocupação ilegal de áreas a oeste e a norte da linha de cessar-fogo”, referia uma reclamação apresentada em 1966.

Após a Partição, os EUA e o Paquistão tornaram-se aliados na guerra fria. Poderá ter parecido que os EUA favoreciam o Paquistão nesta contestação. Contudo, nenhuns documentos descobertos até à data revelam que tais considerações políticas tivessem influenciado o Gabinete do Geógrafo. Em 1968, Robert Hodgson já se envolvera em muitas questões sensíveis relativas a fronteiras. “Ele tinha uma certa reputação”, contou Bob Smith, contratado pelo primeiro para integrar o gabinete em 1975. “Hodgson era capaz de falar com os gregos e dizer-lhes, com toda a sinceridade, que a sua posição era insustentável e depois dizer o mesmo aos turcos. Ele apresentava a situação tal como existia.”

Havia, porém, outro grande problema com a linha de cessar-fogo de Caxemira: ela não separava por completo a Índia e o Paquistão. Em vez disso, num ponto de coordenadas, designado NJ9842 durante o processo de demarcação, a linha parava abruptamente a quase 60 quilómetros da fronteira com a China. Esta linha sem fim é única na geografia mundial.

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Soldados paquistaneses limpam as suas espingardas G3A3 e comem bananas durante uma sessão de treino na carreira de tiro de Sarfaranga, nos arredores de Skardu.

A equipa de topógrafos teve boas razões para não avançar. Aquele derradeiro troço de 60 quilómetros atravessava o coração montanhoso do Caracórum. Não havia ali populações permanentes para proteger, conhecimento de recursos naturais para explorar, nem acessos fáceis para construir infra-estruturas militares. Em vez de apresentar uma linha definitiva, o tratado final fornecia apenas uma orientação vaga da terra além de NJ9842: “… dali para norte até aos glaciares.”

Com efeito, havia muitos glaciares a norte de NJ9842, mas de todos o maior – e estrategicamente mais importante – era o Siachen, um enorme e serpenteante rio de gelo que atravessa a região oriental de Caracórum. “Na época, era uma espécie de espaço em branco no mapa”, diz Dave Linthicum. “Em 1949, a ideia de que este terreno merecia ser disputado teria sido considerada absurda por todas as partes envolvidas.”

Durante o Verão tórrido de 1968, enquanto os EUA se debatiam com a guerra do Vietname e a agitação política interna, Robert Hodgson consultou outros gabinetes do Departamento de Estado para decidir a forma de representar a linha de cessar-fogo, incluindo a questão incómoda do espaço vazio com cerca de sessenta quilómetros.

No dia 17 de Setembro, quase três meses depois de receber o aerograma de Weathersby, Robert redigiu a sua resposta numa carta que permaneceu confidencial até 2014. “Há muito que o Departamento reconhece as dificuldades associadas à elaboração de um mapa com as fronteiras internacionais da Índia que não ofenda o governo anfitrião e, ao mesmo tempo, não comprometa as posições políticas assumidas pela América”, referia a introdução.

Em seguida, com secura e autoridade, o especialista apresentava as suas próprias directrizes para representar a linha de cessar-fogo de 1948 em todos os mapas oficiais dos EUA. Depois, acrescentou: “Por fim, a linha de cessar-fogo deve ser prolongada até à passagem de Caracórum para que ambos os Estados fiquem ‘fechados’.” Numa única frase, Hodgson criou uma linha recta que atravessava montanhas cobertas de neve e deserto de altitude, rumo a nordeste, para ligar NJ9842 à passagem de Caracórum, um antigo ramal da Rota da Seda situado na fronteira com a China.

Desconhece-se a razão que levou Hodgson a agir assim: não deu quaisquer explicações na sua carta e não foram encontrados quaisquer apontamentos sobre a decisão. No entanto, ele deve ter ponderado razões práticas evidentes.

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Uma partida de críquete dá ânimo e actividade aos homens do Regimento do Punjab do exército do Paquistão em Gora I, um posto administrativo a quase 4.200 metros de altitude, junto do glaciar Baltoro. O Masherbrum, um pico com 7.821 metros que faz parte de uma  subcordilheira de Caracórum, reluz ao fundo, sob um manto de neve e gelo.

Em 1963, o Paquistão e a China tinham assinado um acordo bilateral estabelecendo a delimitação sudeste da sua fronteira partilhada de Caxemira na passagem de Caracórum e, por isso, muitos observadores presumiram que esse seria o ponto final lógico para uma fronteira entre a Índia e o Paquistão. Contudo, uma vez que a Índia não tivera nada que ver com o tratado, este “era inválido”, afirma Dave Linthicum.

Dave suspeita que o desejo do cartógrafo de resolver a ambiguidade poderá ter representado um papel na decisão. “Algumas pessoas padecem de síndrome de completude ou obsessão pela completude e precisam de preencher as lacunas.” Se ambos os países ficassem “fechados” pela linha de cessar-fogo, como Robert Hodgson escreveu, a linha teria de chegar à China para formar uma fronteira completa e a passagem de Caracórum seria o ponto mais identificável da divisão.

No entanto, o cartógrafo também parece ter percebido que o seu ajuste fronteiriço seria polémico. Numa carta enviada à CIA, pediu a máxima discrição. “Preferíamos que a mudança ocorresse de forma gradual para podermos reduzir ao mínimo possível as complicações internacionais”, escreveu.

“Afinal, ele deveria ter pensado no óbvio”, disse Dave Linthicum. “Sucessivos mapas seriam, em breve, publicados e muitos deles disponibilizados ao público, mostrando precisamente todas as provas visuais do texto da nova política.”

O MONTANHISTA

No Verão após o meu casamento, eu e a minha mulher viajámos até à Índia para realizarmos as primeiras ascensões no vale de Nubra, nas imediações da zona militarizada do exército indiano em redor de Siachen. À semelhança de todos os outros montanhistas que já vieram a este local nos últimos 40 anos, seguíamos as pegadas de Bull Kumar.

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Soldados paquistaneses recebem instruções sobre o manuseamento de uma peça de artilharia antiaérea de 37mm. Embora as hostilidades terminassem em 2003, milhares de soldados permanecem na região, prontos a intervir. “Se retirarmos, eles vêm”, resume um soldado referindo-se ao exército indiano.

Com cerca de 1,65 metros de altura, sobrancelhas cinzentas hirsutas e uma gargalhada profunda e gutural, Narinder “Bull” Kumar, de 87 anos, acumulou muitas aventuras na sua famosa carreira militar. Embora perdesse quatro dedos dos pés devido a queimaduras de gelo, liderou várias expedições ambiciosas ao longo das décadas de 1960 e 1970, incluindo uma tentativa de ascensão ao monte Evereste. De caminho, subiu ao posto de coronel do exército indiano e tornou-se uma espécie de celebridade, tendo conhecido a primeira-ministra Indira Gandhi e travado amizade com Tenzing Norgay, que, segundo Edmund Hillary, foi a primeira pessoa a alcançar o cume do Evereste.

Antes da morte de Kumar, em Dezembro do ano passado, visitei-o em Deli para saber mais sobre o seu encontro com dois aventureiros alemães que o abordaram em 1977 com um plano para fazer a primeira descida do rio Nubra, uma torrente leitosa que corre a partir de Siachen. Kumar escreveria mais tarde, nas suas memórias, que quando um dos alemães desdobrou um mapa para lhe explicar o seu plano, “os meus olhos ficaram colados ao mapa”. Ele perguntou ao alemão onde tinha obtido o mapa e este disse-lhe que era um mapa norte-americano, usado em todo o mundo.

Kumar não comentou, mas não tardou a aperceber-se do problema flagrante: “A linha de controlo, que se chamava então Linha de Cessar-fogo e terminava no ponto NJ9842, fora maliciosa, inadvertida ou deliberadamente [alterada].”

Foi assim que “Bull” Kumar descobriu a linha de Hodgson.

Pouco depois, Kumar reuniu-se com o tenente-general M.L. Chibber, à época director de operações militares da Índia. “O Paquistão está a ocupar milhares de quilómetros quadrados de terra por sua conta e nós não sabemos de nada!”, anunciou. Pouco depois, Kumar e Chibber descobriram mais provas no “American Alpine Journal”uma equipa japonesa de montanhismo, acompanhada por um capitão do exército paquistanês, visitara a região superior de Siachen dois verões antes. Kumar ofereceu-se para conduzir uma patrulha disfarçada de expedição de montanhismo para reunir informações. Seguiram-se outras patrulhas indianas em finais da década de 1970 e no início da década de 1980. Durante esse período, o Paquistão autorizou várias expedições de montanhismo ao glaciar. Em Agosto de 1983, o exército paquistanês enviou uma carta de protesto formal ao seu homólogo indiano: “Pedimos que instruam as vossas tropas a retirar para trás da Linha de Controlo a sul da linha que une o Ponto NJ9842 e a passagem de Caracórum NE 7410 imediatamente. Dei instruções às minhas tropas para mostrarem o máximo de contenção. Mas quaisquer atrasos na desocupação do território criarão uma situação grave.”

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Um trilho bem mantido dá acesso a um pátio de oração rochoso no posto de  Gora  I. “Nunca falamos com as nossas famílias sobre as  dificuldades”,  diz um soldado. “Dizemos apenas que estamos felizes e a aproveitar a vida.”

O exército do Paquistão reivindicava agora a linha de Hodgson como fronteira. Por essa altura, já a linha fora incluída em dezenas de mapas impressos por diversas agências do governo norte-americano. A influência silenciosa do Gabinete do Geógrafo era tal que a fronteira por si definida chegara aos editores comerciais. No início de 1981, apareceu no “National Geographic Atlas of the World” como uma minúscula linha pontilhada com cerca de dois centímetros de comprimento. Aliás, a National Geographic só deixou de mostrar a linha na edição de 2020 do atlas.

No entanto, Robert Hodgson não viveu tempo suficiente para assistir ao recrudescimento das tensões causado pela sua linha. Em Dezembro de 1979, meses após a publicação da notícia da expedição de Kumar, Hodgson, que fora promovido a director do Gabinete do Geógrafo, morreu de ataque cardíaco. Tinha 56 anos.

O SOLDADO

No dia 13 de Abril de 1984, o exército indiano lançou a Operação Meghdoot. Recorrendo a helicópteros, o exército destacou um pelotão de soldados para ocupar Bilafond La. Não tardou a ocupar duas outras. Com estas acções, a Índia passou a controlar a cordilheira de Saltoro, que se tornaria a linha da frente na batalha pelo glaciar de Siachen e moldou o arquipélago de postos avançados militares que actualmente define o impasse.

Os relatos das linhas da frente do conflito de Siachen são muitas vezes embelezados por noções românticas de patriotismo, mas passar semanas ou meses a grande altitude nada tem de romântico. A cerca de 5.500 metros acima do nível do mar, o organismo humano, carente de oxigénio, começa a entrar em insuficiência. É uma questão de tempo até a morte se tornar inevitável.

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Soldados atravessam um vale glaciar lateral a caminho de Gayari, onde um campo de gelo semelhante soltou uma avalancha acima do quartel-general de um batalhão paquistanês em 2012. O gelo engoliu o acampamento, matando 140 pessoas.

No entanto, em Siachen e nos glaciares em redor, os dois exércitos ocupam mais de cem postos permanentes a grande altitude. A manutenção destes acampamentos exige um esforço logístico estrondoso: é como planear mais de cem expedições de montanhismo em simultâneo e mantê-las continuamente.

Em 2011, Cory Richards acampou junto de um dos postos avançados paquistaneses, durante uma expedição de Inverno ao Gasherbrum II. Ali encontrou os destroços congelados de um helicóptero que se despenhou e um pelotão de soldados curiosos vivendo em acampamentos espartanos. “Tínhamos Internet, por isso eles vinham ter connosco e bebíamos chá juntos,”, diz.

Foi, em parte, esse encontro que nos levou a pedir ao governo do Paquistão que nos deixasse documentar a vida na fronteira de Siachen. Ao longo dos anos, outros jornalistas têm percorrido este trilho e tornou-se claro que o exército do Paquistão tinha um guião bem ensaiado para os visitantes quando nos sentámos para assistir à primeira de várias sessões de esclarecimento realizadas ao longo da nossa visita a algumas bases.

“Contra todas as adversidades, os defensores do K2 ocupam as posições militares mais altas de qualquer parte do mundo”, disse-nos um capitão da Brigada 62. “Seria uma boa referência para incluírem na vossa reportagem.”

A partir do seu quartel-general, na cidade de Skardu, a linha de abastecimento da Brigada 62 serpenteia pelo vale de Braldu acima até à passagem de Conway, a quase seis mil metros de altitude. A última metade da viagem só é possível a pé ou de helicóptero. O exército fez-nos caminhar para nos ambientarmos.

O trilho parece fácil no mapa: um vale amplo e quase sem árvores, rasgado por campos de pedregulhos e riachos de águas borbulhantes. “Para si, é divertimento, mas nós fazemos isto todos os dias,” disse-me um soldado na primeira manhã de caminhada.

Quando chegámos a um acampamento conhecido como Paiju, sentíamos as articulações rígidas e os pés doridos.

As condições de vida no local eram relativamente confortáveis. Um gerador e algumas antenas de satélite permitem uma ligação não fiável ao mundo exterior. Nas instalações dos oficiais, havia um emaranhado de fios desajeitadamente ligado a um pequeno televisor para permitir sessões nocturnas de entretenimento.

“Usamo-la para ver filmes motivacionais”, disse-nos um homem.

“Como o ‘Rambo'?”, perguntou Cory, a brincar.

“Sim, exactamente”, respondeu o homem, com uma expressão séria.

Noutros postos, a vida não é tão fácil. O minúsculo posto avançado de Urdukas, constituído por três iglôs prefabricados de esferovite, encarrapitados sobre uma espectacular plataforma a cerca de 4.000 metros, é ocupado apenas por quatro homens. “É muito aborrecido”, sussurrou um soldado a outro enquanto comíamos roti e um guisado de galinha fibrosa. “Não há telemóveis, nem filmes.” Durante o Inverno, Urdukas recebe apenas quatro horas e meia de luz solar por dia. O acampamento está rodeado por centenas de bidões de querosene – essencial para a vida dos soldados, fornecendo-lhes combustível para cozinhar e proporcionando-lhes aquecimento. No interior de cada abrigo, tudo está coberto de fuligem. Aqui as únicas extravagâncias são o naswar (uma variedade básica de tabaco de mascar) e o ludo, um jogo paquistanês de tabuleiro. “Quando há oficiais, é mais confortável”, resumiu um soldado.

No dia seguinte, encontrámos uma dezena de soldados a descer, após o fim da patrulha de três semanas. Vinham com um ar festivo. Conversei com um capitão simpático, médico, enquanto ele fumava um cigarro. “Correu tudo bem”, disse. “Tivemos de evacuar três homens com edema cerebral de grande altitude, mas isso é normal.”

Até 2003, os dois exércitos trocaram regularmente entre si fogo de barragem de artilharia e disparos de franco-atiradores, mas o cessar-fogo acordado nesse ano deixou pouco que fazer aos soldados. “É como um jogo de futebol”, disse outro capitão sobre a vida na linha da frente. “Geralmente, fazemos avisos levantando uma bandeira vermelha. Avisamos: ‘Por favor, pare de fazer o que está a fazer. As nossas armas estão prontas para disparar.’ Em resposta, eles levantam uma bandeira branca para dizer ‘OK, vamos parar.’” Caso contrário, cada dia é medido em cigarros e chávenas de chá, jogos de voleibol ou críquete, orações e tarefas mundanas.

Tanto a Índia como o Paquistão aprenderam como tratar dos seus soldados neste ambiente, ao longo de 35 anos de guerra na montanha. Os médicos do exército consideram que o envenenamento por monóxido de carbono e os embolismos são males comuns, causados pelo facto de os soldados passarem demasiado tempo sedentários em postos soterrados por neve. Agora, os soldados são obrigados a praticar exercício diariamente. “Cada POP [Procedimento Operacional Padrão] foi escrito com sangue”, disse um coronel.

Antes de virem para aqui, muitos soldados que conhecemos tinham travado combate em zonas tribais na fronteira com o Afeganistão, no âmbito do esforço do governo paquistanês para contrariar o terrorismo islâmico. “Aqui, temos de lutar contra a natureza e a natureza é imprevisível”, disse, pesarosamente, o médico. “Os seres humanos são mais fáceis.”

No Outono de 1985, mais de um ano depois de a Índia tomar posse de Siachen e 17 anos após a publicação da linha de Hodgson, um diplomata indiano enviou um pedido oficial. Esse pedido acabou por chegar à secretária do geógrafo do Departamento de Estado, George Demko, que, tal como Robert Hodgson, fora fuzileiro e servira na Coreia.

Passado mais de um ano, George fez uma actualização nas directrizes cartográficas, declarando que o Gabinete do Geógrafo revira a representação da fronteira entre a Índia e o Paquistão nos mapas norte-americanos e encontrara “uma incoerência na representação e na categorização da fronteira pelas diversas agências de produção [de mapas].” Com vista a corrigir esta representação, escreveu: “A Linha de Cessar-Fogo não será prolongada até à passagem de Caracórum como nas antigas práticas cartográficas.” A linha de Hodgson foi apagada. Embora fosse retirada dos mapas dos EUA, o Gabinete do Geógrafo não explicou sequer a razão pela qual ela alguma vez aparecera.

Alguns anos após a correcção de George Demko, Robert Wirsing, um académico da Universidade da Carolina do Sul que acompanhara de perto o conflito de Siachen, começou a fazer perguntas sobre a linha que outrora figurara nos mapas norte-americanos e depois desaparecera. Tendo descoberto, através de um general indiano, que o governo da Índia pedira uma explicação e não obtivera resposta, enviou cartas ao Departamento de Estado e à Agência Cartográfica da Defesa, inquirindo-os sobre as suas origens.

Em 1992, o sucessor de Demko, William Wood, respondeu. “Nunca houve uma directriz dos EUA para mostrar uma fronteira de qualquer tipo fechando a lacuna existente entre NJ 9842 e a fronteira da China”, escreveu. Wirsing não insistiu.

O RESCALDO

Os funcionários públicos paquistaneses jamais aceitaram levar-nos, a mim e a Cory, a qualquer local perto da linha da frente de onde pudéssemos vislumbrar o ponto NJ9842. Não sei ao certo o que eu esperava ver que não pudesse distinguir ampliando a imagem do Google Earth. É apenas uma designação criada por seres humanos, um ponto solitário numa cumeeira glaciar com um acampamento do exército da Índia nas imediações.

fronteira

Quatro homens alistados no exército mantêm o posto de Urdukas, empoleirado no glaciar Baltoro, a 4.000 metros. Os soldados debatem-se com o tédio, mas o exército do Paquistão orgulha-se da sua disciplina. “Se nos mandarem escalar uma montanha, avançamos”, diz um oficial. Os postos administrativos encontram-se junto de linhas de abastecimento logístico, enquanto os postos de observação se situam nas linhas da frente, ou nas suas imediações, com vista para o inimigo.

Em vez disso, os funcionários ofereceram-se para nos mostrar outro ponto. Subimos para os jipes e percorremos, aos solavancos, uma estrada de terra batida até ao cavernoso vale de Bilafond. Directamente acima de nós, cumes de granito brilhantes reluziam sob o sol da manhã, embora o solo do vale permanecesse obscurecido por sombras profundas. Parámos na margem de um grande campo coberto de pedregulhos.

Neste local, pouco antes das 2h30 da madrugada de 7 de Abril de 2012, o exército do Paquistão sofreu a sua pior derrota no conflito de Siachen, embora o sucedido nada tivesse que ver com os indianos. Um enorme volume de terras desprendera-se e desmoronara-se sobre o acampamento que servia de quartel-general a um batalhão. De acordo com o testemunho prestado por soldados de uma base de artilharia situada a dois quilómetros e meio de distância, registou-se um estrondoso som de derrocada.

“Foi inimaginável”, contou o major-general Saqib Mehmood Malik. Cento e quarenta homens alojados numa dezena de edifícios ficaram sepultados debaixo de mais de 30 metros de rocha, gelo e neve. Passaram-se meses até o primeiro corpo ser encontrado.

Eu e Cory abrimos caminho pelo campo de detritos ainda perigosamente instável. Sinais toscos, feitos de pedaços tortos de telhado, assinalavam a localização prévia de casernas – cada um pintado com o número de cadáveres ali recuperados. Fiquei a pensar: terão estas pessoas morrido devido ao erro de um geógrafo?

A linha de Hodgson “representou definitivamente um papel na guerra que se seguiu. Não a causou, mas foi, decididamente, um factor”, diz Dave Linthicum. Foi ele que descobriu o aerograma de Hodgson enterrado nos registos do Departamento de Estado. Durante anos, Dave manteve uma fotografia de Robert Hodgson afixada no seu gabinete, como “lembrete para não fazer estrago” e “ser responsável”, diz.

Robert Wirsing concorda que a linha representou um papel no conflito, mas acrescenta: “Não tenho razões para pensar que alguém tenha deliberadamente decidido entregar este território ao Paquistão.” Diz também não ter razão para acreditar que venham a ser brevemente negociados quaisquer acordos de paz. Os últimos acontecimentos, incluindo a violência contínua em Caxemira e as tensões fronteiriças entre a Índia e a China, tornam improvável a resolução do problema nos próximos tempos.

Wirsing não concorda que a disputa seja irracional. “Não atribuo grande parte daquilo que se passa entre a Índia e o Paquistão às emoções… Acho que os países estão lá por boas razões, até mesmo estratégicas… tendo em conta a fragilidade das fronteiras naquela região.”

Com efeito, enquanto a humanidade se esforçar por dividir o nosso planeta em polígonos bem delineados, algumas dessas linhas estão destinadas a ser contestadas e homens como Abdul Bilal e “Bull” Kumar serão destacados para combater por elas. A geografia dita os seus próprios termos.

Nota do Editor: A National Geographic pediu ao exército indiano que autorizasse a nossa visita ao glaciar de Siachen, controlado pela Índia. O exército recusou.

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