viriato

Apesar de a Cava nada ter que ver com o herói da resistência indígena contra os romanos, a cidade de Viseu ergueu um monumento a Viriato em 1940.

Desde o século XVII que eruditos e historiadores tentam deslindar a cronologia e a função deste enigmático monumento.

Texto: Gonçalo Pereira Rosa

Escondida à vista de todos, a Cava de Viriato destaca-se na malha urbana de Viseu há mais de um milénio. A memória da sua função e a identidade dos respectivos construtores esfumou-se no tempo. Ficaram as lendas, a tradição oral e as memórias dispersas de eruditos que compreenderam o carácter monumental do recinto, mas aplicaram-lhe camadas de ideologia e de romantismo histórico que contribuíram para aumentar a neblina sobre um espaço sem paralelo em Portugal.

A primeira notícia do monumento que nos chega foi redigida por Frei Bernardo Brito, monge e erudito, pioneiro dos estudos históricos em Portugal no século XVII. Depois de estudar em Itália, regressou à Beira Alta imbuído do classicismo então dominante. Abraçou a tarefa de redigir uma História de Portugal, tendo produzido os primeiros volumes. Visitou o país em busca de vestígios de monumentos da alvorada da nacionalidade. Em Viseu, Bernardo Brito interpretou a Cava como construção romana e atribuiu-a ao pretor Caius Negidius.

cava do viriato

Reconstituição conjectural da Cava de Viriato na transição do primeiro para o segundo quartel do século X. A planta octogonal respeitava o modelo vitruviano das cidades perfeitas do mundo cristão. Ilustração: Anyforms Design

Décadas depois, o historiador viseense Manuel Botelho Pereira reexaminou o monumento e considerou que, embora contemporâneo dos romanos, o monumento teria sido a fortaleza de Viriato, herói da resistência lusitana contra a força imperial civilizadora. Atese “contaminou” os estudos dos duzentos anos seguintes: sem vestígios arqueológicos conhecidos, a interpretação da Cava resultou, em muitos casos, de comparação com estruturas conhecidas e da ideologia do momento. Naturalmente, a associação à comunidade cultural à qual o reino português recorre em busca de inspiração (os lusitanos) teve adeptos. Mesmo no século XX, o geógrafo Orlando Ribeiro e o arqueólogo Mendes Correia tomaram como válida a interpretação.

cava de viriato

A planta da Cava publicada em 1688, na obra de João de Pavia, Descrição da Cidade de Viseu, Suas Antiguidades e Coisas Notáveis em Si e Seu Bispado. Colecção de Pedro Sobral de Carvalho

A Cava tem planta octogonal que delimita 38 hectares de espaço interior. O perímetro é superior a dois quilómetros e o recinto resultou da aplanação do terreno e da escavação de um fosso profundo que permitiu o uso da terra para construção de uma muralha que deverá ter tido quatro metros de altura. A Cava dispunha de sistema de captação e drenagem de águas, bem como da capacidade de manter um nível homogéneo nas águas do fosso.

As primeiras sondagens e escavações arqueológicas no século XX tiveram o mérito de desmontar a tese do acampamento romano… pela ausência de provas. Uma fortificação dessa natureza teria deixado abundantes provas materiais. A aceitar-se a tese, teria de se aceitar igualmente que o maior acampamento romano da Península Ibérica não deixara artefactos e estruturas no seu rasto.

Em 2003, o arqueólogo Vasco Mantas propôs uma cronologia mais tardia, sugerindo a interpretação de que a Cava remontaria ao período alto medieval, à transição entre os séculos IX e X. Nesta perspectiva, poderia a Cava ser uma fortaleza de Almançor, conhecida pelas fontes documentais mas nunca identificada no terreno? Ou, como Jorge Alarcão também propôs como alternativa, corresponderia a uma construção das elites da corte cristã então em ascensão?

viriato

Henrique das Neves escreveu um opúsculo sobre a Cava (1893). Não trouxe interpretações novas, mas teve o mérito de dar conta do estado de conservação da estrutura no final do século XIX.

Os arqueólogos Catarina Tente e Manuel Luís Real argumentaram que, nos séculos IX e X, existiu na região de Viseuum poderconsolidado, que mandou construir moinhos e lagares, reutilizou abrigos rupestres, financiou obras de aproveitamento de levadas para captação e transporte de água e modificou a paisagem para a tornar apta para cultivo.

No mundo islâmico da época, não há precedentes de fortalezas octogonais ou com áreas tão monumentais e o historiador Pedro Sobral de Carvalho argumentou também que, à data de Almançor, a alcáçova de Viseu não se situaria na zona da Cava, mas sim no morro da Sé. Restava portanto a hipótese da fortaleza de inspiração cristã.

Na última década e meia, tem sido consolidada a tese de que a Cava corresponderia a um projecto urbanístico ousado, de construção de uma cidade de inspiração cristã, bem definida, respondendo àquilo que Vitrúvio aconselhara como modelo urbanístico, com torres e perímetro sem ângulos agudos, com oito panos de muralha. Modelos dessa inspiração sobreviveram, aliás, até aos nossos dias nas iluminuras de bíblias e evangelhos de meados dos séculos IX e X.

Não está descartada a possível influência islâmica na construção do monumento enigmático, mas a construção corresponde a um período rico na história de Viseu, durante o qual a cidade foi relevante e acolheu o príncipe cristão Ramiro, entre 926 e 931 enquanto herdeiro da metade sul do reino da Galiza. Poderá ter sido esse o período áureo da Cava, o momento em que o recinto foi programado ea construção iniciada? Catarina Tente e Manuel Luís Real não descartam igualmente a hipótese de o monumento resultar de cooperação e permuta de influência entre as duas civilizações divididas por uma fronteira política e religiosa nem sempre concreta.

mapa viseu

A Cava de Viriato é um dos grandes enigmas da arqueologia portuguesa, sobretudo porque mantém vivas, quase quatrocentos anos depois da primeira descrição historiográfica, as interrogações sobre os seus construtores, a cronologia da sua fundação e o motivo para o seu abandono, pois parece certo que o recinto não foi concluído e foi progressivamente abandonado. A Cava permanece no imaginário como um dos mais belos mistérios do nosso território.

Descubra uma nova visão do mundo!

Assine a National Geographic.

Pesquisar