torre de Londres

A Torre de Londres. Nesta fortaleza, erigida em 1066, foram encarcerados o rei deposto Eduardo V e o seu irmão Ricardo, depois de serem declarados ilegítimos pelo tio Ricardo III.

Após a morte de Eduardo IV, os príncipes foram encerrados na Torre de Londres pelo tio Ricardo. Nunca se soube o que lhes aconteceu.

Texto: John Ashdown-Hill

Em 1483, Londres foi cenário de uma série de acontecimentos que deram lugar a um dos maiores enigmas da história de Inglaterra. Eis os factos certos: em Abril desse ano, o rei Eduardo IV morreu, sucedendo-lhe imediatamente no trono o filho primogénito e herdeiro Eduardo V, um rapaz com apenas 12 anos de idade. O irmão mais novo do rei falecido, Ricardo, duque de Gloucester, foi nomeado regente do reino, o que o deixava encarregado do governo efectivo do Estado.

Elizabeth

A mulher do rei. Elizabeth Widville (ou Woodville) casou-se com Eduardo IV em 1464. O casamento foi mantido em segredo, mas ela conseguiu que fosse reconhecido publicamente. Bela e com ambições políticas, foi uma figura impopular e rapidamente surgiram boatos sobre a nulidade do seu casamento. Eduardo IV, Elizabeth Widville e o futuro Eduardo V. BRIDGEMAN / AC

Pouco depois, o novo rei e o seu irmão mais novo, Ricardo, de 9 anos, foram confinados na Torre de Londres por ordem do seu tio. E no dia 26 de Junho do mesmo ano, uma assembleia dos Três Estados do Reino depôs Eduardo V, declarou que eleeoirmão erambastardos, por se considerar inválido o casamento da mãe, Elizabeth Widville, com Eduardo IV, dado que o rei celebrara anteriormente um contrato matrimonial com outra mulher, Eleanor Talbot. O duque de Gloucester foi nomeado novo rei, com o nome de Ricardo III.

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Os príncipes, dormindo no seu leito da Torre, imediatamente antes de serem asfixiados com uma almofada por um sicário de Ricardo III. Óleo de Ferdinand Theodor Hildebrandt. 1835. Akg / Album

Os príncipes desapareceram poucas semanas depois, sem que fosse dada qualquer explicação oficial sobre quando ou como morreram e onde foram enterrados. Naturalmente, as suspeitas sempre recaíram sobre Ricardo III, um homem ambicioso e sem escrúpulos, acerca do qual não era difícil pensar que pudesse ter ordenado a eliminação daqueles dois rivais dinásticos, embora fossem apenas crianças.

Crime na Torre

Contava-se que, certa noite, o rei enviou à Torre de Londres um cavaleiro da sua confiança, James Tyrell, e dois outros homens para executarem os dois rapazes, asfixiando-os com uma almofada. Os corpos foram rapidamente enterrados junto da base de escadas nessa mesma Torre. Este relato apareceu em crónicas oficiais do século XVI, que serviram de base a Shakespeare para a sua famosa peça de teatro Ricardo III, publicada em 1597. Em 1674, encontrou-se aquilo que parecia ser uma prova definitiva do crime: as ossadas dos príncipes enterradas junto da escada da Torre.

A tradição transformou Ricardo III no modelo de um tirano sangrento e nada como o assassínio de duas criaturas inocentes para confirmar esta reputação.

ricardo III

Durante o reinado de Henrique VII, foi divulgada a história do assassínio das crianças, a mando de Ricardo III. Retrato Anónimo Do Rei Ricardo IIII Século XV. National Gallery. Dea / Album

No entanto, os historiadores actuais viram nesta história muitos pontos obscuros que se prestam a interpretações variadas.

Para começar, existe a  possibilidade de os príncipes terem morrido devido a causas naturais – pelo menos o mais velho, que se sabe ter sempre sido uma criança doente. Em 1475, quando tinha 4 anos, o seu pai duvidava de que vivesse para lhe suceder, pois no seu testamento deixou uma série de legados ao seu filho “se Deus permitir que chegue à idade da discrição” e especificava que, caso ele morresse, deveriam ser entregues a quem fosse “nosso herdeiro”.

tudors

Dos York aos Tudor. No século XV, os duques de York reivindicaram a Coroa inglesa, desafiando a Casa de Lancas- ter e dando origem à Guerra das Duas Rosas (1455-1485). Após a morte de Ricardo III, a dinastia Tudor subiu ao trono (1485-1603).

É igualmente revelador que, no Verão de 1483, quando se encontrava na Torre de Londres, o jovem Eduardo recebesse visitas frequentes do seu médico. Por esse motivo, o rapaz poderá ter sucumbido à doença em finais de Julho de 1483, enquanto estava na Torre. 

As motivações de Ricardo III para matar os príncipes também não são claras. Afinal, recebera o trono inglês de forma perfeitamente legal e pública e, por isso, a sua legitimidade não era questionada. Além disso, mesmo que estivesse decidido a livrar-se deles, é difícil explicar por que razão não anunciou as suas mortes e os enterrou. O que sabemos sobre as circunstâncias em torno do desaparecimento dos filhos de Eduardo IV aponta para outros responsáveis. Com efeito, enquanto Ricardo III e a sua esposa partiram numa viagem pelo seu reino, após a coroação, surgiram em Londres planos para capturar os filhos de Eduardo IV na Torre, não se sabendo se para os resgatar ou matar. Foi proposto que estes factos estariam relacionados com uma revolta contra Ricardo III protagonizada, entre outros, pelo duque de Buckingham, que teria como objectivo repor no trono o rei-criança Eduardo V, o que o obrigava a retirá-lo da sua clausura. Enquanto condestável de Inglaterra, Buckingham tinha autoridade para enviar homens à Torre de Londres e poderá tê-lo feito em algum momento de Julho de 1483, aproveitando a partida do rei.

ossadas torre de londres

Duas mulheres contemplam a escada onde foram encontradas as presumíveis ossadas dos príncipes. Gravura. 1885.

Pertenceriam os ossos aos príncipes?

O que dizer sobre as ossadas descobertas na Torre em 1674? Na década de 1930, uma análise dos crânios mostrou que faltava um dente a ambos.

Alguns autores sugeriram que poderia tratar-se de um defeito congénito próprio da família York, demonstrativo de que os ossos pertenciam às crianças. Não obstante, a descoberta dos restos de Ricardo III em 2012 – num projecto dirigido por Philippa Langley, no qual o autor deste artigo participou – levantou dúvidas sobre essa interpretação, uma vez que o estudo do seu crânio não comprova uma ausência congénita de dentes. Com efeito, não há qualquer certeza de que os ossos da Torre pertençam aos malogrados príncipes.

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