dama romana amadora

Identificado nas campanhas arqueológicas do Moinho do Castelinho, o crânio de um indivíduo do sexo feminino foi minuciosamente estudado, medido e sequenciado. Uma equipa multidisciplinar permitiu chegar a esta aproximação facial plausível da dama romana da Amadora.

Texto: Gonçalo Pereira Rosa
Ilustrações: Câmara Municipal da Amadora / Museu Municipal de Arqueologia / Filipe Franco
Fotografias: Câmara Municipal da Amadora / Museu Municipal de Arqueologia

Numa necrópole na Amadora, emergiu um dos projectos mais interessantes dos últimos anos: a reconstituição de um rosto com quase dois milénios.

No século XVI, Francisco de Holanda, o incansável cronista e desenhador de ruínas e monumentos clássicos, deu conta dos vestígios de um aqueduto romano nos arredores rurais de Lisboa. O humanista chegou a propor a Dom Sebastião a construção de um novo aqueduto a partir do aqueduto romano, na Amadora. Debalde. Como muitas das reminiscências de Holanda, a informação pairou no imaginário dos eruditos posteriores, ora entendida como lenda, ora como sugestão de uma realidade desaparecida. No século XX, animou campanhas de prospecção amadoras, mas entusiásticas, num território então em franco crescimento urbanístico. E viria, por fim, a desencadear uma curiosa descoberta.

Na Falagueira, a escassos metros de uma movimentada estrada, foi encontrada uma villa romana, que viria a ser classificada em 2012 como Sítio de Interesse Público, embora já fosse escavada desde 1997. É a única villa da Antiguidade encontrada no concelho.

As escavações da necrópole associada à villa romana confirmaram duas fases de ocupação na Antiguidade, além de vestígios bastante mais anteriores: a fase ocupacional data da Época Republicana, a partir de meados do século I a.C.; e uma fase funerária, cujos vestígios correspondem ao período entre meados do século III e meados do século V d.C. As arqueólogas Gisela Encarnação e Vanessa Dias extraíram dessa informação os alicerces de um projecto único em Portugal: “Quisemos dar um rosto à villa romana”, conta Gisela Encarnação. “Partimos do fragmento e do sítio arqueológico do qual a maioria das pessoas não consegue extrair toda a informação e tentámos humanizar estas comunidades antigas que viveram na Amadora.”

Das 42 sepulturas identificadas em covachos escavados na rocha, foram escavadas 38 e alguns vestígios ósseos foram datados por radiocarbono. Um dos esqueletos em melhor estado de conservação foi escolhido para personificar o projecto de interpretação de traços fisionómicos sugeridos pela morfologia externa do crânio. “Chamámos-lhe por brincadeira a nossa dama romana”, diz Vanessa Dias. “A datação sugere fortemente que terá morrido entre os anos 321 e 428 d.C., o esqueleto estava quase completo, percebendo-se que teria entre 35 e 45 anos.”

sepultura amadora

O espólio cerâmico e numismático é compatível com esta datação e a sepultura não fora perturbada. Era portanto a candidata perfeita.

“Com as ferramentas modernas, procurámos vencer o tabu da aproximação facial”, conta Gisela Encarnação. “Pretendemos que o processo tivesse a maior cientificidade possível. O osso do nariz, por exemplo, assegura a projecção e reconstituição da volumetria do nariz. A conservação das arcadas permite a reconstituição muscular do rosto. No fundo, todos os traços fisionómicos teriam de ser suportados por evidências anatómicas ou genómicas.” Mas outras surpresas esperavam a equipa quando o processo foi ganhando forma.

A antropóloga Liliana Matias de Carvalho, da Universidade de Coimbra, realizou o exame biológico completo ao esqueleto da dama romana. Mediu todo o crânio, anotando diligentemente as possíveis patologias e os traços que nos distinguem dos restantes seres humanos. A investigadora Yuliet Quintino Arias, do Museu Nacional de História Natural e da Ciência, digitalizou o crânio ao longo de três extenuantes dias. Uma equipa da Universidade de Viena, constituída por Ron Pinhasi e Daniel Fernandes, promoveu igualmente a análise de DNA. “Todo o processo foi pensado para fornecer ao ilustrador Filipe Franco, da Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, o máximo de informação possível sobre a fisionomia da dama romana, já sepultada com uma orientação canónica cristã”, acrescenta Vanessa Dias.

Não foram encontradas patologias significativas na dama romana da Amadora. Tratar-se-ia de uma mulher de 1,65m a 1,69m (alta para os padrões da época), robusta, com um ligeiro afastamento entre os dentes e a marca de uma ligeira protuberância no crânio que tanto pode ter resultado de uma pancada sarada como de um defeito ósseo. O esmalte dentário não revelou stress, nem cáries. “Terá tido seguramente um regime alimentar equilibrado”, diz Vanessa Dias.

A pars petrosa do osso temporal é onde melhor se conserva a nossa informação genética, mas ela pode ser recolhida em todo o esqueleto. A sequenciação do genoma a partir do osso temporal da dama romana permitiu confirmar o sexo do indivíduo, a possível proveniência geográfica dos antepassados, a cor dos olhos e do cabelo e o tom de pele.

Como se faz a reconstituição?

A aproximação facial não é um exercício ad hoc de criatividade artística. A equipa do município da Amadora definiu como premissa que todos os elementos do rosto teriam de ser suportados por evidências antropológicas e genómicas, de forma a que nada ficasse ao acaso. A capacidade de digitalização pormenorizada do crânio e a identificação dos ossos fundamentais foram as razões para a escolha deste indivíduo entre os 38 já escavados na necrópole do Moinho do Castelinho. A antropóloga Liliana Matias de Carvalho conduziu a análise antropológica, medindo todas as facetas anatómicas e procurando patologias e anomalias. Yuliet Quintino Arias conduziu depois a digitalização do crânio em 3D, a exemplo do que já fizera com indivíduos da estação pré-histórica de Atapuerca. Por fim, foi sequenciado o genoma a partir do DNA antigo preservado nos ossos temporais, apurando traços essenciais da ascendência do indivíduo. Todos estes dados foram fornecidos ao ilustrador Filipe Franco, que os cruzou com dados de referência já acumulados na Europa para indivíduos do mundo romano. A partir daí, o rosto foi ganhando forma – primeiro, em 2D e mais tarde na versão em 3D.

A equipa contactou então Ron Pinhasi, um dos especialistas europeus em sequenciação de DNA antigo. Ao comparar os dados obtidos na leitura do genoma com as tabelas já existentes para indivíduos deste período, a equipa acabou por perceber que a mulher teria grande proximidade genética com as populações ancestrais que habitaram as regiões da Sardenha, Sicília e Península Ibérica. Durante as suas pesquisas, o ilustrador Filipe Franco referiu que, actualmente, na Sardenha, os olhos e cabelos claros são características frequentes na população. A restante aproximação facial e composição do penteado apoiou-se também em representações artísticas na estatuária do século IV/V d.C. que a arqueóloga Vanessa Dias pesquisou.

Após uma maratona de exames que permitiu a definição de um rosto para um esqueleto da Antiguidade, a equipa pretende repetir o processo com um segundo indivíduo da necrópole do Moinho do Castelinho, cujo rosto possa também ser trazido à luz do dia. “O município da Amadora figura quase sempre nas notícias de forma ingrata”, diz Gisela Encarnação. “Quisemos com este projecto encontrar no património colectivo um factor de identificação e aproximação cultural. A arqueologia não é só o estudo de um monte de cacos.”

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