Buda 

Nascido no meio do luxo, o príncipe Siddhartha Gautama, que viria a ser conhecido como Buda, abandonou tudo para embarcar na busca de um processo que libertasse o ser humano do sofrimento.

Uma religião sem Deus que persegue a libertação do ser humano e o acesso ao estado definitivo de nirvana, termo chave que significa a “cessação de todo o sofrimento”, foi o que pregou e ensinou, por volta do século VI a.C., um príncipe indiano chamado Siddhartha Gautama, mais conhecido pelo apelido de Buda, “o desperto”, “o iluminado”. Hoje, com mais de quinhentos milhões de adeptos, o budismo que fundou é a quarta religião mais importante do mundo.

Entre a história e o mito

Quando falamos de Buda, é difícil separar o que pertence ao plano do mito e da lenda do histórico. Por outro lado, os limites entre um aspecto e o outro esfumam-se em muitas situações, devido em parte ao facto de a tradição budista pouco interesse ter manifestado pela dimensão mundana do seu mestre fundador, à excepção dos acontecimentos em que é possível extraírem-se aspectos reveladores da sua doutrina ou lições úteis para os adeptos. Isso faz que nem sequer haja acordo relativamente às datas em que Buda viveu. As fontes neste tema apenas coincidem em duas referências: que aos 35 anos o príncipe alcançou a luz e que aos 80 morreu.

Ainda assim, foram realizadas várias tentativas de datação. A versão mais difundida, pelo menos no Ocidente durante o passado século XX, é a que situa o nascimento entre os anos 566 e 563 a.C., e a sua morte entre 486 e 483 a.C. Mas esta cronologia tem sido posta em causa nos últimos tempos com base nos testemunhos arqueológicos, pelo que as datas foram avançadas até situar a morte de Buda entre 420 e 380 a.C. A tradição budista teravada, por seu lado, atrasa consideravelmente o nascimento do “iluminado”, situando-o em 623 a.C.

Buda

O BUDA GIGANTE DE LESHAN. Com 70 metros de altura, o grande Buda da cidade chinesa de Leshan é a estátua budista esculpida em pedra mais alta do mundo. Foi construída no século VIII.

Segundo as lendas budistas, Buda foi a última reencarnação de uma série de personagens que se destacaram pelas suas virtudes. A penúltima, o príncipe Vishvantara, foi um modelo de generosidade perfeita. Tantos foram os méritos que Buda acumulara nessas existências, que, quando Vishvantara morreu, as divindades ou devas lhe pediram que ele próprio escolhesse a mais virtuosa das mulheres para que fosse sua mãe. Escolheu Mahamaya, um nome que significa “ilusão”. Esta era esposa de Shuddhodana Gautama, o rei de um pequeno Estado nas encostas dos Himalaias, Sakia, que é frequentemente situado em Kapilavastu (actual Nepal). Mahamaya deu à luz num pequeno bosque próximo de Lumbini (também situada no actual Nepal), de onde era originária a sua família. O parto foi excepcional em todos os sentidos: foi indolor e a criança surgiu directamente do mesmo lado direito vislumbrado num sonho que Mahamaya tivera. O nascimento foi limpo, sem qualquer mancha de sangue, o que foi imediatamente interpretado como um símbolo de pureza. Poucos dias depois, a mãe morreu. Desta forma, o ventre que dera à luz o que viria a ser Buda evitava ser profanado com a concepção de um novo ser, que, em comparação ao seu irmão, só poderia ser imperfeito. O pequeno órfão ficou então aos cuidados de uma das suas tias maternas, Majaprajapati Gotami.

Dos prazeres ao sofrimento

O menino recebeu o nome de Siddhartha, que significa “Aquele que alcança o seu propósito.” O rei Shuddhodana apresentou-o, então, a um grupo de sábios brâmanes, sete dos quais confirmaram o mesmo dos que tinham interpretado o sonho de Mahamaya, enquanto o último afirmou ter reconhecido no pequeno as marcas de um Buda. Shuddhodana educou o seu filho como um príncipe, rodeado de luxo e todos os tipos de prazer em três palácios construídos especificamente para ele: um para o Verão, um para o Inverno e um terceiro para a estação das chuvas. O que o rei pretendia, desta forma, era afastá-lo de toda a tentação pela vida religiosa, a fim de que se cumprisse a parte da profecia que se refere a um grande monarca e não à de um santo. Assim, isolou-o também de tudo o que tivesse que ver com sofrimento e dor humanos, a velhice, a doença ou a própria ideia de morte, conceitos que poderiam despertar no jovem o desejo de conhecer melhor as condições de vida dos homens e das mulheres, e tentar encontrar uma solução para estes problemas através da religião. Tal estratégia parece ter funcionado, pois o príncipe Siddhartha chegou à adolescência sem ter mais preocupações além da satisfação dos seus prazeres sensoriais e imediatos. Aos 16 anos de idade, o seu pai casou-o com uma prima, a princesa Yasodhara.

Tudo mudou quando tinha 29 anos. Siddhartha quis finalmente conhecer o que existia por detrás dos altos muros do seu palácio, pelo que entrou numa carruagem e partiu furtivamente para uma descoberta que mudaria radicalmente a sua vida.

Avisado desse propósito, Shuddhodana ordenou aos seus soldados que libertassem a rota que o príncipe deveria seguir de tudo o que pudesse ferir a sua sensibilidade e desvendar-lhe esse mundo real que tanto se esforçara por lhe ocultar.

buda e as doutrinas

BUDA E A SUA DOUTRINA: AS QUATRO NOBRES VERDADES. Buda não era um deus, mas sim um homem que conseguira libertar-se do sofrimento. Por- tanto, o mesmo caminho que percorrera po- deria ser seguido por qualquer outra pessoa. O príncipe formulou assim “as quatro nobres verdades”, fundamentos de toda a sua doutrina.

Para curar alguém de doença (e o sofrimento, embora espiritual, é uma doença), é preciso primeiro um diagnóstico para depois estabelecer um tratamento que conduza à cura. Foi o que Buda fez com as suas quatro nobres verdades: “nobres” no sentido de que captam a essência da verdade universal e conduzem à libertação final dos indivíduos. A pri- meira assegura que a vida implica sofrimento:“O nascimento é sofrimento; a velhice é sofrimento; a morte é sofrimento”. Asegunda verdade aponta para que a causa desse sofrimento não seja outra que não o desejo, “o desejo por prazeres sen- soriais, o desejo de existir e de devir, e o desejo de inexistir”. Assim, chegamos à terceira verdade, a de que esse sofri- mento termina quando termina esse desejo, na sua renúncia e abandono.A fórmula para que esse desejo termine constitui a quarta verdade: a prática do chamado “nobre caminho óc- tuplo.” Isto é: “Compreensão correcta, pensamento correcto, palavra correcta, acção correcta, modos de vida correctos, esforço correcto, atenção correcta e concentração correcta.” Na imagem, Buda rodeado pelos seus discípulos (Museu Nacional da Índia, Nova Deli).

Pobres, mendigos, doentes, aleijados... Tudo foi cuidadosamente escondido. Houve, no entanto, um velho de cabelo e corpo trémulo que escapou ao zelo dos guardas. Siddhartha viu-o e, de imediato, se sentiu profundamente perturbado por aquela visão, mais ainda quando o seu cocheiro, Chandaka, lhe disse que não se tratava de algo de excepcional, uma vez que velhice e as suas doenças faziam parte da condição humana.

Em vão, o pai  tentou distraí-lo  com  novas e ainda mais deslumbrantes festas. Siddhartha ficara realmente impressionado com a descoberta da velhice. E longe de se isolar no palácio, queria saber mais sobre aquele mundo desconhecido que se abria por trás da segurança do palácio. Nos três dias seguintes, voltou a fazer outras saídas  e,  em  todas  elas,  aprendeu  novas e perturbadoras coisas: no primeiro desses dias, descobriu a doença em  forma  de  um  homem com um corpo marcado por  chagas  purulentas; no segundo, a morte, na forma de um cadáver conduzido à pira. A velhice, a doença e a morte eram-lhe reveladas pela primeira vez, provocando-lhe um certo estado de angústia que não sabia explicar. O último encontro, abriu-lhe os olhos para o sentido religioso da vida: dessa vez, o que viu foi um peregrino que renunciara ao mundo, aos seus prazeres, mas também aos seus sofrimentos, o que se reflectia no seu rosto sereno. Se as descobertas anteriores tinham deixado o príncipe com o espírito perturbado, esta última funcionou como uma espécie de revelação.

Estes “quatro encontros”, como são denominados na tradição budista, foram decisivos na conversão de Siddhartha em Buda, pois levaram-no a decidir abandonar a sua família e o luxo em que vivia para empreender uma nova existência, marcada pelo ascetismo. No próprio dia em que determinou o propósito de dar esse passo, soube que a sua esposa Yasodhara tinha dado à luz o seu primeiro filho.

Siddhartha deu-lhe o nome de Rahula, que significa “impedimento”, pois considerou aquele nascimento como uma tentativa de amarrá-lo àquele mundo que se dispunha a abandonar. Mas a sua decisão era firme e nem sequer este nascimento conseguiu deter o que veio a chamar-se a abhiniskramana, a “grande renúncia”.

buda

A DIFUSÃO DO BUDISMO. Esta estátua de Buda encontra-se numa das 29 grutas artificiais de Ajanta, Índia, que foram escavadas entre os séculos II a.C. e VII d.C. Buda pregou a sua doutrina sem excluir ninguém, nem sequer os assassinos ou os canibais. De reis a servos, poucos resistiam à sua palavra.

Desta forma, pela noite, o príncipe abandonou o seu palácio. O seu cocheiro Chandaka e o cavalo Kandaka eram os seus únicos acompanhantes. Quando se considerou suficientemente longe e a salvo, Siddhartha libertou-se das suas ricas vestes e jóias, e entregou-as a Chandaka para que, com o cavalo, regressasse para casa e pedisse à sua família que não o procurassem, pois decidira começar uma nova vida e apenas regressaria se conseguisse alcançar a luz.

Em busca da luz

Siddhartha iniciou, assim, uma nova etapa da sua vida, como peregrino mendicante. Esta estendeu-se ao longo de seis anos, durante os quais o príncipe mortificou o seu corpo, privando-o de alimento e sono. Através  dessa  via  ascética, e dos conselhos de dois  mestres  de  ioga com os quais contactou, Alara Kalama e Udaka Ramaputta, o príncipe aprendeu a controlar a sua mente até conseguir entrar em transe. No entanto, Siddhartha mostrava-se insatisfeito. Não se contentava em fundir a sua alma individual com o absoluto, aspirando a muito mais, a uma iluminação que servisse para libertar a humanidade dos seus sofrimentos. Como tal, a determinada altura, decidiu abandonar esta via por se revelar infrutífera e porque, ao persistir no rigor ascético, no jejum e na mortificação, a única coisa que conseguiria seria morrer e começar de novo reencarnado num outro corpo. De facto, a sua debilidade era tal que um dia estava prestes a morrer afogado enquanto tomava banho. Foi na aldeia de Sena. Uma jovem aldeã, chamada Sajata, compadeceu-se dele e ofereceu-lhe uma tigela de arroz com leite e mel, que Siddhartha aceitou com prazer. Foi assim que o príncipe abandonou o ascetismo e empreendeu um caminho a que chamou “médio”, pois baseava-se na moderação na alimentação e no sono. Para os cinco ascetas que, maravilhados com o seu sacrifício, tinham decidido tomá-lo como mestre e segui-lo, tal atitude foi considerada como uma espécie de traição. Consequentemente, abandonaram-no escandalizados.

Uma vez restabelecido, Siddhartha sentou-se debaixo de uma figueira em Bodh Gaya com o propósito de não se voltar a levantar até que tivesse encontrado a verdade definitiva das coisas. Foi então que a iluminação aconteceu, isto é, a compreensão de que o sofrimento humano está intimamente ligado à própria existência e que a única forma de o eliminar consiste em entrar no nirvana, um estado de paz perfeita em que a alma se liberta da ignorância, do ódio, da paixão, do desejo, da ambição…

roda do dharma

A RODA DO DHARMA. A roda do dharma ou dharma chakra, como é chamada em sânscrito, um dos símbolos mais difundidos do budismo. Representa o dharma, ou seja, a “lei” ou a “religião”. O seu centro significa disciplina, aspecto essencial na meditação; o aro, concentração, e os raios, as diferentes vias de realização. A roda no seu conjunto simboliza a perfeição do ensiname to budista. Na imagem, roda do dharma conservada no Museu Nacional de Banguecoque.

Durante sete semanas, continuou a meditar à sombra daquela figueira ou árvore bodhi (“da iluminação”), como passou chamar-se a partir de então. Esse período serviu-lhe para compreender, entre outras coisas, que o que tinha descoberto podia ser transmitido também a outras pessoas, pois não se tratava de nenhum processo sobrenatural, nem era, tão-pouco, necessária a mediação de um deus para o alcançar. O príncipe Siddhartha converteu-se, assim, em Buda, “o desperto”, e decidiu fazer-se ao caminho e espalhar os seus ensinamentos. Os primeiros discípulos de Buda foram os mesmos ascetas que o tinham abandonado, mas que de novo se aproximaram dele, ao terem percebido, pela sua expressão, que alcançara o conhecimento pleno por ele próprio, enquanto eles tinham feito tantos sacrifícios em vão. Foram os primeiros membros da sangha, a comunidade de monges budistas. A eles juntaram-se dois comerciantes, Trapusha e Bhallika, que tinham oferecido alguns alimentos a Buda quando este ainda se encontrava sentado a meditar sob a árvore bodhi. Foram os seus primeiros seguidores laicos. Mais tarde, chegou a conversão de Yashas, um jovem de uma família abastada. A comunidade cresceu rapidamente, até atingir o número de sessenta discípulos que Buda enviou para difundirem os seus ensinamentos pelo mundo. Foi também isso que ele fez. Nos anos que lhe restavam de vida, Buda viajou por toda a planície do Ganges, ensinando os outros a alcançar a verdade por si mesmos.

A reconciliação e o fim

O seu pai Shuddhodana não foi excepção, apesar de a conversão do filho, que ele tanto temera, ter sido uma decepção para ele. Depois de enviar várias delegações, cujos integrantes se tornaram adeptos do budismo, conseguiu finalmente que Buda regressasse ao reino em que tinha nascido, ficou magoado ao vê-lo reduzido à condição de mendicante: “A nossa é uma linhagem guerreira, nunca ninguém pediu esmolas”, censurou-o. Ao que Siddhartha respondeu: “Não será o costume da sua linhagem real, mas sim a do meu Buda. Vários milhares de Budas passaram as suas vidas pedindo esmolas.” O encontro mais emocionante terá sido com Rahula, o filho nascido no dia em que Siddhartha decidiu deixar o palácio. Já tinha 7 anos e foi um dos convertidos à doutrina budista. Shuddhodana, pelo contrário, resistiu: só se converteu já no seu leito de morte.

mandala

AS MANDALAS BUDISTAS. No âmbito da tradição budista, uma mandala (palavra que provém do sânscrito e que significa “círculo” ou “cercado”, “roda sagrada”) é uma espécie de diagrama cosmológico que simboliza a esfera sagrada ou espiritual, e cuja função é guiar visualmente o iniciado na sua meditação. As mandalas têm significados secretos, internos e externos, e também podem ser utilizadas como objectos rituais e talismãs protectores.

1. MANDALA CURATIVA.

Esta mandala do século XIX é dedicada a Buda como Bhaishajyaguru ou mestre da medicina (Museu Rubin de Arte, Nova Iorque).

2. A POSIÇÃO.

O centro está ocupado pelo sutra Prajnaparamita ou da Perfeição da Sabedoria rodeado por oito imagens de Buda.

3. AS IMAGENS PERIFÉRICAS.

O círculo central está rodeado por novas imagens budistas numa moldura quadrangular. Entre outros sentidos, o seu carácter concêntrico simboliza a subida para a perfeição.

Aos 80  anos,  Buda  retirou-se  para  a  cidade de Kushinagara, a fim de, tal como disse aos seus discípulos, se preparar para a chegada do paranirvana, a extinção voluntária e definitiva do ser. A tradição afirma que, estando em casa de um ferreiro chamado Chunda, ficou gravemente doente por ter ingerido alimentos em mau estado, senão mesmo envenenados. Sobreviveu, mas ele próprio sabia que o seu fim estava próximo e comunicou-o aos seus discípulos. Chegada a hora, procurou na periferia dessa população um local adequado e, depois de o encontrar entre duas árvores de sal, recostou-se sobre o lado direito e com o rosto voltado para norte para se entregar à que seria a sua última meditação. As suas últimas palavras foram: “Todas as coisas contingentes são não permanentes; esforcem-se por se libertarem delas com diligência.” Depois disso, fechou os olhos e, recolhendo-se sobre si mesmo, faleceu.

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