Marco Crasso

SARCÓFAGO LUDOVISI. Este sarcófago, datado do século III, recria uma sangrenta luta entre romanos e bárbaros. Museu Nacional das Termas, Roma.

Após a derrota de Carras, em 53 a.C., os partos capturaram legionários. Anos mais tarde, o seu rasto reapareceria na China.

Texto: Jorge Pisa Sánchez

No dia 9 de Junho do ano 53 a.C. Roma sofreu um dos maiores desastres militares da sua história. Dois exércitos, à primeira vista muito desiguais, confrontaram-se no Sudeste da Turquia, nos arredores de Carras (a actual Haran). O exército romano, chefiado pelo triúnviro Marco Licínio Crasso, dependia da infantaria pesada, sendo constituído por 36.000 a 42.000 homens. Segundo Plutarco, este número abrangia sete legiões (cerca de 28.000 legionários), 4.000 soldados de infantaria ligeira e 4.000 soldados de cavalaria. O exército parto, comandado pelo nobre Surena, apoiava-se essencialmente na cavalaria, formada por um corpo de 1.000 soldados catafractários (cavalaria pesada) e 9.000 arqueiros a cavalo. O ataque combinado da cavalaria pesada e dos arqueiros a cavalo partos decidiu o resultado do confronto, no qual morreram cerca de 20 mil guerreiros romanos, incluindo o próprio Crasso.

Prisioneiros deportados

Parte dos sobreviventes romanos conseguiu escapar e regressar ao território romano, ao passo que os restantes (segundo as fontes cerca de dez mil homens), foram feitos prisioneiros. Plutarco conta-nos que os cativos foram levados para Selêucia do Tigre, perto da capital parta, Ctesifonte, ali sendo obrigados a participar numa paródia de desfile triunfal.

Marco Crasso

Romanos fixados na China? Em 1993, escavações arqueológicas na actual povoação de Zhelaizhai, na província chinesa de Gansu, revelaram os vestígios de uma antiga guarnição. Os arqueólogos escavaram um muro e encontraram fragmentos cerâmicos e metálicos da dinastia Han. O mais curioso foi, sem dúvida, a descoberta de uma grande pedra de granito, gravada com motivos de aparência ocidental, e de quase cem esqueletos humanos datados do ano 180 d.C., muitos dos quais com mais de 1,80 metros de altura. Ter-se-á instalado aqui um grupo de legionários de Crasso? Independentemente do sucedido, a última palavra pertence à arqueologia. Imagem: Fragmento metálico com inscrições em chinês e ponta de seta, descobertos em Zhelaizhai e expostos no museu local.

A derradeira notícia que deles ficou é dada por Plínio, o Velho, afirmando que os prisioneiros sobreviventes foram instalados na cidade de Alexandria, em Margiana (a actual Merv), no Turquemenistão, depois de serem obrigados a percorrer uma distância de cerca de 2.500 quilómetros. A deportação de prisioneiros para territórios distantes era uma prática habitual nos impérios do antigo Irão, uma vez que dificultava qualquer tentativa de fuga dos prisioneiros e procurava aproveitar a sua experiência técnica e militar na defesa das fronteiras. A partir deste ponto, o destino dos prisioneiros romanos de Carras permanece envolto em mistério. O mais lógico, sem dúvida, é que esses milhares de homens se tivessem casado com mulheres locais, integrando-se plenamente na sociedade parta.

Foi precisamente o que o poeta Horácio sugeriu, criticando, numa das suas odes, escrita cerca de trinta anos mais tarde: “Terão os soldados de Crasso conseguido viver – oh, maridos desgraçados! – casados com uma mulher bárbara? Terão podido envelhecer armados na casa dos seus sogros?”

Apesar disso, na década de 1950, um sinólogo norte-americano, Homer H. Dubs, encontrou em fontes históricas chinesas indícios de que pelo menos um grupo destes romanos viveu novas peripécias.

Marco Crasso

A maldição de Ateio. Segundo Plutarco, ao ver-se impossibilitado de impedir a partida do exército de Crasso para uma guerra que considerava injusta, o tribu- no da plebe Ateio “irrompeu nas mais horrendas e espantosas imprecações, invocando e chamando pelo nome deuses terríveis e estranhos”. Os seus concidadãos, assustados, acreditaram que isto atraíra uma maldição sobre Roma. Fotografia: Marco Licínio Crasso. Busto de Mármore. Museu do Louvre, Paris.

Mercenários romanos?

Segundo as crónicas da dinastia Han, no ano 36 a.C. um exército chinês, liderado pelo general Gan Yen-shou, empreendeu uma campanha militar contra os xiongnu, cujas agressões ameaçavam a segurança comercial da Rota da Seda.

 Este povo nómada fixara-se na região do rio Talas, na Ásia Central, não muito longe da fronteira com o Império Parto. Durante o ataque à capital xiongnu, as forças chinesas repararam na presença de um estranho contingente de mais de cem soldados de infantaria, que defendiam uma das portas da cidade dispostos numa formação semelhante a “escamas de peixe”. A crónica indicava ainda que fora instalada uma dupla paliçada defensiva de madeira no exterior da cidade.

Para Homer H. Dubs, esta descrição das crónicas chinesas referia-se aos soldados romanos. As “escamas de peixe” seriam uma referência à famosa testudo, ou formação em tartaruga, típica das legiões romanas e as paliçadas duplas evocariam um recurso defensivo próprio da táctica romana. Se aceitarmos esta interpretação, os soldados romanos da capital Xiongnu não seriam senão os prisioneiros de Carras deportados para a região de Margiana, situada a “apenas” 800 quilómetros do território xiongnu. As provas parecem indicar que pelo menos alguns deles teriam conseguido escapar do cativeiro parto, sendo contratados como mercenários pelo líder dos xiongnu.

Marco Crasso

As crónicas chinesas contam-nos igualmente que os membros deste estranho destacamento sobreviveram à captura da cidade e, devido à bravura demonstrada em combate, os chineses decidiram empregá-los na defesa das suas próprias fronteiras. Por essa razão, transferiram-nos para o povoado de Liqian, perto da actual Zhelaizhai, na província chinesa de Gansu. O nome do próprio povoado, Liqian, é invocado como prova desta deslocação, que poderia ser uma referência a Roma (os chineses chamavam Li Qian ao Império Romano) ou também poderia ser uma pronúncia incorrecta da palavra legião. Também foram esgrimidas como provas as características físicas de tipo ocidental existentes entre a população da zona, como narizes aquilinos, cabelos encaracolados, castanhos e ruivos, ou a existência de pessoas com olhos azuis ou verdes, apesar de Liqian ter sido destruída no século VIII num ataque desferido pelos tibetanos.

O mistério continua

A hipótese proposta por Homer H. Dubs e desenvolvida por alguns académicos não foi aceite por todos os especialistas. Segundo algumas observações, a teoria assenta em provas indirectas e circunstanciais, destacando-se, em particular, que não existe nenhum vínculo directo que relacione os prisioneiros de Carras com o destacamento de soldados que defenderam a capital Xiongnu e a posterior fundação de Liqian.

marco crasso

De Roma à China. Este mapa mostra o itinerário necessariamente percorrido pelos homens da legião perdida entre Carras, na Turquia, e o seu presumível destino final na China, na localidade de Liqian, numa distância total de cerca de seis mil quilómetros.

Assim, a referência das fontes chinesas a uma unidade de soldados que lutava em formação de “escamas de peixe” indicaria apenas a presença de tropas desconhecidas do exército chinês na defesa da capital. Além disso, o uso de paliçadas defensivas duplas não seria algo exclusivo das legiões romanas. Também não é claro o significado do termo Liqian ou Li-chien nas fontes chinesas antigas: poderia referir-se a diferentes locais do Próximo Oriente ou da Ásia, como a cidade de Petra, regiões da Média e da Hircânia, ou a alguma das diversas Alexandrias fundadas por Alexandro Magno no século IV a.C., embora seja mais provável que designasse o longínquo Ocidente desconhecido dos chineses.

No que diz respeito à ascendência romana reivindicada pelos habitantes da região de Zhelaizhai, os recentes estudos genéticos realizados na zona parecem refutar essa ligação.

Por conseguinte, o destino final da legião perdida de Crasso continua, até hoje, envolto em mistério. Um final, o seu, que só poderá resolver-se com a descoberta de novas provas históricas e arqueológicas no futuro.

Marco Crasso

O exército de Crasso dirigia-se para Ctesifonte, capital do Império Parto, quando caiu numa armadilha montada pelos partos em Carras. Na imagem, fachada do Palácio de Ctesifonte, no actual Iraque.

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