tanger e arzila

ENTRADA EM TÂNGER.As tapeçarias de Pastrana são, acima de tudo, um instrumento de propaganda épica. Dom Afonso V figura nelas com proeminência, nas fases decisivas da entrada em Tânger e da conquista de Arzila. Neste plano, monta a cavalo à entrada da primeira cidade. Paço Dos Duques, Guimarães

O Algarve d’Aquém e d’Além-Mar simboliza a dimensão cruzadística da ampla política expansionista protagonizada por Dom Afonso V. Em 1471, o Africano vingou a derrota de seus tios em 1437.

Texto: João Paulo Oliveira e Costa

Quando Dom Afonso V penetrou sem luta no recinto amuralhado de Tânger, provavelmente no dia 1 de Setembro de 1471, completou-se um ciclo das campanhas marroquinas da coroa portuguesa. O monarca conquistara Arzila a 24 de Agosto após duros combates e impiedosa mortandade. As notícias correram céleres e a população de Tânger, atemorizada e sabendo que seria incapaz de resistir ao assalto dos quase vinte mil homens que o rei de Portugal trazia, preferiu fugir.

Dom Afonso V avistara a cidade cerca de duas semanas antes. Desejava muito conquistá-la, mas acatou a sugestão dos seus conselheiros de começar por Arzila, para isolar ainda mais a urbe cobiçada. Oito anos antes viera a África com uns poucos milhares de homens na esperança de ganhar Tânger por ardil, mas o golpe fracassara e muitos fidalgos pereceram nos combates, incluindo Dom Diogo Coutinho, conde de Marialva. Após essa derrota, o monarca palmilhara as montanhas do Rife, talvez na esperança de que os mouros de Arzila lhe abrissem as portas. No entanto, também as portas permaneceram fechadas e, no regresso a Ceuta, foi envolvido pelos inimigos numa emboscada de que só saiu vivo porque Dom Duarte de Meneses, conde de Viana, o protegeu com sacrifício da própria vida.

Tanger

HUMILHAÇÃO E REDENÇÃO. Tânger marca algumas humilhações nos impulsos militares, já que os contingentes portugueses foram ali derrotados em 1437 e em 1463. Oito anos depois, a cidade foi tomada sem oposição, pois fora abandonada. Boris Stroujko / Shutterstock

O rei, na verdade, avistara Tânger pela primeira vez em 1458, quando passou ao largo da cidade antes de conquistar a pequena vila de Alcácer-Ceguer. Ao sabor da ondulação que agitava o navio, pôde ver então o local onde seus tios Dom Henrique e Dom Fernando haviam falhado desastradamente, em 1437.

Talvez estivesse com ele algum veterano dessa expedição infeliz que lhe tenha explicado onde os infantes, inadvertidamente, tinham montado o palanque, sem contacto com o mar, o que redundou na perdição da hoste e no fatal aprisionamento do infeliz infante Dom Fernando. Com ou sem explicações, decerto o monarca se lembrou então da tristeza e angústia que a derrota de Tânger inculcara no espírito de seu pai, Dom Duarte, que o mantiveram atormentado até à morte. Rui de Pina, afirma que, em 1471, quando se assenhoreou de uma Tânger abandonada, “entrou já sem o ardente desejo de sua destruição e vingança em que sempre vivia”. As palavras do cronista ilustram de modo certeiro, o turbilhão de sentimentos que assaltaram o espírito de Dom Afonso V nesse dia de amargo triunfo. Tomara a cidade, mas não vingou nem o pai nem o tio.

cronologia da batalha

De novo vencedor dos mouros em África, Dom Afonso V viu crescer o seu prestígio no seio da cristandade e recebeu elogios rasgados da Santa Sé, ao mesmo tempo que a jornada de Arzila era imortalizada num conjunto de tapeçarias, hoje ditas de Pastrana que representam um dos ex-libris do reinado afonsino.

A posse de Tânger oferecia uma base excelente de penetração no reino de Fez, mas a cidade só viria a ser usada desse modo passado um século quando Dom Sebastião aí desembarcou, em 1578, à frente do exército que seria derrotado em Alcácer-Quibir.

A conjuntura político-militar era favorável ao Africano, cognome que lhe deram pelo empenho especial que devotou durante muitos anos às conquistas no Algarve d’Além-Mar. Com efeito, dispunha de milhares de homens de armas bem adestrados e entusiasmados com as vitórias e os saques, que incutiam medo nos naturais do reino de Fez, como se provava pela fuga da população de Tânger, ou pelo facto de Tetuão, Larache e Anafé, vilas contíguas às fortalezas nas mãos dos portugueses, estarem igualmente despovoadas. Em contrapartida, o reino de Fez estava dividido pela guerra civil e, além disso, o território marroquino estava retalhado sob vários potentados, inimigos entre si, em que avultava o emir de Marraquexe. Seria de presumir que o Africano aproveitasse a ocasião para alargar os seus domínios. Todavia, Dom Afonso V tomou uma decisão diferente e celebrou um acordo de tréguas por 20 anos com o rei de Fez.

o africano

O AFRICANO. No Jardim do Palácio das Galveias, em Lisboa, um painel de azulejos representa todos os reis de Portugal até Dom João VI (mas exclui os três reis espanhóis). Dom Afonso V exibe a pose guerreira que se esperaria de um monarca com forte pendor militar. Nuno Zaragota

O rei tinha então 39 anos pelo que adiava a guerra com os mouros para quando tivesse 59 anos, se fosse vivo. Na verdade, a grande maioria das pessoas não atingia sequer os 50 anos, como sucederia com o próprio Dom Afonso V que viria a falecer a 28 de Agosto de 1481, aos 49 anos de idade. Quer isto dizer que, assim que ocupou a cidade de Tânger, o Africano deu por encerrado o seu empenho nas campanhas marroquinas. Apesar da situação vitoriosa em que se encontrava, em Setembro de 1471, o rei poderá ter entendido que era mais importante consolidar as conquistas realizadas e tentar ocupar as praças desocupadas de Tetuão, Larache e Anafé, mas, ao fixar as tréguas em vinte anos, deixava bem claro que não pensava regressar a África.

rui de pina

O CRONISTA RUI DE PINA. Na tradição portuguesa dos grandes cronistas, Rui de Pina fi- gura certamente com destaque, pois descreveu os reinados de Dom Duarte, Dom Afonso V e Dom João II. Nascido aproximadamente em 1440, assistiu em primeira mão a vários episódios relevantes, como a abertura das Terçarias de Moura em 1481. Dom João II atribuiu-lhe a missão de escrever sobre a história que presenciara e o cronista não se fez rogado: nos frontispícios das suas crónicas, está representado, oferecendo de joelhos a Dom Manuel I o fruto do seu trabalho. Fronstispício da Crónica de Dom Afonso V, Arquivo Nacional da Torre do Tombo

Parece, por isso, que a imagem tradicionalista que nos mostra este monarca como um rei apenas obcecado pela Cruzada em África não pode ser aceite passivamente. Na verdade, ao longo do seu reinado, Dom Afonso V sempre deu atenção a todos os rumos da Expansão Portuguesa, inclusivamente à exploração do Atlântico e ao alargamento dos negócios na Guiné. Em 1468, arrendou o comércio a sul do Bojador a Fernão Gomes, mas continuou a dirigir as viagens de descobrimento, como refere Rui de Pina e como se depreende do texto da renovação do contrato, celebrado em 1473. Parece, pois, que a sua grande obsessão era mesmo a captura de Tânger, cidade que se misturava muito provavelmente com as suas memórias infantis mais tristes.

tanger e arzila

MEMÓRIA VISUAL. Pormenor de uma das tapeçarias de Pastrana, encomendadas na oficina flamenga de Tournai e doadas no século XVII à Igreja da Colegiada de Pastrana, em Espanha. Ainda não se apurou em que circunstâncias históricas concretas estas peças foram levadas para o país vizinho. Paço dos Duques, Guimarães

O cativeiro de Dom Fernando

A campanha de 1471 concluiu o processo de dominação do extremo setentrional marroquino pelos portugueses. Na primeira expedição, em 1415, conquistaram Ceuta através de um assalto fulminante, em que sobressaiu a força da hoste invasora e a impreparação dos defensores.

A tomada da cidade islamita enquadrava-se na ideia de Cruzada e foi encarada como o início de uma nova etapa da Reconquista, agora em solo africano. No entanto, esta operação visava sobretudo o acesso de Portugal ao Mediterrâneo. Desde a sua fundação, a monarquia lusa assumiu-se como uma potência marítima, com ligações intensas quer com o Atlântico Norte quer com o Mediterrâneo Ocidental. Ao dominar Ceuta, Portugal oferecia à cristandade um novo porto de apoio à navegação de longa distância; na sua visão esclarecida, o cronista Gomes Eanes de Zurara nomeou Ceuta como a “chave do Mediterrâneo”, o que é mais um sinal de que a expedição de 1415 teve como objectivo principal o reforço do poder marítimo dos portugueses.

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INFANTE ESQUECIDO. O filho mais novo de Dom João I foi entregue como refém após o desastre de Tânger em 1437. Os marroquinos propuseram a sua troca pela devolução de Ceuta, mas a coroa não aceitou. O infante morreu na prisão em 1443. O seu corpo foi resgatado e sepultado no Mosteiro da Batalha. Joaquin Ossorio Castillo / Shutterstock

Nos anos seguintes, inúmeros navios cristãos usaram Ceuta como porto de escala, o que proporcionava receitas avultadas à cidade, pois as tripulações que fundeavam aí tinham de pagar pela acostagem e compravam víveres nos mercados da cidade. Aliás, a localização da cidade numa península isolada do território continental pelas cordilheiras do Rife, mostra-nos que não era a base ideal para apoiar uma invasão das terras africanas. Além disso, ao transformar a antiga cidade mercantil numa base militar, os portugueses criaram um ponto de pressão sobre a navegação dos muçulmanos de Granada e de Fez, o que levou a uma diminuição significativa dos ataques dos mouros à costa algarvia e a um desenvolvimento económico do Algarve, nomeadamente pelo crescimento das pescas. A ocupação de Ceuta foi, por isso, um grande sucesso, embora existissem no reino opositores à sua manutenção. Em 1418,Dom João I desejou regressar a África, porventura para iniciar o assalto ao reino de Fez,e lançou um imposto extraordinário. Antes de organizar a expedição, enviou uma embaixada a Castela para confirmar o prosseguimento das tréguas que vigoravam desde 1411, mas a resposta castelhana foi evasiva e o imposto colectado foi desviado para o reforço das fortalezas fronteiriças. Este episódio evidenciou a fragilidade do pequeno reino de Portugal que tinha dificuldade em mobilizar expedições com mais de vinte mil homens e que só podia projectar a sua força militar para territórios distantes com a garantia inequívoca de que a pulsão anexionista do reino vizinho estava adormecida.

Esta é, pois, uma das principais razões por que a hoste real atacou o reino de Fez intermitentemente ao longo do século XV.

Assim tardaram 22 anos até a coroa enviar nova armada contra Marrocos. Em 1437, porém, os homens de armas mobilizados não chegaram a metade dos efectivos previstos e o infante Dom Henrique foi um comandante desastrado e imprevidente. Ao tentar conquistar Tânger, viu-se sitiado pelos mouros que acorreram em socorro da cidade. O fracasso de Tânger demonstrou, contudo, o sucesso de Ceuta. Ao neutralizarem a hoste portuguesa, em vez de a chacinar, os mouros propuseram-se deixar partir os inimigos desde que Ceuta lhes fosse devolvida. Como não tinha poderes para o fazer, o infante Dom Henrique argumentou que precisava de uma ordem do seu rei, pelo que alguém tinha de ficar refém dos muçulmanos como penhor da cidade. Embora fosse o comandante supremo da hoste, Dom Henrique escapou ao abraço da morte, pois foi o seu irmão mais novo, Dom Fernando quem assumiu o risco, o que se compreende. Com efeito, Dom Fernando passara a África na esperança de ser armado cavaleiro após uma grande vitória militar. Perante o desastre bélico, a única forma que lhe restava de ganhar honra era oferecer-se como penhor da salvação de todos os soldados portugueses.

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A CARTA ANÓNIMA DE 1471. Em 1938, Abel Fountoura da Costa visitou algumas das principais bibliotecas e instituições universitárias europeias para fazer prospecção de eventuais materiais cartográficos perdidos ou mal catalogados. Identificou em Modena esta carta, que deu a conhecer pouco antes de falecer. Na mesma biblioteca onde se encontra a famosa cartade Cantino (1501), estava este mapa da costa ocidental africana com as descobertas produzidas até à década de 1470. O facto de os topóni- mos estarem redigidos em português sugere que o au- tor teria essa nacionalidade, mas ainda não se apurou a sua identidade. Aceita-se que deverá datar de 1471, pois foi essa a data em que navegadores portugueses identificaram Rio do Lago (a actual Lagos, na Nigéria), o último topónimo desenha- do. Embora o reinado de Dom Afonso V tenha ficado celebrizado pelas conquistas terrestres no Norte de Áfri- ca, foi igualmente durante o período de governação de o Africano que se avançou radicalmente na exploração da costa ocidental africa- na. O investigador Joaquim Gaspar também sugeriu a hipótese de a carta poder ser mais tardia e o cartógra- fo simplesmente não ter tido espaço no pergaminho para prosseguir a representação das fronteiras do mundo conhecido. Biblioteca Estense Universitária, Modena.

Quando se entregou aos mouros, o infante Dom Fernando estava convencido de que o seu cativeiro seria breve, pois não lhe passava pela cabeça que os seus irmãos o iriam sacrificar e que prefeririam manter Ceuta a todo o custo. Regressado a Ceuta, Dom Henrique logo escreveu para o reino exortando Dom Duarte a resgatar o irmão por qualquer meio possível menos pela devolução da cidade africana e o monarca, parecendo hesitante, na verdade não cedeu e as cortes de Leiria, convocadas para a tomada de decisão, acabaram por ser inconclusivas.

Dom Duarte morreu a 9 de Setembro de 1438 e o assunto arrastou-se enquanto os tios do novo rei, Dom Afonso V, combatiam a cunhada e a afastavam da regência. Quando, finalmente, tomou as rédeas do poder, o infante Dom Pedro enviou uma armada para tratar da libertação do irmão e da entrega de Ceuta aos mouros, mas os navios foram interceptados por uma armada genovesa à vista do Algarve e o capitão-mor da armada portuguesa morreu nos combates. Embora, oficialmente, este incidente tenha sido fortuito, o facto de portugueses e genoveses serem aliados adensa o mistério e a explicação mais plausível parece ser que Génova tentou impedir que Ceuta fosse devolvida aos mouros. Perante o incidente, Dom Pedro não enviou segunda armada para tratar da devolução de Ceuta, o que faz supor que percebeu que as forças que lhe tinham assegurado a regência eram as mesmas que desejavam a manutenção da “chave do Mediterrâneo” em mãos cristãs.

Aliás, o rei de Castela também entabulara negociações com os mouros e oferecera somas avultadas pela libertação do infante português, mas os muçulmanos foram inflexíveis. No dia 5 de Junho de 1443, após terríveis padecimentos, Dom Fernando faleceu numa masmorra de Fez. A sua prisão durou cinco anos e nove meses e o seu sacrifício final só se compreende à luz de uma realidade muito concreta – a conservação de Ceuta era um sucesso, pois proporcionava vantagens económicas, estratégicas e sociais à coroa portuguesa e à cristandade do Mediterrâneo Ocidental.

Carreiras militares em África

Em 1415, a conquista de Ceuta confirmou a realeza de Dom João I e atenuou a sua origem bastarda, ao mesmo tempo que confirmou a legitimidade da dinastia e proporcionou prestígio político aos seus filhos. Nesses tempos recuados, a autoridade dos príncipes advinha naturalmente do nascimento, mas também da sua capacidade militar, quer pela disponibilidade para encabeçar a hoste, quer pela capacidade de comando e pela bravura que deveriam demonstrar no campo de batalha. Os infantes demonstraram a sua valia indiscutível nas ruelas de Ceuta e tornaram-se dignos de exercer a governação do reino ou dos seus domínios. À semelhança dos filhos d’el-rei, inúmeros fidalgos confirmaram em África, ao longo do século XV, os merecimentos indiciados pelo sangue, participando voluntária e entusiasticamente na guerra, sabendo que poderiam terminar abruptamente os seus dias na ponta da espada do inimigo ou no silvo de um virote. Era um risco a que pouquíssimos fugiam. Os herdeiros tinham de justificar a primazia do seu nascimento e os segundo-génitos tinham de mostrar serviço à coroa para poderem ter a sua própria carreira.

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ALCÁCER-CEGUER. Esta pequena vila do Norte de Marrocos. Foi tomada por Dom Afonso V em dois dias de 1458. Ainda subsistem algumas estruturas de influência portuguesa. Issam Alhafti / Shutterstock

Entre 1415 e 1471, a posse de Ceuta, mais Alcácer-Ceguer desde 1458, foram suficientes para que centenas de fidalgos se deslocassem a África por temporadas mais ou menos longas. Contribuíam, assim, para que Portugal tirasse os benefícios de dispor de um porto no estreito de Gibraltar, ganhavam experiência militar que um dia poderia ser crucial para a defesa do reino, e muitos morriam, aliviando desse modo a pressão da fidalguia sobre a coroa na busca de benefícios para todos os seus rebentos, ao mesmo tempo que cobriam de glória a sua linhagem e, por vezes, abriam o caminho a venturosos familiares.

Veja-se, como exemplo, o caso de Dom Francisco Coutinho. Era bisneto do célebre Gonçalo Vaz Coutinho, herói da batalha de Trancoso e marechal do reino; era neto de Vasco Fernandes Coutinho, marechal do reino e 1.º conde de Marialva, que estivera em Tânger em 1437 com os infantes, e filho de Dom Diogo Coutinho, 2.º conde de Marialva. Este Dom Diogo, seu pai, foi morto pelos mouros no assalto a Tânger, em 1463, quando Dom Francisco ainda era menino. O título passou para o seu irmão mais velho, Dom João, mas este 3.º conde morreu nos combates que levaram à conquista de Arzila. Dom Francisco também participou na refrega e, quando a vila foi tomada, logo Dom Afonso V o fez 4.º conde de Marialva. Dom Francisco Coutinho viveu mais 61 anos, pelo que desfrutou longamente do título que as vidas breves do pai e do irmão mais velho lhe ofereceram inesperadamente. Ceuta e Alcácer-Ceguer foram bases para assaltosàscidadesmarroquinasmaispróximas, retomando assim a experiência dos fossados, que haviam marcado a Reconquista peninsular durante séculos. Os mouros respondiam com assaltos às imediações das muralhas das vilas, mas nunca conseguiram transpô-las.

ordem de cristo

A ORDEM DE CRISTO. É um dos símbolos mais recorrentes na história portuguesa desde que Dom Dinis fundou a Ordem Militar de Cristo depois da extinção da Ordem do Templo. Plasmada nas velas das embarcações ou nos estandartes militares, foi igualmente inscrita em monumentos de inspiração portuguesa, como no celeiro da cidadela de Mazagão. Miguel Valle de Figueiredo

A maior parte dos raides lançados a partir de Ceuta eram operações anfíbias, pois os atacantes eram desembarcados a léguas da cidade, ultrapassando assim as montanhas do Rife, que rodeiam Ceuta. No caso de Alcácer-Ceguer, esses ataques eram realizados através de expedições pelas montanhas em operações terrestres com recurso à peonagem e à cavalaria. O objectivo era sempre o saque e o aprisionamento de pessoas, que tanto eram escravizadas como usadas como moeda de troca para resgatar companheiros caídos nas mãos do inimigo. Mesmo que fossem bem-sucedidos e regressassem com centenas de cabeças de gado e muitos prisioneiros, estas acções nunca levaram à ocupação dessas localidades.

Em África, a população era muçulmana, contrastando com a experiência em solo ibérico, em que boa parte da população sob os muçulmanos era cristã e aceitara facilmente a mudança de senhor. Quando os portugueses conquistaram Ceuta já haviam passado sete séculos desde que o islão se instalara na região e a população não estava disponível para mudar de religião, até porque o poder militar dos portugueses era insuficiente para os subordinar.

Com efeito, nestas décadas quatrocentistas, os portugueses nunca dominaram um torrão de terra para lá das muralhas das vilas e cidades que conquistaram. É certo que as populações não estavam permanentemente encerradas dentro das muralhas, mas estavam conscientes de que, saindo para o campo, corriam sempre o risco de serem atingidas por um tiro furtivo ou de serem caçadas por cavaleiros saídos aparentemente do nada. Mais tarde, no início do século XVI, alguns capitães viriam a congregar os chamados “mouros de pazes”, que preferiam combater ao lado dos portugueses, mas foi uma situação efémera. O melhor exemplo desta incapacidade de dominar o território marroquino está ainda à vista na fortaleza de Alcácer-Ceguer; embora as muralhas da vila estivessem junto à praia, esta era larga e foi necessário erguer a célebre “couraça, ou seja, um corredor amuralhado por onde se fazia a comunicação entre os batéis e a fortaleza sem que as pessoas corressem o risco de ser alvejadas por um atirador furtivo.

Nuno Gonçalves

NUNO GONÇALVES. Não é fácil traçar a biografia de um dos pintores mais fascinantes da arte portuguesa de Quatrocentos, mas sabe-se com segurança que Nuno Gonçalves (à esquerda, representado no Padrão dos Descobrimentos) trabalhou na corte de Dom Afonso V. Miguel Valle de Figueiredo

Isto não impediu os capitães de Alcácer-Ceguer de impor páreas às populações das vizinhanças, entre 1460 e 1480. A hoste portuguesa era ameaçadora e as populações mais próximas preferiam pagar tributo aos cristãos como forma de não serem atacadas e saqueadas. No entanto, este poderio indiscutível não impedia que muitos indivíduos dessas aldeias continuassem a resistir.

Últimos golpes

Em 1471, a presença portuguesa em África alargou-se, o que levou Dom Afonso V a tomar o título de rei de “Portugal e dos Algarves d’aquém e d’além mar”. Proclamava-se assim o direito da coroa de Portugal a conquistar o reino de Fez, embora adiando a guerra por vinte anos. As tréguas não significaram uma desistência em relação a África. Aparentemente, o rei alimentava a esperança de que poderia assenhorear-se do extremo setentrional marroquino sem combater, pois, além das quatro fortalezas ocupadas, outras três poderiam ser integradas na coroa. Tetuão, Larache e Anafé (actual Casablanca) eram espaços amuralhados próximos que estavam abandonados e que o monarca tentou ocupar.

No entanto, em vez de colocar aí guarnições da coroa, optou por concedê-las a donatários. Assim, tudo indica que, nos anos seguintes à campanha de 1471, o monarca procurou aumentar o poderio português em África pela persuasão das poucas populações muçulmanas que persistiam nas imediações das fortalezas ocupadas por Portugal e pelo envio de colonos. No entanto, nem os mouros cederam nem os donatários foram capazes de mobilizar os meios necessários para que aquelas vilas fossem repovoadas.

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EXPEDIÇÕES MARÍTIMAS. Embora a história celebre as campanhas militares no Norte de África, o reinado de Dom Afonso V foi igualmente marcado por um avanço muito rápido do conhecimento da costa ocidental africana. No momen- to em que assumiu a governação em 1448, conheciam-se apenas os mares até à actual Guiné-Bissau, mas, nas três décadas seguintes, via- gens sucessivas de Alvisse Cadamosto, Diogo Gomes, Diogo Afonso, João de Santarém, Pero Escobar, Rui de Sequeira ou Fernão Pó levaram as caravelas portuguesas até aos actuais limites da Nigéria e do Gabão. Consolidou-se o conhecimento dos arquipélagos dos Açores e de Cabo Verde e, em 1471, atingiu-se a costa da Mina, que virá a ser um ponto decisivo da Expansão a partir do momento em que se funda ali São Jorge da Mina (em cima, numa gravura holandesa do século XVII). Atlas Blaeu Van Der Hem

Ainda assim, o tempo parecia favorecer a causa portuguesa, pois o reino de Fez também não se empenhava em recuperar o controlo dessas localidades, que se tornaram, assim, uma espécie de terra de ninguém. Depois, a guerra pela sucessão de Castela, entre 1475 e 1479, absorveu a atenção da coroa e da fidalguia, o que adiou qualquer esforço que pudesse ser realizado em África. Finalmente, o sonho afonsino de ocupar o extremo norte marroquino esfumou-se quando Castela iniciou a guerra com Granada, que viria a terminar com a conquista do último reino mouro peninsular pelos Reis Católicos, em 1492. Ao longo da década de 1480-90, conforme as cidades iam caindo nas mãos dos castelhanos, muitos muçulmanos atravessaram o estreito e mudaram-se para África, onde passaram a encabeçar a resistência aos cristãos e cedo reocuparam Tetuão e Xexuão. Em 1489, Dom João II tentou ainda segurar o território que ficara disponível em 1471, ao ordenar a construção de uma fortaleza junto do rio Lucus, mas, sem o apoio do mar, as forças portuguesas foram incapazes de se impor.

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CISTERNA DE MAZAGÃO. A maravilhosa cisterna de Mazagão é um dos testemunhos mais impressionantes do cruzamento de culturas em Marrocos. Em 2004, a cidadela de Mazagão foi classificada pela UNESCO como Património Mundial. Miguel Valle de Figueiredo

Nos anos seguintes, as praças portuguesas em África passaram a estar sob pressão, em grande medida devido à determinação dos granadinos. No entanto, sustiveram os ataques dos inimigos e as suas muralhas foram reforçadas de modo adequado face ao desenvolvimento das armas de fogo. Mais tarde, entre 1505 e 1515, os portugueses dominaram várias fortalezas costeiras no Sul e chegaram às portas de Marraquexe, mas, perante uma população totalmente islamizada, era impossível repetir os sucessos da Reconquista peninsular. De Tânger, de facto, partiu a derradeira tentativa de dar corpo ao Algarve d’Além-Mar, mas a 4 de Agosto de 1578, o reino desenganou-se de vez.

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