rinoceronte

A grande caçada. Fragmento de mosaico que representa a captura de um rinoceronte para os espectáculos num anfiteatro romano. Villa de Casal, Piazza Armerina.

Em 1515, um navio português levou para Lisboa um rinoceronte, um presente do sultão de Cambaia. O animal causou sensação!

Texto: Jordi Canal-Soler

No dia 20 de Maio de 1515, desembarcou em Lisboa o primeiro rinoceronte que a Europa via desde o Império Romano. Tratava-se de um rinoceronte indiano que o sultão Muzaffar Shah II, rei de Cambaia (na costa noroeste da Índia), tinha oferecido a Afonso de Albuquerque, governador da Índia Portuguesa e futuro vice-rei. Este, por seu turno, tinha-o enviado para Portugal como presente para a Casa das Feras de Dom Manuel I. O animal, de nome Genda (rinoceronte em gujarati), foi transportado no Nossa Senhora da Ajuda juntamente com o tratador, um indiano chamado Ocem.

Na Antiguidade, tinham chegado a Roma rinocerontes asiáticos e africanos (distinguem-se porque o primeiro tem um chifre e o segundo dois), utilizados em espectáculos de caça ou lutas de feras nos coliseus. Diz-se, por exemplo, que o imperador Cómodo caçou um no Coliseu em 192 d.C. Foram representados em obras artísticas, como um mosaico da villa de Casale na Sicília, que exibe um rinoceronte indiano. No verso de uma moeda de Domiciano de 83 d.C., está representado um rinoceronte africano (sem no entanto se distinguir se é branco ou negro). Durante a Idade Média, não parece ter surgido nenhum rinoceronte na Europa. A sua recordação desvaneceu-se ou deformou-se e a espécie acabou por ser confundida com um animal mítico, o unicórnio.

Expectativa na Europa

Treze séculos depois chegou de novo um rinoceronte à Europa, no meio de grande expectativa. A travessia desde Goa prolongara-se por quatro meses com escalas em Moçambique, Santa Helena e Açores, tempo suficiente para que a notícia do animal chegasse antes do navio carregado de especiarias. As pessoas aglomeraram-se no porto para ver o animal, com duas toneladas de peso e uma pele tão espessa que as suas três placas pareciam uma armadura. Na Torre de Belém, que começava a ser construída, os escultores esculpiram em sua honra, numa das guaritas, a cabeça do animal e numa gárgula do claustro do Mosteiro de Alcobaça está também representado o rinoceronte de corpo inteiro.

rinoceronte

Unicórnio. Numa medalha da filha do Marquês de Mântua, obra de Pisanello. 1447 Louvre, Paris.

A corte não parou de visitar o animal quando este esteve temporariamente instalado nos jardins do Paço Real da Ribeira. Dom Manuel terá pretendido organizar um combate entre um dos seus elefantes contra o rinoceronte para ver quem ganhava. Ao colocá-los frente a frente, o elefante, jovem e surpreendido pela gritaria das pessoas que os observavam, foi o primeiro a fugir a galope!

Dom Manuel I procurava nesses anos o apoio do papa Leão Xpara legitimar o domínio português do Oriente e, por isso, decidiu oferecer-lhe o animal. No ano anterior, já lhe oferecera um elefante branco, também trazido da Índia, que o papa acolhera com muito prazer. Em Dezembro de 1515, o rinoceronte embarcou rumo a Roma, com um colar de veludo verde decorado com rosas e cravos dourados. Como a travessia pelo Mediterrâneo era longa, o navio parou no arquipélago de Frioul, em frente de Marselha, onde Francisco I de França aproveitou para ver de perto o animal. Pouco depois de zarpar de novo, o navio onde seguia o rinoceronte naufragou e este morreu afogado. O seu corpo foi encontrado numa praia próxima de Villefranche-sur-le-Mer e foi devolvido a Lisboa, onde o rei o mandou dissecar para o reenviar para Roma. O animal empalhado não causou em Itália o mesmo entusiasmo que despertara em Portugal e em França, mas ainda assim Rafael Sanzio e o seu ajudante Giovanni da Udine utilizaram-no para pintar um fresco no palácio pontifício do Vaticano.

rinoceronte

Na verdade, o artista de Urbino não fora o primeiro a desenhar o herbívoro indiano. Usando as notas e o esboço de um mercador alemão que o tinha visto em Lisboa, Albrecht Dürer realizou outra interpretação do animal, que mistura realidade e imaginação. No focinho, exibe um único chifre, o grande corpo está protegido por uma pele que se assemelha a uma armadura e as patas, que terminam em três grandes unhas, estão cobertas de escamas. Talvez o pormenor mais surpreendente seja um segundo chifre, mais pequeno e em espiral que se vê sobre o lombo. Apesar destas liberdades criativas, a xilografia teve grande aceitação e foi considerada durante muito tempo uma representação totalmente fiel de um rinoceronte.

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