William Shakespeare

Reconhecido como o maior dos escritores em língua inglesa, soube encarnar nas suas personagens as paixões e misérias da alma humana ao ponto de as converter em arquétipos universais.

Na Inglaterra do século XVI, o teatro sofre uma autêntica revolução. Os responsáveis foram homens de letras como Bem Jonson, Christopher Marlowe, John Ford e, acima de tudo, William Shakespeare. Todos eles renovaram através do verso, com ausência de rima, a rápida sucessão de cenas e a naturalidade no recitado, a tradição das representações clássicas de carácter religioso ou as breves comédias que, nos salões, entretinham a aristocracia. As suas penas, e muito especialmente a de William Shakespeare, conseguiram elevar o teatro isabelino às mais elevadas cúpulas da literatura universal.

Uma vida desconhecida

Ficam as suas obras, mas da vida de William Shakespeare pouco se sabe, excepto alguns dados e as muitas conjecturas propostas pelos seus biógrafos baseadas em escassos documentos. Através destes, pode afirmar-se que foi baptizado na Igreja da Santíssima Trindade de Stratford-upon-Avon, no dia 26 de Abril de 1564, pelo que poderemos pensar que terá nascido no dia 23 ou 24 do mesmo mês, já que os costumes naquela época recomendavam que os recém-nascidos recebessem o baptismo dois ou três dias após o nascimento. Era o terceiro dos oito filhos de John Shakespeare, um comerciante de lã que desempenhava também o cargo de juiz de paz da população, e de Mary Arden, pertencente a uma família da pequena nobreza local.

William Shakespeare

O debate sobre as origens de Shakespeare

A identidade de William Shakespeare tem sido questionada uma vez que a qualidade dos seus textos não parece própria de um homem com poucos estudos, e também pelas escassas referências sobre esta figura.

É difícil acreditar que William Shakespeare, um plebeu do século XVI, criado em Stratford-upon-Avon, tenha escrito as obras geniais que lhe são atribuídas. Nestas surgem argumentos legais, históricos e matemáticos que são tão improváveis em Shakespeare, que parecem reflectir os escassos dados que existem sobre ele. Daí que os seus textos tenham sido atribuídos a autores como o filósofo e político Sir Francis Bacon ou ao dramaturgo Christopher Marlowe, que teria forjado a sua própria morte e continuado a escrever sob um pseudónimo. Atualmente, considera-se inquestionável que Shakespeare tenha sido o autor das suas obras. Os documentos corroboram que, na companhia The Lord Chamberlain’s Men (posteriormente, The King’s Men), figurava um actor chamado William Shakespeare, que é identificado como o William Shakespeare nascido em Stratford. Uma vez que, na altura, era habitual que os membros de uma companhia escrevessem as suas próprias peças, não existe nada que aparentemente possa apoiar a teoria dos antistratfordianos. Inclusive no First Folio, é feita referência ao “cisne de Avon” e ao seu monumento fúnebre na Igreja da Santíssima Trindade da localidade, onde ele é identificado como escritor. Quando a polémica parecia já ultrapassada, por volta de 1920, surgiu uma nova teoria que identificava William Skakespeare como Edward de Vere, 17.º conde de Oxford, se bem que não passou de uma mera especulação.

Apesar de não existirem dados fidedignos, terá frequentado a escola paroquial e, posteriormente, terá tido acesso ao ensino secundário no Kings New School de Stratford. Provavelmente, o seu primeiro contacto com o teatro deveu-se ao facto de o pai ser responsável pela autorização das representações das companhias itinerantes de cómicos que chegavam à localidade. A semente deu fruto, uma vez que não só se dedicou à arte de Tália, como também o fez um dos seus irmãos mais novos.

William Shakespeare

Obra-prima da poesia inglesa, os Sonetos foram publicados, pela primeira vez, por volta de 1609 por T.T. (Thomas Thorpe).

Pouco depois, a família sofreu um terrível descalabro quando o pai contraiu uma série de dívidas e se viu envolvido numa dúbia questão relacionada com a importação ilegal de tecidos que acabou com a sua reputação. Apenas conseguiu recuperar o seu bom nome quando, já consagrado como autor, Shakespeare o ajudou a resolver a sua situação. Tinha apenas 18 anos quando casou com Anne Hathaway, uma jovem de 26 anos, natural de Shottery, uma povoação situada a poucos quilómetros de Stratford, a qual tinha engravidado. Seis meses depois do casamento, no dia 26 de Maio de 1583, era baptizada a sua filha mais velha, Susanna, à qual se seguiram, em Fevereiro de 1585, os gémeos Hamnet, que faleceram ainda crianças, e Judith. Alguns autores afirmam que, para sustentar a sua família, William Shakespeare trabalhou durante os primeiros anos de casamento como maestro, mas a verdade é que não existem dados concretos que o permitam atestar. Em 1598, surgiu em Londres, como actor principal da companhia de teatro The Lord Chamberlain’s Menassim chamada por ser financiada pelo conde de Arundel, lord chamberlain da Casa Real, interpretando o papel de protagonista da obra Every man in his humor (cada um com o seu humor), de Ben Jonson. Naquela altura tinha mudado a sua residência para a paróquia de St. Helen no distrito londrino de Bishopsgate.

Homem de teatro

De actor, passou a escrever, com singular mestria, as suas próprias obras. O sucesso foi tal que decidiu montar a sua companhia e, para tal, investiu na The Lord Chamberlain’s Men, até vir a tornar-se coproprietário da mesma. As representações tinham lugar no teatro The Globe, construído em 1599 por Peter Street nas margens o rio Tamisa, com capacidade para 3.350 espectadores. Sobre o seu palco, estrearam-se O rei Lear, Júlio César, Macbeth, Otelo, Romeu e Julieta, Sonho de uma noite de Verão ou As alegres comadres de Windsor, entre outras tantas tragédias e comédias de William Shakespeare. Uma série de títulos para a história que deram tal prestígio à sua companhia teatral que, depois da morte de Isabel I e a subida ao trono de Jaime I, o novo monarca a tomou sob a sua protecção e alterou o seu nome de The Lord Chamberlain’s Men para The Kings’s Men (Os Homens do Rei).

William Shakespeare

As personagens. Procissão de personagens shakespearianas numa composição, atribuída a Daniel Maclise (1806-1870), por volta de 1840. Para além de Macbeth, Hamlet, Otelo, Romeu ou Julieta, surgem representadas outras mais secundárias, como Malvolio (Noite de Reis), Desdémona (Otelo), Titânia (Sonho de uma noite de Verão) ou Rosalinda (Como gostais) (Yale Center for British Art, New Haven).

Em 1613, um incêndio destruiu as instalações do The Globe, bem como todos os manuscritos do dramaturgo. Entre eles, estaria a comédia Cardénio, inspirada num episódio de Dom Quixote de la Mancha, da qual apenas se sabe que foi representada duas vezes perante a corte, em 1613, pela companhia de Shakespeare. O teatro foi reconstruído em 1614, embora tenha acabado por ser demolido em 1644, quando o puritanismo condenou as representações teatrais. Shakespeare recebeu a notícia do incêndio do The Globe em Stratford. Por volta de 1610, a sua saúde estava muito debilitada. Tentando recuperar-se e, na expectativa de poder gozar de uma vida mais tranquila e sossegada, tinha-se retirado para a sua terra-natal, em 1611.

the globe

O The Globe não tinha tecto, o que restringia as representações à temporada de Verão e ao horário diurno. Acolhia mais de três mil espectadores e muitas vezes estava apinhado (gravura reproduzida em selo comemorativo estampado em 1995).

No entanto, não conseguiu concretizar esse seu desejo, pois, a partir dessa data, viu-se envolvido em diversos tipos de litígios relacionados com os limites das terras que possuía em Stratford. Em Março de 1613, quando quis realizar o seu último investimento, fê-lo em Londres, comprando por 140 libras uma casa com jardim perto do teatro de Blackfriars. Fê-lo em sociedade com William Johnson, John Jackson e John Hemynge, actores da sua companhia, com o objectivo – segundo o seu biógrafo Sidney Lee, autor de A life of William Shakespeare (1898) – de “privar a sua mulher, caso lhe sobrevivesse, do direito de receber sobre esta propriedade o dote de viúva”, o que é bastante elucidativo sobre o tipo de relação que mantinha com Anne Hathaway.

O seu prestígio como autor tinha-o tornado num dos homens mais ilustres da sua cidade-natal, o que lhe permitiu conseguir um escudo de armas para o seu pai e casar a sua filha Susanna com um reputado médico da zona, chamado John Hall, em 1607, e Judith com Thomas Quiney, membro da corporação municipal de Stratford, em 1616. Nestas datas, já sabia que estava doente com gravidade, pelo que redigiu o seu testamento deixando como beneficiárias as suas filhas e apenas uma pequena quantidade de dinheiro para a sua mulher, da qual levava já anos de distanciamento. Morreu pouco tempo depois, no dia 23 de Abril de 1616 (3 de Maio do calendário gregoriano), e os seus restos mortais foram sepultados no presbitério da Igreja da Santíssima Trindade de Stratford. Com receio de que, como era habitual, passado algum tempo, os seus ossos acabassem no ossário, mandou inscrever na sua lápide este epitáfio: “Bom amigo, por Jesus, abstém-te de cavar o pó encerrado aqui. Bendito seja o homem que respeite estas pedras, mas maldito o que remova os meus ossos”.

Uma obra prolixa

A falta de manuscritos e de referências cronológicas concretas dificulta o estabelecimento de uma relação exacta da bibliografia shakespeariana. Em 1623, sete anos apos a sua morte, dois actores da sua companhia, John Heminges e Henry Condell, fizeram uma compilação dos seus textos, o First Folio, na qual dividiam a sua produção literária em histórias, comédias e tragédias. Quase um terço dos 750 exemplares que foram editados chegaram aos nossos dias, o que permitiu preservar grande parte da obra do autor que nunca chegou a ser impressa. No First Folio, foram compiladas apenas as suas 36 obras mais dramáticas, concretamente 11 tragédias, 15 comédias e dez dramas históricos, não se tendo incluído qualquer obra poética.

William Shakespeare

O teatro, tal como outras manifestações culturais como os concertos, restringia-se a um contexto doméstico e exclusivo. A imagem reproduz o programa de uma representação de Hamlet, realizada para a rainha Victória no castelo de Windsor, 1894 (The Royal Collection Trust).

Na sua produção dramática e, sobretudo, nas suas tragédias, William Shakespeare explorou temas como a vingança, a traição, o incesto e a corrupção moral em Hamlet, o ciúme e a deslealdade em Otelo, a ambição em Macbeth, a ingratidão no Rei Lear e o amor em Romeu e Julieta, entre outros. Fê-lo com tal profundidade psicológica que os seus protagonistas se tornaram verdadeiros arquétipos. São obras que, seguindo a premissa estabelecida por Séneca, se caracterizam por serem enredos que inevitavelmente conduzem ao desaparecimento do protagonista.

The Globe

The Globe e o teatro da época

Em 1597, o primeiro teatro da época isabelina, The Theatre, sabia que  a  sua licença estava prestes a expirar, e o seu dono, James Burbage, decidia mudar-se para a outra margem do rio Tamisa. Assim nasceu o The Globe, construído por Peter Street em 1599, como um dos espaços teatrais mais bem-sucedidos e famosos do momento. As representações tinham lugar aos fins-de-semana dos meses de Verão, entre Maio e Outubro. Geralmente começavam por volta das duas da tarde e terminavam antes do anoitecer. A companhia The Lord Chamberlain’s Men estreou a maior parte das grandes obras de Shakespeare: O Rei Lear, Júlio César, Macbeth, Hamlet, Otelo… viveram aqui as suas primeiras ovações. Em 1613, incendiou-se durante uma representação de Henrique VIII. E, em 1644, depois das polé- micas levantadas pelo puritanismo inglês que condenava o teatro, o The Globe foi encerrado e destruído. Seria necessário esperar mais de três séculos para que, em 1997, voltasse a abrir as suas portas, com o nome de Shakespeare’s Globe Theatre, respeitando escrupulosamente a antiga construção e a pouco mais de duzen- tos metros do lugar onde abriu as suas portas pela primeira vez. Hoje continua a funcionar só nos meses estivais, mas apenas com metade da capacidade que tinha no seu tempo: cerca de 1.500 pessoas.

1. Na parede de fundo do palco existiam três portas que permitiam a saída das personagens mortas, por exemplo. Por cima delas, um balcão facilitava cenas como a do famoso encontro de Romeu e Julieta.

2. O inferno era a parte inferior do palco, com duas portinholas que permitiam o acesso ou o desaparecimento das personagens sobrenaturais, como o fantasma de Hamlet ou Macbeth.

3. O palco media cerca de 13 metros de largura por oito de profundidade e, para maior visibilidade, elevava-se 1,5 metros de altura sobre o fosso ou proscénio.

4. As colunas sustinham o tecto, onde uma outra portinhola permitia que entrassem em cena, penduradas, as personagens divinas provenientes do céu.

5. No proscénio, que não era coberto, ficavam de pé os espectadores mais humildes.

6. Os lugares mais caros, cobertos e com assentos, eram ocupados pela burguesia e pelas classes mais abastadas.

As comédias, no entanto, baseiam-se numa série de peripécias cómicas que inequivocamente têm um final feliz. Assim acontece por exemplo em Muito barulho por nada, A comédia dos erros, A megera domada, Como gostais, Trabalhos de amores perdidos, As alegres comadres de Windsor ou Sonho de uma noite de Verão, entre outras. Não faltaram também as tragicomédias que oferecem uma depurada elaboração formal e que correspondem à sua última etapa criativa. É o caso, por exemplo, de O Mercador de Veneza, Tudo bem quando termina bem ou Medida por medida.

Por último, não descurou as grandes passagens da História de Inglaterra. Forçado pelos seus mecenas e pelo desejo de agradar à corte, Shakespeare reinterpretou, adaptando-as ao palco, algumas passagens históricas, dotando os seus protagonistas de um conteúdo dramático que tanto ensinava como emocionava o público que assistia às representações. Entre estes dramas históricos contam-se Henrique VI, Ricardo III, O Rei João, Henrique IV, Henrique V ou Eduardo III, bem como Júlio César António e Cleópatra.

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