Maquiavel

Multifacetado como muitos dos seus contemporâneos, Maquiavel foi diplomata, pensador e escritor. Considerado o pai da ciência política moderna, a sua obra-prima, O Príncipe, passou despercebida na sua época.

O célebre aforismo “ Há que ser raposa para conhecer as armadilhas, e leão para assustar os lobos” deve-se a Nicolau Maquiavel, o pensador italiano cuja filosofia deu origem ao termo “maquiavelismo”, ou seja, o modo de agir caracterizado pela astúcia e pela vontade de não olhar a meios para conseguir o que se pretende. Hoje, considera-se que as vicissitudes que rodearam a sua vida tiveram uma influência determinante na elaboração do seu pensamento político. Foram muitas as armadilhas a que teve de escapar e muitos os lobos que precisou de assustar ao longo dos seus 58 anos de vida passados no seio de várias cortes europeias e no exílio, na zona rural da Toscana. Não é de estranhar que as suas abordagens tenham acabado por ser friamente racionais e, inclusivamente, segundo alguns autores, cínicas e irreverentes.

Nascido em Florença, em 1469, Nicolau Maquiavel pertencia a uma família toscana de origem nobre, mas com pouca fortuna. Ainda assim, fez toda a formação na opulenta Florença de Lourenço de Médici. Após os estudos, em 1494, integrou-se na vida pública, como funcionário da recém-criada república fiorentina, que expulsara da cidade os poderosos Médici. O novo regime deu a Maquiavel a oportunidade de ocupar primeiro o cargo de secretário e, posteriormente o de chanceler, o que o levou a realizar diversas missões diplomáticas em cortes tão importantes como as da milanesa Catarina Sforza, Luís XII de França, dos papas Alexandre VI e Júlio II ou de Maximiano I da Áustria.

florença

O politólogo de Florença. A capital toscana é indissociável da biografia de Maquiavel: aqui trabalhou nos meandros do poder e sofreu com as decisões dos seus governantes.

Vida no exílio

A carreira política de Maquiavel parecia promissora, mas em 1508 a sua vida deu uma volta de 180 graus. Depois de intervir na formação da Liga de Cambrai – integrada por França, pelo papado, Áustria e Aragão, com o objectivo de combater a poderosa república de Veneza —, tentou promover, sem sucesso, uma aproximação entre Luís XII e Júlio II.

Veneza perdeu Ravena e Rimini, que passaram a estar sob o poder do papado e ameaçadas por França. Apesar da sua anterior adesão à Liga, Júlio II procurou aliados contra o rei francês e promoveu o regresso dos Médici a Florença, que viria a ocorrer em 1512.

Contra a sua expectativa, Maquiavel não só foi demitido do cargo, mas também detido e torturado, acusado de conspirar contra os novos senhores de Florença. Só a intervenção do novo papa, Leão X, conseguiu que fosse indultado, embora na condição de que se exilasse nas suas propriedades de San Casciano em Val di Pesa, cidade próxima de Florença, onde sobreviveu graças à agricultura e à criação de gado.

Maquiavel

Medalha do século XIX com a sua efígie.

O exílio, no entanto, mostrou-se frutífero no campo intelectual. Durante os anos de retiro forçado, escreveu uma quinzena de livros de géneros tão variados como a história (História de Florença, em 8 volumes), o teatro (La Mandrágora, Andria, Clizia), o pensamento político (Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio, Discurso sobre a reforma do estado de Florença), o romance (Belfagor arcidiavolo), a poesia (Asino d’oro) ou estratégia (Da Arte da Guerra). Mas, acima de de lotaria em voga em Florença, a sorte sorriu-lhe e acabou por ficar com 20.000 ducados que lhe permitiram saldar as dívidas e viver confortavelmente até ao fim dos seus dias. Maquiavel morreu na sua residência de San Casciano em Val di Pesa, em 1527, aos 58 anos de idade.

O pensamento político

Maquiavel foi, sem dúvida, um dos teóricos da política mais importantes do Renascimento. No entanto, nunca foi reconhecido pelos seus contemporâneos. Além disso, um dos seus concei os políticos fundamentais, a razão do Estad , exposto nos Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio (“Que a pátria se deve defender sempre com ignomínia ou com glória, e de qualquer maneira estará defendida”) só foi desenvolvido como doutrina política em 1589, quando o politólogo Giovanni Botero escreveu Da razão do Estado, onde, embora refutando a ideia de governante que figura em O Príncipe, acaba por retomar o pensamento político de Maquiavel.

Catarina sfiorza

Para Maquiavel, Catarina Sforza (1463-1509) a quem chamava “a minha dama de Forli”, era símbolo da inteligência e do pragmatismo na tomada de decisões. Foi a trabalhar na sua corte que Maquiavel proferiu a frase “É melhor ganhar a confiança das gentes do que confiar na força.” A admirada condessa de Imola e Forli, no entanto, não hesitou em recorrer também à violência, embora nem sempre com sucesso, uma vez que a aguerrida defesa dos seus interesses a levou a ficar prisioneira dos Bórgia. Na imagem, retrato da condessa realizado por volta de 1480, por Lorenzo di Credi (Pinacoteca Cívica, Forli).

Também nos Discursos, Maquiavel se declarou franco defensor da república como modelo de governo. O pensador italiano parte da ideia de que toda a comunidade tem dois pólos opostos: o do povo e o dos senhores, os quais pretendem governar os primeiros. Daí nasce um confiito permanente que apenas se pode resolver da forma como o faziam na Antiguidade, concretamente no modelo da República romana, garantindo que ambos os grupos possam participar nas decisões de governo, de forma a manter o confiito político na esfera pública, mas sempre com base nos princípios de diálogo e utilidade ao bem comum. Para conseguir tal equilíbrio, Maquiavel defende a existência de uma série de instituições preparadas para arbitrar o confiito e canalizar as dissidências. Esta, e não outra, seria a única forma de evitar a destruição da República, o bem supremo a preservar a todo o custo.

Por outro lado, Maquiavel, contesta qualquer outra forma de governo que não seja a republicana, distinguindo entre as admissíveis por eficazes (monarquia, aristocracia e governo do povo) e as perniciosas (a tirania, a oligarquia e o governo nas mãos de pessoas imorais ou corruptas). Em qualquer caso, a responsabilidade máxima do governo deveria refiectir o perfil de governante que ele desenhou a sua obra-prima: O Príncipe.

O maquiavelismo

Nicolau Maquiavel escreveu O Príncipe em 1513, durante o seu exílio em San Casciano, em Val di Pesa. Não hesitou em dedicar o livro a Lourenço II de Médici, duque de Urbino, possivelmente para desmentir a acusação de ter conspirado contra a família que, uma vez mais, governava Florença. Na altura, o livro passou despercebido, ou melhor, nem sequer foi publicado até 1532. No entanto, ficou na história como o manual do arquétipo de governante do Renascimento. Esse foi precisamente o objectivo do autor: mostrar como os mandatários deveriam governar os seus Estados, adaptando-se às diferentes circunstâncias, para se manterem no poder e conferir aos respectivos territórios a maior prosperidade possível.

Maquiavel

O modelo de príncipe. Enquanto viveu, Maquiavel envolveu-se na política do papa Alexandre VI e na do seu filho César Bórgia. Por essa razão, ambas as figuras têm um papel essencial em O Príncipe. As acções de César Bórgia são aplaudidas como exemplo para qualquer governante que tenha de lutar para conquistar um novo território ou conseguir um determinado objectivo político. De facto, o duque de Valentinois fica plasmado na obra como o arquétipo do príncipe renascentista. A sua própria trajectória política reflecte-se como um feito resultante da sua inteligência e capacidade estratégica, enquanto as derrotas são vistas apenas como uma mera fatalidade. Na imagem, Um copo de vinho com César Bórgia, óleo de 1893 de John Maler Collier que incide sobre o pérfido carácter tradicionalmente atribuído a esta família italiana (Ipswich Museum and Art Gallery).

1. César Bórgia. Ao adoptar o lema “Ou César, ou nada”, inspira grande parte de O Príncipe, embora Maquiavel também tenha assinalado os erros por ele cometidos.

2. Lucrécia Bórgia. Irmã de César Bórgia e filha do papa Alexandre, é considerada outra das grandes representantes do “maquiavelismo”.

3. Alexandre VI. O papa morreu em 1503 depois de celebrar um banquete com César, no qual todos os comensais ficaram doentes.

4. Uma figura anónima. Existe a teoria de que César planeou envenenar diversos convidados do referido banquete, mas os criados ter-se-ão enganado ao servir as bebidas.

Para tal, diz Maquiavel, é necessário anular as questões ou preceitos da moral ou da religião que possam interferir nas decisões do governante. Todo o príncipe deve agir com um único objectivo: conservar o poder. Apenas essa será a chave do seu sucesso e resultará no engrandecimento da sua pátria. Para preservar os seus domínios, o governante pode, por vezes, ver-se obrigado a agir “contra a fé, contra a caridade, contra a humanidade e contra a religião”. Esta proposta contradizia totalmente a tradição defendida desde a Antiguidade clássica, mas pretendia pôr termo à idealização da prática política em benefício de uma postura mais realista. Esta deverá resultar do estudo dos comportamentos e esse, por sua vez, leva à aceitação – de acordo com alguns autores, com posição semelhante à dos filósofos cínicos – de que o exercício real de política vai frequentemente contra a moral e não se guia por princípios éticos.

Isto não impede que Maquiavel insista na necessidade de que todo o príncipe deva ser virtuoso no momento de exercer o poder. O governante também deverá contar com a ajuda da riqueza quando se trata de expandir os seus territórios ou tirar proveito de situações que o beneficiem, mesmo que ele próprio não as tenha propiciado. O governante que chegue ao poder através de crime ou corrupção, ou que revele um comportamento despótico ou cruel, deve mudar imediatamente a sua atitude assim que tiver alcançado o poder e agir em conformidade com o bem comum, dando ao povo os instrumentos necessários para decidir o seu futuro. Estas afirmações levaram, embora erradamente, a atribuir a Maquiavel a autoria da frase “o fim justifica os meios”.

Os príncipes contemporâneos

Maquiavel relacionou-se com muitas das grandes figuras políticas do seu tempo, e todas elas, por acção ou reacção, serviram-lhe de inspiração para definir o perfil do que deveria ser o príncipe perfeito. César Bórgia é o exemplo mais citado, mas não é o único governante da sua época que, de uma maneira ou de outra, se relacionou com Maquiavel e inspirou-o para algumas das características que definem o seu príncipe ideal. Também Leonardo da Vinci, que conheceu através de Cesar Bórgia, deu-lhe a medida para avaliar a importância do mecenato. Luís XII de França foi-lhe útil para assinalar “os cinco erros capitais” de um governante: soberba, corrupção, abandono dos seus deveres, frivolidade e fraqueza de carácter. Também Maximiano I da Áustria foi qualificado como débil e acusado de carecer do arrojo necessário para vencer. Sobre o seu governo, escreveu: “Os alemães são uma enorme força militar, mas têm e terão uma política muito débil por causa do seu imperador.”

O soberano castelhano, Fernando, O Católico, também não escapou às suas incisivas opiniões. Maquiavel admirava-o pelo seu talento para a milícia e descreveu-o como um governante que conseguira grandes conquistas sob o manto protector da religião. Maquiavel afirmou que, pela sua conduta, parecia desconhecer a piedade, a fé, a humanidade e a integridade. Porém, curiosamente, atrás do que poderia parecer uma crítica, escondia-se um juízo elogioso.

Pesquisar