Gutenberg

Gutenberg mostra um dos seus tipos ao seu sócio Johannes Fust neste relevo do seu monumento em Mainz. 

Com a invenção da prensa de tipos móveis, este artesão alemão desencadeou uma revolução cultural e definiu os princípios da impressão de tal forma que se mantiveram sem grandes alterações até ao século XVIII.

Embora não se saiba muito sobre ele, o seu nome encontra-se na lista de personagens mais infiuentes da história da humanidade. Seja como for, o tempo fez de Johannes Gutenberg uma personagem icónica; isto explica, por exemplo, que em 2000 tenha sido eleito “homem do milénio” por diversos meios de comunicação. No entanto, além do reconhecimento mediático do presente, quem foi Johannes Gutenberg? Antes de mais, poderá dizer-se que foi um empreendedor, alguém com a inteligência suficiente para imaginar, dar um passo mais além, e arriscar tudo por um projecto pessoal, diferente e arrojado, pelo qual lutou durante anos.

Boas montanhas

A cidade livre de Mainz, situada na margem esquerda do Reno, num terreno forrado de vinhedos, viu nascer Henne Gänsfleisch zur Laden por volta de 1398. O pequeno Henne – Johannes no dialecto da região – pertencia a uma família bem-sucedida que à cabeça tinha Henne Gänsfleisch, o pai da criança. Não é claro a que se dedicava este patrício de Mainz, embora tudo indique que fosse um ourives que terá também ocupado cargos de responsabilidade no governo municipal como tesoureiro. São também várias as teorias sobre as origens do apelido Gutenberg (“boas montanhas”), embora aparentemente o apelido Hof zum Gutenberg estivesse presente na família desde o início do século XIV. Apesar de tudo, só terá sido adoptado definitivamente pelos seus parentes na década de 1520.

Johannes Gutenberg

Johannes Gutenberg.

A infância e juventude de Johannes Gutenberg, como as de tantas outras figuras históricas, esconde-se por detrás de uma neblina que obriga a especular sobre esses anos. Com base no domínio do latim e nos conhecimentos técnicos que demonstrava, provavelmente terá estudado numa escola monástica, não se descartando a hipótese de ter frequentado a faculdade. É verdade que, chegado o momento, começou a sua formação junto de ourives, fabricantes de moedas e outros artesãos, mas o seu interesse pela técnica evidencia uma formação intelectual mais aprofundada. De facto, entre o Outono de 1418 e a Primavera de 1419, um certo Johannes de Alta Villa estava matriculado como estudante na Universidade de Erfurt, época em que Gutenberg residia na cidade de Eltville, onde a mãe tinha uma casa. Poderá Gutenberg ter adoptado esse nome para aceder à universidade?

Precisamente, Eltville acolhia a família Gänsfleisch de cada vez que esta se via obrigada a sair de Mainz, na sequência do permanente confronto entre patrícios e sindicatos. Tratava-se de uma luta pelo poder entre dois sectores de peso da sociedade urbana, à semelhança do que acontecia noutras cidades europeias daquela época. Esta situação acontecia num contexto de crise económica e social, o que agravava ainda mais o conflito.

Espírito empreendedor

A pista sobre Gutenberg perde-se durante a década de 1420, embora por essa altura provavelmente já estivesse a trabalhar como ourives ou na cunhagem de moedas, seguindo a tradição familiar. Por volta de 1428, viu-se obrigado a abandonar Mainz, na sequência de um novo período de tensões na cidade, embora nada mais se saiba sobre ele até vários anos mais tarde, quando volta a aparecer em Estrasburgo, onde criou uma empresa de gravações de madeira que viria a ser o ponto de partida para o desenvolvimento do seu projecto.

Gutenberg

Tipo da exposição dedicada a Gutenberg no Museu do Trabalho de Hamburgo.

Ao longo dessa década, trabalhou secretamente na sua ideia: uma prensa de tipos móveis inspirada no desenho das prensas utilizadas pelos produtores de vinho renano. A genialidade de Gutenberg reside, no entanto, não no desenho desta máquina, mas sim na sua capacidade de conjugar uma série de elementos e técnicas próprias de diferentes ofícios, que lhe permitiram reproduzir qualquer tipo de texto de forma mecânica, rápida e em série. Na altura, existiam já métodos de impressão como a xilografia, uma técnica que empregava pranchas de madeira, nas quais se trabalhavam imagens e textos que seriam utilizados para imprimir acima de tudo cartas de jogo e estampas de santos, mas também livros. Da mesma forma, os tipos móveis eram utilizados nos séculos anteriores, embora de fraca qualidade, enquanto na indústria têxtil se empregavam diversos métodos de estampagem desde o início do século.

O espírito empreendedor de Gutenberg levou-o a criar, em 1437, uma sociedade dedicada à lapidação de pedras preciosas. Para isso, como faria em outras ocasiões, procurou alguns sócios capitalistas, incluindo Andreas Dritzehn, a quem ensinou a arte de lapidar gemas, fabricar lupas e de imprimir, tal como se demonstra na documentação resultante de um processo judicial posterior com os irmãos deste.

Também embarcou no que considerava ser um excelente negócio: o fabrico de espelhos. Na época, celebrava-se uma peregrinação à cidade de Aachen, onde se conservavam relíquias veneradas, acontecimento que foi visto pelo mestre como uma oportunidade para obter lucro muito rapidamente. Na sua oficina em Estrasburgo, deu assim início à produção de espelhos fabricados com uma liga de chumbo e estanho, seguindo as técnicas de fundição semelhantes às utilizadas pelos prateiros. A sua ideia era vender aquelas bugigangas como lembranças destinadas aos peregrinos que se deslocavam a Aachen, pois com eles poderia levar parte da “benéfica radiação” que emitiam as relíquias. O problema, no entanto, foi que Gutenberg cometeu um grave erro de “estudo de mercado”, pois a peregrinação não foi celebrada em 1439, tal como ele pensava, mas sim um ano depois, pelo que todo o investimento feito quase faliu a sua sociedade.

Estátua de Gutenburg

Moldada com bronze em 1839, esta escultura deve-se a David d’Angers, que recriou a figura do inventor da imprensa em diversas ocasiões; por exemplo, o monumento a Gutenberg em Estrasburgo é também uma obra sua (Los Angeles County Museum of Art).

Seja como for, a documentação que se conservou sobre esses anos em Estrasburgo revela que Gutenberg trabalhava já em paralelo num projecto muito especial, embora pouco se saiba sobre ele. No entanto, é provável que o referido projecto estivesse relacionado com a impressão e o fabrico de tipos, tal como se depreende do uso de uma terminologia que tanto se pode associar ao fabrico de moedas como à impressão em papel ou pergaminho.

Talvez o factor determinante para pensar em experiências tipográficas seja que, entre os novos sócios de Gutenberg na época, se encontrasse o co-proprietário de uma fábrica de papel.

Durante alguns anos, desaparece de novo qualquer referência a Gutenberg, mas durante esse período, é provável que se tenha dedicado a aperfeiçoar a sua invenção. Em 1446, de volta à cidade natal e com conhecimentos suficientes, Gutenberg já estava preparado para lançar a sua empresa, embora tivesse de enfrentar um dos obstáculos que qualquer empreendedor tem de assegurar: encontrar uma fonte de financiamento. O seu primo Arnold Gelthus emprestou-lhe 150 florins com 5% de juros, mas não era o suficiente e teve de bater à porta dos banqueiros e comerciantes até encontrar alguém que estivesse disposto a investir no seu projecto.

O trabalho dos livros

O novo sócio de Gutenberg acabou por ser o ourives de Mainz Johannes Fust, com quem fundou a primeira oficina: Das Werk der Bücher (“O trabalho dos livros”). Fust adiantou 800 florins destinados ao fabrico da prensa de impressão, a fundição das letras metálicas e a compra do pergaminho necessário para imprimir a que viria a ser a grande obra de Gutenberg: a Bíblia de 42 linhas, além de outros livros e documentos.

Em 1452, Fust considerou que o projecto não avançava suficientemente rápido, pelo que  fez uma nova injecção de capital. Parte das páginas estavam impressas, mas faltava ainda incluir as rubricas – títulos em letras de cor vermelha – bem como os restantes elementos decorativos, os quais tinham de ser feitos à mão. As causas do atraso talvez possam ser encontradas na dedicação de Gutenberg a outros projectos – violando o acordado inicialmente com o seu sócio –, o que consumia os fundos alocados à impressão dos exemplares da Bíblia. De facto, existe uma série de outras publicações menores (como folhetos, bulas de indulgência, pequenas gramáticas e calendários) que podem ter saído da oficina de Gutenberg.

bíblia de Gutenberg

A Bíblia impressa por Gutenberg

Conhecida como a Bíblia de Gutenberg ou Bíblia de 42 linhas, esta famosa edição das Sagradas Escrituras foi realizada por Johannes Gutenberg em Mainz, em 1455. Hoje apenas se conservam 49 cópias das 180 que se publicaram.

Símbolo do início da era do livro impresso, a Bíblia de Gutenberg tinha 1.282 páginas impressas a duas colunas; a expressão “de 42 linhas” refere-se ao número de linhas por coluna e utiliza-se para a distinguir de edições posteriores (que tinham apenas 36 linhas). Depois de impressos os textos através dos tipos móveis de Gutenberg, uma equipa de artesãos iluminou manualmente cada uma das suas páginas, seguindo a tradição dos antigos manuscritos. A Bíblia reproduzia a Vulgata (a tradução para latim da versão hebraica do Antigo Testamento e a grega do Novo, realizada no final do século IV por São Jerónimo) e a maior parte dos exemplares dividiram as Sagradas Escrituras em dois volumes. Nas imagens, uma página da Bíblia de Gutenberg e a réplica da sua prensa conservada no museu dedicado à sua figura em Mainz, a sua cidade natal.

Gutenberg

Incomodado com os sucessivos atrasos, Fust aproveitou a publicação da Bíblia em 1455 para denunciar Gutenberg e exigir a devolução do empréstimo que lhe concedera. Incapaz de devolver tanto dinheiro, o impressor viu-se obrigado a ceder a sua parte na empresa ao credor, bem como todo o material e os exemplares impressos das Sagradas Escrituras. Além disso, Gutenberg foi condenado a pagar uma exorbitante indemnização que apenas ficou definitivamente saldada vários anos após a sua morte.

Epílogo

Os esforços de tantos anos não podiam cair em saco roto, pelo que Gutenberg tentou novamente. Depois de terminar a parceria com Fust – que se associou a Peter Schöffer, criador dos modelos tipográficos utilizados para fazer as matrizes e fundi-las em série –, Gutenberg viu-se obrigado a procurar um novo sócio e encontrou-o na figura do estudioso patrício e erudito Konrad Hunery. A nova empresa dedicou-se à impressão de documentos administrativos, embora o surgimento do Catholicon, em 1460, possa ter representado a última grande obra de Gutenberg. Não se conhece a identidade do impressor, mas a tipografia utilizada (gótico-romana) é diferente da que Fust e Schöffer usavam na sua oficina, o que permite considerar a possibilidade de que este dicionário latino possa ter saído da oficina de Gutenberg.

Entre 1461 e 1462, a região à qual pertencia Mainz, foi abalada pela disputa entre Adolf von Nassau e Diether von Isenburg pela cadeira arcebispal. A cidade aliou-se a Isenburg, mas pagou as consequências quando Nassau se impôs. Este expulsou um grande número de artesãos e, com toda a probabilidade, Gutenberg encontrava-se entre eles. O mais provável é que o velho impressor, à semelhança do que fez na infância, se tenha retirado para Eltville durante algum tempo. Apesar disso, em algum momento ter-se-á colocado ao serviço de Nassau, entre cujos cortesãos figurou a partir de 1465. Esta posição garantia-lhe uma renda anual em espécie (roupa, cereais e vinho), bem como ficar livre de pagar impostos. Mas não foi muito o tempo que desfrutou desta situação, pois morreu três anos depois, o suficiente para ver como a sua invenção se difundia pela Europa e a produção de livros aumentava a um ritmo impossível de imaginar até então.

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