irmãos Grimm

Em 1829, os irmãos Grimm entraram na Universidade de Göttingen, dispostos a viverem a partir de então a aprazível existência de um professor universitário alemão. Porém, essa tranquilidade foi perturbada em 1837, quando os irmãos assinaram uma carta de protesto contra o soberano de Hanôver pela sua decisão de abolir o regime constitucional fundado quatro anos antes. Jacob, Wilhelm e mais cinco professores foram expulsos do território de Hanôver. Na revolução de 1848, Jacob foi eleito deputado na Assembleia Nacional de Frankfurt. Os irmãos Jacob (de pé) e Wilhelm Grimm, já idosos. Daguerreótipo captado em 1850.

Em 1812, Jacob e Wilhelm Grim publicaram uma compilação de contos infantis que tornaria célebres as histórias da Branca de Neve, de Hansel e Gretel e do Capuchinho Vermelho.

Texto: Isabel Hernández

Nos primeiros anos do século XIX, os escritores alemães Clemens Brentano e Achim von Arnim decidiram elaborar uma colecção de poesias baseadas em contos populares alemães. Publicaram-na em três volumes, entre 1805 e 1808, sob o título O rapaz daflauta mágica. Brentano e Arnim faziam parte do círculo romântico de Heidelberg e eram fiéis seguidores das teorias de Johann Gottfried Herder, que propunha que a poesia era a alma ou o espírito do povo, pelo que era necessário compilar os testemunhos das literaturas populares desaparecidas com o objectivo de recuperar e perceber esse mesmo espírito, diferente em cada uma das nações. Seguindo estes postulados, os dois amigos esforçaram-se por recuperar os tesouros da antiga poesia popular alemã, que se pensavam perdidos, para os resgatar e entregar de novo ao povo.

Em 1806, Brentano escreveu de Heidelberg para o seu cunhado, Friedrich Carl von Savigny, professor na Universidade de Marburgo, para lhe perguntar se conhecia alguém em Kessel que conseguisse vistoriar as colecções da biblioteca e perceber se ali existiria algum antigo poema que pudesse ser copiado. Savigny pensou que um dos seus estudantes, um jovem de 21 anos chamado Jacob Grimm, seria ideal para a tarefa. Jacob aceitou a tarefa juntamente com o seu irmão Wilhelm, um ano mais novo.

Salvos por uma tia

Jacob e Wilhelm eram naturais de Hanau, no Principado de Hesse-Kassel. Com pouco mais de 10 anos, perderam o pai, funcionário público, o que conduziu a família numerosa (no total, eram seis irmãos) a graves dificuldades económicas. Somente com o apoio de uma tia que residia na corte conseguiram prosseguir com os seus estudos e, em 1802, mudaram-se para Marburgo para estudar Direito. Não podiam imaginar que ali descobririam a vocação que determinaria as suas vidas.

De facto, a tarefa de Brentano levaria Jacob e Wilhelm Grimm a iniciarem um projecto de grande ambição: decidiram elaborar uma compilação de contos populares à qual deram o nome de Contos infantis e domésticos (em alemão, Kinder und Hausmärchen). Quando os irmãos começaram a trabalhar nos contos, deram-se conta de que existia uma rica tradição oral, relíquia do passado alemão, que não deveria ser apagada.

irmãos Grimm

Praça da Câmara Municipal de Hanau, local de nascimento dos irmãos Grimm. Ao centro da praça, está a estátua que os representa.

O próprio Jacob manifestou certa vez que não teria conseguido trabalhar com tanto ânimo em textos aparentemente tão humildes se não estivesse já convencido da sua importância para a compreensão da poesia, da mitologia e da história da Alemanha.

Entre o fim de 1806 e o início de 1807, os irmãos começaram a compilação de textos. Inicialmente, apoiaram-se nos relatos orais, porque este procedimento prometia mais possibilidades de bons resultados, mas continuaram a esforçar-se por rastrear e procurar novos narradores, sobretudo entre as mulheres idosas do campo.

Essa tarefa, bem com a persuasão das interlocutoras para partilharem as suas histórias com eles, foi com frequência um caminho difícil e repleto de obstáculos.

Mulheres “contadoras de histórias”

Sabe-se hoje que nem todos os contos dos irmãos Grimm se baseiam em relatos orais. Alguns são variantes de compilações publicadas previamente, como as de Madame D’Aulnoy, Charles Perrault, Gianfrancesco Straparola, Giambattista Basile e o clássico, Mil e uma noites, bem como as colectâneas de contos alemães de Johann Karl August Musäus e Benedikte Naubert.

Em qualquer dos casos, mais de vinte narradores contribuíram com relatos para esta saga. Entre eles contam-se as seis filhas do farmacêutico Wild, vizinho dos Grimm em Kassel (uma delas, Dorothea Wild, casaria mais tarde com Wilhelm), bem como Frederike Mannel, filha do pastor da localidade vizinha de Allendorf, as irmãs Hassenpflug, as seis filhas da família Haxthausen e também as irmãs Droste-Hülshoff, uma das quais, Annette, tornar-se-ia a poetisa mais relevante da Alemanha no século XIX. No entanto, a personalidade que contribuiu mais foi Dorothea Viehmann (Pierson era o seu apelido de solteira), filha de um imigrante huguenote, que morava nos arredores da cidade de Kassel.

irmãos Grimm

Os irmãos Grimm ouvem Dorothea Viehmann contar uma história infantil. Óleo de Louis Katzenstein. Século XIX.

Assim, todo o material dos contos, com escassas excepções, foi trazido exclusivamente por mulheres. O facto é relevante porque não deve ser esquecido que muitas tinham recebido uma educação de inspiração francesa, fosse pela sua origem huguenote ou porque naquela altura estava na moda educar as filhas das classes mais distintas da sociedade com autores e referências franceses.

Desta forma, não é de estranhar que alguns dos contos transmitidos por estas mulheres fossem, na realidade, versões dos contos de fadas franceses, que tinham chegado à Alemanha através das colecções de Madame D’Aulnoy e outras, e eram usados frequentemente para as crianças aprenderem a língua do país vizinho. Vale igualmente notar que as narradoras dos contos não eram camponesas. A maioria provinha da burguesia e tinha tido acesso a formação esmerada. No fim do ano de 1812, os irmãos publicaram a sua colectânea graças ao acordo negociado por Achim von Arnim com uma tipografia de Berlim. O reconhecimento não se fez esperar e, no dia 14 de Outubro desse ano, Wilhelm Grimm escreveu ao irmão: “Os contos tornaram-nos famosos no mundo.”

Há uma razão para este êxito: o rigor e a minúcia com que os Grimm reproduziram os contos, sem acrescentar elementos que não constassem nos relatos originais. Os irmãos sentiam-se acima de todos os filólogos. Eram coleccionadores, transmissores e preservadores de um tesouro popular, em contraste com os seus predecessores, que tinham trabalhado de forma livre com os testemunhos da poesia popular, dando-lhes uma forma claramente literária, em correspondência com a das colectâneas de contos italianos ou franceses que circulavam pela Alemanha.

Êxito imediato

Ao longo de quarenta anos, publicaram-se sucessivas edições da obra. Entre 1807 e 1810, Jacob trabalhou mais nos contos e foi ele que começou a publicá-los em jornais e almanaques como testemunho da sobrevivência oral de antigos mitos e epopeias alemãs. Posteriormente, seria Wilhelm a publicá-los em almanaques para crianças, estabelecendo com isso os alicerces para o que seria mais tarde o seu público principal.

irmãos Grimm

Na versão de 1812 da Gata Borralheira, as irmãs cortam os dedos dos pés e os calcanhares por ordem expressa da mãe para que os pés entrem no sapatinho. Além disso, as pombas benfeitoras tiram a cada uma delas um olho à entrada e outro à saída da igreja no dia do casamento da donzela, ficando cegas para o resto da vida. Capa da edição dos contos de Grimm editada em 1865.

Wilhelm foi apurando o estilo e, em determinadas ocasiões, retocou alguns pormenores das histórias que poderiam não ser convenientes para os seus jovens leitores. Por exemplo, na primeira versão da Branca de Neve, a rainha malvada não era madrasta da menina, mas sim a sua própria mãe. Na edição de 1812 de Hansel e Gretel, era a mãe, e não a madrasta, que enviava os meninos para a floresta para que ali morressem por inanição ou fossem devorados pelas feras. As histórias foram retocadas para não ferirem estereótipos clássicos.

A combinação da compilação científica de Jacob com a reelaboração estilística de Wilhelm produziu uma magnífica obra que todos conhecem e que ocupa um lugar importante na literatura ocidental, transformando os contos dos irmãos Grimm no livro alemão mais editado e traduzido de todos os tempos.

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