Foz Côa

Uma exposição no Museu de Arte Popular faz aquilo que nunca tinha sido feito: transporta a arte do Côa para uma grande cidade.

Texto: Alexandre Vaz
Fotografias: Rodrigo Damião dos Santos

Foi no Verão de 1994 que um colectivo de músicos da Margem Sul lançou dois singles, “Pshyca Style” e “Nadar”. O segundo fez um enorme sucesso e rodava incessantemente nas rádios e o refrão dos Black Company acabou por se afirmar como o grito de protesto da luta pela defesa das gravuras rupestres que iriam ser submersas pelas águas de uma enorme albufeira para aproveitamento hidroeléctrico. Nenhuma outra campanha pela defesa de património arqueológico em Portugal alguma vez conquistou a mesma visibilidade e todos sabiam trautear a cantiga e tinham opinião sobre as figuras gravadas no xisto a 400 quilómetros da capital.

Em finais de 1995, o novo governo decidiu travar a construção da barragem. Em substituição, acabaria por ser erigido um enorme paredão no rio Sabor. As gravuras podem hoje ser visitadas e um magnífico museu, inaugurado em 2010, enquadra as gravuras nem sempre fáceis de decifrar. Apesar da pandemia, em 2021 o museu recebeu quase 80 mil visitas e, embora nade ultrapasse o privilégio de contemplar as gravuras no seu contexto, há agora a oportunidade para todos aqueles que nunca as puderam visitar de mergulhar numa experiência que nos conecta com os nossos antepassados. Em rigor, tal como numa prova de ciclismo é difícil de bater a emoção que se sente na beira da estrada, mas a verdade é que no seu conjunto a competição pode ser melhor apreciada na televisão. Esta analogia parece fazer sentido quando observamos as gravuras in situ ou uma exposição com um imenso volume de informação.

Apesar da singularidade dos sítios de arte rupestre do Vale do Coa, onde já foram identificadas mais de 1.200 rochas gravadas, na sua maioria do Paleolítico, os registos conhecidos na década de 1990 não eram casos isolados. Os nossos antepassados estavam atentos ao mundo que os rodeava e aos animais que avistavam e tinham frequentemente aquilo que hoje consideramos ser um sentido estético apurado.

A exposição “Côa e Siega Verde: Arte Sem Limites” que está patente no até 22 de Outubro, no Museu de Arte Popular em Lisboa reúne peças originais, réplicas e reconstituições da arte rupestre do Vale do Côa e de Siega Verde, na província de Salamanca. A visita é imprescindível e enquadra a excepcionalidade da arte do Côa, que privilegia os testemunhos a céu aberto, contrariando muito do que até então se escrevia sobre a arte paleolítica, consagrada sobretudo em grutas e ambientes fechados. Por isso, o ambiente da primeira metade da exposição é sombrio para depois se abrir na claridade como sucede no Côa e em Siega.

Quem foram de facto os autores destas gravuras e como viviam eles? Como caçavam e como se vestiam? Que utensílios usavam para gravar as lajes de xisto? Os animais que reproduziam nos painéis eram importantes na sua dieta ou não eram caçados? De onde vieram e que ligações estabeleciam estas comunidades com outros núcleos? Como foram evoluindo as gravuras ao longo do tempo e como têm sido estudadas?

Além das respostas a todas estas perguntas, o visitante pode explorar animações interactivas, decalcar uma gravura em papel ou simular uma selfie com um guerreiro ou uma família do Paleolítico. Os mais novos não se lembrarão certamente do sucesso de Verão dos Black Company nem da campanha para salvaguarda da gravuras que se apropriou do seu refrão “As gravuras não sabem nadar, yo!”, mas à beira de se cumprirem três décadas deste episódio vale a pena descobrir ou revisitar este magnífico património que mais do que nos colocar em diálogo com um passado partilhado nos relembra a ligação intangível e visceral entre a nossa própria existência e a natureza que nos rodeia.

A partir de Novembro, a exposição ruma a Madrid.

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