Júlio Verne

Júlio Verne (aqui numa fotografia colorida de 1880) afirmava que cada elemento geográfico e científico contido nas suas obras “foi examinado ao pormenor e é rigorosamente exacto”.

Nos seus populares romances de aventuras, Júlio Verne reflectiu duas grandes aspirações do século XIX: a exploração do mundo e o progresso tecnológico.

Texto: Pedro García Martín

Júlio Verne nasceu no seio de uma família burguesa de Nantes no dia 8 de Fevereiro de 1828. O pai, Pierre Verne, era notário e descendente de uma linhagem de advogados. A mãe, Sophie Alote, pertencia a uma família de militares. A casa da família encontrava-se num exclusivo bairro da cidade do Loire, onde a maioria das mansões luxuosas pertenciam a armadores navais que, enriquecidos com o“ouro negro”do comércio de escravos, viveram a sua época de esplendor no século XVIII.

O porto fora uma escala de navios negreiros que se dirigiam para os Estados Unidos. Ainda hoje se pode ver a decoração favorita desses comerciantes: mascarões esculpidos nas suas fachadas, cujas faces representavam seres mitológicos, índios, negros e até familiares dos comerciantes. O romancista saldou esta mancha cívica da sua cidade natal na obra Um capitão de quinze anos, onde condenou“o abominável tráfico de carregamento de ébano”.

A viagem à lua segundo Júlio Verne.

As obras Da terra à lua (1866) e À volta da Lua (1868) descrevem o lançamento e a órbita da Lua em naves espaciais. As semelhanças com a missão Apollo VIII, que em 1968 se transformou na primeira missão tripulada a orbitar o satélite, são surpreendentes: ambas as expedições são constituídas por três homens, os foguetes têm um peso e medidas semelhantes, realizam um trajecto muito parecido e amaram no oceano Pacífico. Verne calculou o tempo necessário para chegar à Lua e o efeito da órbita desta sobre a nave. Para conseguir um trajecto em linha recta (o mais curto), o ponto de partida ideal estaria no paralelo 28, pelo que elegeu Tampa, apenas a 200 quilómetros do cabo Canaveral, base de lançamento da NASA.

Espírito viajante e aventureiro

As biografias de Júlio Verne contam uma pequena história, provavelmente apócrifa, sobre a sua precocidade aventureira. Diz a história que aos 11 anos fugiu de casa para se alistar como grumete no navio mercante Coralie e que o seu pai o tirou de bordo quando ele se preparava para zarpar rumo à Índia. Na verdade, os factores que despertaram a paixão literária de Verne foram as histórias contadas pela sua professora da escola, esposa de um marinheiro, bem como a panorâmica do molhe obtida da sua janela. Aquela floresta de mastros, de bandeiras coloridas e o movimento da carga e descarga fizeram-no sonhar com explorações marítimas e longínquas.

Júlio Verne

Durante a educação secundária, ganhou um prémio de geografia e refinou o gosto pelo coleccionismo de revistas científicas. Devorou igualmente livros de aventuras, desde Robinson Crusoe a Ivanhoe, e dedicou poemas ao seu primeiro amor, mademoiselle Caroline. A rejeição da jovem, comprometida com um visconde, travou a sua veia artística e, desiludido, Júlio aceitou o conselho paterno e foi estudar Direito em Paris. Essa viagem foi realizada em dois meios de transporte que o fascinaram e que seriam depois adoptados nos seus romances: o piróscafo, ou navio a vapor, e o comboio.

Assim, em 1847, Júlio Verne chegou a uma cidade em vésperas da revolução liberal que derrotou o rei Luís Filipe e que proclamou, por sua vez, uma república democrática. Apesar da agitação política, Verne limitou-se a frequentar a boémia do Bairro Latino que, em pleno romantismo, venerava Balzac, Victor Hugo e Musset.

Foi por esta via que Júlio ingressou na tertúlia literária do salão de madame Barrère, onde conheceu Alexandre Dumas, filho, que o aconselhou. Com este apoio, escreveu obras teatrais, pequenos relatos e libretos de ópera e renunciou à carreira como jurista, contrariando o desígnio paterno.

revolução

Verne assistiu aos acontecimentos que provocaram a abdicação de Luís Filipe I em 1848. Este óleo de Eugène Hagnauer recria o tumulto registado durante o assalto ao Palácio das Tulherias.

Júlio travou igualmente amizade com Nadar no Clube de Imprensa Científica. Este fotógrafo aeronauta (que em 1862 faria os primeiros retratos da Cidade da Luz em balão) contagiou Verne com a paixão pelo voo aerostático. Foram anos de fome, que provocaram transtornos digestivos crónicos no jovem, mas também o frenesi de leitor. Verne lia sobre matemática e astronomia e descobriu A aventura sem paralelo de um tal Hans Pfaall, de Edgar Allan Poe, sobre uma viagem à Lua num balão. Depois de trabalhar como secretário do Teatro Lírico, foi agente da Bolsa, até que aos 24 anos entrou na redacção da revista literária O museu das famílias para se ocupar da secção científica.

paris

Uma das primeiras fotografias aéreas de Paris captadas por Nadar, provavelmente em 1868, embora a data inscrita seja 1858.

Mais tarde, conheceu Honorine Deviane, uma viúva de Amiens que tinha duas filhas, com a qual se casou em 1857. O matrimónio não lhe proporcionou a estabilidade que esperava. Sentiu até um certo aprisionamento, pelo que viajou para a Escócia, Noruega e Dinamarca para fugir à monotonia do lar. O casal teve um filho, Michel, que viria a ser problemático. Embora tenha chegado a ser um escritor aceitável, não deixou de dar desgostos aos pais e escandalizou-os com os seus amores por actrizes e por ter tido um filho ilegítimo.

O escritor encontra o editor

Em 1862, registou-se um encontro decisivo. Júlio Verne entregou ao editor Pierre-Jules Hetzel um manuscrito que combinava a literatura com a divulgação científica. Tratava-se da obra Cinco semanas em balão, uma adaptação das narrativas sobre os voos do seu amigo Nadar, que se transformou num êxito de vendas sem precedentes. O próprio Verne descreveu-o com as seguintes palavras: “Acabo de escrever um romance com uma nova forma, uma ideia própria. Se tiver êxito, constituirá, de certeza, um filão aberto.” Hetzel viu-o da mesma forma.

pierre jules

Pierre-Jules Hetzel fotografado por Nadar em 1865. O editor submetia as obras de verne a um férreo controlo para assegurar o seu êxito comercial e exigia ao autor um elevado ritmo de produção.

Quando o escritor lhe levou um manuscrito futurista, intitulado Paris no século XX, o editor rejeitou-o por lhe parecer pessimista e muito técnico.“Dava a impressão de que o balão tinha sido uma feliz casualidade”, disse. E recomendou-lhe que voltasse ao estilo original.

Hetzel ofereceu a Verne um contrato suculento, mas, nas condições acessórias, camuflou cláusulas leoninas. Verne comprometia-se a escrever dois romances por ano para a casa editorial durante os vinte anos seguintes em troca de 20 mil francos anuais de direitos de autor. Era uma soma elevada para os padrões da época, mas viria a condenar o autor a uma produção literária à peça durante o resto da sua vida, com consequências na qualidade das suas obras.

Júlio Verne

Em O senhor do mundo, Júlio Verne imaginou uma máquina que viajava por terra, mar e pelo ar (O terror), que aparece aqui a voar de asas abertas.

À procura de tranquilidade para escrever ao ritmo frenético imposto pelo contrato com Hetzel, Verne instalou-se em Amiens, longe do“ruído insuportável” e da “agitação estéril” de Paris. Na quietude do seu escritório, escrevia desde as cinco da madrugada até às onze da manhã. A sua casa era perto da estação, o que lhe permitia viajar para a capital e para o porto de Le Crotoy, onde atracava o seu barco (chegou a ter três, com o nome de Saint Michel) para sair para navegar, a sua grande paixão. Verne integrou-se plenamente na vida social da cidade, da qual foi conselheiro de Educação, Museus e Festas. Entre os seus êxitos conta-se aconstrução de um circo, atribuído ao arquitecto Émile Ricquier, aluno de Eiffel. Esta devoção circense ficou reflectida na obra César cascavel (1890), que relata o périplo de uma família de saltimbancos que viaja por estrada através do Oeste dos Estados Unidos e pela Sibéria para regressar a França, atravessando durante o trajecto paisagens virgens e desertos gelados. Na calma de Amiens, Verne concebeu a maioria das obras agrupadas sob o nome de Viagens extraordinárias. O autor escreveu estes famosos romances de aventuras até ao ano da sua morte, em 1905. No prólogo da obra Viagens e aventuras do capitão Hatteras (1864-1865), Hetzel proclamou que o objectivo da colecção consistia em“resumir todos os conhecimentos geográficos, geológicos, físicos e astronómicos acumulados pela ciência moderna e refazer, sob a atractiva forma que lhe é própria, a história do universo”.

Júlio Verne

Embora se tenha valido do balão aerostático para fotografar Paris, Nadar, tal como Verne, pensava que o futuro da aviação passaria por engenhos mais pesados do que o ar, propulsionados por hélices e potentes motores. Fotografia: Atelier de Nadar

Viagens extraordinárias e progresso

Os primeiros títulos, em formato pequeno, foram publicados por entregas na Magasin d’Education etde Récréation. Porém, Hetzel depressa se assegurou de que estesvolumes teriam êxito comercial em formato maior e com capas ilustradas. Foi assim que surgiu a ideia das famosas capas das Viagens extraordinárias, desenhadas através da técnica de cartonagem, que consistia em encadernar os livros com uma capa de cartão forrada com tecido magnificamente decorada. A popularidade alcançada pelos romances de Verne levou o editor a aperfeiçoar a estética dos livros e a renovar o próprio livro segundo o gosto do público.

Essas entregas iniciais das Viagens extraordinárias são uma ode à felicidade que o progresso traria para o homem. O meio para alcançar este avanço social seria a ciência e a sua divulgação seria realizada pelos romances. Contudo, o escritor misturava nas suas interpretações as leituras românticas da juventude com ideias de socialismo utópico e de positivismo baseado na razão. As histórias de Verne surgiram num momento de optimismo colectivo, propiciado pela Revolução Industrial em França e pela estabilidade política do regime de Napoleão III. Os protagonistas das suas obras são sempre exploradores bem-dispostos e as máquinas constituem sempre melhoramentos na vida dos homens.

hetzel

Pierre-Jules Hetzel, o ateu e progressista editor de Júlio Verne, era o antípoda ideológico do autor, embora ambos partilhassem o objectivo de difundir a ciência às massas. Hetzel participara na revolução de 1848 e nos governos da Segunda República francesa e tinha uma fé cega na educação da infância, que devia, segundo ele, ser laica, gratuita e obrigatória. Hetzel foi mais do que um editor. Chegou mesmo a alterar o final da obra As aventuras do capitão Hatteras, impedindo o suicídio do herói no final, tal como Verne pretendia. A submissão do escritor pode ser avaliada na correspondência entre ambos: “Estarei sempre disposto a modificar o que seja preciso”, admitia em meados da década de 1860, Verne, que assina uma carta de 1867 como “vosso Verne, o que você inventou”. Na imagem: Página manuscrita de A volta ao mundo em 80 dias que inclui as correcções à primeira versão, acrescentadas por verne na metade direita da folha.

Na obra Cinco semanas em balão, o sábio inglês Samuel Fergusson, na companhia de um criado e de um amigo, percorre o continente africano a bordo de um balão insuflado com hidrogénio. Nas Vinte mil léguas submarinas (1869), o biólogo francês Pierre Aronnax, embarcado no navio Abraham Lincoln, é atirado ao mar e vai parar ao submarino Nautilus do lendário capitão Nemo. Na Viagem ao centro da Terra (1864) Verne narra a expedição de um professor de mineralogia, o alemão Otto Lidenbrock, até ao núcleo do planeta a partir de um vulcão na Islândia. E no livro A ilha misteriosa (1874) os tripulantes de um balão caem numa ilha sob a qual se esconde o reino aquático do capitão Nemo.

viagens Júlio Verne

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Com o tempo, porém, os livros de Verne tornaram-se mais pessimistas. Nos finais do século, as potências europeias rivalizavam pela expansão dos respectivos impérios coloniais, e a ciência e a tecnologia colocavam-se ao serviço da indústria e do capital. A fé de Verne no progresso fraquejou e o autor transformou as suas personagens, imaginando-as em mundos mais realistas. Foi o caso do romance O raio verde (1882), no qual um impulso romântico leva os protagonistas para a costa da Escócia para contemplar este fenómeno atmosférico, ou O castelo dos Cárpatos (1892), romance de ecos góticos e vampirescos passado na Transilvânia. No prólogo deste último, Júlio Verne lamenta que, no final do “pragmático século XIX”, já não exista ninguém que invente lendas, nem sequer nos países mais mágicos.

O pai da ficção científica

A Europa de Júlio Verne viveu uma Revolução Industrial. As fábricas, a tecnologia, a máquina a vapor, o telégrafo e as comunicações transformaram o mundo e tornaram-no pequeno: a abertura do canal de Suez, o comboio da costa pacífica nos Estados Unidos ou o Transiberiano na Ásia encurtaram as distâncias. Os novos meios de comunicação de massas deram notícias pontuais destes progressos. Este era o terreno fértil ideal para que o escritor francês vaticinasse avanços tecnológicos do século XX. Desta forma, juntamente com H.G. Wells, Verne ergueu-se como um dos pais da ficção científica. Porém, esta veneração pela ciência do futuro não foi premeditada e devia-se ao seu entusiasmo de divulgação:“Eu simplesmente tenho feito ficção daquilo que posteriormente se transformaria em facto, e o meu objectivo não era profetizar, mas sim difundir o conhecimento da geografia entre a juventude”, afirmou numa entrevista em 1902.

Júlio Verne

No final da sua vida, Júlio Verne radicou-se na Casa da Torre, em Amiens. O nome deve-se ao torreão que preside à residência. Aí viveu durante 18 anos e actual- mente a casa acolhe o museu do autor. A sua arquitectura de ferro e vidro, na moda da segunda metade do século XIX, é semelhante às das exposições universais. A entrada é feita através de um jardim de Inverno, um espaço envidraçado onde o autor recebia as suas visitas. No piso térreo, encontram-se salões decorados com as fotografias dos senhores da casa. Livros de “robin- sonadas”, inspiradas em Robinson Crusoe, e as suas obras teatrais evocam a juventude do escritor. No piso superior, encontra-se o gabinete de Júlio Verne, onde um globo terrestre, mapas, livros e gravuras emergem o visitante no ta- lentoso universo de Verne. Na imagem, a casa de Júlio Verne em Amiens, com a torre à qual deve o nome.

As invenções que Verne imaginou anteciparam-se ao seu tempo.Umas foram cumpridas: o submarino, os foguetões para a Lua, as capitais superpovoadas, otelefone, as guerras bacteriológicas e as videoconferências. Outras nunca se concretizaram: os jornais que falavam, os tubos pneumáticos através dos mares e os transformadores solares que uniformizavam as estações. Todas as ideias, porém, foram impulsionadas por uma prodigiosa imaginação e por uma fé cega no progresso:“O meu lema tem sido sempre o amor ao bem e à ciência”, dizia.

Júlio Verne

Com o telégrafo, o mundo ficou ligado em tempo real. Phileas Fogg usou-o para contar os seus progressos durante A volta ao mundo em 80 dias. Na imagem, uma réplica do telégrafo sem fios de Marconi.

A obra de Júlio Verne contribuiu igualmente para atrair um novo olhar sobre a paisagem, cuja percepção registou alterações revolucionárias no século XIX. Desde a Antiguidade, a visão tradicional do espaço tinha sido frontal. O correio do czar, Miguel Strogoff, por exemplo, durante a sua campanha pelos amplos espaços que separavam Moscovo e Irkutsk, pouco encontrou além do vazio e da paisagem bravia. No entanto, o comboio trouxe uma percepção lateral do espaço, já que os viajantes olhavam para a paisagem por uma janela, o que antecipava duas novas linguagens: o cinema e a banda desenhada. Graças à velocidade do novo meio de transporte, aliás, Phileas Fogg e o seu inseparável mordomo Passepartout cobriram de comboio a maior parte de A viagem ao mundo em oitenta dias (1872).

Júlio Verne

Júlio verne viveu em três cidades: Nantes, onde nasceu, Paris, onde estudou, e Amiens, onde residiu até à morte. Visitou a Escócia, Inglaterra e a Escandinávia, e fez um cruzeiro a Nova Iorque. A bordo dos seus três barcos, percorreu a costa atlântica de Portugal e Espanha e também viajou por Itália e pelo Norte de África. Não parecem ser muitas viagens para um escritor que chegou à Lua, ao fundo do mar e que deu a volta ao mundo nos seus romances dezenas de vezes a partir do seu escritório na Casa da Torre, em Amiens. O seu biógrafo, Herbert Lottman, definiu-o como um “astronauta de sofá”. Na imagem, as cataratas do Niágara. Júlio Verne visitou este local durante a viagem que fez à América com o irmão em 1867.

Os olhos dos homens oitocentistas erguiam-se também para o céu. Na obra Cinco semanas em balão, os exploradores observavam a Terra em panorâmica aérea. No livro Da Terra à Lua (1865) e na sua posterior adaptação ao cinema por Méliès, os astronautas contemplaram panorâmicas semelhantes às do foguetão Apolo VIII. Essa mesma visão também foi dirigida para o mundo subterrâneo em Viagem ao centro da Terra e às profundezas insondáveis em Vinte mil léguas submarinas, onde o capitão Nemo percorria o leito marítimo a bordo do Nautilus. Os leitores passaram a ter uma percepção vertical da paisagem e os romances de Júlio Verne reflectiram essa revolução visual dos tempos modernos.

Amor aos mapas

A vida sedentária de Júlio Verne não o impediu de percorrer os planetas com o pensamento em Da Terra à Lua e outras obras. Em 1894, Mary A. Belloc, uma redactora da revista The Strand Magazine, conseguiu entrevistar o escritor. Questionado sobre o seu processo criativo, concretamente a origem das suas ideias científicas, Verne respondeu: “O segredo está no que me apaixonou sempre: o estudo da geografia. Creio que o meu interesse pelos mapas e pelos grandes exploradores do mundo incitou-me a escrever.” Talvez seja por isso que, na sua casa de Amiens, um globo terrestre no escritório chame a atenção dos visitantes: a esfera está picada por incisões do compasso que o escritor fazia para medir as distâncias.

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