Salomão e a Rainha de Sabá

A reunião dos reis. Assim evocou Lambert Sustris, no século XVI, o encontro dos dois reis. Galeria Nacional, Londres.

Salomão, filho de David e seu sucessor no trono de Israel, recebeu a visita da rainha de Sabá, desejosa de conhecer o soberano. A Bíblia relata este encontro, entre a história e a lenda, que tem como pano de fundo o Próximo Oriente no século X a.C.

Texto: Francisco del Río Sánchez

Conhecemos a história do encontro entre Salomão e a rainha de Sabá graças à Bíblia hebraica. No Primeiro Livro dos Reis e no Segundo Livro de Crónicas, explica-se de forma sucinta que a rainha, depois de ouvir falar da fama do rei de Israel, viajou para Jerusalém com produtos exóticos da Arábia, camelos, especiarias, ouro e pedras preciosas, com o objectivo de pôr à prova Salomão com questões e enigmas difíceis de resolver. Para sua satisfação, o sábio rei respondeu acertadamente e a rainha regressou ao seu território de origem.

Salomão e a Rainha de Sabá

No século XIX, o pintor francês James Tissot, autor de inúmeras evocações da Bíblia, recriou desta forma o encontro em Jerusalém entre Salomão e a rainha do Sul da Arábia.

Do ponto de vista narrativo, tudo parece indicar que a história do encontro entre ambos os monarcas foi introduzida na narração bíblica com objectivo de salientar a espantosa sabedoria de Salomão, aproveitando algumas histórias que possivelmente circulavam na Palestina e na Síria e que falavam vagamente do reinado de uma poderosa e bela mulher nas longínquas, ricas e exóticas terras do Sul da Arábia.

O relato torna-se lenda

Graças ao relato bíblico, a visita da rainha de Sabá a Jerusalém acabou por se tornar um dos mais imaginativos e férteis ciclos de lendas e contos do Oriente. Na literatura judaica mais antiga, emergiu então um colorido relato com todos os ingredientes necessários para desenvolver uma história glamorosa: beleza, riqueza, poder, exotismo, intriga, magia e amor.

Salomão e a Rainha de Sabá

Incensário oferecido a uma divindade de Sabá. Século III d.C. Museu Britânico. Londres.

Estes elementos foram sendo incorporados em obras de distintos géneros e temáticas, como as Antiguidades judaicas, de Flávio Josefo (que escreveu no século I d.C.) ou o Targum Sheni, uma tradução livre do Livro de Ester para o aramaico.

Segundo estas fontes, uma poupa informou Salomão de que o reino de Sabá era o único na Terra que não estava sujeito ao seu poder e que a sua rainha adorava o Sol. O rei enviou a ave à cidade de Kitor, com uma carta na qual ordenava à rainha que se submetesse ao seu poder, ao que ela respondeu enviando uma frota“com todos os navios existentes no mar”, carregados com belos presentes.

Nessas embarcações, viajavam seis mil jovens da mesma estatura e aspecto, vestidos com paramentos de púrpura e nascidos no mesmo dia e à mesma hora, que deviam entregar a Salomão uma missiva na qual a rainha anunciava que chegaria a Jerusalém depois de uma viagem de três anos. Quando finalmente a rainha entrou no palácio de Salomão, pensou que o solo limpíssimo era uma piscina cheia de água e levantou o vestido, mostrando assim as suas pernas, gesto de que Salomão se apercebeu. Depois disso, a rainha apresentou-lhe 19 enigmas que o monarca solucionou com facilidade.

escritura sabística

Escritura sabística. Junto destas linhas, texto comemorativo do século V d.C. O sabístico, tal como o hebraico, é uma língua semítica. Museu do Louvre, Paris.

Bilqis nas histórias árabes

Os árabes conheciam os pormenores dessa história e adaptaram-na à sua própria sensibilidade, juntando-lhe novos elementos. Para eles, a história da rainha de Sabá era tão famosa que até surge contada no próprio Alcorão. No capítulo 27, aparecem resumidos muitos dos elementos da lenda, tal como tinham contado os autores judeus. Salomão aparece descrito como um rei crente em Alá, sábio e perito em magia, general de um exército formado por homens, génios e aves.

Repetem-se novamente a figuração da poupa e a descrição de uma rainha sem nome, rica, poderosa e adoradora do Sol, que se senta no trono majestoso de um longínquo país. No Alcorão, o rei envia uma carta a essa soberana, não para subjugar o seu reino mas para a convidar à conversão, ao que ela responde enviando-lhe emissários e ricos presentes que este, por sua vez, rejeita.

Salomão e a Rainha de Sabá

Conversa mística entre Salomão e a Rainha de Sabá, que aparecem sentados. Ícone Etíope do século XVIII.

Nesta história, surge um elemento novo: a mentira usada por Salomão para provar a sagacidade da rainha. Enquanto ela está a caminho, o rei envia um génio para que este roube o seu trono e o traga para Jerusalém com o objectivo de o alterar para ver se a rainha o reconheceria. Uma vez ultrapassada a prova, Salomão mostra-lhe o seu palácio de cristal, construído com artes mágicas. Impressionada com o poder do monarca de Israel, a soberana abandona o paganismo e converte-se à fé de Alá.

Os comentadores do texto corânico trouxeram outros elementos à história. Além de darem a conhecer o nome da rainha, Bilqis (provavelmente uma corruptela do grego pallake, ou“concubina”) e de descreverem a sua beleza, explicaram também que os demónios não queriam que Salomão se casasse com ela, pelo que difundiram a notícia de que a mulher teria as pernas peludas como Lilith, o temível demónio fêmea da noite.

Para o comprovar, Salomão mandou que os génios construíssem um solo de vidro: confundindo-o com água, Bilqis arregaçou o vestido para o atravessar, deixando assim a descoberto as suas pernas. Depois de ordenar que os génios fizessem uma poção depilatória, Salomão acabou por se casar com a rainha.

Makeda para os etíopes

Nos planaltos setentrionais do Corno de África (as actuais Etiópia e Somália), a história bíblica acabaria por inspirar-se nas lendas fundacionais e nas tradições literárias e folclóricas mais ricas sobre a relação entre Salomão e a rainha de Sabá. A identidade etíope formou-se graças a três elementos. O primeiro foi o cristianismo, que se convertera na religião do reino de Aksum (origem da moderna Etiópia) em meados do século IV d.C. Aos poucos, esta nova religião, que provavelmente chegara da Síria ou do Egipto, misturou-se com elementos de origem judaica e desenvolveu-se de forma autóctone.

Salomão

A reconstituição do reinado salomónico força a examinar de forma crítica a informação da Bíblia, a única fonte que a proporciona. Ao fazê-lo, os investigadores são conduzidos para uma hipótese mais realista: a de um pequeno reino em crise que abarcaria o território tribal das montanhas de Judá e que nunca chegou ao mar, domínio dos filisteus, nem a norte, o local no qual se estabeleceria e estenderia o reino de Israel. A própria extensão da sua capital, a Jerusalém daquela altura, certifica que se tratava de um reino mais modesto. Na cidade, que o pai David conquistara, Salomão construiu o Primeiro Templo para acolher a Arca da Aliança. Esse recinto (construído no monte Mória e que, segundo a Bíblia, mediria 31m de comprimento, 10,5 de largura e 15,6 de altura) foi a maior obra arquitectónica do reinado. Salomão, cujo nome é mais um cognome (“o Pacífico”) do que um verdadeiro antropónimo, transformou-se, graças aos textos bíblicos, na figura do rei perfeito no qual se reuniam o poder, a sabedoria, a prudência e a piedade. Definitivamente, foi uma figura lendária que deu azo a outra das lendas frutíferas produzidas pelo Oriente. Na imagem David e Salomão. Igreja de Santa Maria Assunta, Torcello (Veneza). Século XI.

O segundo traço que compôs a cultura etíope foi o seu carácter semítico que, provavelmente, provinha da sua estreita relação com o Iémen e, mais concretamente, com o reino de Sabá. De facto, a influência sabística na Etiópia é ainda evidente na sua escrita – uma derivação da escrita do Sul da Arábia usada nessa região do Iémen pré-islâmico.

Salomão

O templo construído por Salomão em Jerusalém. O primeiro templo numa recriação de Balogh Balage. Século XX

Por fim, a relação da Etiópia com a rainha de Sabá permitiu que a sua dinastia ficasse perpetuamente legitimada e santificada, graças aos relatos sagrados da Bíblia. Com efeito, a relação da monarca com a Etiópia deveria ser muito antiga, já que Flávio Josefo se refere a ela no século I d.C. Essa ideia aparece repetida em autores cristãos como Eusébio de Cesareia ou Orígenes, pelo que não é de estranhar que fosse conhecida pelos cristãos da Etiópia.

O desenvolvimento da lenda figura também no Kebra Nagast ou Livro da glória dos reis da Etiópia, uma obra compilada no século XIII, mas com elementos provavelmente muito mais antigos, que contém uma história nova sobre a origem da dinastia etíope e cujo propósito central é demonstrar o carácter sagrado da mesma graças à união da rainha de Sabá com Salomão, da qual nasceria o primeiro monarca etíope dessa linha.

Tel Megiddo

Tel Megiddo terá sido obra de Salomão? A arqueologia não deu uma resposta satisfatória à questão dos limites do reino de Salomão. De facto, actualmente, coexistem duas teorias distintas e contraditórias. Uma é a tradicional, que atribui a Salomão alguns dos estratos escavados nos edifícios palatinos das cidades de Megiddo e de Hazor, ambas na actual Israel. Aceitando-se esta hipótese, dá-se fiabilidade à informação bíblica que descreve como este rei construiu estábulos e palácios. Contudo, muitos autores questionam-se como poderia uma cidade tão pobre como Jerusalém no século X a.C. governar nessa época grandes centros urbanos como os dois já mencionados. Outra cronologia implica datas mais recentes para estas descobertas, atribuindo-as à dinastia dos omridas, posterior a Salomão em várias décadas. Isto implicaria aceitar que não existe qualquer vestígio monumental atribuível a Salomão, cujo reino, caso tenha de facto existido, teria sido modesto: “David e Salomão foram pouco mais do que líderes tribais das montanhas”, assinalaram os arqueólogos Israel Finkelstein e Neil A. Siberman.

Segundo o Kebra Nagast, a Rainha do Sul (tal como é mencionada nos evangelhos de Mateus 12, 42 e Lucas 11, 31), identificada como rainha da Etiópia, soube um dia por um comerciante chamado Tamrin que existia um reino governado por Salomão, que se destacava no mundo pela sua riqueza e justiça.

Movida pela curiosidade, a rainha Makeda viajou para Jerusalém, onde ficou espantada com a sabedoria do monarca bíblico. Por sua vez, Salomão ficou abalado com a beleza de Makeda e tentou retê-la no seu reino. Para tal, imaginou uma mentira que obrigou a rainha a permanecer em Jerusalém e permitiu que Salomão se deitasse com ela. Dessa união, nasceu um filho chamado Baina-lehkem, que foi reconhecido pelo seu pai. Os sacerdotes de Jerusalém consagraram-no com o nome de David e permitiram-lhe que regressasse à Etiópia como rei, levando consigo a Arca da Aliança.

Jerusálem

Capital modesta. O contorno da imagem indica a extensão de Jerusalém nos tempos de David, pai de Salomão.

Embora seja provável que o encontro entre Salomão e a bela Rainha do Sul nunca tenha acontecido, é muito verosímil que a Bíblia fizesse eco da existência e da fama do reino de Sabá, do qual se tem bastante informação graças às inscrições encontradas no Sul da Arábia, algumas das quais podem remontar ao século VIII a.C.

Graças a essa fonte de informação, que fica complementada com descobertas arqueológicas, sabe-se que Sabá foi de facto uma cultura florescente durante quase um milénio antes da chegada do islão. A sua população dominava boa parte do Iémen, permanecendo durante longos períodos de tempo à cabeça de uma coligação na qual participavam outros povos culturalmente semelhantes, como os ma’in, os qataban e os hadramaut.

O reino de Sabá

A primeira menção ao reino de Sabá data do século VIII a.C. e provém de fontes assírias. Nelas, é descrito um povo comerciante“cujo lar está muito longe” e que obtém a sua riqueza através da exportação de especiarias e de incenso. Também se sabe que este povo empreendeu algumas missões diplomáticas e comerciais, levando embaixadores e presentes para a corte assíria.

rainha de Sabá

A rainha da Etiópia

A figura da rainha de Sabá e a certeza da veracidade histórica da sua visita a Salomão ocupam um lugar tão importante na identidade etíope que até a primeira Constituição da Etiópia, promulgada em 1931, declarava este princípio no seu artigo 3º, onde se dizia o seguinte: “Fica estabelecido por lei que a dignidade imperial pertence exclusivamente à linha de Khayle Sellasi I, nascido da estirpe do rei Shala Sellasi, descendente da dinastia de Menelik I, nascido por sua vez do rei Salomão de Jerusalém e da rainha da Etiópia, chamada rainha de Sabá.” Este artigo foi repetido de forma literal na Constituição promulgada pelo negus (título dos reis etíopes) em 1955, que permaneceu vigente até à queda da monarquia depois da revolução em 1974. Na imagem a rainha de Sabá, no interior de um templo, rodeado por água. Miniatura de um manuscrito etíope do século XVII.

Desta perspectiva, é possível que a Bíblia fizesse eco de uma dessas visitas para estabelecer ou fortalecer relações diplomáticas e comerciais, semelhante às que são descritas nos textos assírios que se referem a enviados às cortes dos reinos de Israel (entre os séculos IX-VIII a.C.) e de Judá (IX e VI a.C.). Nas inscrições sabísticas mais antigas, escritas em árabe meridional com um tipo de alfabeto totalmente distinto do árabe clássico, mencionam-se os seus reis e o poder era transmitido por via materna.

Esses reis autodesignavam-se por “os unificadores”, ou seja, líderes de uma confederação de povos sobre os quais mantinham a sua hegemonia política e militar. A capital do reino era a importante cidade de Ma’rib, à qual os árabes mais tarde chamariam de Ma’rib, localizada num fértil oásis na fronteira do deserto.

rainha de Sabá

As ruínas de Ma’rib. A fotografia corresponde à antiga Ma’rib, a sul da actual cidade com este nome e construída sobre a localização muito mais antiga da capital de Sabá.

A primeira fase de florescimento da ltura sabística durou até aproximadamente meados do primeiro milénio antes de Cristo, momento no qual o domínio das rotas do comércio de incenso passou para as mãos de outros povos do Sul da Arábia. Dessa época, existem algumas evidências que demonstram que os sabísticos mantiveram colónias comerciais no Corno de África, na área que viria a ser a Etiópia, miscigenando-se com as populações locais.

Mais tarde, mil anos depois de Salomão, entre os séculos I e III d.C., Sabá voltou a ocupar um lugar proeminente no panorama político e económico no Sul da Arábia. Durante esse período, os seus soberanos tiveram a sua capital em Zafar e ostentavam o título de reis “de Sabá e de Raydan, de Hadramaut e do Iémen” para demonstrar que governavam distintos povos do Sul da Arábia, embora na realidade esse título fosse igualmente disputado pelos governantes himiar, outro povo do Iémen com o qual tiveram frequentes conflitos e que acabaria por se transformar na potência hegemónica da região.

rainha de sabá

O reino dos perfumes. Incensário proveniente de Sabá. Os mercadores de Sabá percorriam as rotas que levavam esse produto até ao Próximo Oriente e ao Mediterrâneo. Cerca de 300 a.C. Museu Britânico, Londres.

Tal como em épocas antigas, a prosperidade de Sabá assentou sobre a sua mestria no aproveitamento dos recursos hídricos e no domínio das rotas comerciais do incenso e das especiarias. O seu colapso chegou com a destruição da grande barragem de Ma’rib, construída sete quilómetros para norte desta cidade, no século VI d.C. Algumas décadas mais tarde, a conquista muçulmana acabou por obscurecer o glorioso passado de Sabá.

No entanto, a recordação do antigo esplendor perdurou na lenda, na qual brilham as faustosas riquezas que uma rainha sem nome colocou aos pés do soberano mais sábio da terra – este sim, com nome –, admirada pela sua majestade e pelos seus conhecimentos: A Bíblia é explícita neste ponto: “Ofereceu depois a Salomão cerca de três toneladas e meia de ouro, uma grande quantidade de perfumes e de pedras preciosas. Nunca a Israel tinha chegado uma tal quantidade de perfumes de presente, como a que a rainha de Sabá ofereceu ao rei Salomão.” Com estas palavras, o Primeiro Livro dos Reis elevou o líder de um reino montanhoso e não muito extenso à categoria de grande soberano que recebia o reconhecimento do território mais poderoso da Arábia. E assim ficou consagrada a sua imagem para toda a eternidade.

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