imprensa no século das luzes

Novos hábitos na difusão de notícias.

A progressiva ascensão social da burguesia trouxe consigo a procura de informação sem obstáculos ou censuras. A Inglaterra do início do século XVIII liderou o movimento, após a fundação, em 1702, do The Daily Courant com o objectivo de «publicar notícias, diariamente e de forma imparcial». Essa declaração de princípio marcou o caminho de outras publicações disponíveis nos salões de leitura e nos cafés de Londres. Depressa surgiu também a imprensa partidária, na qual dirigentes políticos esgrimiam agressivamente as suas posições. E não faltavam editores como Joseph Addison do The Spectator, que sonhavam com um jornalismo que elevasse o nível moral dos seus leitores. Não era só a burguesia que pedia mais notícias: os operários também se preocupavam com a actualidade, tal como notava o surpreendido Montesquieu. Com todas estas tendências, foi natural que, em 1787, a imprensa passasse a ser designada como «quarto poder» pelo deputado conservador Edmund Burke. À direita, gravura do século XIX, baseada numa ilustração de Howard Pyle, que representa uma sala de leitura do século XVIII.

No século XVIII, registou-se um aumento do número de leitores e uma alteração dos gostos literários. Apareceram também novos espaços públicos de carácter local e multinacional.

O início do jornalismo ficou indissociavelmente ligado à invenção da imprensa e à consequente facilidade de reprodução e difusão de textos. Embora possam ser encontrados precedentes remotos nas primeiras civilizações urbanas (na China, em 618, editaram-se distintas publicações periódicas e, na Roma imperial, alcançou-se um importante desenvolvimento nas técnicas de informação colectiva), a verdade é que as primeiras formas de jornalismo se encontram nos almanaques semestrais ou anuais que se tornaram populares com a chegada da idade moderna. A periodicidade da informação, um elemento essencial do jornalismo, esteve condicionada por dois factores principais. O primeiro era o facto de o centro de recepção das notícias se tornar o próprio mercado de difusão ou área de comercialização. O segundo foi a existência de uma rede de serviços postais, que facilitava a distribuição das publicações impressas de forma regular e eficaz através dessa rede.

Os precursores: os primeiros cabeçalhos. A difusão da imprensa alimentou de imediato a edição de livros e uma intensa actividade de impressão de almanaques, gazetas e folhas noticiosas que satisfaziam o crescente desejo de informação do público. Aos poucos, algumas dessas publicações consolidaram-se e adquiriram periodicidade.

Os primeiros «jornais»

No início do século XIX, começaram a existir publicações de periodicidade diária nos núcleos urbanos dotados de camadas sociais com um certo nível económico e cultural. Até então, tinham coexistido as folhas de informação comercial, publicadas nos centros económicos, e as gazetas de conteúdo generalista. Entre os primeiros jornais europeus encontra-se o Neue Zeitung aus Hiapnien und Italien que surgiu em Colónia, em 1534. Foi o imperador do Sacro Império Rodolfo II que autorizou em 1597 a edição de gazetas mensais. No início do século XVII, surgiram outras publicações deste género em Amsterdão, Augsburgo, Berlim, Estrasburgo, Hamburgo e Viena. Depois destas, deu-se a expansão das gazetas em toda a Europa e América.

As gazetas consistiam basicamente numa relação de notícias seleccionadas sob o regime de concessão real, visto que se tratavam, na sua essência, de jornais oficiais que monopolizavam a informação política. Embora existissem outras publicações anteriores, a gazeta que mais importância teve (pois serviu de modelo às posteriores) foi a Gazette de France, publicada pela primeira vez em 1631; a Gazeta da Restauração apareceu em 1641 em Portugal; em 1643, publicou-se a Gazeta da Suécia, em 1661, a Gaceta de Madrid e, em 1663, a Gazette d’Amesterdam. Estes foram os modelos de publicação mais disseminados pela Europa e pela América no século XVII. Porém, as guerras religiosas, as lutas nas Províncias Unidas dos Países Baixos e os conflitos sociais da burguesia alimentaram um jornalismo não oficial que apoiava a difusão de novas ideias e corpos doutrinais. O processo de ascensão social da burguesia como classe dominante foi determinado em larga medida pelo papel desempenhado pela propaganda clandestina contra os meios de informação oficiais, as gazetas.

primeiros jornais

O século XVIII não foi testemunho da difusão universal da imprensa diária, mas sim da crescente fundação de novos jornais. Em Março de 1702, apareceu em Inglaterra o The Daily Courant, o primeiro jornal da história de Inglaterra, uma honra disputada com o Norwich Post, visto que o primeiro número desta publicação saiu quase em simultâneo.

Assim, o jornalismo, que começara por ser um simples serviço de notícias impressas levadas de um local para outro através de serviços postais e correios, transformou-se num meio de difusão cultural e ideológico muito importante, tanto de opiniões (políticas, sociais, religiosas…) como de notícias de toda a índole.

Esse movimento alertou os sistemas de poder. Rapidamente surgiu a necessidade governamental de regular estes (ab)usos. Embora os revolucionários franceses fossem partidários num primeiro momento da liberdade de imprensa, durante o Directório e o Império as autoridades concederam uma importância cada vez maior – tal como fizera o Antigo Regime – ao controlo efectivo do fluxo da informação.

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A Moda do Dia. A Comida do Político, caricatura que apareceu num jornal satírico francês representando um político «a pão e água» ávido de notícias para comer.

Um crescimento exponencial

Os historiadores do século XVIII concluem que se registou uma revolução no uso da imprensa, bem como um crescimento exponencial no consumo de jornais durante esse período. Pela primeira vez na história da humanidade, o Iluminismo permitiu o tráfego regular de notícias entre comunidades de classes sociais distintas e de diferentes espaços geográficos. Agora, era possível trocar e partilhar opiniões, novidades e critérios. Esta revolução não se deveu, contudo, às inovações tecnológicas, mas sim ao aumento da alfabetização. Na Prússia rural, por exemplo, estima-se que em meados do século apenas 10% da população conseguia ler, mas, no final do século, a taxa já aumentara para 40%. Em Inglaterra, no mesmo período, a proporção passou de 30 para 60%.

Tão importante como os níveis de alfabetização foi a profunda alteração que se produziu nos hábitos e interesses relacionados com a leitura. Os novos leitores já não se conformavam em ler a omnipresente Bíblia ou outros livros de natureza religiosa. Manifestavam agora novos e variados interesses. A literatura de viagens, de romances sentimentais, filosóficos ou libertinos, assim como os livros de geografia, de história e de filosofia natural, contam-se entre os géneros de leitura consumidos pela nova burguesia. A estes devem acrescentar-se os relacionados com os interesses directos dos consumidores, como os de mercadores, banqueiros ou artesãos, que procuravam livros de consulta e textos especializados relacionados especificamente com os seus ofícios. Os almanaques, a publicação jornalística mais famosa do mundo moderno, foram o género literário mais popular. As suas vendas eram exuberantes.

No que se refere aos jornais periódicos e aos diários, o desenvolvimento foi igualmente exponencial. A cidade de Londres, por exemplo, que tinha somente nove títulos de jornais em 1704, tinha 19 publicações periódicas cinco anos mais tarde.

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Os hábitos de leitura. Gravura (de 1700) que revela uma cena caseira em Nova Iorque, com o chefe de família em plena leitura de um jornal.

Ao mesmo tempo, as academias científicas viram nascer a imprensa erudita. Assim, a Academia das Ciências de Paris começou a publicar ininterruptamente tanto o seu Journal des Savants (a primeira revista científica publicada na Europa, que nasceu no dia 5 de Janeiro de 1665), como as Memórias da própria Academia; a Royal Society de Londres editava os seus Philosophical Transactions of the Royal Society (que surgiu dois meses depois do Journal). Ambas as revistas deram origem a grandes publicações científicas. Nos dois casos, o texto incluía informações e «notícias» provenientes de correspondentes e fontes externas, bem como comunicações ou artigos escritos e assinados por investigadores. As duas academias optaram por publicar em francês e inglês, mas a Academia das Ciências de Berlim manteve a sua Acta Eruditorum em latim. Criada em 1682 à semelhança da revista da Academia Francesa das Ciências, a Acta Eruditorum foi a primeira publicação deste tipo em solo germânico.

Algumas das grandes ordens religiosas, como a poderosa Companhia de Jesus, tinham os seus próprios meios de difusão e de distribuição. O Journal de Trévoux (conhecido também como Mémoires de Trévoux), por exemplo, foi publicado regularmente durante quase todo o século, desde a sua fundação em 1701 até 1782, e em muitas ocasiões serviu de palanque para discutir e combater as opiniões expressas na Enciclopédia de Diderot ou noutras publicações filosóficas do Iluminismo. Servia, ao mesmo tempo, de megafone para as opiniões de natureza política da ordem.

De natureza mais geral, a publicação inglesa The Gentleman’s Magazine, or Trader’s Monthly Intelligencer foi fundada em 1731. Esta publicação, que usou pela primeira vez a palavra de origem francesa «magazine» no título, continha artigos e comentários relacionados com a actualidade, desde notícias de terras longínquas a medicamentos contra algumas doenças. Além de contar com o contributo de intelectuais como Samuel Johnson, estava repleta de informações utilitárias, pelo que actualmente as suas páginas constituem uma valiosa fonte de informação sobre os gostos e paixões da nova burguesia britânica.

No fim do século, em 1798, surgiu a versão feminina, com o nome de The Lady’s Monthly Museum, or Polite Repository of Amusement and Instruction. Ambas as revistas estavam relacionadas com a progressiva difusão dos livros de consulta sobre todo o género de matérias, que se multiplicaram ao longo de todo o século. Entre eles, tornaram-se especialmente populares os que generalizavam conhecimentos e saberes complexos, fossem sobre mecânica newtoniana ou o uso do microscópio. Os livros de consulta geográfica despertavam igualmente interesse. Em muitos casos, não eram mais do que guias de cidades, regiões ou países mais ou menos exóticos. Também foram publicadas antologias de todo o tipo, desde receitas medicinais a manuais práticos sobre temas como a caligrafia, a dança ou a esgrima. Entre todos estes manuais, dois dos mais populares foram o Le Grand Dictionnaire Historique, ou Le Mélange Curieux de l’Histoire Sacrée et Profane de Louis Moréri (publicado em 1674, mas que teve grande difusão no século XVIII, traduzido para várias línguas) e o dicionário geográfico The Gazetteer’s, or Newsman’s Interpreter (1703), obra do historiador inglês Laurence Echard, traduzido para francês, italiano, espanhol e polaco.

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O berço da publicidade. A crescente difusão da imprensa foi aproveitada pelos comerciantes para difundir através desta os seus produtos e actividades em troca de um pagamento. Na imagem, anúncio de venda de escravos num jornal norte-americano de 24 de Julho de 1769.

Foi precisamente como consequência deste interesse pelos dicionários que os impressores da Enciclopédia se aproximaram de Diderot com a ideia de fazer, inicialmente, uma tradução para o francês de um texto de referência em Inglaterra do século XVIII: a Cyclopaedia, or Universal Dictionary of Arts and Sciences (1728), do enciclopedista Ephraim Chambers.

A opinião pública

Durante o século XVIII, o «público» deixou de ser sinónimo do político e das acções desempenhadas por governantes e deputados. Seguindo as declarações programáticas de muitos dos grandes pensadores do Iluminismo, o espaço público consistia agora num local de reunião e de expressão livre de ideais. Tratava-se de um espaço que não distinguia hierarquia e que era conduzido de acordo com as regras da civilização e não da tradição. Em muitas ocasiões, estes novos espaços estavam configurados em redor de locais físicos, como teatros, academias ou salões. Noutras, contudo, o espaço público emergia em locais imaginários relacionados, por exemplo, com as comunidades que os leitores formavam em certos textos. De entre os primeiros, destaca-se especialmente o de Madame Geoffrin em Paris. Esta viúva de um artesão rico começou a receber em sua casa escritores e filósofos uma vez por semana. Às suas reuniões vinha a nata francesa do Iluminismo. Liam-se poemas, ouvia-se música e discutiam-se acontecimentos políticos.

Em Inglaterra, um fenómeno parecido foi o desenvolvimento das blues-tockings, um grupo de mulheres lideradas por Elizabeth Montagu (1718-1800) que participavam em reuniões filosóficas organizadas nos seus lares. Este género de associações, caracterizadas pela sua independência perante o poder político, gerava igualmente um sentimento de pertença a um grupo social que partilhava valores e projectos. Os círculos literários ou artísticos, por exemplo, sentiam que podiam exercer o direito de crítica, por vezes protegidos sob os beirais de velhas tabernas, como o Caveau, um clube parisiense e, de forma mais geral, em cafés.

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