Almada Negreiros

Murais da Gare Marítima de Alcântara, executados por Almada Negreiros. Mais conhecidos e estudados do que os da vizinha Rocha do Conde de Óbidos, foram recebidos no seu tempo com melhores olhos por ilustrarem a exaltação de um país mais consensual. Neste átrio, Almada criou sob o desígnio de "Quem não viu Lisboa, não viu coisa boa."

Há quase oitenta anos que Almada Negreiros usou uma tela gigante para pintar a alma portuguesa.

Texto: António Luís Campos

Quatro anos depois de concluir uma das grandes obras da sua vida, Almada Negreiros concedeu uma entrevista rápida para o “Diário de Lisboa”.

Perguntaram-lhe: “Como vê os murais que pintou na Gare Marítima?”

A resposta do artista foi igual ao seu percurso artístico: críptica e ambígua. “Como um estranho”, disse. “E se os vejo, devo-o ao parecer que evitou serem picados os últimos na Rocha do Conde de Óbidos. Creio não haver cumprido melhor, nem feito obra que fosse mais minha.” Era o que podia ser dito na altura. E expressava a dor que o artista sentira quando as suas pinturas murais foram questionadas por motivos ideológicos.

O átrio do grande edifício quadrangular da Gare Marítima da Rocha do Conde de Óbidos, encaixada entre o bulício da cidade de Lisboa e a calmaria do Tejo, a espraiar-se languidamente até ao Atlântico, é guardado por uma pesada e ruidosa porta de ferro e vidro. Uma aragem fria e húmida percorre a espinha, à medida que deixamos o calor para trás e penetramos no interior ascético. Dois lanços de escadas e um amplo átrio depois, a grande obra ergue-se: são seis painéis murais, de cores garridas e linhas contundentes, que esmagam o visitante. Três em cada parede lateral, altos e esguios, com a margem sul em frente, para lá das enormes portadas a emoldurar as personagens retratadas, que parecem ganhar vida a cada passo que damos.

Almada Negreiros

Poeta, caricaturista, jornalista, pintor, muralista, artista gráfico, José de Almada Negreiros foi uma das personagens mais criativas do século XX português. Obcecado pelos Painéis de São Vicente, que aliás ajudara a reorganizar no Museu Nacional de Arte Antiga: estavam originalmente separados em dois trípticos e foi Almada que propôs a actual configuração, com base nos ladrilhos do pavimento na obra de Nuno Gonçalves. Fotografia: cortesia da Universidade Nova de Lisboa

Esta é uma das obras maiores (figurativa mas também literalmente) de José de Almada Negreiros, destacado artista plástico e escritor que, a par de Amadeo de Sousa Cardoso e Santa-Rita, alimentou o movimento modernista português. Gozando de menor notoriedade do que o da vizinha Gare Marítima de Alcântara, que exulta valores talvez mais próximos dos do Estado Novo, a época de maior actividade do artista, aquele conjunto de seis murais pintado entre 1946 e 1949 enfrenta agora o desafio do tempo. A degradação natural dos materiais tem vindo a deteriorar significativamente os painéis, que nalguns pontos apresentam já forte destacamento das camadas superiores.

Neste trabalho, Almada desafiou o regime do qual dependia, ousando representar a vivência pungente e realista de um Portugal pobre e operário, as ligações sociais e culturais com as (então) colónias – o pulsar de um país real. A bravura artística ia-lhe custando caro: apesar das boas relações com alguns intelectuais e políticos contemporâneos, a obra esteve na iminência de ser destruída, sem pagamento algum, por retratar uma realidade que não agradou às forças vivas da época. Foi a amizade e o apreço profissional que lhe era reconhecido por personagens como João Couto, o director do Museu Nacional de Arte Antiga, ou António Ferro, que intercederam directamente e salvaram esta obra-prima e a reputação do artista plástico.

Desta e de muitas outras histórias nos dá conta Rita Almada Negreiros, arquitecta e neta do pintor que, com a irmã Catarina, assumiu a preservação do legado histórico e artístico do avô, que ainda conheceu vagamente em bebé. Recorda desde sempre os quadros, as tintas e a enorme quantidade de objectos da casa dos artistas – não de um, mas de dois.

Almada Negreiros

Rita Almada Negreiros, arquitecta e neta do pintor, é hoje, a par da irmã Catarina, a responsável pela gestão do património do avô paterno, acompanhando de perto os trabalhos de estudo da Gare da Rocha do Conde de Óbidos.

À beira dos murais e vestida integralmente de negro, Rita Almada Negreiros relembra a personagem menos falada mas muito importante de Sarah Afonso. “A minha avó foi também uma artista em nome próprio, numa época em que poucas mulheres atingiam visibilidade. Ainda que não tenha alcançado tanto reconhecimento como o meu avô, foi uma pintora com uma passagem relevante por Paris e considerada por Almada como seu par na arte.”

De repente, um forte estalido metálico ecoa no grande espaço vazio da gare e uma imensa estrutura move-se com lentidão, como um grande e letárgico dinossauro a despertar.

Um enorme andaime com dez metros de altura e quatro pisos é empurrado por várias figuras, ilusoriamente diminutas. Milene Gil, conservadora-restauradora do Laboratório HERCULES da Universidade de Évora, orienta esta azáfama. Apaixonada há muito pela obra de Almada Negreiros, a investigadora enquadra o projecto: “Em Abril, fizemos um primeiro levantamento e identificação das principais formas de deterioração nas pinturas e das suas causas para fins de conservação e restauro futuro”, explica.

A investigação em curso tem consultado a correspondência oficial da Autoridade do Porto de Lisboa, encomendante da obra, e os relatórios do Instituto José de Figueiredo, envolvido na produção da obra e em restauros posteriores. A campanha analítica na gare apurou que entre as causas de deterioração presentes encontram-se a humidade por infiltração e consequências daí decorrentes (ex. sais), assim como a presença de materiais orgânicos. “Este conjunto de pinturas de Almada – mais do que qualquer outro – apresenta indícios da presença de materiais orgânicos, muito possivelmente desde a sua criação (aglutinantes), mas também resultantes de intervenções anteriores (adesivos). Todos estes factores podem ainda estar a contribuir para os problemas que encontrámos”, explica.

É isso que a equipa do Laboratório HERCULES, da Universidade de Évora, tenta apurar com as análises de campo e as microamostras recolhidas para estudo em laboratório. Para tal, recorre a equipamento de ponta portátil, que suporta uma metodologia não invasiva: fotografia técnica VIS, VIS-RAS e UVF (fotografia de fluorescência de ultravioleta induzida no visível), colorimetria e espectrofotometria, EDXRF e ainda microscopia óptica portátil. Com a ajuda de Marius Araújo, do Arteria Lab da Universidade de Évora, foram também realizadas experiências com scanners 3D para testar as possibilidades de registo de áreas de pintura deterioradas (neste caso específico, em vias de destacamento).

Almada Negreiros

Na outra composição criada para o átrio da Rocha do Conde de Óbidos, Almada pinta "Domingo Lisboeta", consagrando-o às personagens que ficam em terra e que prosseguem o quotidiano, alheias (ou preferindo esquecer) ao drama dos que partiram. O conjunto da gare (projectada por Pardal Monteiro) e a cenografia imaginada por Almada Negreiros não convenceram o Secretariado da Propaganda Nacional. A obra foi inaugurada com discrição em 19 de Junho de 1948, sem a presença dos dirigentes do regime. Alguns propuseram que fossem picados como sucedera no Cinema Batalha, no Porto. Ou que não se pagasse ao autor.

O projecto científico denomina-se “O Desvendar da Arte da Pintura Mural de Almada Negreiros” e estuda, pela primeira vez, as técnicas, os materiais pictóricos, assim como o estado de conservação dos cinco núcleos de pinturas realizados por Almada na cidade de Lisboa entre 1938 e 1956.

Visivelmente empolgada, Milene Gil explica: “Os objectivos do projecto são múltiplos: em primeiro lugar, é a geração de novo conhecimento. O modus operandi de Almada Negreiros é praticamente desconhecido. Este estudo permite conhecer de forma aprofundada e completa a sua mestria e evolução como pintor muralista. Por outro lado, procura-se a salvaguarda futura das pinturas, pois o diagnóstico permite um entendimento completo dos mecanismos de deterioração e das suas origens. Não se pode conservar sem conhecer e estes dados serão a base de futuras intervenções.” O terceiro e último objectivo é a divulgação e partilha com diferentes públicos nacionais e internacionais do que a fase muralista de Almada Negreiros representou no contexto da arte daquele período. “Este ponto é importante, pois só um povo conhecedor da sua herança cultural a pode valorizar e ajudar a preservar. É passar o testemunho para futuras gerações. A pintura mural de Almada Negreiros está entre o que de melhor se fazia na altura na Europa e nas Américas. E poucas pessoas sabem disso!” José Augusto-França, o historiador de arte, foi mesmo mais longe e considerou que o painel dos emigrantes na Rocha do Conde de Óbidos constituiu “a obra-prima da pintura portuguesa da primeira metade do século.”

Almada Negreiros

"A Partida dos Emigrantes" foi criado para um espaço de partida, muitas vezes definitiva, de portugueses para o estrangeiro. Representa, com invulgar sinceridade, o drama da emigração e do abandono. Deste lado do átrio, Almada posiciona-se como se também estivesse no cais, assisitindo ao drama do êxodo.

Passaram meses intensivos de trabalho. Os resultados não são imediatos e subsistem várias dúvidas, mas a equipa de investigação cometeu um pecado desculpável: apaixonou-se pela obra do pintor. Não é difícil: Almada não inovou somente a nível estilístico, mas também ao nível da execução. Foi revivalista da arte do fresco, mas também experimentou. Na sua primeira grande obra de escala monumental, e a fresco (o planisfério iniciado em 1939 e inaugurado anos mais tarde no Edifício do Diário de Notícias), isso torna-se evidente com a utilização de pigmentos modernos e polémicos nesta técnica, como o cádmio. Passadas décadas sobre a morte de Almada Negreiros, as surpresas sobre o seu trabalho continuam. Em Bicesse, no seu antigo atelier, que Rita e Catarina conhecem desde crianças, entre o pó acumulado ao longo de décadas foram sendo desencantadas diversas pérolas. “Foi como entrar na gruta de Alibaba!”, brinca Milene Gil.

“No amontoado de livros e de prateleiras repletas de recipientes para preparar tintas, pincéis e tubos de tinta secos e retorcidos, descobriram-se duas caixas de madeira cheias de latas de pigmentos em pó, rotulados como pigments pour la fresque, do fabricante LeFranc-Paris.” Foi como se os investigadores tivessem ido às compras com o pintor e descobrissem com rigor os pigmentos usados. A descoberta mais espectacular foi a de modelos picotados à escala 1:1, que enrolavam pigmentos em pó. Ninguém esperava encontrar modelos de cartão onde Almada desenhou a composição que passaria para a parede, usando um processo em muito semelhante ao seguido nas aulas de trabalhos manuais: papel vegetal com o desenho, um pico e uma esponja (aqui substituída pela massa fresca na parede). Só que o pintor fê-lo em tamanho gigante! Milene Gil já procurara estes suportes sem sucesso no estúdio do pintor e dava-os como perdidos ou destruídos. Com alegria, descobriu que Almada reaproveitara alguns. Foi uma das maiores surpresas do projecto, um portal para a mente criativa do pintor na década de 1940.

Como expressão da relevância patrimonial do trabalho de Almada Negreiros, a recente inclusão pela World Monuments Fund das gares marítimas numa lista de 25 monumentos a intervencionar atesta a atenção internacional despertada pelo artista, nascido em 1893. O objectivo desta candidatura é a promoção, valorização e salvaguarda deste património único através de uma intervenção futura de conservação e restauro e criação de uma estratégia de gestão cultural para usufruto do público em geral, resultantes da candidatura apresentada em 2021 pela Administração do Porto de Lisboa. Adicionalmente, o estudo da obra da pintura mural de Almada Negreiros está entre os dez finalistas ao prémio internacional IIC KECK Award, que este ano exalta os projectos que melhor promoveram em contexto de pandemia a interacção com o público e o entendimento dos valores da sua conservação. Para que o legado de Almada Negreiros perdure, existem felizmente muitas vozes e mãos que se perfilam, através do estudo, conservação e restauro da sua obra. Na Gare da Rocha do Conde de Óbidos, voltar costas às pinturas imensas não é tarefa fácil. O magnetismo que emprestam ao espaço da gare parece manter o visitante enfeitiçado, imerso num mundo estético muito próprio do artista, enleado num labirinto de cor e forma. Mas o dia finda e o reflexo delicado da luz rasante do ocaso anuncia a partida. Escuta-se então, uma última vez, o gemer das grandes portadas, agora a fecharem-se. E a obra de José de Almada Negreiros repousa de novo.

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