Férias Romanas

Os romanos mais ricos passavam o seu tempo de lazer, sobretudo durante os insuportáveis meses de Verão de Roma, em luxuosas villae localizadas na baía de Nápoles, com panorâmicas arrebatadoras sobre o mar. Óleo de Ettore Forti. Século XIX.

Quando viajavam para a Grécia ou para o Egipto, os antigos romanos não deixavam escapar a oportunidade de visitar os monumentos mais célebres. Muitos tinham propriedades no Sul de Itália nas quais passavam os meses estivais com os amigos.

Texto: Jorge García Sánchez

Os romanos da Antiguidade viajavam por múltiplas razões: comerciais, profissionais, familiares e pessoais, religiosas, intelectuais, militares… Mas não eram poucos (pelo menos entre as classes abastadas) os que o faziam só por prazer ou por turismo. Não será exagerado afirmar que, na cidade do Tibre, podem encontrar-se as origens de um ritual que milhões de pessoas praticam actualmente quando conseguem reunir alguns dias livres. De facto, a própria palavra turismo tem raiz latina: provém do verbo tornare,“regressar” ou “retorno”, o que implica uma viagem de ida e volta, muito semelhante aos actuais movimentos estivais.

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Localizada no sopé do Vesúvio, Pompeia era uma cidade próspera. Muitos romanos ricos possuíam luxuosas villae tanto na cidade como nos arredores.

Os nobres romanos distinguiam perfeitamente entre o negotium, período em que se encontravam atarefados com os afazeres profissionais, e o otium, o período de descanso. Chegava então o momento de se afastarem do caos urbano para uma villa marítima, das que abundavam por exemplo no sopé do Vesúvio. Outros partiam para conhecer os monumentos das províncias orientais da Ásia ou da Europa de Leste.

Vontade de conhecer o mundo

Os romanos não ficaram imunes ao irresistível encanto de conhecer o mundo. Não foi por acidente que, nos séculos II e III, se popularizaram os romances de aventuras exóticas (As aventuras de Leucipa e Clitofonte, As efesíacas, As etíopes…), que colocavam o leitor na pele de jovens casais de namorados que conseguiam reunir-se depois de inúmeras peripécias entre tribos etíopes, piratas gregos e déspotas orientais.

Aquiles Tácio, Xenofonte de Éfeso e Heliodoro de Emesa são os nomes de alguns destes Júlios Vernes do passado clássico que transportavam o público para locais exóticos sem saírem de casa.

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Alguns viajantes chegam a uma mansio para se alojarem. Relevo. Museu da Civilização Romana, Roma.

Os bibliófilos com maior cultura, contudo, podiam optar por folhear os volumes das periegeses, os textos descritivos dos mais célebres monumentos do passado – tanto arquitectónicos como escultóricos –, sobretudo na Grécia, mas também na Ásia Menor, no Sul de Itália e na Sicília. Comparadas frequentemente com os actuais guias de viagens, seria mais justo definir as periegeses como tratados artístico-históricos concebidos para informar os leitores de uma elite sobre os rituais específicos que se praticavam em cada local, pelo que descreviam os principais complexos religiosos (os santuários), bem como as suas festas e tradições.

Plínio, o Velho, tão conhecido pela sua notável obra História natural como pela sua morte durante a erupção do Vesúvio em 79 d.C., aconselhava aos seus contemporâneos a leitura deste tipo de textos, em especial os que versavam sobre o Egipto, a Grécia e a Ásia, antes sequer de iniciarem uma viagem pelo Império.

Séneca, por seu lado, considerava interessante sair da sua própria cidade, já que isso proporcionava encontros com indivíduos diferentes e espectáculos naturais desconhecidos. Tinha particular sensibilidade para os rios (muitos cursos fluviais, habitualmente divinizados, nunca deixaram de fascinar os antigos), citando o Tigre, o Nilo e o Meandro (o rio Menderes, na Turquia). Ou seja, os próprios autores greco-romanos informavam sobre os grandes destinos turísticos e sobre os ícones naturais ou culturais que cada destino oferecia.

Rotas pela Grécia

O património intelectual de determinadas regiões constituía um aliciante particular para os viajantes. A Hélade e as províncias asiáticas estavam repletas de recordações dos poemas homéricos, com os quais os romanos se identificavam através do seu herói Eneias: em Pilos, venerava-se o sepulcro de Nestor; em Atenas, o túmulo de Édipo; Orestes repousava em Esparta e Agamémnon e Efigénia jaziam em Micenas. Em Tróia, adivinhavam-se ainda as pegadas do acampamento dos aqueus cercados ou do altar de Zeus, onde o rei troiano Príamo fora assassinado por Neoptólemo, filho de Aquiles.

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Conhecido como Tabula peutingeriana, este documento é o único mapa que se conhece que mostra a rede de estradas públicas do Império Romano. Abarca todo o conjunto de províncias romanas e mais ainda: chega à Índia e à ilha do Sri Lanka (Ceilão). Está preservado num pergaminho datado do século XIII, cópia de um original romano possivelmente do século IV d.C.

A cidade histórica era também famosa pelos supostos túmulos dos heróis homéricos, como Heitor ou o próprio Aquiles, que foram visitados por Júlio César e alguns dos seus sucessores, como os imperadores Adriano, Caracala, Diocleciano e Constantino. As escapadelas para a Grécia incluíam a visita a cidades como Corinto, Epidauro, Delfos, Esparta ou Olímpia. Eram destinos atraentes por causa dos festivais e dos jogos de atletismo ali celebrados, eventos que ajudavam a fixar a melhor altura para as visitas. Outras cidades apresentavam excelentes atractivos locais: Rodes chamava a atenção devido ao seu colosso, cuja massa de bronze com 33 metros de altura, uma representação de Hélio, ruíra devido a um terramoto em 226 a.C.

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Réplica de uma carruca, uma carruagem com quatro rodas puxada por dois ou quatro cavalos. Museu Romano-Germano, Colónia.

Os forasteiros entretinham-se a explorar os seus enormes membros fragmentados, transformados em grutas artificiais ou a tentar abarcar com os braços o polegar da estátua, uma tarefa impossível nas palavras de Plínio, o Velho.

Paixão pelo Egipto

O Egipto era o território no qual o turista romano se sentia maravilhado. A estranheza dos rituais e da escrita hieroglífica confundiam e fascinavam o visitante. O mesmo se poderia dizer dos monumentos, fossem eles as pirâmides de Guiza ou os túmulos subterrâneos do vale dos Reis. Nestes últimos, ainda pode ser detectada a passagem de centenas de excursionistas da Antiguidade graças aos graffiti com nomes, datas, pequenas biografias, poemas e até opiniões gravadas nas paredes. Assim, sabe-se que um certo Isidoro, natural de Alexandria, estudou Direito em Atenas; que o centurião Januarius entrou nas criptas com a sua filha Januária e que António se maravilhou quase tanto com o vale como com a cidade de Roma.

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O Egipto era um dos locais favoritos dos romanos para o turismo. Este fragmento do famoso mosaico do Nilo, do século I a.C., representa um animado grupo de pessoas que bebem junto do rio. Galeria Nacional de Arte Antiga. Palácio Barberini, Roma.

Praticamente metade dos graffiti descobertos encontra-se no túmulo de Ramsés VI, do qual se dizia que era o sepulcro de Platão, pelo que os filósofos neoplatónicos entravam na sala com o respeito reverenciado de quem rezava num templo.

Alguns graffiti nas paredes deste túmulo faraónico mostram o que alguns visitantes pensavam do local, como um que deixou escrito “vi-o e não gostei nada, excepto o sarcófago” ou um advogado chamado Bourichios, que se aborreceu por não compreender o significado dos hieróglifos: “Não consigo ler este texto!” – escreveu.

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Nasce a Egiptomania. Este recipiente de obsidiana com incrustações de lápis-lazúli, malaquite e ouro, decorado com motivos egípcios, é um bom exemplo da moda egípcia que se instalou na Roma Imperial. Museu Arqueológico Nacional, Nápoles.

Outros monumentos egípcios que atraíram particularmente os viajantes da Antiguidade foram as esculturas sentadas de Amen-hotep III à entrada do seu templo funerário, perto de Lucsor. Gregos e romanos baptizaram-nas de “colossos de Memnon”, imaginando que uma das estátuas mostrava a figura de Memnon, rei etíope aliado dos troianos. Durante as manhãs, quando a brisa soprava através das fissuras deixadas por um terramoto, as estátuas emitiam um curioso som que atraía um grande número de espectadores, que acreditavam ouvir o tinir de uma lira, um sibilo ou pranto. Numerosos turistas contratavam pedreiros locais para inscrever graffiti nos Colossos, tal como o fez o lírico Péon, que compôs alguns versos em honra do seu patrono Métio Rufo, ou a poetisa Júlia Balbila, que viajava no séquito de Víbia Sabina, a esposa do imperador Adriano.

Trabalho e prazer

Muitos romanos deixavam a sua pátria quando encontravam tempo para o turismo e isso incluía o desempenho de missões bélicas e diplomáticas, como revelam as fontes documentais e as inscrições epigráficas. Foi o caso por exemplo de Lúcio Emílio Paulo. Depois de as suas legiões terem combatido com sucesso em 168 a.C., na batalha de Pidna e depois de o exército desmembrar o velho reino helenístico da Macedónia, Lúcio empreendeu um tour que o levou a apresentar a sua homenagem a Atena na Acrópole ateniense, a Apolo no seu santuário na ilha de Delfos, a Asclépio no seu recinto sagrado de Epidauro e, como não podia deixar de ser, a Zeus no seu templo em Olímpia.

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Os Colossos de Memnon. Na base destas estátuas, que se erguiam à entrada do templo funerário de Amen-hotep II, na margem ocidental do Nilo, preservam-se pelo menos 90 inscrições de viajantes romanos que quiseram deixar um registo da sua visita e contar se ouviram, ou não, o seu famoso canto. Fotografia: Johanna Huber

Lúcio não descurou lugares tão emblemáticos como Áulide, na Beócia, porto de partida da expedição grega contra Tróia liderada por Agamémnon, ou o istmo de Corinto, sede dos Jogos Ístmicos.

Anos mais tarde, o senador Lúcio Mémio também combinou o dever com o lazer durante uma viajem à cidade egípcia de Arsínoe, a antiga Crocodilópolis. Mémio foi guiado por um funcionário do rei Ptolemeu IX chamado Asclepíades que, durante o seu itinerário, tratou de todas as comodidades: preparou a sua visita ao Labirinto (o complexo mortuário associado à pirâmide do faraó Amenemhat III) e encontrou-lhe os típicos bolos com os quais os turistas alimentavam os répteis que davam nome à cidade, sobretudo o mais importante de todos eles: o crocodilo que encarnava o deus Sobek. Relata o geógrafo Estrabão que aquele enorme animal não parava de engolir fruta, bolachas e vinho atirados pelos visitantes de passagem.

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Desporto e diversão. Os romanos, tanto homens como mulheres, gostavam de praticar actividades físicas para se divertirem, tal como se pode ver neste mosaico da villa romana de Casale, na Sicília, onde algumas jovens fazem exercícios de ginásio.

Mas não era necessário ir para o outro extremo do Mediterrâneo para gozar férias. Desde a Época Republicana, os patrícios romanos possuíam uma ou várias villae de recreio na costa ou no campo, para onde se retiravam com a intenção de escapar às suas obrigações quotidianas e consagrar-se em pleno ao otium.

Casas de férias

Em Itália, a região favorita para as segundas residências foi a Campânia, onde se encontra Pompeia, Herculano, Estábia e outras cidades emblemáticas. Próxima de Roma, tinha um clima ameno e praias atraentes, qualidades imbatíveis para se transformar num centro turístico privilegiado. Foi isso que intuiu no início do século I a.C. o “empresário” Caio Sérgio Orata, que reformulava villae nas margens da baía napolitana para em seguida as vender a um alto preço aos senadores.

Nas praias da Campânia, o tempo corria com languidez, “entre romances, canções, banquetes e passeios de barco”, escrevia Cícero. Também Plínio, o Jovem, descrevia as ocupações veraneantes às quais os romanos se entregavam na suas villae: meditação, leitura, massagens, banhos, récitas e música, pesca e hipismo. Estas actividades tanto podiam ser realizadas isoladamente ou na companhia de amigos das villae vizinhas. A caça era um passatempo popular.

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Turismo cultural. Enquanto Questor em Lilibeo (Sicília), Cícero dedicou-se ao turismo pela ilha. Numa das suas excursões, descobriu o túmulo de Arquimedes, tal como relata na obra Questões tusculanas: “Encontrei-o finalmente, coberto de silvas e ervas daninhas […]. Fui guiado por certas linhas de uma inscrição […]. Fixei-me numa pequena coluna que se elevava sobre os matagais e ali estava ele!”. Cícero perante o túmulo de Arquimedes. Óleo de Paolo Barbotti. Século XIX. Museu Cívico de Pavia.

No século IV d.C., o erudito Quinto Aurélio Símaco, proprietário de dezenas de casas, divertia-se com os amigos Macedónio e Atalo a conversar, a ler e, tal como Plínio, o Jovem, a caçar, costume próprio do seu grupo aristocrático.

Os sumptuosos banquetes estavam na ordem do dia quando se reuniam estes comensais de origem nobre, na maior parte das vezes animados com exibições musicais, teatrais, de dança e outras às quais actualmente se daria o nome de “circenses”. Ummidia Quadratila, uma ilustre dama de há dois mil anos, tinha até uma troupe de pantomimos, equilibristas e bailarinas que faziam as delícias dos festejos.

festival de férias

Festival de férias. Na localidade costeira de Baias, os romanos mais ricos divertiam-se com todos os tipos de actividades que, para estóicos como o filósofo Séneca, eram muito incómodas: “Que necessidade tenho eu de ver gente embriagada a vaguear pela costa, as orgias que retumbam com a música das orquestras e outros excessos…?” O festival de Neptuno, óleo de Ettore Forti. Século XIX.

Felizmente, a arqueologia conseguiu preservar muitas destas residências de luxo, embelezadas com amplos jardins, ninfeus de águas cristalinas, piscinas, pinturas coloridas, colecções escultóricas de mármore e bronze de inspiração helénica e bibliotecas como a villa dos Papiros, em Herculano. A maioria destas residências tinha dimensões extraordinárias, como a villa do Pastor, em Estábia, que rondava 19 mil metros quadrados, ou a não muito afastada villa Ariana, com 13 mil metros quadrados.

Nestes faustosos ambientes de representação social, de férias, de descanso espiritual e de deleite intelectual, o patrício romano podia sentir-se como um sibarítico rei helenístico no seu palácio.

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