museu Egipto

A egiptóloga Yasmin el Shazly passou anos a cuidar de antiguidades inestimáveis (como este busto de Tutankhamon) no Museu Egípcio no Cairo. “Costumava sentir-me maravilhada com estas peças”, afirma. “Ainda sinto o seu poder.”

O novo grande museu egípcio é uma montra monumental para exibir os tesouros de Tutankhamon e será o símbolo de um país que voltou a ser dono do seu passado.

Texto: Tom Mueller
Fotografias: Paolo Verzone

Este é um director de museu invulgar. Usa roupa com padrão de camuflado e calça botas de combate para trabalhar. No entanto, o major-general Atef Moftah não é um director de museu típico e o Grande Museu Egípcio não é um museu típico. Visto à distância, o edifício amplo e pós-moderno do GEM (o acrónimo pelo qual é conhecido) é tão grande que é difícil abarcá-lo com o olhar. As suas linhas salientes fazem lembrar um navio encalhado no deserto. Visto de perto, o exterior do museu é revestido por motivos piramidais, lembrando as pirâmides de Guiza que se erguem a pouco mais de 1,5 quilómetros de distância. A mensagem é clara: este museu é digno de um faraó. Engenheiro de formação, Moftah é um homem compacto e de costas direitas, com personalidade de comando, embora a sua expressão amável e o humor modesto não se enquadrem no meu estereótipo de líder militar.

O GEM é um projecto decisivo do governo egípcio, um empreendimento monumental que começou há 20 anos e que, devido aos levantamentos da Primavera Árabe e à pandemia de COVID-19, está muito atrasado. Num país altamente dependente das receitas turísticas e onde a arqueologia e a política estão profundamente entrelaçadas, o Atef Moftah e o seu pessoal têm ordens para garantir que o GEM seja um sucesso estrondoso.

Enquanto caminhamos sobre o grande terraço na direcção da entrada do museu, o general gesticula em direcção aos túmulos altíssimos que se avistam ao fundo, reluzindo sob o calor. Está a ser construída uma passadeira pedonal para ligar o museu às pirâmides. “Vai ser mais comprida do que os Campos Elísios ou a Rambla”, comenta.

Há 100 anos, a espantosa descoberta do túmulo de Tutankhamon abriu uma janela sobre o passado glorioso do Egipto. Agora, o mundo terá oportunidade de apreciar de outra forma as riquezas do jovem faraó. Fotografias de Sandro Vannini.

Virando-se para o museu, o major-general recapitula as suas estatísticas: quase 45 mil metros quadrados de área coberta, 12 salas de exposição, 100 mil artefactos e um custo total superior a mil milhões de euros. O GEM tem a mesma escala e teatralidade de outros projectos arqueológicos recentes patrocinados pelo governo egípcio, incluindo a reabertura da Avenida das Esfinges, em Lucsor, e a inauguração de novos e importantes espaços museológicos em Sharm el-Sheikh, Cairo, Hurghada, entre outros.

Em Abril de 2021, durante um exuberante evento patrocinado pelo Estado e denominado Desfile Dourado dos Faraós, 22 múmias reais foram colocadas em veículos personalizados de modo a parecerem antigas barcaças funerárias egípcias.

Os veículos saíram do velho Museu Egípcio, percorreram as ruas do Cairo e dirigiram-se ao novo Museu Nacional da Civilização Egípcia. À chegada, as múmias foram saudadas pelo presidente Abdel Fattah el Sisi e receberam uma salva de 21 tiros.

“O desfile das múmias contribuiu para reforçar a consciencialização dos egípcios,” diz Khaled al Anani, antigo ministro do Turismo e das Antiguidades. “Lembrou-nos que pertencemos todos a uma grande civilização, que respeitamos os nossos antepassados. O Grande Museu Egípcio transmitirá essa mensagem de novas e poderosas formas: orgulho, respeito, unidade, força.”

Anteriormente separadas na orgânica política egípcia, os ministérios do Turismo e das Antiguidades fundiram-se em 2019 para grande desespero de alguns egiptólogos, que alegam que a arqueologia se tornou serva do turismo. O GEM também tem os seus críticos. Alguns temem que o museu atraia mais os visitantes estrangeiros e o seu dinheiro do que os egípcios comuns. Outros defendem que a gigantesca estrutura é feia, semelhante a um conjunto deselegante de hangares de aviação, e que o seu arrefecimento e iluminação serão terrivelmente dispendiosos.

No entanto, quando eu e o major-general escapamos do calor solar para o átrio do museu, as minhas dúvidas desvanecem-se. O jogo de luz e sombra criado pelo telhado de malha metálica tem um aspecto dramático e em constante mutação. O tecto ergue-se tão alto que uma estátua de Ramsés, o Grande (principal candidato a corresponder ao faraó referido na Bíblia) parece banal até nos aproximarmos o suficiente para nos apercebermos de que é um colosso com 11 metros de altura.

A partir do átrio central, escadarias largas ladeadas por estátuas de faraós dão acesso às 12 salas de exposição. Utilizando um ponteiro laser, Moftah assinala o lago raso no piso granítico onde, dentro em breve, respingará água. Aponta para cartuchos decorativos e quadrados de alabastro dourado nas paredes e explica o sistema de iluminação vanguardista.

Depois, vira-se e aponta o laser para o topo de uma das escadarias. “É ali que vive Tutankhamon”, diz. Há duas salas consagradas ao faraó mais famoso do Egipto e exibirão, pela primeira vez, quase a totalidade dos mais de cinco mil artefactos descobertos no túmulo do rei. Quando peço para espreitar, o major-general nega, sacudindo a cabeça. “Fora de questão. Ordens do presidente El Sisi. Ninguém entra antes da inauguração.”

Agradeço ao meu interlocutor o tempo que me dispensou e dirijo-me aos laboratórios de conservação de última geração do GEM, que foram o primeiro departamento a abrir, em 2010. Peças inestimáveis do túmulo de Tutankhamon estão a ser limpas e restauradas antes de serem expostas. Num posto de trabalho, um perito em conservação examina a resina negra do enorme caixão exterior do rei-menino. Noutro, Ahmed Abdrabou, especialista em artefactos de talha dourada, restaura uma elegante carruagem de madeira de ulmeiro que é uma obra-prima da arte da marcenaria. “Para um jovem egípcio, é uma grande honra ver tantos tesouros do túmulo de Tutankhamon passarem pelos nossos laboratórios”, comenta.

“Mês após mês, o nosso património desfila diante dos meus olhos.”

Outros restauradores, sobretudo mulheres com lenços na cabeça e máscaras faciais, trabalham em bancos à volta da sala. Faço uma pausa junto de Manar Hafez, que usa luvas cirúrgicas e empunha algo parecido com uma ferramenta dentária e peço-lhe informação sobre o escudo de guerra que está a restaurar. Enquanto conversamos, ela passa os dedos pela madeira antiga, como se acariciasse uma criança. “Parecia um corpo morto quando o vi pela primeira vez, aos pedaços, sem identidade”, diz. “Lentamente, vi-o voltar à vida. Por vezes, fazia-me lembrar a minha filha.”

O Verão no Alto Egipto torna as escavações muito desagradáveis e até perigosas. Às 10 horas, deixo a sombra das tamareiras junto do Nilo e conduzo rumo ao deserto queimado pelo sol, com a temperatura já a aproximar-se de 38ºC. Mesmo assim, uma equipa de arqueólogos egípcios está a trabalhar arduamente na chamada Cidade de Ouro Perdida, um sítio bem preservado que corresponde à versão egípcia de Pompeia.

Afifi Rohim Afifi, responsável pela escavação, conduz-me ao longo de um trilho descendente, que foi no passado uma rua movimentada da cidade, décadas antes do tempo de Tutankhamon. “Estou sempre à espera de ver um antigo egípcio virar a esquina e caminhar na minha direcção”, brinca. Trabalhadores locais ajudaram-no a decifrar características do que está a descobrir, como o matraha, uma ferramenta de madeira para fazer pão, e o manama, um quarto de tecto baixo para dormir. “Explicaram-me que ainda os utilizam na sua aldeia”, conta Afifi. “Eles sentem uma forte ligação espiritual com este sítio e querem continuar a trabalhar mesmo depois de a temporada acabar.” Os projectos arqueológicos liderados por egípcios multiplicaram-se ao longo da última década. A transição para as chefias locais foi acelerada pela pandemia, que travou as viagens aéreas e a maioria dos trabalhos de campo de arqueólogos estrangeiros. Os egípcios avançaram e preencheram o vazio, liderando actualmente mais de quarenta missões arqueológicas em todo o país.

À semelhança da Cidade de Ouro Perdida, muitos destes sítios estão a fornecer achados incríveis e uma grande riqueza de artefactos: 30 caixões pintados em Lucsor; 40 múmias em Tuna el-Gebel, uma grande necrópole junto de Minia; e uma enorme carga vinda de Sakara, contendo 250 sarcófagos de madeira pintados, 150 estatuetas de bronze e uma série de múmias e estátuas de gatos, mangustos, crocodilos e íbis.

As autoridades egípcias mostram-se orgulhosas deste conjunto de achados que chamam a atenção da imprensa. Cada nova descoberta é publicidade gratuita para o Egipto e a sua indústria turística, explica Zahi Hawass, antigo ministro das Antiguidades.

Alguns egiptólogos são menos entusiastas, porém. “Neste momento, a atenção centrou-se totalmente no ouro, nos tesouros, nos segredos e em pessoas com chapéus à Indiana Jones, que apelam ao público ocidental”, diz Monica Hanna, reitora da Faculdade de Arqueologia e Património Cultural da Academia Árabe, em Assuão. “Isso é caça ao tesouro. Não é arqueologia científica.”

museu Egipto

Monica Hanna lidera a defesa contra o saque de sítios arqueológicos antigos em todo o país, chegando a confrontar pessoalmente ladrões armados. Ela espera que o GEM seja um museu que “apele aos egípcios, que lhes mostre como eles são descendentes desta grande civilização e como podem relacionar-se e identificar-se com o seu passado”.

Apesar disso, Hanna reproduz os comentários orgulhosos que ouvi de Khaled al Anani e outros funcionários do governo sobre o desfile de múmias reais e o interesse que este gerou entre os egípcios. “Milhares de egípcios contactaram-nos, pedindo-nos livros sobre o Antigo Egipto”, diz Hanna.

“As pessoas estavam ansiosas por aprender mais sobre os seus antepassados. Mas não há bons livros sobre os faraós em árabe, nem sequer sobre Tutankhamon. Por isso, de certa forma, a maioria dos egípcios sente-se afastada do seu passado. Como podem conhecer plenamente e relacionar-se com a sua história se não podem aceder ao conhecimento existente sobre ela?”

Uma viagem de 15 minutos conduz-me da Cidade de Ouro Perdida até ao vale dos Reis, o lugar onde foi encontrado o túmulo de Tutankhamon. Há mais membros da nova geração de arqueólogos do Egipto a trabalhar aqui e Zahi Hawass convidou-me a conhecer a sua equipa de jovens investigadores. Quando chego, Fathy Yaseen e os seus colegas conduzem-me a um túmulo que lhes serve de oficina e sala de armazenamento. Mostram-me as sete centenas de amuletos, estatuetas e ostraca, todos catalogados, que escavaram recentemente em depósitos junto do túmulo de Tutankhamon. Enquanto conversamos, projectam o que a próxima temporada poderá trazer. Depois, encaminham-me para as escadas que descem até ao túmulo de Tutankhamon.

“Seja o que for que encontremos, não deverá ser como isto”, diz Yaseen com um sorriso irónico.

Descendo os 16 degraus com o calor e luz intensa do deserto a desvanecerem-se na memória, é difícil não escutar os passos da história: a comitiva do enterro do faraó; os ladrões de túmulos; Howard Carter e George Herbert, quinto conde de Carnarvon; os inúmeros visitantes atraídos até aqui ao longo do último século. Chegando lá abaixo, passo pelos restos da parede derrubada por Carter e Lord Carnarvon há um século e entro na primeira das quatro divisões do túmulo. Os frescos das paredes ainda mantêm as suas cores bastante vivas, apesar de alguma descoloração causada por micróbios há muito mortos. Na parede norte, Tutankhamon é abraçado por Osíris, deus do submundo. A sul, a deusa Hathor encosta um ankh, símbolo da vida, aos lábios do faraó.

Em tempos idos, segmentos deste túmulo estiveram tão densamente repletos de objectos esplêndidos que os escavadores tiveram de pendurar-se em cordas presas ao tecto para evitar pisá-los. Agora, todos esses artefactos residem no GEM, a cerca de 640 quilómetros de distância. A única excepção é o sarcófago esculpido num único bloco de quartzito, que outrora conteve os três caixões do faraó, encaixados uns nos outros. Com quase um metro e meio de altura e milhares de quilogramas de peso, o sarcófago era, evidentemente, demasiado difícil de remover. Tem quatro deusas de pedra em cada canto, envolvendo, de forma protectora, o caixão com as suas graciosas asas. Mais nada resta dos tesouros do faraó.

A múmia de Tutankhamon ainda aqui está.

Guardada num canto do túmulo, numa caixa de vidro com temperatura controlada, o jovem rei repousa sob uma colcha branca. O seu rosto está muito diferente da máscara funerária dourada que em tempos o cobriu, com o seu sorriso icónico, confiante e tão malicioso como o da Mona Lisa. Para a egiptologia, este túmulo representa um recurso único. É um ícone do Antigo Egipto, um símbolo do governo actual e um íman para atrair dinheiro. Apesar disso, o rei-menino parece desamparado aqui neste túmulo, desprovido dos seus tesouros, privado de tudo aquilo que os antigos egípcios acreditavam que ele precisaria para a vida no Além. Apesar disso, Tutankhamon sentir-se-ia satisfeito por a sua saga continuar. Os egípcios acreditavam que o ser humano era composto por várias partes, cada qual com um desempenho diferente no outro mundo. O khat, ou corpo físico, acabaria por se decompor até se tornar pó, apesar dos elaborados ritos de mumificação. O ba era a personalidade ou carácter singular do defunto, frequentemente representado por um falcão com cabeça humana. O ka era a força vital que precisava de comida e bebida após a morte.

Uma parte particularmente importante era o ren, ou nome. Os egípcios repetiam obsessivamente os nomes dos seus mortos famosos em inscrições, orações, encantamentos e textos funerários, acreditando que, ao fazê-lo, o defunto era, de certa forma, reavivado. Se o nome fosse esquecido, a alma da pessoa morta perder-se-ia para sempre – uma segunda morte muito temida. Cá em baixo, no túmulo de Tutankhamon, o seu khat já viu melhores dias e não sei o que dizer sobre o seu ba e o seu ka. Mas o seu ren está fantástico. Nenhum faraó foi mencionado tantas vezes, nem com tanta alegria, nos últimos cem anos como Tutankhamon. Parece garantido que o rei-menino, que foi em tempos uma nota de rodapé da história, viverá para sempre na nossa imaginação.

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