HARPIA

Uma harpia protege a sua cria num ninho da Amazónia brasileira. As fêmeas são maiores do que os machos e podem pesar 11 quilogramas, com garras frequentemente maiores do que as de um urso-pardo. A sua área de distribuição na América Central e do Sul diminuiu mais de 40% desde o século XIX.

Cientistas, produtores de castanha, proprietários agrários e agentes turísticos estão a juntar forças para conservar uma das maiores águias do mundo.

Texto: Rachel Nuwer 

Fotografias: Karine Aigner 

Em teoria, deveria ser um atalho.

Agora, com água pela cintura, dou por mim a tropeçar em troncos submersos.

Agacho-me sob arbustos espinhosos cheios de formigas e avanço entre cortinas peganhentas de teias de aranha, seguindo por um trilho aberto pelo ecologista brasileiro Everton Miranda. Já perdemos uma máquina fotográfica, quando o assistente de campo Edson Oliveira caiu de frente, enfiando a cara numa grande poça. A fotógrafa Karine Aigner foi picada no antebraço por uma vespa, desenvolvendo uma baba. Contudo, se alguém estiver a pensar em voltar para trás, não o diz em voz alta. A nossa missão é demasiado importante. Estamos aqui em busca da esquiva harpia que, segundo os boatos, se encontra a um quilómetro e meio, no interior desta floresta húmida amazónica em Mato Grosso. Com os seus elegantes corpos monocromáticos, olhos ferozes e penas faciais exuberantes, as harpias são frequentemente mencionadas quando se fala nas aves mais espectaculares do planeta. Capazes de capturar uma preguiça adulta numa árvore, as suas garras podem ser maiores do que as de um urso-pardo, e as fêmeas chegam a pesar 11 quilogramas. “Parecem um animal saído de um livro de fantasia”, diz Everton Miranda.

Enquanto predadores de topo, as harpias desempenham um papel essencial, ajudando a manter as populações de predadores sob controlo. “Se conseguirmos conservar a harpia, conseguiremos conservar quase toda a biodiversidade do ecossistema que eles habitam”, diz Richard Watson, presidente e director executivo do Peregrine Fund, uma organização sem fins lucrativos que lidera um programa de conservação de harpias no Panamá.

Ninguém sabe quantas restam em ambiente selvagem, mas os cientistas sabem que estão a desaparecer. Estas poderosas aves de rapina existiram, outrora, desde o Sul do México ao Norte da Argentina, mas a sua área de distribuição diminuiu mais de 40% desde o século XIX e está agora praticamente limitada à Amazónia, diz o biólogo.

A desflorestação causada pela exploração agrícola, extracção mineira e construção não parece abrandar. Everton Miranda estima que tenham sido arrasados 55 hectares de floresta amazónica brasileira por hora no início de 2020.

harpia

 

Lutador de artes marciais mistas e cientista, Everton está na linha da frente dos esforços para salvar as harpias do Brasil. Ele acredita que, sem acções eficazes de conservação, as aves de rapina não tardarão a desaparecer de uma parcela significativa do seu bastião brasileiro, o chamado arco de desflorestação, uma paisagem fragmentada com o tamanho aproximado de Espanha, contornando o Sudeste da Amazónia. Everton acredita que essa perda de habitat poderá ser combatida se for demonstrado aos brasileiros que as florestas são mais lucrativas em pé do que derrubadas.

Com essa ideia em mente, ajudou recentemente a lançar um inovador projecto de ecoturismo para incentivar os proprietários de terras a protegerem as harpias e os seus habitats.

Se encontrarmos o ninho, acrescentaremos mais um ponto de dados fundamental para identificar o tipo de habitat onde as harpias ainda vivem para que seja possível protegê-lo. Everton Miranda olha de relance para um marcador de GPS que assinala o local onde ele acredita que o ninho se encontra. Um ribeiro de águas rápidas bloqueia a nossa passagem. Não se deixando demover, ele detecta um tronco caído semiapodrecido, que suporta o nosso peso enquanto nos revezamos a atravessar lentamente para o outro lado.

Trepamos pela margem lamacenta com a ajuda das mãos, percorremos o último quilómetro até vermos o enorme e imponente tronco de um castanheiro do Maranhão. Os ramos da copa altíssima desta espécie protegida são o local de nidificação preferido das harpias da área de estudo de Everton Miranda. Espreitamos para a folhagem espessa do alto. A cerca de 30 metros de altura, um buraco revela uma massa gigante de galhos. É o ninho!

No entanto, além de uma elegante pena branca descoberta pelo biólogo, não encontramos mais indícios de ocupação do ninho. A reprodução de vocalizações previamente gravadas de harpia também não obtém respostas. Everton Miranda acha que a cria que ocupava este ninho a tempo inteiro deve ser agora um juvenil, prestes a sair do domínio dos progenitores, depois de três anos sob a sua tutela.

As harpias nidificam na copa dos castanheiros do Maranhão. Os recolectores de castanhas são essenciais para a descoberta dos ninhos.

Caso não sejam incomodadas, as harpias podem usar um único ninho durante décadas e Everton Miranda pensa que este deverá ter um novo pinto residente no final de 2020. Se tudo correr bem, como espera, os turistas serão conduzidos ao local para o admirarem e contribuírem para a sua protecção.

Em vez de estudaras harpias na Amazónia prístina, Everton Miranda preferiu concentrar as suas atenções no arco de desflorestação devido à urgência das ameaças no local. Entre 2004 e 2012, o Brasil reduziu a sua taxa de desflorestação em 83%, para 4.400 quilómetros quadrados anuais. Contudo, a floresta voltou a ser abatida quando os barões do gado e da soja começaram a influenciar os políticos. Jair Bolsonaro, que se tornou presidente em 2019, impediu os esforços desenvolvidos para travar o abate ilegal de árvores, contribuindo para novo aumento de 30% do ritmo da desflorestação. Segundo algumas estimativas, 95% da crescente desflorestação actual é ilegal.

Quando Everton Miranda chegou à região, as pessoas disseram-lhe que as harpias já tinham desaparecido. Ele instalou-se num posto de investigação francês cerca de 250 quilómetros a oeste de Alta Floresta, uma cidade com quase 52 mil habitantes e mais de 790 mil cabeças de gado.

Para começar a sua investigação, Everton Miranda precisava de encontrar ninhos. Depois de escrutinar 50 quilómetros de floresta, conseguiu finalmente descobrir um. Felicitou-se a si próprio e calculou que, àquele ritmo, poderia descobrir um punhado de ninhos por mês. Três meses e 400 quilómetros mais tarde, Miranda não descobrira mais ninhos. Precisava de ajuda. Começou a afixar cartazes, oferecendo uma recompensa de 85 euros a quem encontrasse um. A sua busca conduziu-o aos apanhadores de castanha do Maranhão, que vagueiam pela floresta em busca de frutos caídos – a base de uma indústria sustentável e lucrativa. “Percebi que havia pessoas a fazerem constantemente transectos na floresta”, diz. Começou, então, a contactar associações de produtores de castanha do Maranhão.

“Lembro-me de ouvir falar num tipo maluco que andava à procura de harpias na Amazónia”, recorda Veridiana Vieira, presidente da Associação de Apanhadores de Castanha do Maranhão da Aldeia de Vale Verde. Antes de conhecer Everton, Veridiana achava que as harpias eram meros assassinos de galinhas, embora nunca tivesse visto um. Ela gostava particularmente da ideia de contribuir para a ciência, por isso decidiu participar no projecto com a associação.

Everton Miranda ensinou os apanhadores de castanha a reproduzir vocalizações de harpia com o telefone e a detectar vestígios de ninhos no solo da floresta. “Agora, trocamos informações sobre a harpia no WhatsApp”, diz Veridiana Vieira. Até à data, a sua associação e outros grupos de apanhadores de castanha ajudaram Everton a encontrar 34 ninhos no estado. É um conjunto de dados “notável e incrivelmente valioso e invulgar”, diz Richard Watson, cuja organização compilou o único outro registo comparável existente, no Panamá.

Everton também lançou uma campanha de relações públicas para dar formação sobre as harpias e tentar reduzir o número de aves mortas propositadamente. Viu imagens de pessoas a segurar harpias mortas, ou partes do seu corpo, durante as entrevistas que fez a 180 proprietários de terras e calculou que estes deverão ter abatido pelo menos 180 aves em dois anos. Mais de 80% disseram nunca ter visto uma ave tão grande e só queriam vê-la mais de perto.

O biólogo ficou comovido quando muitos proprietários mostraram arrependimento por ter abatido uma harpia, sobretudo depois de aprenderem mais sobre estas aves ameaçadas.

“Hoje, todos sabem que as harpias são positivas para a região, e, por isso, já não os matam”, diz Roberto Stofel, antigo madeireiro e caçador que trabalha com Everton Miranda como escalador de árvores.

É útil impedirque as harpias sejam abatidas, mas o verdadeiro desafio, segundo Everton Miranda, é encontrar formas de ganhar dinheiro com a floresta que não impliquem a desflorestação de enormes áreas. “Estamos a queimar a floresta com maior biodiversidade do mundo para criar meia dúzia de vacas magras”, diz. “Para travar a desflorestação, precisamos de descobrir uma maneira inteligente de integrar a Amazónia na economia global.”

As boas notícias, acrescenta, residem no facto de os brasileiros poderem de facto ganhar dinheiro sem derrubar árvores. Segundo vários estudos científicos, a apanha de castanha do Maranhão e a aquicultura são mais lucrativas e sustentáveis do que a criação de gado. O turismo poderá ser outra alternativa viável.

Em Dezembro de 2016, Everton entrou em contacto com Charles Munn, co-fundador e proprietário da SouthWild, uma empresa de ecoturismo sediada em Cuiabá, no Brasil. Passado um mês, tinham um contrato assinado. “Existe um grande número de cientistas interessados em investigação fundamental, sem quererem aplicar as suas conclusões em soluções de sustentabilidade”, diz Charles. “O Everton é invulgar porque também se preocupa genuinamente em criar postos de trabalho ecológicos e proteger a natureza.”

Charles Munn organiza safaris fotográficos de luxo na América do Sul e tem um historial de acções lucrativas associadas à conservação. Foi o primeiro a trazer turistas para ver os famosos jaguares na região brasileira do Pantanal, a maior zona húmida tropical do mundo. Um estudo mostrou que o turismo dos jaguares gerou cerca de 5,9 milhões de euros anuais em receitas em sete unidades hoteleiras do Pantanal. Os criadores de gado que beneficiam do turismo já não matam jaguares, mesmo que estes matem as suas vacas de vez em quando.

“É uma espécie de capital de risco, mas com animais selvagens”, resume Charles. “Tentamos perceber o que poderá funcionar para levarmos estes animais a protegerem o seu habitat de nós.” Em Julho de 2020, Everton já recrutara 35 proprietários com ninhos de harpia nas suas terras para se juntarem ao programa. Quando os ninhos geram uma cria, a empresa de Charles Munn contrata membros das populações locais para construírem torres de vigia com quase trinta metros de altura para uso turístico. Os proprietários recebem 17 euros por visitante, por dia, e outros membros da comunidade ganham dinheiro como carregadores, motoristas e cozinheiros. Charles Munn garante aos clientes o avistamento de uma harpia no horizonte… ou o reembolso do seu dinheiro.

Everton Miranda acredita que Mato Grosso poderá, um dia, atrair cerca de setecentas pessoas por ano para verem ninhos de harpia. Isso seria lucrativo para a empresa de Charles Munn e uma vantagem inesperada para as harpias.

Everton está determinado em garantir o futuro das harpias e a biodiversidade que representam. Planeia fundar um instituto de predadores em Alta Floresta no próximo ano, dedicado a fomentar os trabalhos de investigação de base e o desenvolvimento de soluções práticas. “A conservação na Amazónia só será eficaz se quem lá vive se envolver e acreditar no processo”, diz. “Mais cedo ou mais tarde, vamos perceber que a Amazónia é o maior bem do Brasil.” 

Nota: Esta reportagem foi realizada em parceria com a National Geographic Society e a Wyss Campaign for Nature, que pretendem inspirar os leitores a protegerem 30% do planeta até 2030.

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