pumas

Uma fêmea de puma e a sua cria deslocam-se no Parque Nacional de Torres del Paine. Aqui as fêmeas costumam ter ninhadas com duas a quatro crias. Entram no cio em Agosto e parem três meses após a cópula, na Primavera. 

Texto: Eva Van Den Berg
Fotografias: Andoni Canela

Patagónia chilena, Dezembro, seis da manhã.

Com incipientes raios de sol, abre-se um novo e radioso dia de primavera no Parque Nacional de Torres del Paine. O termómetro marca poucos graus acima de zero e alguns guanacos, acompanhados das respectivas crias, chamadas chulengos, iniciam o seu dia de pastagem. No céu, um enorme condor dos Andes (a sua envergadura de asas pode ultrapassar 2,8 metros) sobrevoa, a grande altura, este território delimitado pela cordilheira dos Andes, observando-a em busca de carcaças de animais. Entretanto, numerosas aves de pequeno porte, como os tordos-patagónicos ou os abibes-austrais, debicam sementes e insectos entre os arbustos.

De repente, num ponto indeterminado deste prado alpino, o matagal abana de forma estranha. Foi um movimento muito subtil, mas um dos guanacos apercebeu-se dele. Adoptando uma postura de alerta, inclina as orelhas para a frente, abre a boca e emite o seu peculiar relincho. É um alerta para os restantes, revelando grande inquietação. Depois do aviso, as pequenas aves afastam-se a toda a velocidade, tal como outros animais que se encontram nas imediações: nandus, tatus, lebres, zorrilhões… Não é o caso do condor que, a partir da sua posição, a tantos metros de altura, prossegue imperturbável o seu voo circular, observando a cena terrestre.

A calma regressa. Os guanacos descontraem-se e pastam novamente. A fêmea de puma, agachada sob aquele matagal que quase a denuncia, aproveita para prosseguir o avanço furtivo. Está de olho num guanaco que pasta afastado e aproxima-se até ficar a poucos metros. O puma não resistiria a uma longa perseguição, pois este herbívoro aguenta largos minutos em fuga. Recorrendo ao factor surpresa, porém, salta e aborda-o pela traseira, fixando-lhe as garras nos quadris para lhe subir pelas costas até alcançar a garganta, que apertará com as mandíbulas até cortar a respiração.

Em pânico, o guanaco tenta escapar ao predador, saltando bruscamente para fazê-lo cair, una manobra que por vezes funciona. Nesta ocasião, porém, a robusta felina, aguardada a escassa distância pelas suas crias, fez uso de todas as suas habilidades de caçadora. A fome aperta. Após alguns minutos de uma cena que faz lembrar um rodeio, o guanaco cai no solo e expira, com a boca do felino cravada no pescoço. Aterrorizada, a família fugiu em debandada.

conservação do puma

A cena foi atentamente observada por um ser humano que, há quase 20 anos, segue os pumas deste paraíso e sabe mais do que qualquer outra pessoa sobre o seu comportamento. O biólogo Diego Araya, director da empresa Wild Patagonia, seguiu, fotografou e filmou várias gerações destes felídeos. Com outros colegas, tem sido artífice de uma metamorfose que tornou o território do Parque Nacional de Torres del Paine e os locais adjacentes (o Gran Paine) o melhor sítio do mundo para observá-los.

“Em nenhum outro lugar se podem observar os pumas tão bem como aqui em Paine”, assegura. Diego explica que, para isso ser possível, foi decisiva a mudança de mentalidade de alguns criadores de gado das zonas adjacentes ao parque nacional, nomeadamente as grandes quintas como Cerro Guido e Laguna Amarga, com milhares de hectares cada. “No passado os criadores de gado caçavam o puma no seu território porque este matava as suas ovelhas. Hoje, os seus trabalhadores assinam um contrato que proíbe explicitamente a caça, recebem turismo de natureza nas suas terras e até acolhem equipas de filmagem, como a BBC, que está a realizar um documentário sobre o puma.”

Embora a equipa da cadeia televisiva britânica tenha sido forçada a interromper as filmagens devido à pandemia, durante a paragem Diego Araya tem observado e filmado para ela os acontecimentos mais significativos da vida deste felino que vive em 28 países do continente americano, desde o Canadá ao Chile. “É um sonho tornado realidade”, assegura o biólogo, para quem a maior motivação na vida é captar esses momentos de interacção e intimidade com a fauna silvestre.

Diego Araya e Andoni Canela, autor das fotografias desta reportagem, estiveram várias vezes juntos em Gran Paine e ambos concordam que, nesta região do mundo, a coexistência entre seres humanos e pumas não só é possível, como também é uma estratégia na qual todos os participantes saem a ganhar. “As explorações ganadeiras devem modernizar-se e diversificar-se, se quiserem sobreviver às diversas crises que possam afectar o território”, explica o biólogo. “Hoje é a pandemia, que deteve repentinamente o sector do turismo, mas amanhã pode haver uma crise da lã ou uma seca intensa. A diversificação das actividades económicas é essencial para sobreviver e, graças ao puma, os proprietários contam com novas ferramentas para explorar as suas terras, como unidades de ecoturismo, que até podem ser instaladas em locais pouco adequados à criação de gado.”

patagónia

Felino com uma vasta distribuição geográfica. O Puma concolor tem a área de distribuição geográfica mais ampla de todos os mamíferos terrestres autóctones do hemisfério ocidental, com um território que se estende por 28 países do continente americano, desde o Yukon, no Canadá, à Região de Magalhães, na extremidade meridional do Chile. Ao longo dos 200 anos de colonização europeia, este felídeo foi eliminado em toda a metade oriental da América do Norte, à excepção de uma pequena população na Florida, que se encontra actualmente em recuperação.

Paralelamente à recuperação do puma, aumentou também a sua presa principal, o guanaco, protegido para evitar que os criadores de gado o matem por competir com o gado pelo  pasto.

“O grande conflito entre o ser humano e a fauna silvestre deve-se ao uso do solo”, diz Diego Araya. “Começou há apenas um século e meio, quando os colonos chegaram e impuseram o seu modo de pensar. Hoje em dia, o objectivo consiste em devolver terreno à fauna e coexistir. Isso é possível estabelecendo gradientes no uso do solo, combinando zonas dedicadas à criação de gado com zonas destinadas à conservação da biodiversidade e com outras intermédias, onde ambas as funções convivam de forma harmoniosa. Aqui a população local assiste, todos os anos, à visita de milhares de pessoas que procuram uma natureza intacta e encontros únicos com os pumas. Tudo isto levou a uma revalorização económica e cultural da biodiversidade.”

Embora a caça e a perseguição do guanaco, por parte do ser humano, provoque uma aparente diminuição da concorrência pelo pasto com as ovelhas, “ela redirecciona a pressão da predação do puma, orientando-a para estas últimas”, sublinha Juan Traba, investigador do Grupo de Ecologia Terrestre do Departamento de Ecologia da Universidade Autónoma de Madrid (UAM) e especialista nas interacções estabelecidas entre os animais num determinado habitat. Por outro lado, afirma, “os esforços para matar pumas facilitaram a recuperação dos guanacos, num círculo interminável de acção-reacção. Parece mais razoável e ecologicamente adequado manter populações silvestres sãs de herbívoros e predadores, apesar dos conflitos pontuais que possam surgir”.

 “O grande conflito entre o ser humano e a fauna silvestre deve-se ao uso do solo”, diz Diego Araya. “Começou há apenas um século e meio, quando os colonos chegaram e impuseram o seu modo de pensar. Hoje em dia, o objectivo consiste em devolver terreno à fauna e coexistir. Isso é possível estabelecendo gradientes no uso do solo, combinando zonas dedicadas à criação de gado com zonas destinadas à conservação da biodiversidade e com outras intermédias, onde ambas as funções convivam de forma harmoniosa. Aqui a população local assiste, todos os anos, à visita de milhares de pessoas que procuram uma natureza intacta e encontros únicos com os pumas. Tudo isto levou a uma revalorização económica e cultural da biodiversidade.”

Juan tem estudado aprofundadamente o guanaco na Patagónia e acredita que a coexistência entre herbívoros silvestres e domésticos e os seus predadores é possível, embora exija uma mudança do modelo ganadeiro. “O actual modelo hiperextensivo de exploração, sem limite de espaço, nem de cabeças de gado, resulta na sobreexploração dos pastos e na eliminação de qualquer espécie concorrente. É necessário outro modelo que dedique mais esforços ao cuidado dos rebanhos. Que os vá mudando de sítio, controle as épocas e zonas de parto e incorpore medidas contra a predação, como currais nocturnos e a vigilância com cães de guarda.” Embora essas medidas impliquem, aparentemente, um aumento dos custos, os criadores de gado que optaram por elas têm reduzido os prejuízos associados à predação, por abortos das fêmeas (directamente provocados pelos ataques ou pelo impacte emocional por eles causado) e, até, a sua fonte de alimento. Sobre as suas cabeças, vários condores sobrevoam-nos, em círculos, interessados na volumosa carcaça. Se vissem que era seguro descerem, poderiam devorá-la num ápice. Ao longo dos últimos 20 anos de observações, Diego acumulou uma enorme quantidade de dados sobre os pumas, que lhe permitiram reescrever com muito mais precisão a história natural deste felídeo. “Muitos dados eram desconhecidos e outros tantos diziam respeito a populações do hemisfério norte e não se aplicam aqui.” Agora, o seu sonho passa por alargar o sucesso desta história de conservação de Gran Paine a outras regiões e pela criação de corredores biológicos para que as duas centenas de exemplares que devem existir na região se expandam para outros territórios onde também sejam respeitados. “Está a fazer-se algo parecido nos parques nacionais do Norte da Patagónia, na região chilena de Aysén, nos enormes territórios doados por Douglas Tompkins”, disse. “Mas a única forma de ligar o Gran Paine a Aysén é através da província de Santa Cruz, na Argentina, onde ainda se caçam pumas.”

Apesar de tudo, Diego Araya e os seus companheiros de profissão confiam que aquilo que alcançaram em Gran Paine servirá de inspiração a outros humanos que, tal como eles, verão, em primeira mão, que as relações com a fauna silvestre podem restabelecer-se de forma satisfatória para todas as partes implicadas. Sonho louco e utópico? “Já se conseguiram vitórias mais difíceis”, afirma o biólogo. Há que dar tempo ao tempo. 

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