Poço da alagoinha

A água precipita-se de múltiplas falhas, num espectáculo natural de rara beleza.

Se a ilha das Flores já tem por si o formato de um coração, o Poço da Alagoinha é a artéria coronária que a faz pulsar.

Texto: Gonçalo Pereira Rosa

Poço da Alagoinha. Lagoa das Patas. Poço da Ribeira do Ferreiro. Como nas titulaturas dos faraós egípcios, há vários nomes para designar este prodígio da natureza, mas nenhum lhe faz total justiça. É como se as palavras não chegassem para apreender a conspiração paisagística que faz desta zona húmida um local imperdível.

A ribeira do Ferreiro é um minúsculo fio de água que engrossa com as chuvas, mas que depende da ribeira Grande, no extremo ocidental da ilha. Nos troços da ribeira visíveis a partir dos trilhos de caminhada, nada leva a supor a surpresa que se prepara ao caminhante. O mesmo sucede a quem se aproxima de automóvel e pára o carro no parque de estacionamento, a cerca de seiscentos metros da zona húmida.

A escadaria de acesso é pouco encorajadora. É um trilho com degraus improvisados, por vezes parcialmente obstruído por um ramo mais teimoso da vegetação e sempre coberto de musgo, que faz o sapato deslizar a cada passada. Como um patinador num rinque incerto, o caminhante hesita e sente-se talvez tentado a não prosseguir a marcha. Há algo, porém, que o impele a prosseguir. A ajuda de um cajado ou de outro ponto de apoio que permita recuperar o equilíbrio restaura a confiança.

Passo atrás de passo e começa a ascensão. Nada no trilho leva a supor a magnitude da experiência próxima. Ao dobrar a última curva, porém, o carreiro alarga como se precisasse de mais espaço para respirar. A vegetação de grande porte ainda não permite a percepção do anfiteatro natural que está pela frente. O tronco de uma árvore robusta caída sobre o solo costuma ser pretexto para fotografias bem-humoradas dos viajantes, aparentemente desafiando a gravidade. Por fim, a cortina abre-se e o grande coliseu da natureza impõe-se como uma orquestra em que todos os instrumentos tocam numa inimaginável sinfonia.

A lagoa acolhe sempre avifauna até porque as Flores são o primeiro obstáculo insular no solitário caminho entre a costa leste dos Estados Unidos e a Europa. Esta é a primeira área de serviço para os maratonistas dos céus, o lugar onde retemperam forças antes das etapas seguintes.

O verde domina a paisagem em milhares de variações irreais de tonalidade. Da parede rochosa que delimita a ribeira precipita-se uma dezena de cascatas. São elas que alimentam a ribeira, como se a própria montanha chorasse, num pranto inconsolável, perante a paisagem esmagadora que se lhe depara. Que virtude suprema terão os florentinos para merecerem dos deuses tamanha dádiva na sua ilha?

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