Pateira de fermentelos

Um dos observatórios de avifauna da Pateira de Fermentelos, uma lagoa natural onde se concentram dezenas de espécies.

É em silêncio, a pé pelas margens ou numa bateira, a embarcação tradicional de madeira e fundo chato, que se desbrava este paraíso natural.

Texto: António Luís Campos

No centro de Portugal, bem perto da costa e tendo como vizinha a ria de Aveiro, espraia-se uma das grandes lagoas naturais da Península Ibérica, a Pateira de Fermentelos. Próxima da confluência entre os rios Cértima e Águeda, chega a ter mais de cinco quilómetros quadrados em anos de chuva abundante e o espelho de água reflecte a planura da linha do horizonte, entrecortada aqui e ali pela silhueta de salgueiros, freixos e choupos.

Integrada na Rede Natura 2000, que protege os mais importantes ecossistemas europeus, o seu contorno nem sempre é claro, variando ao longo do ano e com o nível das águas. Silenciosamente, o visitante de pronto intui o ritmo da observação. Os juncos, aparentemente vazios à chegada, depressa desvendam o bulício discreto que a vida selvagem lhes empresta. Felosas e alvéolas esvoaçam, nervosas, enquanto uma garça real, elegantemente camuflada, desfere um golpe mortal na água prateada, retirando dela, com o seu bico aguçado, um troféu em forma de peixe, que num ápice engole. Acima, empoleirado numa cana, o reflexo azul-eléctrico das penas dum guarda-rios denuncia a sua presença, enquanto uma família de patos reais sulca a superfície. De repente, em pânico, todos levantam voo à passagem dum tartaranhão-ruivo-dos-pauis que, com a agilidade que lhe é conhecida, patrulha os ares a baixa altitude.

A importância ambiental de zonas húmidas como a pateira, já raras na região devido a séculos de drenagens consecutivas pelo homem, é facilmente compreensível. Num mundo fortemente humanizado e industrial, são escassos os refúgios para plantas e animais. E tal não podia ser mais óbvio do que durante a alvorada, empoleirado no observatório palafítico de madeira, num recanto do extremo norte da lagoa conhecido como Pateira de Requeixo. Enquadrado por nenúfares em flor, ali acontece diariamente um bailado único, sem público, perfeita simbiose entre a vegetação ribeirinha oscilante, tocada pela brisa matinal. Os bandos sincronizados de aves chilreantes e a neblina diáfana que, provocada pela evaporação, se esfuma delicadamente à medida que o dia nasce...

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