rãs-de-vidro

Esta recém-descoberta rã-de-vidro do género Hyalinobatrachium mede menos de 2,5 centímetros. Este anfíbio é único, devido ao seu assobio agudo e às pintas pretas que lhe cobrem o corpo. Talvez funcionem como camuflagem no seu ambiente.

Numa noite de Verão sem luar, no sopé dos Andes equatorianos, um minúsculo macho de rã-de-vidro está sentado numa folha, pendurado sobre um riacho.

Texto: Angela Posada- Swafford
Fotografias: Jaime Culebras

Escolheu o melhor terreno para tentar impressionar uma fêmea, anunciando a sua presença com um chamamento agudo. Tem, porém, um problema: a localização não vai bastar. O anfíbio verde-amarelado tem observado a maneira como actuam os machos já acasalados. Por isso, quando detecta uma postura abandonada, permanece junto dela horas a fio, fingindo guardá-la. Acontece então algo surpreendente: começa a atrair observadoras do sexo feminino, aparentemente levadas a crer que ele é um progenitor experiente.

“É a primeira vez que descrevemos este comportamento em rãs e sapos”, diz a ecologista Anyelet Valencia-Aguilar, que tem documentado o que parece ser uma forma de logro masculino numa espécie de rã-de-vidro do Brasil. O mesmo poderá suceder em duas espécies no Equador.

A investigação de Anyelet é uma de várias novas descobertas acerca da biologia destes sedutores anfíbios, cujo nome se deve à sua pele translúcida. Existem 156 espécies conhecidas de rãs-de-vidro que vivem na região neotropical, sobretudo no Norte dos Andes e na América Central. Progressos recentes nos domínios da óptica, da genética e da biologia molecular proporcionaram aos investigadores mais informação sobre a vida destes minúsculos habitantes das árvores, alguns dos quais mais pequenos do que um clipe. Juan Manuel Guayasamin, especialista em biologia evolutiva da Universidade San Francisco de Quito, descreveu 56 espécies de anfíbios nos últimos anos, incluindo 14 rãs-de-vidro. “É um trabalho importante e interminável”, diz. “Estas pequenas maravilhas não cessam de nos surpreender.”

Os cientistas descobriram que os machos de algumas espécies de rã-de-vidro são progenitores fantásticos, uma característica rara nos vertebrados. Machos de, pelo menos, 24 espécies não só protegem os seus ovos dos predadores, mas também cuidam activamente deles, por vezes durante várias semanas.

Depois de a fêmea depositar a sua postura, constituída por 20 a 100 ovos, o macho fertiliza-os com o seu esperma. Enquanto os embriões se desenvolvem,osmachosdealgumasespécies,comoHyalinobatrachium aureoguttatum Hyalinobatrachium fleischmanni, chocam o conjunto de ovos “como se fossem galinhas”, mantendo-os hidratados até eclodirem em girinos, explica Jesse Delia, biólogo do Museu Americano de História Natural de Nova Iorque.

“O progenitor procura orvalho nas folhas, suga-o para a sua bexiga através de uma zona altamente vascularizada da barriga e depois transporta-o até aos bebés”, diz. “Não sabemos se transferem a água através da urina ou da pele da barriga.”

Há 35 a 25 milhões de anos, quando as primeiras rãs-de-vidro evoluíram, é provável que as progenitoras fizessem todo o trabalho, propõe Jesse Delia. Depois, há cerca de 25 a 8 milhões de anos, alguns machos assumiram tarefas de parentalidade, embora a razão desse comportamento permaneça um mistério.

“De todas as vezes que foram transferidos para os progenitores, os cuidados tornaram-se mais longos e mais diversificados em termos comportamentais, comparando-os com os prestados pelas fêmeas, que abandonam os ovos muito antes de estes estarem prontos para eclodir”, afirma. Talvez o façam por as fêmeas estarem concentradas em produzir mais ovos para a postura seguinte.

Entretanto, novas investigações permitem esclarecer melhor a maneira como se forma a lendária barriga transparente da rã-de-vidro. Carlos Taboada, biólogo da Universidade de Duke, que trabalha com Jesse Delia, suspeita que as rãs-de-vidro jovens remodelem fisicamente o interior das suas células e tecidos de modo a tornarem-se adultos transparentes.

“Não se trata apenas de pele e da respectiva inexistência de pigmentos. São necessários músculos e estruturas internas transparentes que dispersem a luz no mínimo possível de ângulos”, diz Carlos Taboada. Segundo este biólogo, é possível que os fluidos existentes entre as células de tecido contenham também uma substância que torna a luz capaz de viajar numa trajectória rectilínea, reduzindo a opacidade. O investigador está a estudar um outro mecanismo que talvez permita às rãs-de-vidro camuflarem-se entre as folhas verdes nas quais dormitam durante o dia. Chama-lhe “espelho biológico: uma espécie de escudo, ou cobertura cristalina, existente em muitos dos seus tecidos, que chega a reflectir 50% da luz que normalmente os atinge. Esses cristais ampliam o sinal [da luz] e o verde da rã parece mais garrido”.

A transparência da rã-de-vidro proporciona outra vantagem: disfarça as suas formas conhecidas aos olhos de potenciais predadores, como as aves, as aranhas e as serpentes.

“Chamamos difusão dos contornos”, diz Justin Yeager, biólogo da Universidade das Américas de Quito. “Fabricámos réplicas exactas destas rãs, em gelatina, algumas das quais muito opacas e outras muito translúcidas. E descobrimos que as opacas são mais atacadas.”

Muitos cientistas que estudam as rãs-de-vidro são motivados pela circunstância de alguns dos seus sujeitos estarem a desaparecer velozmente. A agricultura, as pastagens para criação de gado e os projectos de mineração nos Andes estão a invadir as florestas, já de si fragmentadas, que servem de lar às rãs. Os domínios de algumas espécies, como a Nymphargus manduriacu, estão reduzidos a uma única bacia hidrográfica. A União Internacional para Conservação da Natureza elaborou uma lista de dez espécies de rãs-de-vidro em perigo crítico, 28 em perigo e 21 vulneráveis à extinção. “Mal são descobertas, muitas espécies são logo classificadas em perigo”, explica Juan Manuel Guayasamin.

No entanto, talvez exista vantagem em conservar estas populações isoladas. O investigador espera que os governos, as empresas privadas e as organizações sem fins lucrativos se sintam inspiradas a trabalhar juntas para guardarem estes pedaços de terra de grande biodiversidade como reservas, assegurando boas oportunidades de sobrevivência a estas delicadas criaturas. “Em castelhano, chamam-lhes  ranas de cristal”, comenta Juan Manuel. “É um nome fantástico porque invoca simultaneamente fragilidade e beleza.”

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