baleia

A baleia-comum é o segundo maior animal da Terra. A frequência dos seus avistamentos nos Açores sempre sugeriu que este mamífero usa o arquipélago como local de alimentação e talvez como marco de orientação. A investigação da Universidade dos Açores tem produzido novos dados sobre o tema.

Há cada vez mais indicios de que as baleias-comuns fazem dos Açores a sua área de serviço na grande auto-estrada oceânica.

Texto e fotografias de Hugo Marques

Duas baleias-comuns deslocam-se tranquilamente num rumo paralelo à costa, tal como Paulo, o vigia, tinha previsto. A civilização humana mudou muito, mas a sensação de partilhar a água com um destes grandes mamíferos marinhos permanece inigualável. Em face destes vultos, homens graúdos comportam-se como crianças, entusiasmados perante o volume gigantesco que sulca a água. Nesta espécie, já se avistaram baleias com 27 metros de comprimento e mais de oitenta toneladas. São os segundos maiores animais da Terra e, debaixo da superfície, parecem enormes submarinos escuros.

Quando avistou cachalotes, há quase cem anos e bem perto desta ilha do Pico onde estou, Raul Brandão não resistiu a escrever: “É um espectáculo majestoso encontrar pela manhã um bando de baleias, resfolgando pelas ventas – é um espectáculo do princípio do mundo… Um pouco de neblina – mar azul!... Lá vão com o dorso de fora e lançando de quando em quando um esguicho de água vaporizada.” A descrição parece-me adequada a todas as grandes baleias.

Salto para a água, mas as primeiras tentativas de aproximação revelam-se infrutíferas. Os animais não cedem com facilidade ao primeiro canto de sereia que lhes lanço. De regresso ao barco, seguimos as baleias a velocidade reduzida e a uma distância que não as coloque sob pressão. Duzentos metros depois, elas param e mudam de rumo. Avançam na nossa direcção. Por momentos, sinto uma afinidade com os toureiros e com o momento indescritível em que a montanha animal de carne e músculo investe contra eles.

baleia-comum

Aproveitando a proximidade, lanço-me no imenso azul e nado silenciosamente. Ao longe, um enorme vulto evolui a cerca de seis metros de profundidade. Mergulho rapidamente e deixo-me pairar, observando a enorme baleia que nada ao meu encontro. A máquina fotográfica dispara como se tivesse vontade própria e, em poucos segundos, estou novamente sozinho. Já não vejo, porém, o azul profundo que todos os mergulhadores associam às águas dos Açores. A baleia deixara atrás de si uma nuvem alaranjada que turvava a água. Sorrio – o que, dado o contexto, parece abonar pouco sobre a minha sanidade. São fezes, um sinal claro de que o animal se tinha alimentado durante toda a manhã.

O gráfico representa o ciclo de mergulhos de uma baleia-comum ao longo de um dia nos Açores. Os dados sugerem que esta espécie mergulha a maiores profundidades durante o dia, limitando o alcance dos mergulhos à noite. O ciclo poderá ser explicado pela movimentação do krill na coluna de água.

Distantes dos grandes centros urbanos e beneficiando desse isolamento, os Açores têm no mar um verdadeiro oásis de vida. As águas são muito profundas mesmo a pouca distância da costa. É por essa razão que, em pouco tempo, qualquer observador pode ter contacto com uma das 28 espécies de baleias e golfinhos já registadas, algumas das quais só avistáveis em águas tão fundas como as deste arquipélago.

Aqui acorrem com frequências várias espécies de baleias de barbas, assim chamadas devido às placas de queratina com numerosas cerdas utilizadas para filtrar o alimento da água. Estas baleias são muito tímidas e permanecem à superfície apenas por breves momentos para respirar. Deslocam-se a grande velocidade, o que dificulta a aproximação humana. Os biólogos Mónica Silva e Rui Prieto conhecem estes factos na ponta da língua.

Investigadores do Centro do Instituto do Mar da Universidade dos Açores, dedicam-se há vários anos à determinação dos factores ambientais e individuais que regem o comportamento de três espécies de baleias que frequentam os Açores e que servem de indicadores: a baleia-azul, a baleia-sardinheira e a baleia-comum.

fezes de baleia

Marcas da cadeia alimentar das baleias-comuns: um aglomerado de fezes de baleia.

A colocação de transmissores de satélite nestes animais permitiu-lhes estudar em pormenor os seus movimentos, compreendendo que as baleias-sardinheiras passam menos tempo no arquipélago e registam padrões lineares de migração, enquanto as outras duas registam padrões complexos e permanecem durante mais semanas nestas águas. O caso das baleias-comuns é exemplar.

Sabe-se muito menos sobre o que se passa debaixo de água e sobre a movimentação dos grandes animais marinhos do que sobre as rotas de migração da maioria dos mamíferos terrestres. Existem por isso vários preconceitos e lacunas no conhecimento. “Se consultar um guia de identificação, vai ler que elas passam o Inverno em jejum nas suas zonas de reprodução e que, no final da Primavera, iniciam uma migração que só pára em águas subpolares, onde se banqueteiam durante vários meses. O nosso trabalho demonstra que as coisas não se passam sempre assim”, diz Rui Prieto enquanto observamos no monitor do seu computador um mapa pontilhado, correspondendo às posições das baleias obtidas com os transmissores de satélite.

Vejo as rotas das baleias-comuns marcadas nos Açores e os padrões são sugestivos: as baleias permanecem vários dias, por vezes semanas, em redor das ilhas, movimentando-se em ziguezague. Para os investigadores, estes movimentos complexos sugerem que os animais poderão desenvolver procuras activas de alimento. Ao saírem da vizinhança das ilhas, os trajectos tornam-se mais previsíveis, demonstrando que estão em migração. Só quando chegam às águas mais frias, onde se encontram zonas de alimentação já conhecidas, é que os movimentos intrincados voltam a ser registados. “As baleias-comuns podem alternar períodos de migração activa com períodos de utilização intensiva de habitats específicos ao longo das suas rotas migratórias”, escreveu Mónica Silva, primeira autora de um artigo recentemente publicado na revista “PLoS ONE”, onde a hipótese do uso do arquipélago como local de alimentação de grandes baleias foi defendida.

Resultados práticos de um projecto do Centro do Imar da Universidade dos Açores coordenado pelos biólogos Mónica Silva e Rui Prieto, os mapas representam trajectos de baleias-comuns marcadas com transmissores de satélite nos Açores. Perto das ilhas, as baleias têm padrões de movimentação complexos, sinal de que estão em busca de alimento.

Volto a pensar no meu encontro com a baleia-comum e na grande mancha de fezes que esta deixou à sua passagem. A cor alaranjada deve-se ao pigmento dos pequenos crustáceos parecidos com camarões, que são conhecidos como krill (Meganyctiphanes norvegica). Estes pequenos organismos permanecem a grande profundidade durante o dia e migram para águas superficiais à noite em busca de alimento. De madrugada, voltam a deslocar-se para águas mais profundas para evitar os predadores. De forma espantosamente equilibrada, essa migração vertical diária do minúsculo krill parece influenciar o comportamento das gigantescas baleias, como um baile sincronizado entre dois parceiros harmoniosos.

No âmbito de um projecto financiado pelo Governo dos Açores  (o MAPCet) e que se estenderá até Março do próximo ano, a equipa de Mónica Silva e Rui Prieto tem colocado aparelhos sofisticados em baleias-comuns para registar o seu comportamento de mergulho. “Durante o dia, as baleias-comuns mergulham entre 150 e 200 metros, enquanto à noite a maioria dos mergulhos não ultrapassa 70 metros. As baleias ajustam a profundidade dos mergulhos para tirar partido da máxima disponibilidade de presas com o mínimo de esforço”, conclui Mónica Silva. Parece um sinal claro de que as baleias param nos Açores para se alimentarem antes de continuarem a migração, mas os mergulhos são apenas mais uma pista. E uma prova circunstancial não é suficiente para construir a argumentação que, mais tarde, será fornecida aos decisores para definição de estratégias de conservação mais precisas.

“Temos de obter dados seguros para provar a teoria”, diz Rui Prieto. É por isso que também se recolhem amostras de gordura e fezes no projecto MAPCet. As presas deixam normalmente “assinaturas” bioquímicas, que podem ser detectadas na pele, na gordura dos animais e também nas suas fezes.

krill

Um minúsculo exemplar de krill, um dos seus alimentos.

Estamos em Junho num ano que se mostrará excepcional para o avistamento de baleias de barbas nos Açores. Alguns operadores comerciais de observação de cetáceos deram conta de um aumento substancial dos avistamentos de baleias-comuns no arquipélago, com o quadrúplo ou mesmo o quintúplo das observações relativamente aos anos anteriores. E o aumento estatístico não se limitou a esta espécie. De facto, num único dia, observo oito baleias (entre baleias-comuns e baleias-azuis) e reflicto sobre as palavras dos biólogos. “A ciência é como um tribunal, temos de fazer prova do que sugerimos”, referem com alguma frequência. A vantagem decisiva é que o mar dos Açores é um verdadeiro laboratório vivo.

Enquanto membro do Centro do Imar da Universidade dos Açores, o biólogo Rui Prieto dedica a sua carreira ao estudo de baleias. Em entrevista, fala-nos das problemáticas e soluções na preservação de cetáceos: aqui

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