tepuis

O monte Roraima emerge da floresta húmida no ponto de intersecção das fronteiras da Guiana, do Brasil e da Venezuela. Os autóctones chamam tepuis ou “rebentos de rocha” a estes relevos do tipo mesa, de topos aplanados. São vestígios de um planalto primitivo que foi erodido ao longo de milhões de anos.

Uma formação aplanada, que se eleva sobre a selva da Amazónia, oferece à ciência uma oportunidade de identificar novas espécies e decifrar os segredos da evolução. O maior desafio: chegar lá.

Texto: Mark Synnott
Fotografias: Renan Ozturk

Numa noite de Fevereiro escura como breu, Bruce Means estava sozinho nas profundezas das montanhas Pacaraima, na região noroeste da Guiana. Varrendo com a luz do seu frontal a floresta nublada, espreitou pelos óculos embaciados e viu um mar de árvores antigas envoltas em manchas de musgo verdejante. A atmosfera húmida rescendia ao odor intenso das plantas e da madeira em decomposição e vibrava com a sinfonia melodiosa de rãs, atraindo-o como um canto de sereias para lugares da selva tão profundos que ele perguntou aos seus botões se seria alguma vez capaz de voltar atrás.

Agarrando-se com a mão a uma árvore para se equilibrar, Bruce deu um passo hesitante em frente. As pernas tremeram quando se afundaram na camada lamacenta de folhas caídas e ele amaldiçoou o seu corpo de 79 anos. No início desta expedição, Bruce dissera-me que planeava começar devagar, mas ganharia força a cada dia, à medida que se habituasse à vida no mato.

A verdade é que, ao longo da sua carreira como biólogo de conservação, já fizera 32 expedições nesta região. Vi uma fotografia dele quando era mais novo – um homem rústico, de ombros largos, com o cabelo comprido preso num rabo-de-cavalo e uma cobra enorme enrolada em volta do pescoço.

Bruce contara-me histórias de como atravessara as planícies venezuelanas da Gran Sabana na década de 1980, em autocarros desconjuntados, para rumar em seguida às montanhas, à procura de novas espécies. Certa vez, passou dias sozinho no alto de um pico obscuro, vivendo tão perto quanto possível do mundo natural. Tudo isto era uma extensão das explorações que fizera em criança no Sul da Califórnia, caminhando em busca de lagartos e tarântulas, ou, como ele gosta de dizer, em “pequenas experiências na magnificência da natureza”.

Foi essa filosofia que o conduzira ali, agora. É verdade que, com 129 quilogramas, Bruce estava muito acima da sua categoria de peso, mas ele garantiu-me que ainda tinha a chama. Em breve, encontraria o seu ritmo.

No entanto, a selva, com os seus enxames de insectos, chuvas incessantes e pântanos sugadores que ameaçam engolir um ser humano, desgasta qualquer pessoa e, após uma semana de caminhada intensa pelo meio do mato e de intermináveis travessias de rios, tornou-se óbvio para todos os elementos da nossa expedição que ele estava a ficar mais fraco a cada dia que se passava. À noite, uma tosse estridente mantinha-o acordado e pensava decerto na mulher e nos dois filhos que praticamente lhe tinham implorado que não fizesse esta viagem. As Terras Altas da Guiana não são para um septuagenário fora de forma.

E contudo, não era a primeira vez que eu via Bruce recuperar. Antes, fizéramos juntos três viagens a esta região, um isolado ponto quente de biodiversidade conhecido como Bacia Hidrográfica do Rio Paikwa, no extremo setentrional da selva da Amazónia. O principal interesse de Bruce eram as rãs e os sapos: se havia um paraíso de batráquios à face da Terra, era certamente aqui.

Os anfíbios desempenham um papel fundamental em ecossistemas de todo o mundo, mas, em nenhum outro lugar existem há mais tempo do que nas selvas equatoriais. Durante milhões de anos, as rãs e sapos deste local seguiram diversos percursos evolutivos, dando origem a uma profusão de espécies com todas as formas, tamanhos e cores e com adaptações estonteantes. Já foram descritas mais de mil espécies de anfíbios só na bacia do Amazonas.

Essa enorme diversidade inclui rãs venenosas da família Dendrobatidae (usadas como jóias pelos povos indígenas), rãs-de-vidro (com a pele tão fina que permite que se vejam os seus corações pulsantes), rãs que vivem no alto do dossel florestal, em orifícios cheios de água no interior das árvores) e as recentemente descobertas Synapturanus zombie, conhecidas como rãs-zombie (que passam a maior parte da sua vida no subsolo). Muitas trouxeram inovações à medicina, incluindo novos tipos de antibióticos e analgésicos e potenciais tratamentos para o cancro e a doença de Alzheimer.

Algumas espécies de rãs e sapos encontradas na expedição.

Na opinião da comunidade científica, até agora identificou-se uma fracção das espécies de rãs e sapos existentes no mundo. Entretanto, as que conhecemos estão a desaparecer a um ritmo alarmante. Segundo algumas estimativas, é possível que o número de espécies de rãs extintas desde a década de 1970 se eleve a 200. Bruce e outros biólogos temem que muitas outras morram antes de sequer sabermos da sua existência.

Bruce preferiu centrar-se na riqueza de tesouros biológicos que estas florestas húmidas ainda continham. “O potencial para descobertas futuras em Paikwa é praticamente ilimitado”, disse-me, com a voz a transbordar de entusiasmo. Contudo, ele sabia igualmente que aquele tempo estava prestes a chegar ao fim – não só para as rãs, mas também para si próprio.

A Guiana é uma excentricidade, na medida em que é o único país de expressão inglesa na América do Sul. A maior parte do país encontra-se revestida por selva ininterrupta, sem estradas, mas no canto noroeste as montanhas Pacaraima correm ao longo da fronteira da Guiana com o Brasil e a Venezuela. Aqui, várias montanhas com cumes planos, semelhantes às monumentais mesas dos desertos da Chapada Diamantina, no Brasil, erguem-se abruptamente acima do dossel florestal verde-escuro da bacia hidrográfica do rio Caroní. Para o povo indígena pemon, que vive na sua sombra há séculos, estes picos de aspecto sobrenatural são conhecidos como tepuis (“rebentos de rocha”), por vezes também apelidados de “casas dos deuses”.

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Ao contrário das cordilheiras típicas, os tepuis tendem a erguer-se isolados, emergindo da selva como ilhas e espreitando através de um “oceano” enevoado. Alguns dos seus cumes podem ser alcançados, seguindo trilhos de caminhada, mas a maioria encontra-se bloqueada por escarpas íngremes, algumas das quais com mais de 900 metros de altura. Com frequência, imponentes quedas-de-água precipitam-se rocha abaixo.

Segundo os geólogos, os tepuis são vestígios de um antigo planalto, o Escudo das Guianas, que outrora formou o coração do supercontinente Gonduana. Há centenas de milhões de anos, quando esta região da América do Sul estava ligada a África, o Escudo das Guianas estendia-se sobre partes da actual Guiana, Guiana Francesa, Colômbia, Brasil, Venezuela e Suriname e por África Ocidental, no que é hoje Costa do Marfim, Libéria e Burkina Faso. O Gonduana fragmentou-se em vários continentes há 140 milhões de anos, mas esta região da América do Sul ainda contém muitas pistas do seu passado partilhado com África. Algumas das espécies endémicas dos tepuis são estreitamente aparentadas com plantas e animais existentes na África Ocidental, e o tipo de diamantes extraídos nos dois continentes é idêntico. O primeiro europeu a ver um tepui foi provavelmente o explorador Sir Walter Raleigh, que liderou uma expedição ao Orinoco em 1595, enquanto procurava o El Dorado, a mítica cidade de ouro perdida. Raleigh escreveu sobre uma montanha de cristal avistada à distância, que poderia ser o monte Roraima: “Parecia uma torre de igreja branca com uma altura excessiva. Sobre ela corria um rio poderoso que não tocava em qualquer ponto da encosta da montanha, correndo sobre o topo dela e despenhando-se sobre o solo com um ruído e um estrondo tão terríveis como mil grandes sinos a bater uns contra os outros.”

Tomei conhecimento destas formações rochosas ao ler o clássico de Sir Arthur Conan Doyle, “O Mundo Perdido”, de 1912. Neste conto de ficção científica, um cientista descobre dinossauros e proto-humanos vivendo num planalto isolado, escondido nas profundezas da selva amazónica. Esse livro e o seu protagonista vieram-me à mente quando conheci pela primeira vez Bruce, em 2001, através de amigos comuns da National Geographic Society. Ele relatou-me algumas explorações nos tepuis, descrevendo-os como laboratórios da evolução tão isolados que algumas espécies de rãs e sapos existem no cume de um único tepui e em mais nenhum local da Terra.

“Os tepuis são como as Galápagos”, disse-me certa vez. “Só que são muito mais antigos e mais difíceis de estudar.” Bruce procurava alguém que o ajudasse a aceder ao terreno mais inacessível nos tepuis e à sua volta. Com os meus antecedentes de escalador profissional, eu conseguiria fazê-lo. Por isso, em 2003 e 2006, passámos semanas em busca de novas espécies de rãs na selva abaixo de Roraima. Enquanto regressávamos a casa de helicóptero, após a segunda viagem, passámos sobre um pequeno tepui que não figurava no nosso mapa. O seu cume estava entalhado por uma caverna com 180 metros de profundidade com uma floresta densa no fundo. Bruce agarrou-me pela camisa e gritou por cima do som dos rotores: “Mark, eu preciso de ir àquele buraco!”

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Seis anos mais tarde, em 2012, um helicóptero transportou-nos aos dois até ao topo do tepui, conhecido como monte Weiassipu e eu ajudei-o a descer, em rappel, até ao interior da caverna. Após cinco dias acampados lá no fundo e rastejando pelo solo durante a noite naquilo que Bruce descrevera como “um mundo perdido dentro de um mundo perdido”, ele encontrou uma rã minúscula que descreveu como um “elo perdido” na biologia evolutiva dos tepuis. Um único indivíduo desta espécie, denominada Oreophrynella weiassipuensis, fora recolhido por uma equipa de espeleólogos em 2000, mas não fora devidamente preservado e, como tal, pouco se sabia sobre a sua relação com outras do género Oreophrynella.

A “Oreo”, como Bruce lhe chamava, era castanha, aproximadamente do tamanho do seu polegar, com patas de quatro dedos que me faziam lembrar as mãos do Rato Mickey – uma adaptação evolutiva que permite a estes sapos trepar como nenhum outro. Tornou-se a sétima espécie conhecida do género Oreophrynella. Cada uma vive separada das outras: seis encontram-se apenas no alto dos seus próprios tepuis e uma nas florestas nubladas da bacia hidrográfica do rio Paikwa.

Cada uma tinha seguido caminhos evolutivos diferentes, mas pelo menos duas partilham uma adaptação notável que lhes permite escapar aos predadores. Quando uma tarântula ou um escorpião o ataca, estes sapos enrolam-se em pequenas bolas e rolam e saltam, descendo de ramos de árvores, trepadeiras, folhas ou superfícies rochosas até se distanciarem do perigo. Havia outra rã no topo de Weiassipu que Bruce fotografara e capturara, mas queria estudar melhor. Esta tinha patas traseiras clássicas de rã arborícola, concebidas para trepar. Com base no seu tamanho, cor castanha e barriga com pintas brancas, Bruce estava confiante de que seria uma nova espécie do género Stefania.

Durante muitos anos, ele e o seu colaborador belga, o biólogo Philippe Kok, reconstituíram a árvore genealógica evolutiva deste género. Mapeando o DNA de outras rãs Stefania, concluíram que havia espécies em falta. Se Bruce conseguisse recolher esta rã esquiva no topo de Weiassipu e provar, através de análises de DNA, que os seus antepassados tinham evoluído ao longo de milhões de anos de maneira a adequar-se àquele ecossistema, isolados do resto do mundo, estaria um passo mais perto de perceber melhor como a vida evolui nos tepuis.

Por isso, Bruce propusera uma derradeira expedição às Terras Altas da Guiana para encontrar a sua Stefania e recolher amostras da abundância de outras espécies de anfíbios e répteis da bacia hidrográfica do rio Paikwa. Viajaríamos de monomotor e canoa artesanal ao longo dos rios Kukui e Ataro e, em seguida, caminharíamos 64 quilómetros pelo coração de uma selva sem estradas até Weiassipu. Por fim, restaria a escalada da íngreme vertente norte. “Este é, provavelmente, o meu último fôlego”, disse Bruce. “Mas hei-de chegar lá. Nem que tenha de rastejar.”

O meu desafio consistiu em conceber uma forma de ajudar Bruce a procurar novas espécies num ambiente de tepui que nenhum cientista estudara: as vertentes da escarpa. No entanto, o transporte em segurança de um septuagenário numa expedição que implicava escalar uma grande vertente rochosa exigia capacidades superiores às minhas. Por isso, recrutei dois assistentes profissionais: a estrela da escalada Alex Honnold e Federico “Fuco” Pisani, de 46 anos, de ascendência venezuelana-italiana e um dos mais experientes escaladores de tepuis do mundo.

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Bruce mobilizou as suas reservas de energia e avançou selva adentro, em busca de rãs. Ao longo de dias, arrastámo-nos com dificuldade por uma planície de aluvião pantanosa, com lama até aos tornozelos que quase nos arrancava as botas. Chovia sem parar e o sol, mesmo quando espreitava entre as nuvens baixas, nunca penetrava no denso dossel florestal acima das nossas cabeças. Cá em baixo, no sub-bosque húmido, reinavam mosquitos e moscas que nos picavam, e as nossas roupas encharcadas em suor, cobertas de lama e rasgadas por espinhos, colavam-se à pele irritada. Todos os dias atravessávamos rios e riachos cor de chá através de precárias pontes de troncos. A água estagnada, que era também a água que bebíamos, estava tingida por vegetação em decomposição – algo que nenhuma quantidade de purificante conseguiria remover.

Até Alex classificou as condições como desafiantes. Para Bruce, porém, a caminhada transformara-se numa provação. Caía com frequência e com força. Faltando-lhe o equilíbrio e a confiança necessários para atravessar muitas das pontes de troncos, optava por escorregar nas margens íngremes e atravessar o rio a vau ou a nado. A segurança de Bruce tornou-se uma preocupação sempre presente para a nossa equipa.

Após uma semana de dificuldades, acabámos por montar uma espécie de acampamento de base a jusante de uma estrondosa cascata com 60 metros de altura, à qual Bruce chamou Double Drop Falls. A equipa reuniu-se sob um oleado para avaliar a situação. Bruce abriu um mapa em cima da mesa e, com um dedo enrugado, traçou o caminho que restava percorrer entre nós e Weiassipu. A sul, havia um vale não explorado, segundo os guias akawaio da nossa equipa, membros do pequeno grupo indígena que vive na zona onde a Guiana, a Venezuela e o Brasil convergem em redor de Roraima. Acima das estrondosas cataratas, erguia-se o enorme tepui, Weiassipu, que permanecia escondido atrás de um dossel florestal denso e de nuvens rodopiantes.

Alex mostrava-se ansioso por chegar à montanha. Queria escalar e sair daquilo a que chamava “o mundo da lama”. Federico estava sentado em silêncio a meu lado. Já liderara mais de vinte expedições a tepuis ao longo dos últimos 27 anos, mas nunca participara numa expedição científica. Sempre quisera ser cientista e chegou a frequentar um programa de doutoramento em biologia a certa altura.

Atrás de Alex estavam os líderes da equipa local, constituída por setenta pessoas do povo nativo akawaio, que davam apoio à nossa expedição como guias e carregadores. Edward Jameson e Troy Henry eram lendários entre os akawaio por, em 2019, terem escalado a Rota Prow de Roraima, de 460 metros, com uma expedição britânica.

De baixa estatura, fortemente musculado e constantemente a sorrir, Edward, de 55 anos, acompanhara-me e a Bruce nas expedições anteriores à região. Crescera nesta floresta e seria capaz de sobreviver ali durante um tempo mais ou menos indefinido com pouco mais do que o seu fiel machete, que mantinha afiado com uma pedra de amolar que usava num pendente ao pescoço. Disse-me que, desde a nossa última expedição, trabalhara intermitentemente como prospector mineiro, ou pork-knocker, uma expressão guianesa que se refere ao hábito dos mineiros de se alimentarem de conservas de porco selvagem em vinagre.

Indicadores de mudança. O aquecimento do clima e a diminuição da precipitação ameaçam rãs e sapos endémicos que vivem no topo dos tepuis e nas florestas húmidas abaixo destes. Muitas espécies estão adaptadas a condições climáticas muito estritas.

Desde que vira Edward pela última vez, em 2006, a Guiana fora assolada por uma febre do ouro. Milhares de minas artesanais foram escavadas no interior do país. À semelhança da maioria dos akawaio, Edward passou grande parte da sua vida dedicado à agricultura e à caça, mas foi-lhe impossível resistir ao apelo de ganhar dinheiro. Descreveu-me a forma como os mineiros escavavam até uma camada de barro e depois injectavam jactos de água de alta pressão para desfazer o barro numa pasta, depois bombeada até à superfície, processada, lavada e misturada com mercúrio, que se agarra ao ouro. Este processo químico causava preocupações especiais a Bruce. “Uma colher de chá de mercúrio pode contaminar um sistema fluvial inteiro”, resumiu.

Um akawaio chamado Denver Henry mostrou-me um mapa com a localização pormenorizada de dezenas de concessões mineiras espalhadas pela floresta húmida em redor do rio Paikwa. Até agora, os mineiros independentes têm sido mantidos à distância pela inacessibilidade do terreno e pela resistência dos akawaio em permitirem a construção de uma pista de aterragem nas suas aldeias. Edward disse-me que, na última estação das chuvas, quando as terras baixas ficaram inundadas, os prospectores vindos de fora vieram de barco desde Kamarang, uma das maiores aldeias da região, para explorar as concessões. Todos os anos, estas minas aproximam-se um pouco mais da bacia hidrográfica do rio Paikwa.

À volta da mesa, concordámos que Bruce precisava de tempo para recuperar e, por isso, decidimos separar-nos. A equipa de escalada avançaria em primeiro lugar para abrir um trilho até à base da vertente norte de Weiassipu, a cerca de oito quilómetros de distância, enquanto Bruce e uma equipa de akawaio recolhiam espécimes em Double Drop Falls.

Bruce emergiu da sua rede na manhã seguinte vestindo apenas calções de roupa interior sujos de lama e foi recebido por um grupo de akawaio com sacos de fecho hermético com capacidade para quatro litros. No início da viagem, ele anunciara que, para recolher amostras da biodiversidade, pagaria por espécimes. A recompensa eram 100 dólares guianeses (cerca de 45 cêntimos) por criatura, com um bónus especial para uma rã do género Stefania, que criou imediatamente uma microeconomia próspera numa terra onde existem poucas oportunidades para os povos indígenas trabalharem a troco de moeda forte.

Bruce abriu o seu diário numa página em branco e começou a tirar notas. Edward era o primeiro da fila. O seu saco continha quatro rãs. Salio Chiwakeng foi o seguinte, com cinco lagartos e seis rãs. Markenson James entregou confiantemente um grande escorpião preto, da espécie Tityus obscurus, e o seu amigo apresentou uma aranha digna de um filme de Stephen King. Bruce tirou-a do saco com a mão desnuda, apertando os pêlos corporais da criatura entre os dedos, como se segurasse num caranguejo. “Theraphosa blondi”, disse. “Mais conhecida como aranha-golias-comedora-de-pássaros”. Membro da família das tarântulas, é a maior aranha do mundo em termos de massa (e, sim, come aves). Este exemplar pesava 225 gramas e media 15 centímetros. Ficou a olhar fixamente para nós com os seus olhos semelhantes a contas e os dentes negros curvos que a faziam parecer um vampiro. Depois de rabiscar alguns apontamentos, Bruce pô-la na sua cabeça calva e deixou-a deambular.

Entretanto, eu, Alex e Federico carregámos comida e equipamento para a escalada, incluindo 300 metros de corda e três redes para acamparmos pendurados na escarpa. Dois guias akawaio, Harris Aaron e Franklin George, lideraram-nos por uma crista estreita e sobre um obstáculo numa floresta densa.

Bromélias espinhosas, de todos os tamanhos e cores concebíveis, forravam o solo e trepavam árvore acima. Orquídeas emergiam de troncos podres. Arapongas da Amazónia, araras das cores do arco-íris e minúsculos colibris iridescentes voavam velozmente entre as folhas, enchendo o ar com os seus chilreios e assobios. Durante breves instantes, as nuvens abriam e deixavam o sol espreitar pelos buracos do dossel florestal, iluminando partes do solo húmido.

No segundo dia da nossa dura caminhada até ao sopé do Weiassipu, começámos a obter vislumbres da altíssima vertente norte. Não tardámos a entrar num labirinto de rochedos desordenados e escorregadios. Gradualmente, o solo firme deu lugar a uma treliça elevada de árvores e ramos caídos que ocasionalmente se desfazia sob os nossos pés, como um alçapão.

No final do dia, ouvi um ruído atrás de mim. Olhei para trás e vi Alex pendurado pelas axilas. Uma das suas pernas entrara pela treliça podre de madeira morta e penetrara no espaço entre duas rochas. Depois de se libertar, puxou a perna das calças para cima. A canela estava coberta por uma pasta de sangue e lodo. Federico olhou para mim. Eu sabia o que ele estava a pensar: Como vamos conseguir que o Bruce atravesse esta secção?

Quando, finalmente, saímos da floresta no sopé de Weiassipu, mesmo antes de o Sol se pôr, sentimo-nos como se tivéssemos renascido. As nuvens tinham desaparecido e a vertente brilhava com a luz do ocaso. Do outro lado do vale, contemplámos atentamente a vertente oriental com 14 quilómetros de comprimento de Roraima, onde uma dezena de quedas de água escorriam pela montanha como fitas esvoaçantes de seda dourada.

Franklin chamou a nossa atenção para a cascata mais espectacular, que irrompia de um buraco na escarpa, cerca de 60 metros abaixo do topo.

Disse-nos que era a catarata Diamante, que, segundo a lenda, desagua num lago que reluz com diamantes do tamanho de um punho. É um mito que remonta a Sir Walter Raleigh. O explorador contou que alguns dos seus guias nativos prometeram levá-lo a uma montanha que tinha “peças muito grandes que cresciam como diamantes; se são cristais da montanha, diamantes de Bristol ou safiras, ainda não sei, mas estou à espera do melhor” – escreveu.

Na manhã seguinte, bem cedo, começámos a escalar Weiassipu. O nosso plano era subir a vertente pela via que nos parecesse menos penosa, e criar um trilho de cordas ancoradas na montanha ao longo do caminho.

Quando a escarpa ficasse equipada, prenderíamos Bruce com tiras a uma das redes e puxá-lo-íamos para cima atrás de nós. Do conforto desta plataforma suspensa, Bruce procuraria novas espécies nas escarpas verticais de Weiassipu.

O avanço revelou-se dolorosamente lento e, ao final da tarde, eu e Federico demos por nós encolhidos numa pequena saliência a cerca de 50 metros do solo. Acima de nós, uma corda manchada por lama serpenteava ao longo de uma secção de rocha horizontal com oito metros onde Alex estava preso, pendurado como um morcego.

“Acham que tente?”, perguntou. A seguir à última secção, havia uma laje que sobressaía da parede como a prancha de salto de uma piscina. Não tínhamos como saber quão sólida seria.

Sem dizer mais nada, Alex agarrou-se à borda da laje com a mão direita, libertou os pés e ficou pendurado sobre o vazio. Depois começou a avançar, com uma mão atrás da outra, sobre a laje, confiando inteiramente que se manteria presa à montanha. Após cerca de cinco metros, soltou uma das mãos para esfregar giz nos dedos.

Ao vê-lo casualmente pendurado, por um braço, sessenta metros acima da selva, a minha mente foi assaltada pela extraordinária semelhança entre ele e um sapo do género Oreophrynella que eu vira agarrado ao dedo de Bruce dias antes. Segundos mais tarde, Alex alcançou outra fenda acima da sua cabeça e a última coisa que vi, enquanto a escuridão envolvia a montanha, foi as suas pernas deslizarem sobre a borda.

Nessa noite, de regresso ao nosso acampamento de redes improvisado na base da vertente, eu, Alex e Federico discutimos a viabilidade do nosso plano. Ao definir a rota, tornara-se claro para mim que seria muito perigoso içar Bruce até ao alto do penhasco. A minha maior preocupação agravara-se ao saber que Bruce estava a tomar anticoagulantes por ter um problema cardíaco – algo que só nos revelou quando já estávamos no trilho. E se ele se magoasse e não conseguíssemos estancar a hemorragia?

Nesse preciso momento, um clarão de luz brilhou através de uma abertura na selva, bem lá em baixo: era um sinal do acampamento de base. Liguei o rádio e ouvi Bruce. De voz pesada, disse-nos que Brian Irwin, o médico da expedição, acabara de convencê-lo a desistir do nosso plano. “Não tenho palavras para vos dizer o quanto isto me custa”, disse Bruce. “O Federico, em especial, conhece bem a herpetofauna. Vou enviar-vos o desenho que fiz da Stefania que tenho quase a certeza ser desconhecida da ciência.”

“OK, Bruce”, disse Federico. “Vou dar o meu melhor para encontrar essa bela Stefania.”

Na manhã seguinte, o vale abaixo de Weiassipu apresentava-se envolto na mesma neblina cinzenta em que vivíamos há muitos dias. Era raro o momento em que conseguíamos ver mais do que 30 metros em qualquer direcção. Choveu horas a fio, mas felizmente estávamos pendurados numa posição que evitava molharmo-nos muito.

Alex liderava a ascensão. Eu e Federico íamos-lhe no encalço, procurando rãs no interior de fendas e escavando todos os pedaços de solo que encontrávamos. No final de cada incursão, usávamos roldanas para içar sacos pesados que continham tudo o que precisávamos para sobreviver na vertente durante alguns dias. Foi um dia desgastante, durante o qual as únicas criaturas que encontrámos foram uma centopeia com uma risca cor de laranja no dorso e um grilo grande, possivelmente carnívoro. Só muito depois do pôr do Sol é que rastejámos para as nossas redes, ancorados à vertente junto de uma saliência estreita, 200 metros acima da selva.

Na manhã seguinte, quando o Sol nasceu, abri o fecho éclair da porta. As nuvens tinham desaparecido e o Sol pulsava no céu azul. Lá em baixo, um oceano de nuvens cobria o vale. A oeste, eu conseguia ver dezenas de quedas de água a cair pela vertente oriental de 460 metros de Roraima, formando halos de arco-íris em redor dos lagos da base.

Depois de beber uma chávena de café e de comer algumas barras energéticas, preparámo-nos para ultrapassar a saliência, na esperança de que ela pudesse conduzir ao cume. Depois de escalarmos, com dificuldade, 800 metros de arbustos densos cobertos de teias de aranha, virámos uma esquina e encontrámo-nos no topo do tepui, com vista sobre o planalto. No espaço de poucos metros, saímos de uma floresta nublada suspensa para um pântano coberto de plantas carnívoras, iúcas e dróseras, reluzente flora carnívora que se assemelhava a dioneias. Ao fundo, dois pináculos gémeos erguiam-se acima da caverna que eu e Bruce exploráramos em 2012.

Começou a chover e as nuvens que antes cobriam o vale começaram a enrolar-se sobre a borda do cume, envolvendo-nos. Eu e Federico abrigámo-nos sob uma rocha em forma de cogumelo, onde nos encolhemos, encharcados e a tremer, com o meu poncho pendurado sobre nós como um oleado. Alex, entretanto, desaparecera.

Federico falou com Bruce por rádio. “Qual o melhor local para encontrar aquela bela Stefania?”, perguntou. Senti-me mal pelo meu camarada, sabendo que ele carregava o peso de todas as expectativas. Bruce disse-lhe para procurar nos ramos de árvores pequenas e arbustos. Mas também mencionou que a Stefania gosta de se esconder dentro de tufos de musgo durante o dia e que costuma encontrá-los à noite, quando os seus olhos reflectem a luz do seu frontal.

Passámos a tarde a vaguear entre a chuva e o nevoeiro, mas tudo o que encontrámos foram girinos de espécie indefinida. Federico voltou a sair nessa noite de tempestade, mas não encontrou nada. Sentimo-nos como se fosse uma grande derrota.

Embora a expedição tivesse sido concebida para recolher uma ampla variedade de fauna, o maior objectivo era encontrar rãs neste tepui, sobretudo a nova espécie de Stefania. O facto de esta ser, provavelmente, a última expedição de Bruce tornava o nosso fracasso particularmente doloroso.

Dois dias mais tarde ficaríamos sem mantimentos e seríamos obrigados a descer a montanha. Bruce mudara-se para outro sítio, o “Acampamento da Preguiça”, um dia de caminhada acima de Double Drop Falls. Encontrámo-lo sentado numa mesa de trabalho a desenhar uma rã castanha borrachenta, cujo corpo estava disposto num tabuleiro de metal ao lado do seu caderno de apontamentos. O laboratório de campo apresentava-se coberto por vários frascos de vidro com formaldeído, cheios de rãs, sapos, lagartos e serpentes. O rosto iluminou-se quando nos viu, mas tinha os olhos inchados e avermelhados. A camisa de safari estava rasgada e suja de lama.

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Bruce pausa durante um instante junto da catarata Double Drop Falls antes de deixar a floresta húmida que estuda há 35 anos. A expedição de 2021 foi a sua 33.ª e última missão à região superior do Paikwa, mas ainda há muito por descobrir. Só metade das espécies de rãs e sapos da região foram identificadas cientificamente, diz Bruce. “Cabe a alguém pegar no trabalho no ponto em que o deixei.”

“Lamento muito não termos encontrado a Stefania”, disse Federico, entregando a Bruce um saquinho com a centopeia e o grilo.

“Não faz mal”, disse Bruce. “Na verdade, o facto de não terem encontrado rãs lá em cima é um resultado científico por si.” Consegui ver um sorriso endiabrado no seu rosto. Levou-nos até à mesa de trabalho, onde pegou na rã castanha e a segurou no ar para a vermos. Tinha uma pequena etiqueta branca com alguns números presa à pata.

“Isso é…?”, perguntei, reconhecendo-a do desenho da Stefania que Bruce nos enviara.

“Só vou ter a certeza absoluta depois da análise de DNA, mas tenho 95% de certeza de que é uma nova espécie de Stefania”, disse Bruce. Explicou-nos que era diferente da que ele vira há muitos anos no topo de Weiassipu – a que eu, Federico e Alex tanto nos tínhamos esforçado por encontrar – mas era, quase definitivamente, outro elo perdido na árvore evolutiva da Stefania, na qual ele e Philippe Kok trabalhavam há muitos anos.

Bruce pousou a rã e começou a pegar noutros espécimes para nos mostrar. “É engraçado como as coisas acabaram por correr”, comentou. “Ao não subir a vertente, acabei por ter tempo para explorar minuciosamente esta floresta nublada, que nunca fora investigada antes pelos cientistas.”

No geral, Bruce mostrou-se confiante por ter encontrado seis espécies ainda desconhecidas da ciência, incluindo uma serpente colubrídea não venenosa e um lagarto da família Gymnophthalmidae munido de uma pálpebra inferior transparente que lhe permitia ver com os olhos fechados. Nessa noite, enquanto jantávamos massas aguadas, falámos sobre aquele que fora, durante tanto tempo, o elefante no meio da sala. A saúde de Bruce deteriorara-se a ponto de ser simplesmente impossível ele sair dali a pé. A única opção era chamar um helicóptero de resgate de urgência. O dossel florestal era tão denso que o nosso telefone de satélite não funcionava, mas ao fim de algumas horas, conseguimos, finalmente, enviar uma mensagem de texto com as nossas coordenadas ao organizador da nossa expedição, em Georgetown, capital da Guiana.

No dia seguinte, um helicóptero aterrou na pequena clareira junto da base de Double Drop Falls. Depois de alguns abraços, Bruce encaminhou-se para o helicóptero, tropeçando e caindo uma última vez. Enquanto o helicóptero subia e saía da selva, vi Bruce no banco do passageiro a espreitar pela janela. Eu sabia que ele conseguia ver Weiassipu e Roraima, a sul e a oeste, erguendo-se da floresta nublada, com as suas quedas de água lançando arco-íris e diamantes sobre os rios lá em baixo. Mais à frente, o trajecto do cintilante rio Paikwa virava para norte, tornando-se turvo enquanto passava entre as cicatrizes das minas em seu redor, que a cada ano se aproximavam um pouco mais deste Xangri-lá da biodiversidade.

Enquanto me preparava para fazer as malas para a caminhada de saída da selva, Edward chamou-me à parte. Tirou de um bolso um frasquinho de plástico com um diamante em bruto do tamanho de uma ervilha. Agora que a expedição terminara, ele tinha esperanças de que eu pudesse comprar-lho. Segurando aquela pedra minúscula entre os dedos, pensei em todos os mineiros independentes que querem escavar minas para as retirar do solo e todo o dinheiro que elas poderiam render às suas famílias. Maravilhei-me como uma pedra tão pequena poderia ameaçar algo tão antigo e primordial como a bacia hidrográfica do rio Paikwa e os tepuis que a rodeiam. E pensei que o meu velho amigo provavelmente não voltaria a ver este sítio. E na nova espécie que transportava agora no saco à prova de água entre os seus pés.

Se os deuses dos tepuis estivessem a sorrir, talvez uma destas criaturas se revelasse tão rara e singular que o mundo inteiro percebesse, finalmente, aquilo que Bruce Means sempre soube: os verdadeiros tesouros de El Dorado não são ouro e diamantes. São as plantas e os animais que têm neste lugar mágico o seu lar.

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