18 de Abril de 2014: As equipas de salvamento escavam a cascata de gelo de Khumbu em busca de sobreviventes entre blocos de gelo do tamanho de casas. Passavam três horas depois da avalancha. Onze das 16 vítimas morreram num único local, no canto superior esquerdo desta fotografia. Fotografia de Andy Tyson

Uma trágica avalancha matou 16 membros de uma expedição no monte Evereste e mudou para sempre a vida na montanha.

Texto: Chip Brown

Fotografias: Aaron Huey

Nomes dos 16 Mortos: Mingma Nuru, Dorje Sherpa, Ang Tshiri, Nima Sherpa, Phurba Ongyal, Lhakpa Tenjing Sherpa, Chhiring Ongchu Sherpa, Dorje Khatri, Dorje Sherpa, Phur Temba Sherpa, Pasang Karma Sherpa, Asman Tamang, Tenzing Chottar, Ankaji Sherpa, Pem Tenji Sherpa, Ash Bahadur Gurung

No dia mais sombrio da história da montanha mais elevada do mundo, Nima Chhiring, um sherpa de 29 anos da aldeia de Khumjung, com as faces queimadas pelo sol e um tufo de cabelo preto, marchou até ao seu local de trabalho às 3 horas da madrugada. Transportava uma botija de gás com 29 quilogramas. Deixara para trás a aldeia temporária do acampamento-base do Evereste, onde os membros de cerca de quarenta expedições internacionais dormiam nas suas tendas ou se remexiam, inquietos, sob o ar rarefeito a 5.270 metros de altitude. Acima dele, uma fila de capacetes com lanternas tremeluzia na escuridão, à medida que mais de duzentos sherpas e outros trabalhadores nepaleses atravessavam, em fila indiana, a cascata de gelo de Khumbu.

Considerado um dos troços mais perigosos de qualquer montanha escalada com regularidade, a cascata de gelo é um labirinto íngreme e em permanente mudança de seracs instáveis, fendas e gelo contorcido que se derrama por 610 metros numa garganta entre a vertente ocidental do Evereste e o Nuptse, o pico de 7.861 metros que paira sobre o acampamento-base.

Muitos dos colegas sherpas de Nima Chhiring já tinham entrado mais cedo na cascata de gelo nessa manhã de 18 de Abril. Tomaram o pequeno--almoço habitual, composto por chá e uma papa de farinha de cevada chamada tsamba, e puseram ao ombro as cargas embaladas na noite anterior. Alguns transportavam cordas, pás para a neve , âncoras de gelo e outros equipamentos que seriam utilizados para construir um corrimão de cordas fixas até ao cume do Evereste, a 8.850 metros de altitude. Outros carregavam o equipamento com que montariam acampamentos intermédios em pontos mais altos da montanha.

Alguns sherpas apresentavam vestígios da farinha de cevada torrada espalhada no rosto uns dos outros durante as cerimónias do dia anterior, quando pediram a Jomo Miyo Lang Sangma, a deusa que vive no Evereste, uma passagem segura e “vida longa”. Alguns dos montanhistas já tinham feito várias viagens de ida e volta desde que a rota fora aberta no início de Abril pelos especialistas sherpas conhecidos como “Doutores da Cascata de Gelo”. A linha de cordas fixas e escadas de alumínio atravessando penhascos e falhas no gelo não era muito diferente da rota de temporadas de escalada recentes, embora ficasse mais perto da vertente ocidental, fustigada por avalanchas, onde um glaciar suspenso sobressaía de forma ameaçadora trezentos metros acima.

Mesmo transportando cargas com 45 quilogramas, a maioria dos sherpas encontrava-se apta para completar a escalada de 3,3 quilómetros até ao acampamento I em três horas e meia ou menos. Uma hora acima do acampamento-base, Nima Chhiring, que trabalhava para uma expedição chinesa, chegou à área conhecida como Pipoca, onde a rota se tornava mais íngreme e atravessava uma zona de gelo partido e as escadas eram numerosas. Mais adiante, numa área plana conhecida como Campo de Futebol, os montanhistas faziam frequentemente uma pausa para descanso e era comum ouvir-se o gelo ranger, enquanto o glaciar Khumbu avançava à velocidade de cerca de um metro por dia. Por cima do Campo de Futebol, havia outra zona particularmente perigosa, com blocos de gelo do tamanho de casas e torres precárias, após as quais a viagem de Nima Chhiring seria mais fácil, à medida que o glaciar de Khumbu nivelasse, desembocando na enorme planície branca conhecida como Cwm Ocidental.

Aproximadamente às 6 horas da manhã, por cima do Campo de Futebol, Nima Chhiring atingiu a base de um penhasco de gelo com cerca de 12 metros de altura. Começou a tentar subir três escadas de alumínio presas entre si com a pesada carga às costas, crampons nas botas e um ascensor na mão que tinha de fixar e soltar à medida que passava pelas âncoras da corda fixa. Quando chegou ao topo, ficou desolado por ver numerosos trabalhadores da montanha recolhidos numa plataforma de gelo inclinada e minúscula. Outros estavam em fila, aguardando vez para descer duas escadas até uma vala. O movimento do gelo soltara as âncoras da extremidade inferior das escadas, causando um engarrafamento. Os que tinham chegado a esta zona às 5 horas depararam-se com atrasos longos, apesar de a escada já estar novamente fixa. Quando Nima Chhiring lá chegou, uma hora mais tarde, as âncoras estavam soltas mais uma vez.

“Acho que havia mais de cem pessoas ali paradas, muitas a destrepar, agarradas à corda. Demoraria meia hora a passar o engarrafamento. Nessa altura, fiquei com muito medo”, contou.

Terra Natal dos Sherpas: Pensa-se que os sherpas (sharwa no seu próprio idioma ou “povo do leste”) tenham migrado para os vales junto do Evereste, vindos do Tibete, há cerca de quinhentos anos. O Distrito de Solukhumbu inclui o Evereste, Cho Oyu, Pumori e Lhoste, entre outros picos gigantes.

“O meu ouvido está a chorar”

NO NEPAL, AS PREMONIÇÕES DE perigo são por vezes sentidas sob a forma de um zumbido agudo, um fenómeno denominado kan runu, ou ouvido a chorar. Nima Chhiring, que já subira três vezes ao cume do Evereste, já ouvira este choro antes e sabia que não devia ignorá-lo. Sentiu-se atormentado pela indecisão: deveria prosseguir zelosamente até ao acampamento I com a sua carga ou seria melhor depositar a botija de gás no local onde chegara e descer imediatamente? Tentou contactar pelo rádio o seu sirdar, que se encontrava no acampamento-base, mas o patrão fora até ao Bazar Namche recolher mercadoria e Nima Chhiring só conseguiu contactar o cozinheiro do acampamento. Nima Chhiring disse ao cozinheiro que tinha o ouvido a chorar e que iria abandonar a carga e descer. Outros sherpas perguntaram-lhe o que estava a fazer.

A história de que o ouvido de Nima Chhiring estava a chorar espalhou-se. Cinco sherpas que estavam acima da escada tripla largaram as cargas e começaram a descer. Dois que trabalhavam para a marca de equipamento canadiana Peak Freaks tinham-se atrasado num ponto mais baixo da montanha e voltaram para trás porque tinham os pés gelados. Outros consideraram que não podiam alterar o seu itinerário por decreto de um ouvido a chorar ou de um pé frio. Entre o engarrafamento e o Campo de Futebol, Nima Chhiring passou por sherpas que desconhecia e por velhos conhecidos. Entre estes últimos: Phurba Ongyal, de 25 anos, oriundo de Pangboche, que dissera à irmã que esta seria a sua última temporada no Evereste; Lhakpa Tenjing Sherpa, de 24 anos, que tinha mulher e uma filha de dois meses em Khumjung; e Ang Tshiri, de 56 anos, um dos sherpas mais velhos da montanha, que se dirigia para a cascata de gelo por aquela que seria, nas suas palavras, a última vez. Depois de 13 anos como cozinheiro no acampamento II, planeava retirar-se para o seu restaurante em Thamo. Nima Chhiring também passou pelo meio-irmão de Ang Tshiri, Dorje Sherpa, de 39 anos, que vivia numa casa pobre com a família, a meia encosta do vale do Bhote Kosi, em Tarngga.

“Disse a muitos deles que tinha o ouvido a chorar e que deviam voltar para trás”, contou Nima Chhiring. “Eles disseram: ‘Estamos pressionados para chegar lá acima. Temos de continuar.’”

“Nima Chhiring disse-me para não subir”, contou Mingma Gyaljen Sherpa, de 33 anos, que subia para o acampamento I com garrafas de oxigénio e outro equipamento. “Eu tinha de subir. Levava o equipamento dos clientes. Não tive dificuldades com a escada. Não estava partida às 6h34, quando lá passei. Mas havia sherpas inexperientes à espera para descer que eram muito lentos.”

O acampamento-base e a cascata de gelo ainda estavam à sombra, mas mais acima, no cume, a morada dos deuses reluzia. Seria uma belíssima manhã no Evereste… durante mais 11 minutos.

“Não tive oportunidade de fugir”

 O CENÁRIO MONTANHOSO EM redor do acampamento-base do Evereste é tão vasto que os montanhistas vêem com frequência as avalanchas antes de as ouvirem. O som segue-se, como um trovão após um relâmpago, um assobio oceânico, enquanto cataratas de neve, gelo e rocha escorrem pelas valas íngremes ou sobre a borda de vales suspensos. No entanto, a avalancha de 18 de Abril pareceu diferente, sobretudo para os sherpas que a ouviram enquanto se encontravam na cascata de gelo. A maior parte deles descreveu-a da mesma forma: um tuuung profundo, como uma corda partida de uma guitarra-baixo titânica.

Um pedaço de gelo com a forma de um canino enorme, 34 metros de altura e 7 a 13 milhões de quilogramas, desprendeu-se explosivamente do grande manto de gelo da vertente ocidental do Evereste e foi projectado para baixo, quebrando-se em pedaços e empurrando um muro de vento à sua frente. Cerca de duas dezenas de montanhistas estavam no caminho directo da avalancha e muitos outros estavam nas margens, acima e abaixo.

Às 6h45 da manhã, Kurt Hunter, o director do acampamento-base do Evereste da Madison Mountaineering, realizava uma verificação de rádio com Dorje Khatri, de 46 anos, líder da empresa e representante sindical, que desfraldara diferentes bandeiras sindicais em cada uma das nove vezes que atingira o cume do Evereste. Dorje acabara de chegar ao topo das escadas triplas. Subitamente, Kurt ouviu “gritos e berros” através do rádio e depois “um silêncio absoluto”. Enquanto o rugido da avalancha chegava directamente ao acampamento-base, correu para fora da tenda de comunicações e viu o troço superior da cascata de gelo consumido numa nuvem fervilhante.

Correndo montanha abaixo durante dez minutos, Nima Chhiring chegara ao Campo de Futebol quando o som do tuuung confirmou os seus receios. Em poucos segundos, estava envolto em gelo, um de muitos sobreviventes que resistiu, caminhando com dificuldade, como um fantasma coberto de neve e gelo. Pemba Sherpa, um veterano da aldeia de Phortse que saiu do acampamento-
-base às 4 horas da manhã para dar uma caminhada de aclimatação com um cliente do Alasca, acabara de chegar ao Campo de Futebol. Atingido por uma rajada de vento, olhou para cima e viu “um bloco de gelo grande como uma casa” rolando pela vertente ocidental abaixo. Correu com o cliente a grande velocidade e atiraram-se para trás de uma formação de gelo enquanto o céu era obliterado.

Karna Tamang, um guia de 29 anos com cinco subidas ao cume do Evereste no currículo, saíra do acampamento-base às 3 horas da madrugada. Encontrava-se menos de cinco minutos acima da escada partida quando ouviu o tuuung.

“Não tive hipóteses de fugir”, diz. “O vento era cortante. Para me proteger, ajoelhei-me junto de um grande bloco de gelo e tentei resguardar a cara. Fiquei coberto por cinco centímetros de neve.”

Quinze minutos antes da avalancha, Chhewang Sherpa, um trabalhador de 19 anos contratado pela firma neozelandesa Adventure Consultants, conseguira transpor o troço da escada partida. Participava na sua primeira expedição ao Evereste e acompanhava o seu cunhado, Kaji Sherpa, de 39 anos e pai de três filhos. Kaji trepou a um pequeno penhasco de gelo, preso à corda fixa pela sua corda de segurança. Quando se deu a avalancha, Chhewang desprendeu-se da corda fixa, fugiu e agachou-se sob a mochila. Como contou mais tarde ao seu tio Chhongba Sherpa, director do Centro Khumbu Climbing, sediado no Nepal, o gelo cortou a corda de segurança de Kaji e derrubou-o, fazendo-o perder a consciência. Chhewang conseguiu apanhá-lo e arrastá-lo até um local seguro. Serviu-lhe uma bebida quente que estava na garrafa térmica de Kaji, na esperança de reanimá-lo.

“Kaji acordou lentamente. Trazia consigo um rádio. Eu carreguei no botão para falar porque ambos os braços de Kaji não se mexiam de todo. Ele disse: ‘Por favor, salva-me!’ Se eu não o tivesse apanhado, ele nunca mais seria encontrado porque a fenda é muito funda.”

Pasang Dorje Sherpa, de 20 anos, colaborador  da Alpine Ascents International, empresa sediada em Seattle, escalava com outros dois sherpas, Ang Gyalzen e Tenzing Chottar. Era a segunda temporada de Pasang no Evereste. Transportava uma enorme vareta de tenda, uma garrafa térmica e um rolo de corda. Quando ouviu o ruído, ele e Ang Gyalzen tinham passado pela escada partida há 45 segundos e Tenzing Chottar estava poucos passos atrás deles. Tenzing, de 29 anos, era outro novato do Evereste. Concluíra o curso básico e o curso avançado de montanhismo no Centro Khumbu Climbing e estava muito satisfeito por ter conseguido o emprego. Sustentava os seus pais idosos e tinha um filho com três meses. No dia anterior, no acampamento-base, conseguira telefonar à mulher, Pasi Sherpa, que mora em Katmandu.

“Vi o gelo aproximar-se e pensei: acabou. Vou morrer,” recorda Pasang Dorje. “O vento empurrava-me. Atirei-me para trás de um grande serac. Se não estivesse preso à corda fixa, teria sido varrido.”

O gelo projectou a vareta da tenda contra a sua cabeça. Partiu-lhe a garrafa térmica e cortou a corda. Um pedaço de gelo abriu um buraco no casaco de penas de Ang Gyalzen. Quando a nuvem se desfez dois minutos mais tarde, os dois sherpas abraçaram-se, olhando horrorizados em seu redor. O abismo colossal da cascata de gelo, que exigia o uso de cordas e escadas, estava agora atulhado de blocos de gelo do tamanho de mesas e sofás. “Tenzing! Tenzing!”, gritaram em vão.

Alertado por Michael Horst, um guia do acampamento-base que viu a avalancha, Lakpa Rita calçou rapidamente as botas. Equipou o rádio com uma antena comprida e tentou contactar os montanhistas que se encontravam na cascata de gelo nessa manhã – 33 sherpas, um cozinheiro e dois assistentes de cozinha. Por fim, conseguiu falar com Pasang Dorje, que lhe disse que cerca de cinco ou seis sherpas atrás dele estavam soterrados e, provavelmente, mortos.

“Fiquei muito, muito nervoso”, disse Pasang Dorje. “Vi um sherpa vomitar sangue e um tipo enterrado com os olhos todos brancos a pedir água. Puxámo-lo para fora. Nem sei o nome dele. A maioria dos meus amigos estava a chorar.”

Dia fatídico

Às 6h45 da manhã de 18 de Abril, um enorme pedaço de gelo desprendeu-se do glaciar suspenso da vertente ocidental do Evereste e despenhou-se ao longo de trezentos metros até à zona superior da cascata de gelo Khumbu, matando 16 pessoas e ferindo oito. Foi o pior acidente da história de escalada do pico. 

Onde morrem os sherpas: Embora o número total de mortes de sherpas na rota sudeste regular seja praticamente equivalente ao dos outros membros da expedição, nessa rota os sherpas morrem com mais frequência na cascata de gelo, enquanto os montanhistas morrem com mais frequência na “zona da morte”, acima dos oito mil metros de altidude.

“Tentei esconder as lágrimas”

SHERPAS E GUIAS OCIDENTAIS QUE haviam chegado ao acampamento I mais cedo desceram para ajudar, pouco depois das 7 horas da manhã. No acampamento-base, Lakpa Rita partiu para uma caminhada de duas horas até à zona de impacte com o seu irmão Kami Rita, assim como Horst, Ben Jones e Damian Benegas, entre outros guias. No acampamento-base, equipas trouxeram sacos-cama, pás e equipamento de salvamento para o meio das três pistas de aterragens de helicóptero. Joe Kluberton, director do acampamento-base da AAI, juntamente com Caroline Blaikie e Mike Roberts, da Adventure Consultants, começaram a coordenar as comunicações via rádio. As ondas aéreas estavam cheias de conversa, à medida que os sherpas confirmavam o seu paradeiro. O número de mortes ainda era incerto.

“Começámos a receber vários sherpas feridos que desciam”, recorda Lakpa Rita. “Tinham hematomas e sangue na cabeça. Alguns coxeavam por terem sido atingidos por blocos de gelo. Eu sabia que mais ninguém estaria vivo. Teriam morrido em 15 minutos, no máximo.”

Lakpa Rita demorou quase uma hora a percorrer a distância entre o Campo de Futebol e a zona de impacte. O sangue na neve assinalava o local. Encontrou cinquenta sherpas no local, alguns escavando com pás, outros destruindo os detritos com martelos de gelo, outros sentados, atordoados pelo choque e pela dor. Quatro corpos foram colocados sob lona cinzenta. Quando viu as formas amortalhadas, Lakpa Rita sentou-se e chorou.

“Tentei esconder as lágrimas da minha equipa, mas não fui capaz de contê-las”, disse.

Quando olhou para baixo da lona, viu que nenhum dos mortos vestia os casacos fornecidos pela AAI aos seus funcionários e foi ajudar nas escavações. Mais dois corpos foram libertados do gelo e, de seguida, outro: Ang Tshiri, o cozinheiro. “Ang Tshiri era um dos meus homens”, comentou.

No acampamento-base, entre relatos e boatos, comunicações tensas e telefonemas em pânico, nove médicos de várias expedições reuniram-se na tenda da Associação de Salvamento dos Himalaia. Cinco montanhistas com cortes violentos provocados pelo gelo conseguiram escapar da cascata de gelo e dirigiram-se à clínica, onde receberam tratamento.

Três outros teriam de ser evacuados de helicóptero. Na zona de impacte, Damian Benegas começou a contar as baixas e, às 9h09 horas da manhã, comunicou por rádio que havia no mínimo dez mortos. Dois helicópteros pilotados pelo neozelandês Jason Laing e pelo nepalês Siddhartha Gurung aterraram no acampamento-base. Jason foi buscar a montanhista norte-americana Melissa Arnot, paramédica com cinco subidas ao cume do Evereste, que levava equipamento necessário à operação de salvamento às 10h05. Às 10h49, quatro sherpas tinham sido retirados da cascata de gelo de helicóptero com fracturas nas pernas, ferimentos pélvicos, abdominais e na cabeça e hemorragias internas. Entre eles, encontrava-se Kaji Sherpa, transportado para um hospital em Katmandu com um pulmão perfurado e duas costelas partidas. Pouco depois das 11 horas, todos os feridos tinham sido evacuados, e as equipas de salvamento concentraram-se na tarefa de recuperar os cadáveres.

Por doze vezes, entre as 11 da manhã e as 2 da tarde, Jason Laing sobrevoou o portão de gelo do Evereste com o seu helicóptero vermelho, preto e prateado e afastou-se carregando uma forma flácida com botas e crampons pendurada na ponta de um cabo de 30 metros. Os mortos foram depositados nas pistas de aterragem mais baixas do acampamento-base, foram numerados com pedaços de fita adesiva e embrulhados em oleados.

As identidades das vítimas foram confirmadas por colegas de equipa ou por familiares que também trabalhavam na montanha. Desconhecendo o destino de Ang Tshiri, o seu filho Pemba Tenjing desceu a correr do acampamento I para descobrir um par de sapatos dolorosamente familiares.

Temendo que a vertente ocidental do Evereste voltasse a sofrer uma descarga, os membros da equipa de salvamento suspenderam o trabalho às 2h10, altura em que as temperaturas da tarde tornavam a cascata de gelo ainda mais instável. Só no dia seguinte as equipas conseguiriam remover o corpo de Dorje Khatri, ainda parcialmente envolto em gelo e pendurado de pernas para o ar numa fenda acima da escada tripla. Havia três montanhistas desaparecidos, presumivelmente mortos. Os 16 mortos eram todos sherpas ou trabalhadores de outras etnias nepalesas. Morreram enquanto trabalhavam para pagar a educação dos filhos, para construir uma casa nova ou para comprar medicamentos para os pais idosos. Vinte e oito crianças perderam os pais. Onze dos mortos pereceram na plataforma de gelo inclinada onde aguardavam vez para descer pela escada.

“Acho que tentaram fugir e, quando perceberam que não conseguiam, juntaram-se”, disse Lakpa Rita. O horror desse dia ultrapassou todos os acidentes anteriores do Evereste, incluindo as catástrofes de 1922, 1970 e 1974. No entanto, as repercussões só agora começavam a revelar-se.

Uma discussão tensa

DEPOIS DA AVALANCHA, HOUVE uma mistura caótica de pujas, funerais, reuniões, perguntas, boatos, exigências, provocações e epifanias. Iria a temporada de montanhismo continuar? Deveria continuar? Quanto tempo seria suficiente para o luto? Russell Brice, da Himalayan Experience, e Eric Simonson, da International Mountain Guides, deram permissão às suas numerosas equipas de sherpas para irem quatro dias a casa. Nem todos quiseram regressar.

Lakpa Rita soube imediatamente que a temporada acabara para a AAI: ele não podia pedir aos sherpas que contratara para voltarem ao trabalho depois de terem perdido cinco companheiros de equipa. Os sherpas de outras equipas disseram que continuariam, mas começaram a sentir pressões de activistas que viram na tragédia uma oportunidade de insistir na melhoria das condições de trabalho dos guias de montanha. Muitos manifestaram a sua fúria quando o governo nepalês ofereceu cerca de 325 euros de indemnização à família de cada vítima, uma verba que nem sequer cobria os custos de um funeral.

Existe mais capacidade de afirmação entre a geração mais nova de guias e trabalhadores sherpas. Nos dias seguintes, as tensões laborais ganharam visibilidade quando os sherpas, zangados e de luto, desligaram a máquina milionária do Evereste, que rende ao governo nepalês cerca de 2,3 milhões de euros por ano em licenças de escalada, além de impactes económicos secundários estimados em quase doze milhões de dólares.

No dia 20 de Abril, 48 horas depois da avalancha, líderes de expedição, membros de equipas de salvamento e pessoas afectadas pelo acidente encontraram-se na tenda da Comissão Sagarmatha de Controlo de Poluição (SPCC), uma organização local sem fins lucrativos responsável pela supervisão dos “Doutores da Cascata” e pela gestão de lixo no Evereste. Entre os sherpas presentes estavam Pasang Bhote, membro do conselho de administração da Associação de Montanhismo do Nepal, e Pasang Tenzing, de 29 anos e com dez subidas ao cume do Evereste no currículo. Dessa reunião, resultou uma lista de 13 exigências a apresentar aos funcionários governamentais. Entre outras reivindicações, os sherpas procuravam um aumento do valor de cobertura do seguro e uma parcela maior das licenças do Evereste aplicada num fundo destinado a sustentar as famílias de trabalhadores da montanha que no futuro viessem a morrer ou sofressem ferimentos.

Na segunda-feira, 21 de Abril, imagens emocionantes dos funerais dos sherpas em Katmandu foram transmitidas por todo o mundo e, no dia seguinte, um puja gigante, com a participação de 22 lamas, teve lugar no acampamento-base. No final, a lista de exigências foi lida em voz alta, em nepalês e inglês. A tensão aumentou. Algumas pessoas presentes gritaram que não queriam escalar. “Ficou claro para mim que a maioria dos trabalhadores queria apenas ir para casa, em sinal de respeito pelos mortos e pela sua própria segurança”, escreveu Sumit Joshi, fundador da Himalayan Ascent, uma empresa nepalesa.

O acampamento-base fervilhava com boatos sobre um boicote e ameaças de “maoístas” e “militantes” contra qualquer pessoa que discordasse. Entretanto, o Ministério de Cultura, Turismo e Aviação Civil previa que “as actividades de escalada serão certamente retomadas num ou dois dias”.

Só na terça-feira 24 de Abril, seis dias depois da avalancha, os funcionários do governo nepalês apareceram finalmente no acampamento-base. A delegação de 12 membros chegou de helicóptero às 9 da manhã para persuadir os sherpas a voltar ao trabalho. Num relatório, Brice escreveu que lhe fora dito que alguns sherpas tinham arremessado pedras e tentado impedir a partida da delegação nos helicópteros, quando a reunião terminou.

Quando os funcionários nepaleses estavam de saída, o glaciar da vertente ocidental quebrou-se novamente e uma pequena avalancha despenhou-se sobre a cascata de gelo, no local exacto onde os 16 homens morreram. Muitos entenderam o sucedido como um aviso das divindades de que a temporada de montanhismo de 2014 no Evereste chegara ao fim.

“Aquilo que nos distingue”

TORNA-SE DIFÍCIL ANALISAR OS relatos, boatos e opiniões contraditórias sobre o que aconteceu no acampamento-base depois da avalancha. Muitos dos sherpas que não queriam escalar, em sofrimento e com preocupações bem fundamentadas acerca das condições da cascata de gelo, podem ter achado mais fácil dizer que foram desencorajados a fazê-lo por ameaças de “militantes”. Sem aprovar a violência, temos de interrogar-nos: por que não haviam os trabalhadores da montanha de procurar aproveitar a vantagem dolorosamente ganha a favor da sua causa? Poucos comentadores ocidentais viram a chamada greve dos sherpas no contexto mais amplo do Nepal, onde as greves fazem parte do quotidiano e são uma das únicas maneiras de conseguir a atenção da burocracia governamental.

“Há 20 anos, menos de 50% dos trabalhadores do Evereste tinham concluído o ensino secundário”, calculou Sumit Joshi um mês depois da avalancha. “Agora, são 80%. Acompanham os media ocidentais. Sabem como o mundo funciona. Estão mais conscientes dos seus direitos. Sabem que podem dizer abertamente o que pensam. Conhecem o mundo exterior e sabem quanto dinheiro o governo ganha com a venda de licenças. Não deveriam ser catalogados como militantes ou maoístas. São só uma geração mais nova.”

A mudança de geração não está apenas a produzir montanhistas mais conscientes. Está igualmente a mudar a mistura de etnias na montanha. Aquilo que era uma força laboral quase exclusivamente sherpa é agora cada vez mais composta por grupos étnicos como o rai e o tamang, por norma mais pobres e desesperados por trabalho. “Os sherpas continuam a ser a ponta da lança, fazendo a maior parte do trabalho acima dos 7.500 metros, mas os trabalhadores de montanha rai e tamang são agora os mais comuns no transporte de carga até ao acampamento III”, disse John All.

Quando discuti a situação com o presidente do conselho de administração da SPCC, Ang Dorjee Sherpa, ele apressou-se a desmentir os boatos de violência. Ficamos com a ideia de que os sherpas, há tanto tempo estimados pela sua natureza angelical, sentem que não podem manchar a forma como os forasteiros os idealizam – habitantes pacíficos e altruístas de uma montanha idílica, afastados das perturbações da modernidade.

Nas aldeias

 A AVALANCHA QUE SEPULTOU 16 homens não se ficou por Khumbu, propagando-se até às aldeias abaixo do Evereste. Em Katmandu, o gerente da Himalayan Ascent telefonou a Chhechi Sherpa, filha de Ankaji Sherpa, para a avisar que o pai morrera, sem dizer que o capacete se partira ao meio.

Ankaji prometera tomar conta de Pem Tenji Sherpa, de 20 anos, casado com a sobrinha. Aliás, ajudara Pem Tenji a obter trabalho como assistente de cozinha no acampamento II – uma das posições mais seguras porque só exige uma viagem anual de ida e volta pela cascata de gelo. Mas Pem Tenji também morrera e a mulher, Dali, nem sequer tinha um corpo para chorar. O marido continuava sepultado algures sob a cascata de gelo.

Durante as exéquias de seis das vítimas da avalancha, realizadas em Katmandu, não houve símbolo mais doloroso do que as imagens da expressão dilacerada de Chhechi e da mãe de Ankaji, de 76 anos, Nimali, com o rosto desfeito pela angústia de uma mãe que sobreviveu ao filho. Em Khumjung, a viúva Ngima Doma ouviu as notícias no televisor de uma casa de chá e soube que o marido, Lhakpa Tenjing, estava entre os mortos quando chegou a casa e viu os familiares a chorar.

Quanto a Nima Chhiring, o homem cujo ouvido chorou, não sente vontade de regressar ao Evereste no próximo ano, mas não tem alternativa. Com poucos estudos, uma família, sem casa nem dinheiro para pagar escolas, em breve, partiria de Khumjung para tratar de cinco iaques que comprara em 2009. Interrogava-se se as dificuldades alguma vez terminariam. “Preciso de ajuda”, disse.

Há também o caso do pobre Chhewang Sherpa: depois de caminhar quatro dias desde o acampamento-base do Evereste, chegou a casa em Nunthala, tendo na última manhã suportado uma forte tempestade com chuva torrencial, granizo, relâmpagos e trovões. Tirou os sapatos molhados e, por volta do meio-dia de 1 de Maio, 12 dias depois do encontro imediato com a morte que o deixara exultante por estar vivo, foi derrubado por um raio quando se aproximava dos pais. Outro raio caiu nas proximidades e matou-o.

Dorje e Ang Nemi estavam casados há 14 anos. Tinham duas filhas e dois filhos, nascidos nas cabanas onde criavam os iaques. Viviam durante todo o ano a 3.960 metros de altitude. A maioria das outras famílias só lá ia no Verão para apascentar os animais. Não possuíam quase nada: um batatal, um punhado de iaques utilizados para transportar cargas até ao Evereste e a casa de uma só divisão, escura como o interior de uma gruta, que o pai de Dorje construíra. As crianças dormiam em roupa de cama que Ang Nemi desenrolava todas as noites sobre os bancos. Durante cinco anos Dorje trabalhou no Evereste para a Alpine Ascents International, como cozinheiro no acampamento IV. Ele e Ang Nemi estavam a poupar os salários para construírem uma casa mais perto de Thame, para as crianças se deslocarem mais facilmente até à escola. Tinham escolhido um local abaixo do mosteiro na aldeia de Hungmo.

Sem saber onde se encontrava o corpo de Dorje depois de receber a notícia da sua morte no dia 18 de Abril, a viúva correu durante duas horas até Thame para usar um telefone. A AAI levaria o corpo de Dorje até Tarngga, disseram-lhe, por isso voltou para casa e esperou. Mas o corpo não chegou e, na manhã seguinte, fez nova caminhada até Thame para saber a que se devia o atraso. Perto das 9h30 da manhã, viu o helicóptero.

Aterrou num campo de batatas junto de casa. O dono da AAI, Todd Burleson, acompanhado por Lakpa Rita e Pemba Tenjing carregaram Dorje para o interior. Ao verem o pai iluminado pela lamparina de manteiga, embrulhado num oleado, ainda com as roupas e botas da montanha, as crianças começaram a chorar. Da Jangbu, de 6 anos, não percebia o que se passava, mas a irmã mais velha, Mingma Doma, de 12 anos, já percebia.

“O que aconteceu ao pai?”, perguntou. Lakpa Rita comentou depois que não sabia o que dizer.

As quatro crianças choraram e agarraram-se aos carregadores. Os homens também choravam, mas tinham outras famílias enlutadas para consolar. Quinze minutos depois, o helicóptero levou-os.

Novos raios de luz emergiram do dia mais escuro do Evereste. O Fundo de Educação Sherpa garantiu que os filhos de Dorje e Ang Nemi vão frequentar a Escola Primária Himalaia Shree em Namche Bazar. O fundo também pagou a mudança da sua cabana nas margens do mundo habitável para um albergue espaçoso com outras crianças da sua idade e a um pulo da escola. De repente, um mês depois da avalancha, tinham novos amigos, refeições variadas, parkas azuis, uniformes escolares, escovas de dentes, camas verdadeiras e possibilidades que mal poderiam ter imaginado. O “custo” foi terem perdido o pai. 

Orgulho e sacrifício

Alguns empunham piolets no cume. Outros seguram bandeiras, fotografias da família ou cartões com orações oferecidos como protecção. Instantâneos como estes, captados por montanhistas, revestem as paredes de casas de chá e lares na região do Evereste. Embora a indústria do montanhismo tenha efeitos devastadores nas famílias sherpas, também lhes deu rendimentos e oportunidades. Outrora pobre e isoladas, as aldeias de agricultores e comerciantes transformaram-se em comunidades prósperas e com bons níveis de formação.

EM CIMA (da direita para a esquerda): Pasang Lhamu Sherpa, Sonam Tashi Sherpa, Da Nuru Sherpa, Pemba G. Sherpa. NO CENTRO: Phutashi Sherpa, Panuru Sherpa, Pemba Nuru, Tenzing Gyalzen Sherpa. EM BAIXO: Pemba Sherpa (à esquerda) e Pensa G. Sherpa, Tenzing Gyalzen Sherpa, Nuru Geljen Sherpa, Tensing Dorjee Sherpa.

Imagens por cortesia dos escaladores sherpas; fotografadas por Aaron Huey

 

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