corais das Filipinas

Um coral mole cor-de-rosa e um coral de cálice cor de marfim estão rodeados por anthias ao largo da ilha do Pescador, perto de Cebu. Os recifes mais saudáveis das Filipinas têm tanta vida como qualquer outro que os fotógrafos David Doubilet e Jennifer Hayes já avistaram nas suas explorações pelos oceanos do mundo.

Alguns dos recifes de corais mais fabulosos do mundo são protegidos nas Filipinas, mas outros estão a ser danificados pelas alterações climáticas e pela pesca destrutiva.

Texto: Kennedy Warne
Fotografias: David Doubilet e Jennifer Hayes

Atravesso um deserto, mas não é feito de areia. Estou a nadar numa zona de detritos – nos restos pulverizados de um recife de coral e a sua esterilidade assusta-me.

Noutros pontos das Filipinas, maravilhei-me com autênticas jóias de coral esplendoroso. Esta região do Índico-Pacífico, conhecida como o Triângulo de Coral, contém o maior tesouro de diversidade marinha do planeta.

Existem aqui mais de quinhentas espécies de coral – três quartos de todas as que conhecemos. Os recifes construídos pelos corais dariam para cobrir uma área semelhante à da Irlanda. As Filipinas, o vértice do Triângulo de Coral, tem quase 1.800 espécies de peixes de recife.

No entanto, neste cemitério de coral que exploro vivem apenas refugiados. Vi um limpador (Labroides dimidiatus) e senti uma pontada de dor. O seu papel no ecossistema de coral é limpar outros peixes, debicando parasitas e outras criaturas. Mas este limpador não tem ninguém para limpar. Os corais em redor estão tombados como árvores depois de um furacão. Entre os cotos mortos pego no fundo de uma garrafa de vidro. Já vi garrafas como esta cheias de adubo de nitrato, encimadas por um detonador e um fusível. Acende-se o fusível e atira-se a garrafa ao mar. A explosão atordoa os peixes, matando-os. Os corpos chegam à superfície, onde os pescadores os recolhem.

Se uma garrafa explodir demasiado cedo, eles podem perder uma mão, um braço ou a vida. Um pescador morreu desta maneira dois dias antes de eu chegar a Danajon Bank, 30 quilómetros a leste da ilha de Cebu, uma região das Filipinas com larga história de práticas de pesca destrutivas: explosivos, cianeto para expulsar os peixes das reentrâncias dos corais, redes tão finas que captam tudo o que se mexe.

Todos estes métodos são ilegais, mas todos são ainda utilizados. Representam uma catrástrofe cumulativa para os recifes de coral, uma forma mais instantânea de eliminar a vida marinha do que as tragédias de lume brando resultantes do declínio dos bancos de pesca, da poluição e das alterações climáticas.

Ao fundo, avisto uma figura a apanhar algo entre as ruínas dinamitadas e nado até ele. “Alforrecas?”, pergunto, apontando para o carapuço que lhe cobre a cabeça. O piloto do meu barco falou-me no seu encontro com uma medusa nestas águas. Teve apenas tempo de gritar por ajuda antes de desmaiar devido à dor causada pelos tentáculos ardentes. Ele mostrou-me os vergões do braço e da barriga, ainda vívidos passados 15 anos. “Sol”, responde o mergulhador.

mapa corais Filipinas

Para conseguir alimento suficiente para a sua família, precisa frequentemente de passar meio dia sob o calor escaldante, vasculhando os recifes. Arrasta atrás de si uma caixa de poliestireno para guardar aquilo que apanha: búzios, abalones, ouriços do mar, caranguejos e peixe, se tiver sorte. Tem um gancho numa das mãos e uma lança na outra. Sonda, espeta, levanta e corta o coral. Vejo um esguicho repentino de tinta preta quando ele fura um choco.

Pega num pepino-do-mar e entrega-me a criatura verrugosa. Uma borla de fios brancos adorna a sua secção traseira. Mais depressa do que consigo aperceber-me, os fios disparam e enrolam-se em volta da minha mão, colando-se à minha pele como supercola – é a reacção do animal à perturbação. Desemaranho a criatura e ela regressa à caixa.

O labor árduo destes caçadores em busca de alimento é semelhante em todas as Filipinas e no Triângulo de Coral, com um número crescente de pessoas a caçar quantidades cada vez menores de peixe. O mar é essencial para a sobrevivência de milhões de filipinos. Na região de Danajon, três quartos dos agregados familiares dependem da pesca como fonte de alimento e de subsistência.

Assistiram à diminuição do número de peixes capturados para um décimo, numa só geração.

Um quarto dos peixes capturados em Danajon provém de práticas ilegais e destrutivas. Os pescadores de subsistência, que vivem no limiar da pobreza, ou mesmo abaixo dele, são levados a recorrer a estes métodos pelo desespero. Os filipinos usam a frase kapit sa patalim, ou “segurar a lâmina”. Um indivíduo desesperado pode até agarrar com força a parte afiada de uma faca – infringir a lei, arriscando-se a ser preso, destruindo os recifes que são a sua tábua de salvação.

Corais

No limiar possível. Os recifes de coral em redor das Filipinas acolhem grande variedade de espécies. Os filipinos protegeram parte deste ponto quente de biodiversidade, que integra uma região conhecida como Triângulo de Coral, mas ainda enfrentam os desafios do aquecimento dos oceanos e de uma população que depende do mar como fonte de alimento e de subsistência. Clique na imagem para ver detalhes. Ilustração: Rosemary Wardley e Patricia Healy. Fontes: Carta de Batimetrias Gerais dos Oceanos; UICN; Mpatlas.Org/Instituto de Conservação Marítima; Grupo de Vigilância de Corais da NOAA; Atlas do Triângulo de Coral; Aaron N. Rice, Cornell; TNC; UNEP-WCMC; Worldfish; WRI

Em certos meses do ano, os caçadores dos recifes só conseguem recolher escassos cerca de 250 gramas de peixe por hora nos recifes empobrecidos. Vejo este homem inspirar mais uma vez, dar às barbatanas e descer.

Vou varrendo tudo com os olhos na esperança de aprender como os recifes podem ser preservados numa altura de crescente exploração, mas também de alterações causadas ao oceano pelo ser humano. O aquecimento, a acidificação, a subida do nível das águas dos mares são as sombras mais escuras que se abatem sobre os recifes de coral do mundo.

Ao largo da costa de Palawan, a ilha semelhante a um dedo no lado ocidental das Filipinas, tive uma antevisão do que está para vir. Mergulhei num mundo sepulcral de corais lixiviados. As temperaturas do mar excederam o limite acima do qual os pólipos de coral se separam das algas simbióticas que lhes conferem as cores caleidoscópicas. Os corais estavam brancos como gelo. Fluxos viscosos emanavam das suas cabeças moribundas. Até os peixes pareciam espantados perante aquela paisagem monocromática. Alguns cientistas especialistas em coral dizem que os eventos de lixiviação em massa, que costumavam acontecer uma vez a cada duas décadas, poderão em breve ocorrer todos os anos, à medida que a concentração de dióxido de carbono atmosférico aumenta. A acidificação matará aquilo que a subida das temperaturas do mar não liquidar. Os recifes atingirão um ponto crítico em que a estrutura coralina carbonatada começará a dissolver-se mais depressa do que consegue formar-se. Quando isso acontecer, começarão a desintegrar-se. O ecossistema mais diversificado do oceano (que faz parte do nosso planeta há 240 milhões de anos) vai começar a desaparecer.

Poderá esta história distópica ter um final diferente? Ou, pelo menos, ser retardada? Os seres humanos estão a participar na maior aposta de todos os tempos e o que está em jogo não poderia ser mais importante.

Há duas formas de reagir ao empobrecimento de um recurso: moderar o consumo ou atacar com mais força. A paisagem lunar repleta de crateras que vi em Danajon Bank é o resultado da sobrepesca destrutiva dos ecossistemas de recife. Mas em Dauin, um município da ilha de Negros, vi um legado diferente: um legado de protecção do recife que aliviou a pressão exercida sobre a vida marinha e assegura a subsistência das comunidades costeiras.

A abordagem pioneira foi desenvolvida por Angel Alcala, um biólogo filipino que tem sido o paladino da criação de pequenas áreas marinhas protegidas geridas pela comunidade. O motivo principal para criar estes santuários costuma ser a preservação da biodiversidade. No entanto, para Angel, o mais importante é valorizar os bancos de pesca. “Os filipinos são consumidores de peixe”, diz-me quando me encontro com ele no centro de investigação pelo qual é responsável na Universidade de Silliman, a norte de Dauin. “Para se manterem assim, precisam de reservas marinhas.”

Angel Alcala começou a fazer experiências no início da década de 1970 com dois protótipos de reserva: um junto de uma ilha desabitada (Apo, ao largo da costa de Dauin) e outro junto de uma ilha que não o era (Sumilon, perto de Cebu). Todas as formas de recolecção foram proibidas.

Os resultados obtidos foram espectaculares. Em dez anos, a biomassa piscícola de algumas espécies dos santuários aumentou pelo menos seis vezes. À medida que a densidade dos peixes dentro das reservas aumentava, os pescadores colhiam os benefícios através do fenómeno do extravasamento: os peixes “extravasavam” para fora das fronteiras da reserva e portanto para águas onde é legal pescá-los. A ideia de que os santuários de captura interdita podem reabastecer os bancos de pesca em recifes explorados oferecia uma réstia brilhante de esperança num cenário sombrio para os pescadores costeiros.

O sucesso da ilha de Apo chamou a atenção de Rodrigo Alanano, que foi eleito presidente da câmara de Dauin em 2001. O autarca decidiu aumentar as áreas marinhas protegidas ao longo da orla costeira de Dauin. Ele podia fazê-lo porque os municípios têm jurisdição sobre as suas águas costeiras numa extensão até 15 quilómetros.

Pergunto-lhe como convenceu as comunidades que praticam pesca de subsistência a prescindirem de uma porção dos seus territórios de pesca tradicionais. “Disse-lhes que precisávamos de zonas para reprodução além de zonas de pesca”, respondeu. “Disse-lhes que se tiverem um santuário, as populações vão crescer e alguns peixes vão sair do santuário e esses serão para eles. A reserva será uma zona de reprodução para os peixes, hoje e sempre, para eles e para o futuro. Mais tarde, disse-lhes que a região se tornaria um destino de mergulho e que isso traria rendimentos.”

Apesar de tudo, não foi fácil levar os pescadores a aceitarem uma perda imediata em prol de um ganho incerto e muitos habitantes da costa opuseram-se aos santuários. Rodrigo Alanano foi intimado judicialmente e recebeu ameaças de morte. Ele encolhe os ombros ao lembrar-se disso. “Quando me tornei presidente da câmara, entreguei a minha vida a esta profissão”, diz.

“O que o torna tão dedicado?”, pergunto. “A sua família nem sequer é de pescadores.”

“Sou engenheiro de minas”, responde. “Trabalhei para empresas mineiras durante 12 anos antes de entrar na política. Nós destruíamos montanhas. Usávamos químicos tóxicos que escorriam até ao mar. Sou um destruidor do ambiente com bastante experiência. Tenho licença para destruir. Fui-me apercebendo de que, quando destruímos o ambiente, nenhum ser humano consegue corrigi-lo. Não conseguimos repô-lo para os nossos filhos. E quando matarmos o último peixe, vamos aperceber-nos de que não podemos comer dinheiro.”

Os seus argumentos prevaleceram. Durante os nove anos em que exerceu funções como presidente de câmara, Rodrigo Alanano conseguiu aumentar o número de áreas marinhas protegidas ao longo da orla costeira de Dauin: de 4 para 10. Mergulhei em algumas delas. Embora pequenas, protegem criaturas maravilhosas. Num local, vi inúmeras enguias-de-jardim emergirem dos seus buracos no leito marinho e abanarem-se como se estivessem a ouvir música tocada por um encantador de serpentes.

Como Rodrigo Alanano previa, estas visões são uma atracção para os turistas e Dauin tornou-se um destino de mergulho popular à semelhança de dezenas de outros locais nas 7.641 ilhas das Filipinas. A maioria das áreas marinhas protegidas de Dauin receberam o nome da espécie de peixe que é a sua estrela: existe a Nemo/Peixe-Palhaço, a Mandarim, a Peixe-Sapo, MPA a Tubo Fantasma e a Cavalo-Marinho.

Os pescadores viram as suas oportunidades a mudar, passando a prestar serviços à medida que o turismo crescia. Em Oslob, uma aldeia na costa de Cebu, alguns membros da associação de pescadores já não pescam. Ganham melhor ajudando os turistas a nadar com tubarões-baleia. Nos arredores de Puerto Galera, na ilha de Mindoro, vi mergulhadores rebocados por pescadores para irem ver amêijoas-gigantes.

Em Dauin, vários pescadores obtiveram certificação profissional como instrutores de mergulho para poderem chefiar expedições de mergulho. Amado A. Alar II dirige a Bongo Bongo Divers. Conta-me que alguns pescadores se recusaram a aceitar a perda dos seus locais de pesca, aquando da criação das áreas marinhas protegidas de Dauin. Cortaram as cordas das bóias que delimitavam os limites do santuário, infiltraram-se nas áreas protegidas para pescar de noite e chegaram a lutar contra os bantay dagat, os vigilantes do mar contratados pelo município.

Contudo, quando verificaram o aumento global das capturas, mudaram de atitude. “Devagarinho, as pessoas percebem a causa”, diz. “Agora protegem o santuário se virem alguém a pescar lá. Perceberam que temos aqui um berçário.”

Este efeito de berçário é actualmente considerado um dos principais benefícios das redes de áreas marinhas protegidas. As larvas dos peixes dispersam-se, saindo dos recifes e passando aos recifes não protegidos, reabastecendo-os.

Rene Abesamis, um dos colegas de Angel Alcala em Silliman, estudou o processo em Dauin. Escolheu o peixe-borboleta-vagabundo para a sua investigação e descobriu que as suas larvas podem nadar até 37 quilómetros à deriva, antes de se instalarem num novo habitat de recife.

O conhecimento de que os peixes do recife local podem ter vindo dos santuários vizinhos exerce um efeito poderoso sobre as pessoas. “Diz-lhes que fazem parte da mesma rede ecológica, mesmo que pertençam a municípios diferentes”, diz Rene. “Confirma que os esforços estão interligados.”

O reabastecimento mútuo é a lógica subjacente aos esforços para transformar as áreas marinhas protegidas numa rede nacional. Segundo a lei filipina, 15% das águas costeiras municipais devem ser protegidas por reservas de captura interdita. De momento existem mais de 1.600 em todo o país. Infelizmente, a maioria é pequena e não é bem gerida – são “parques no papel”.

Apenas 3% dos recifes de coral do país são protegidos, acrescenta Angel Alcala. “Precisamos de 20 a 30%. Trata-se de capacitar as comunidades locais, delegando poderes.” E dar-lhes os recursos para protegerem o investimento que fizeram. Até os santuários que são devidamente cuidados pelas suas comunidades estão sujeitos a pesca ilegal. A pandemia de COVID-19, que devastou o turismo, também tornou precárias as protecções marinhas. Até os habitantes locais, segurando a lâmina do desespero, entraram em áreas protegidas para alimentarem as suas famílias.

A pesca ilegal por forasteiros representa uma ameaça maior e é um problema crescente. Munidos de lanchas rápidas e equipamento de mergulho, os pescadores furtivos profissionais conseguem limpar um santuário numa noite, explica Darrell Pasco, que trabalha em gestão de recursos costeiros na ilha de Siquijor, a 20 quilómetros de Dauin. Uma das áreas marinhas protegidas de Siquijor foi saqueada quatro vezes num único ano. Os intrusos vêm de noite, durante as fiestas, ou em dias de mau tempo. Têm armas. Como podem os bantay dagat de Siquijor, que ganham uma miséria, fazer-lhes frente?

Siquijor, como qualquer outro sítio, precisa de santuários marinhos para reforçar os bancos de pesca da ilha. À medida que foram escasseando os peixes de maior valor, como garoupas e pargos, as espécies anteriormente desprezadas passaram a ser consumidas. As donzelas nunca eram comidas, mas agora são vendidas a preços altos no mercado, juntamente com iguarias como anémonas-do-mar cozinhadas em leite de coco, búzios, pepinos-do-mar, ouriços-do-mar e algas que parecem molhos de pérolas verdes.

Pude comprovar as dificuldades enfrentadas pelos pescadores de Siquijor ao mergulhar certa manhã para ver um grupo de homens puxar uma armadilha de peixes, ou bubu, que se encontrava no leito marinho, cerca de 75 metros abaixo de nós. Foi subindo lentamente: um cesto tecido com 4,5 metros, com espaço suficiente para eu dar piruetas lá dentro. O padrão tecido com bambu era intrincado, obra de mãos habilidosas. Enquanto sete homens abriam o bubu a bordo da sua banca (a canoa dupla tradicional das Filipinas), espreitei para o interior, procurando a safra que lá deveria estar, pois a armadilha com iscos permanecera uma semana no fundo do mar. Um pescador retirou um único peixe-porco – um rendimento irrisório para uma semana.

O outro bubu que vi puxarem não trazia sequer um peixe. “Mingaw”, disse um pescador, quando a armadilha chegou à superfície. Vazia. Estremeci quando pequenas alforrecas e os tentáculos partidos de anémonas-do-mar caíram da armadilha e me picaram a pele. E estremeci pelas expectativas goradas dos homens e das suas famílias. Os pescadores que usam bubus podem ganhar menos de um euro semanal por armadilha. Os seus agregados familiares vivem tipicamente no limiar de pobreza, ou abaixo deste, a exemplo de 60% da população costeira do país.

À semelhança do presidente da câmara de Dauin, Darell Pasco já recebeu ameaças, devido aos esforços que desenvolve para alargar a rede de áreas marinhas protegidas e dissuadir a pesca ilegal. Para vigiar a sua propriedade, tem um cão de guarda. “Receio pela minha segurança e pela segurança da minha família, mas continuo a fazer o meu trabalho”, diz.

Não há outra opção, acrescenta. “Temos de ensinar a cada filipino, honestamente e com profundidade, que nos cabe a nós tomar conta do oceano porque dele obtemos quase tudo aquilo de que precisamos. Se não o fizermos, chegará uma altura em que não haverá mais peixe para pescar e só veremos peixes nos livros e na Internet.”

O turismo ajuda a aliviar a pressão sobre as reservas de peixe em declínio, mas nem todos os locais podem ser bons para mergulhar. Outra forma de aliviar a procura que incide nos ecossistemas de recife passa pela requalificação dos pescadores em formas de subsistência alternativa, como a agricultura marinha. Num atol isolado do mar de Sulu, encontrei famílias que viviam sobre plataformas de bambu em lagoas de recife, secando algas. Estas algas produzem carragenina, um polissacarídeo usado em medicamentos, pasta de dentes, cápsulas de comprimidos e produtos de cosmética, entre outros. Milhares de famílias filipinas tornaram-se criadores de algas.

Nas ilhas do arquipélago de Calamian, na extremidade setentrional de Palawan, as pessoas estão a aprender a cultivar pepinos-do-mar. Ajudei a libertar dezenas de juvenis do tamanho do meu dedo mindinho de gaiolas de rede para eles poderem andar livremente pelos baixios quentes do estuário. Em dois meses, terão o tamanho de salsichas gordas. Depois de secos, serão vendidos por mais de 56 euros por quilograma, dez vezes o preço da garoupa.

Há provas abundantes de que os recifes conseguem regenerar-se quando deixa de haver pressão humana. O local de mergulho mais proeminente das Filipinas é o recife de Tubbataha, um parque nacional classificado pela UNESCO como Património Mundial. Vi nuvens de peixes semelhantes a confetis, flutuando sobre ramos de coral esguios, enquanto tubarões de recife cinzentos dormiam na areia do coral. Um polvo desenrolou os tentáculos e, mudando instantaneamente de cor de castanho-claro para cinzento-escuro, desapareceu. Excepcionais na actualidade, estes recifes foram praticamente destruídos pela pesca com explosivos na década de 1960. A aplicação rigorosa de regras contra a captura teve um efeito redentor.

Conseguirão sobreviver à lixiviação e a outras pressões exercidas pelo clima? A maioria dos investigadores teme que tal não seja possível. Estima-se que, até 2050, mais de 90% dos recifes do Triângulo de Coral estejam criticamente ameaçados em consequência das alterações climáticas. À medida que os recifes sucumbirem, a insegurança alimentar na região tornar-se-á calamitosa. Como sobreviverão os habitantes da costa?

As Filipinas já reconhecem que tem de ser feita uma escolha: aproveitar os ventos de mudança ou segurar a lâmina da crise. Nas últimas quatro décadas, as comunidades fizeram escolhas difíceis e deixaram de pescar por todo o lado para conseguirem peixe em alguns lugares. Perceberam que os turistas pagam para ver recifes prósperos. Tornaram-se guardiões e administradores dedicados de um reino oceânico incomparável.

No entanto, estas mudanças não bastam para preservar os recifes dos quais milhões de pessoas dependem. O aquecimento do oceano é um dado garantido. A acidificação do oceano é também um dado garantido. As condições climáticas extremas prosseguirão. De que servem os esforços locais perante forças planetárias intratáveis?

Pergunto ao biólogo especialista em recifes de coral Wilfredo Licuanan, professor na Universidade de La Salle, em Manila, se existem razões para se sentir optimista. “Temos de atrasar o inevitável durante tempo suficiente para obter algum vislumbre de esperança, alguma solução que possa aparecer e que ainda não esteja à vista hoje”, diz. “Quero, pelo menos, poder olhar os meus alunos nos olhos e dizer que estou a tentar. Sinto-me pessimista, mas estou a tentar. Se falhar, não desisto. Volto a tentar.”

Sim, voltamos a tentar. É assim que mantemos a esperança num mundo ameaçado.

fotografos corais

A National Geographic Society, empenhada em dar a conhecer e proteger as maravilhas do nosso mundo, financia as reportagens do explorador David Doubilet desde 2012. Doubilet e Jennifer Hayes documentam a beleza e a devastação dos nossos oceanos. Ilustrações de Joe Mckendry

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