gana

Pescadores preparam as embarcações num porto de Jamestown, bairro da capital do país, Acra. Muitos pescadores locais operam aqui, mas esta tripulação vive num porto a cerca de 100 quilómetros de distância. Vêm a Jamestown para vender peixe e passam ali a noite.

Nos mares bravios ao largo da África ocidental, a pesca não é apenas para os valentes. É uma tradição que molda as comunidades costeiras e o seu respeito pela natureza.

Ensaio: Nii Ayikwei Parkes
Fotografias: Denis Dailleux

Ao longo desta nossa costa, nada é estranho.

Se acordar suficientemente cedo para ver as canoas chegar (em Port Bouet, na Costa do Marfim; em Ngleshi, no Gana; em Old Jeswang, na Gâmbia; em Grand-Popo, no Benin; em Apam, no Gana), ouvirá pescadores a falar fante, ga ou ewe – alguns dos idiomas do Gana.

Enquanto os homens se separam em dois grupos distintos que puxam as redes, sob o sol emergente, os seus cânticos tornam-se mais audíveis: “Ee ba ei, ee ba ke loo – Vem aí, está carregada de peixe.” As redes vêm pesadas com aquilo que as profundezas têm para oferecer. Os peixes contorcem-se, reviram-se e saltam na areia, reflectindo a luz do Sol enquanto mãos velozes os separam, depositando-os em grandes bacias de metal.

O peixe nunca é o mesmo. Há variedades comerciais facilmente reconhecíveis: o pargo, a garoupa, o atum, a cavala, o kpanla (uma variedade de pescada). Invariavelmente, porém, há outras mais cobiçadas: lagostins, enguias, raias e espécies com formas e tamanhos peculiares, com e sem espinhas.

Algumas das variedades de pescado têm características que excitariam escritores de obras de fantasia e de terror, da mesma maneira que as criaturas Phronima, do alto mar, inspiraram aparentemente o filme “Alien – O Oitavo Passageiro”. Contudo, não haverá gritos aqui. Só especiarias para tornar deliciosas as refeições confeccionadas com estas iguarias.

Os ga, o povo ao qual pertenço, não temem o desconhecido. O ditado “Ablekuma aba kuma wo” [Que os estranhos se sintam em casa connosco] é uma das filosofias fundacionais da nossa cultura. É por essa razão que o meu apelido europeu, Parkes, importado de um avô da Serra Leoa com antepassados jamaicanos, é considerado um nome ga. É uma atitude ecoada entre a maior parte das comunidades costeiras da África Ocidental. Estão sempre a viajar e são hospitaleiras para os viajantes: tal como as ondas que lhes banham os pés, vão e vêm.

Nas famílias de pescadores, porém, os ganeses são únicos. Em 1963, a revista “West Africa” chamou aos ganeses “Pescadores pan-africanos” devido ao número de países onde os pescadores fante, ewe e ga fazem uso dos seus conhecimentos.

Burilados por alguns dos mares mais agitados da costa, os pescadores de expressão fante das regiões ocidental e central do Gana não só se tornaram os nadadores em mar mais fortes do mundo, como se especializaram no uso de canoas. Viajantes europeus dos séculos XVI e XVII, incluindo Jean Barbot e Pieter van den Broecke, ficaram aliás espantados com a habilidade dos africanos ocidentais para nadar.

Entre os ga, os pescadores mais venerados, os woleiatse, são frequentemente da akutso (rede de famílias) Abese-Fante, um grupo de fante naturalizados como povo ga.

Esta fácil mudança de identidade de fante para ga tem raízes em valores partilhados, associados a uma demanda para preservar os seus modos de subsistência. Nenhum dos grupos pesca no mar à terça-feira ou em águas doces à quinta-feira. É tabu e essa pausa semanal permite aos espíritos aquáticos repor o peixe, num acto que fomenta a conservação, enraizado na cultura e na tradição.

Há aspectos mais palpáveis nesse sentido de conservação entre as competências adquiridas pelas comunidades piscatórias ganesas. Um grande número de pescadores trabalha na agricultura a tempo parcial, regressando à terra quando as populações de peixe são menos abundantes.

Os restantes imitam os padrões migratórios das espécies primárias consumidas nos locais onde vivem ou deslocam-se para zonas onde podem encontrar alternativas. O ubarana, por exemplo, capturado no Senegal e na Gâmbia, pode substituir o peixe-rato, uma iguaria no Centro do Gana. Foi também o fluxo de peixes disponíveis que promoveu a arte da conservação de peixe ao longo da orla costeira, através da salmoura e do fumeiro. Boas reservas de peixe fumado garantem a disponibilidade de proteína essencial nas dietas costeiras, independentemente da estação do ano.

A fatalidade de ocasionalmente se perder um homem no mar e a imprevisibilidade da captura significa que as famílias de pescadores acabam por ver os seus sonhos presos aos desígnios do destino. Os pescadores entregam a dádiva prateada às mulheres das aldeias. As mulheres vendem-na e fazem magia com as receitas: negoceiam, praticam agricultura e educam as crianças que correm ao longo da costa, inventando jogos enquanto os homens estão longe, navegando ao sabor das ondas. Mesmo quando os homens não regressam, deixam algo para trás.

O meu primo que partilhava o meu nome, Ayikwei, foi um dos que não regressou. Em 1992, quando eu fazia a minha primeira viagem para viver fora da capital, Acra, até Tolon, a quase 650 quilómetros de distância, no Norte do Gana, disse-me algo que guardo sempre comigo: “Não tens razões para estar nervoso. Somos ga. Com a água nas nossas costas, não temos nada a temer.”

Agora, quando viajo, vá para onde for, no meio do desconhecido, fecho os olhos e ouço a água.

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