aldeias históricas 

565 quilómetros de BTT em 7 dias é um feito, mas quando o propósito é visitar as Aldeias Históricas de Portugal a recompensa ultrapassa o cansaço.

Texto: Paulo Rolão

Numa rota circular, não há propriamente um ponto de partida e um final. É essa a sua beleza: permite ao ciclista escolher o troço mais cómodo e iniciar a viagem.

A GR-22 é uma das mais ousadas experiências de turismo activo: num trajecto de 565 quilómetros, propõe-se ligar 12 aldeias históricas (na realidade, nem todas têm a designação administrativa de “aldeia”) como se estas fossem o sangue bombeado pelo organismo no Interior Centro do país.

Comece talvez em Marialva, o ponto mais a norte deste território.

O castelo está umbilicalmente ligado ao destino dos Távoras, mas é provável que já na Antiguidade aqui existisse um posto defensivo, pois o castelo corta uma antiga estrada romana.
Siga para Trancoso, num percurso agradável de 29 quilómetros. Há mitos para todos os gostos sobre a origem do nome e um deles até evoca a história de um velho dignitário do Norte de África. O passeio exigirá do ciclista algum esforço, por incluir desníveis superiores a 700 metros acumulados.
Em contrapartida, a paisagem agreste do granito no distrito da Guarda compensa o esforço.

Linhares da Beira, já no concelho de Celorico, é uma aldeia tão antiga como Portugal e Dom Afonso Henriques passou por aqui. Veio então a cavalo e não de bicicleta, mas talvez tenha ficado tão boquiaberto como o viajante do século XXI que entra neste casulo de pedra e sente-se transportado para o passado.

De Linhares, pode apontar a Piódão. São oitenta quilómetros de distância, compensados pela perspectiva dramática da aldeia, emergindo da floresta como um parque encantado dos contos dos irmãos Grimm. O granito já deu então lugar ao xisto e as casas locais reflectem-no com magia.

Há um novo desafio pela frente: 87 quilómetros separam Piódão de Castelo Novo, território da Gardunha, com um castelo que dá ares de um anfiteatro natural de rocha esbranquiçada.

Apontando à fronteira, segue-se Idanha-a-Velha, território de romanos, visigodos e árabes que foi perdendo importância com os séculos, mas cujas ruínas testemunham o milénio de relevância histórica nesta zona de fronteira. Os 19km que separam Idanha-a-Velha de Monsanto poderão parecer escassos, mas o último troço do percurso, já no inselberg da aldeia onde o escritor Fernando Namora exerceu medicina, testará as suas convicções.

A 79 quilómetros de distância, Sortelha é um pergaminho de pedra, uma página brilhante do livro da história de Portugal. O castelo deixá-lo-á boquiaberto, quando o avistar na última curva de estrada.

aldeias históricas mapa

Belmonte, a 18km, é a etapa seguinte. Território de refúgio de judeus e terra-natal de Pedro Álvares Cabral, dispõe de um Centro de Interpretação dos Descobrimentos que justifica uma escala.

Na zona de fronteira, Castelo Mendo, Almeida e Castelo Rodrigo são as últimas etapas de um roteiro de dez dias que passa por serras e vales, planícies e zonas ribeirinhas, parques naturais, geoparques, praias fluviais e diferentes zonas de lazer. E, claro, a GR22 é também uma rota de sabores ou não fosse esta uma região de grande criatividade gastronómica, onde enchidos antigos, queijos, compotas e pratos de carne se perpetuam entre gerações como um tesouro partilhado.

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