Parque da Lavandeira

Fotografia de João Nunes da Silva.

Por aqui andou o escritor Almeida Garrett e neste parque resiste um dos melhores exemplares da arquitectura do ferro do Norte de Portugal. 

Texto: Eugénio Queirós

Recuemos a meados do século XIX. Em 1841, foi restabelecida uma travessia entre o Porto e Gaia, através de uma ponte pênsil de que resta um pilar. Pouco anos antes, no início de 1809, a segunda invasão francesa colocou as agora duas cidades a ferro e fogo durante três curtos mas terríveis meses. Entre diversos episódios perturbadores, com relevância para o desastre da Ponte das Barcas (no qual terão morrido quatro mil pessoas), a Quinta da Condessa, na margem esquerda do rio, foi um dos locais vandalizados pelas tropas napoleónicas.

Hoje, ali está o Parque Municipal Lavandeira. Eduardo Vítor Rodrigues, o presidente da Câmara de Gaia, convidou os gaienses a visitarem um “mundo de avatares” pouco antes da ampliação do parque urbano, em 2021. O autarca usou a expressão porque também ele se deixou impressionar pela imponência de algumas árvores que sobrevivem numa quinta que já foi modelo para o ensaio de culturas e alfaias, sobretudo quando o conde Silva Monteiro ali cultivou cereais e pomares e construiu lagos e regatos entre bosques sombrios.

Nessa altura, mandou também construir uma singular estufa neogótica, fabricada no final do século XIX na Fundição do Ouro, no Porto. Com 24 metros de frente, feita de peças de ferro forjado e fundido e com um peso de 38 toneladas, a estufa será recuperada pela autarquia gaiense mas já é a jóia da coroa deste parque urbano de seu nome Lavandeira por se encontrar no Lugar das Lavandeiras, onde as mulheres aproveitavam os regatos de águas correntes para lavar a roupa.

Parque da Lavandeira

A estufa à espera de restauro (em baixo) é um local idílico numa das zonas mais movimentadas do país. Fotografia de João Nunes da Silva.

Inaugurado em Agosto de 2005 e com a aquisição recente do terreno que faltava da antiga quinta, o Parque passou a ter 110 mil metros quadrados, onde se inclui a casa senhorial de três pisos e dez quartos que será a futura Casa da Cultura de Gaia. A autarquia reservou ainda uma parcela do terreno para a construção de um parque aquático, com duas pistas de 50 metros para a prática de natação.

Se aqui voltasse, Almeida Garrett certamente não reconheceria a zona de Gaia que fez sua, ali bem perto, na Quinta do Sardão, onde sobrevivem os arcos de um velho aqueduto. Mas certamente o escritor seria capaz de reconhecer as begónias seculares, as cicas e as palmeiras, bem como os muros e socalcos, as pontes, o lago e a zona de miradouro desta antiga quinta – de onde outrora se avistaria o Douro.

É neste parque, próximo da Estrada Nacional 222 que liga Gaia a Almendra, correndo o vale do Douro, que se encontra um dos pulmões de Vila Nova de Gaia. Garrett terá eventualmente usado como inspiração a fragância das magnólias e das tulipeiras nos seus passeios por esta antiga quinta que hoje confronta com uma escola com o nome do poeta Manuel António Pina. Nada acontece por acaso, certo?

Parque da Lavandeira

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