La boca

Fotografia de Shutterstock.

São as suas casas coloridas em chapa e madeira que lhe dão personalidade. Por trás delas, escondem-se histórias maravilhosas que vão para além daquilo que todos conhecem e que o transformaram num dos bairros mais famosos da capital.

Texto: Clara Huguet Millat

Não é exagero dizer que a capital argentina não tem fim. As suas ruas e avenidas atravessam toda a cidade, quilómetro após quilómetro, deixando maravilhas a cada esquina. Uma delas é o bairro de La Boca, que embora não seja o mais sossegado de Buenos Aires é um dos mais encantadores. Aí chegado, não espere menos do que arte, cor, cultura e história.

As origens

Muitos historiadores concordam que Pedro de Mendoza pode ter fundado a cidade de (como se conhecia antigamente) Santa María de los Buenos Aires no bairro de La Boca.

O bairro recebeu esse nome devido à sua localização junto à desembocadura do rio Matanza-Riachuelo no rio de la Plata, que acolheu o porto da cidade durante muitos anos.

O porto mudou-se para o norte da cidade há relativamente pouco tempo devido à pouca profundidade das águas e aos bancos de areia. O novo ancoradouro ficou até hoje conhecido como Puerto Nuevo. Até à mudança, porém, a actividade portuária foi muito activa no porto de La Boca: nele atracaram vários barcos de imigrantes que vinham em busca de trabalho e com vontade de construir uma vida nova. A maioria eram italianos, provenientes de Génova, e tornaram as ruas um pouco mais suas.

O bairro mais colorido

A principal atracção do bairro é a sua rua mais emblemática: Caminito. Ao longo dos anos, tornou-se num dos locais mais fotografados do mundo, pois os seus conventillos de chapa pintados com milhares de cores transformaram-no num museu ao ar livre.

La boca

Fotografia de Clara Huguet Millat.

Os conventillos são moradias urbanas multifamiliares. Costumavam ser habitados por grupos de pessoas ou famílias inteiras, que partilhavam zonas comuns da casa como a casa de jantar ou a casa de banho. As condições de vida nestas moradias não eram as melhores, devido sobretudo à pouca higiene que nelas reinava, mas a sua peculiar arquitectura é o que lhes dá carisma, que as caracteriza e as torna distintas. São feitas em chapa e madeira e costumam ter varandas em ferro. Contudo, a sua característica mais notável é a grande quantidade de cores que as revestem, que chegaram a tornar-se um símbolo. Há muitos anos, as casas eram pintadas com as sobras de tintas que os marinheiros levavam para casa. Na altura, a tinta era demasiado cara para se conseguir pintar uma casa inteira da mesma cor. Aos poucos, com as sobras que obtinham, iam pintando partes diferentes: primeiro as molduras de portas e janelas, depois as paredes e assim sucessivamente até não restar uma gota de tinta. É por isso – e também devido à escassez – que todas as moradias apresentam uma gama de cores tão variada, sendo todas exemplares únicos.

Embora a precariedade predomine na história do bairro, na década de 1950 os seus residentes conseguiram que fosse transformado numa zona pedonal onde, aos poucos, vários artistas se instalaram, dando-lhe um encanto que o caracteriza até hoje. Um dos principais impulsionadores desta faceta mais artística foi o boquense Benito Quinquela Martín, que se empenhou em elevar o espírito do bairro e chegou até a baptizá-lo. Caminito” é o nome do famoso tango composto por Juan de Dios Filiberto e Gabino Coria Peñaloza, e interpretado pelo inigualável Carlos Gardel.

Além de história, La Boca é também arte e cultura e uma das melhores formas de o descobrir é através da Usina del Arte, um espaço cultural que acolhe um vasto leque de propostas para todos os públicos no interior de uma obra arquitectónica que não só esconde magia em todos os seus eventos, como nas suas paredes.

Um bairro que ama os bombeiros

O material de que são feitas as casas é outro dos problemas do bairro. Sendo a madeira um dos principais componentes, o risco de incêndio era (e é) muito elevado, razão pela qual os bombeiros desempenhavam um papel fundamental e eram muito admirados e estimados pelos boquenses.

La Boca

Fotografia de Clara Huguet Millat.

Num passeio a este bairro maravilhoso, não pode faltar uma visita ao Quartel dos Bombeiros Voluntários, o primeiro do país, no qual se pode conhecer o início desta instituição, que é uma parte muito importante da história destas ruas e dos seus habitantes.

A república de La Boca

O sentimento boquense é muito forte no bairro. Quem é de La Boca, sente-o. O sentimento é tão forte que, no final do século XIX, o bairro quis tornar-se independente. Devido a divergências entre a classe operária e as entidades patronais, iniciou-se um movimento para criar a República Independente de La Boca. O conflito laboral desencadeou uma greve que se prolongou o tempo suficiente para a notícia chegar a Itália, onde os genoveses quiseram comunicar a decisão ao rei. O movimento foi tão forte, que chegou a ser içada uma bandeira própria que representava tudo aquilo por que os residentes lutavam. Mantiveram o desenho original, com as duas linhas azuis horizontais e uma branca no meio, mas em vez do Sol, o símbolo que reinava ao centro era o escudo da Casa de Sabóia (a dinastia italiana), encimada pelo gorro frígio da liberdade.

La Boca

Fotografia de Clara Huguet Millat.

Os outros habitantes de La Boca

Quando levantamos os olhos ao caminhar pelas ruas, vemos figuras em pasta de papel de personagens míticas da história da Argentina, como Evita, Gardel ou Maradona, em muitas das varandas dos conventillos. Agora fazem parte da atmosfera e transformaram-se em mais um elemento da essência do bairro. Muitas delas observam do alto a transformação das antigas casas onde se juntavam inúmeros imigrantes em restaurantes e galerias comerciais.

La Bombonera

A maré amarela e azul invade as ruas de La Boca. Para onde quer que olhe, verá alguma referência ao desporto nacional, não só devido aos fãs de Messi ou Maradona, mas ao sentimento pelas equipas da cidade. Boca Juniors é um dos mais reconhecidos e, como o nome indica, é a equipa do bairro. Foi fundado em 1905 por um grupo de jovens imigrantes italianos e o seu estádio, La Bombonera, é o coração do bairro e da equipa. O seu nome popular pode surpreender, mas faz todo o sentido depois de o conhecermos. O estádio tem a forma de uma ferradura e três níveis empilhados, parecendo uma caixa de bombons: Bombonera.

Boca Juniores

Fotografia de Istock.

A sua claque, ou barra brava, chama-se La 12. Embora, à primeira vista, possa parecer um simples nome, esconde um significado poderoso para os amantes do futebol, que se consideram o jogador número 12 da equipa. Esse sentimento reflecte-se em cada jogo: o ambiente é sempre uma festa, tanto em campo, como nas ruas de todo o bairro.

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