Bergamo

PORTA DE SANTIAGO. Nesta porta monumental das muralhas terminava a via que começava em Milão.

O percurso entre as zonas altas e baixas revela-nos um legado incrível.

Texto: Sergi Ramis

Do molhe fortificado de La Rocca (século XIV) obtém-se uma imagem precisa do que é Bérgamo. A norte aparecem os pontiagudos Alpes; aos pés do bastião, figura a beleza da histórica Cidade Alta; e a sul, no que aparenta ser um plano infinito, a Cidade Baixa. São estes os traços que definem esta pitoresca cidade lombarda, capital da província com o mesmo nome: ao longo do ano, as montanhas refrescam o clima, com o seu fôlego fresco, incitando o visitante a percorrê-las; os bairros medievais cravados na colina e os distritos novos servem de ponto de fuga.

Não é pois de estranhar que Bérgamo possua dois funiculares que dão acesso às suas elevadas encostas. O mais usado liga a Piazzetta de San Giacomo à Piazza Mercato delle Scarpe. Em poucos segundos, o cómodo vagão apoiado num cabo de aço deixa o viajante no interior das Muralhas Vénetas.

Bérgamo

TORRE CÍVICA. Dos  seus pisos panorâmicos, obtém-se uma esplêndida perspectiva do centro histórico.

Daqui, devemos deixar-nos levar pela intuição para vaguear por estradas pavimentadas que expõem o carácter medieval da Cidade Alta. As rochas locais dominam as construções, desde as casas mais modestas aos palácios mais veneráveis. A escassa presença de veículos transforma o passeio numa actividade ideal para relaxar.

A Piazza Vecchia é o epicentro da Cidade Alta e talvez o seu único espaço plano. Os palácios mais belos encontram-se nesta praça, presidida por uma fonte de 1780, escoltada por uma esfinge de pedra e leões que seguram uma corrente com as suas bocas.

O orgulho dos habitantes de Bérgamo é a Basílica de Santa Maria Maior, a igreja mais impressionante, onde o românico lombardo se expressa em traços indiscutíveis, tirando partido das rochas brancas, rosadas e negras de forma elegante. No interior, estão guardadas tapeçarias sumptuosas e, para os musicólogos, vale a pena apreciar o túmulo do compositor da casa Gaetano Donizetti (1797-1848), cujo rasto se propaga por toda a cidade. Há mais informação num museu dedicado ao compositor e num palácio da Cidade Baixa que exibe os seus objectos pessoais e o seu piano.

Carrilhões com história

A sacristia da basílica foi sacrificada no século XV para dar lugar à notável Capela Colleoni, um monumento funerário dedicado a Medea Colleoni, filha de uma das famílias mais ricas da cidade. Encerra a praça da Torre Cívica ou Campanário (com 52 metros de altura) que, todas as noites pelas dez horas, relembra com uma centena de repiques o momento em que as muralhas se fechavam até ao amanhecer.

Naquela época, a Cidade Alta estava rodeada por uma muralha de seis quilómetros e com a forma de uma ponta de flecha. Foi um dos muitos contributos do domínio veneziano, daí que sejam conhecidas como as Muralhas Vénetas. Bérgamo teve muitos visitantes que chegaram com a intenção de ficar: primeiro, os hunos de Átila no século VI, de seguida os vizinhos milaneses, mais tarde os venezianos e até os austríacos, cuja herança cultural são as abundantes birrerie (cervejarias), fonte de um genuíno orgulho local em Bérgamo.

Bérgamo

PIAZZA VECCHIA. O coração de Bérgamo está revestido de edifícios com arcadas e fachadas de mármore. Na página anterior, o Palácio della Reggione e, ao fundo, Santa Maria Maior.

A pequena mas central Piazza Vecchia comunica pelo lado sul com a mais ampla e triangular Piazza del Duomo. A catedral domina o conjunto, com o seu impressionante interior barroco. Localiza-se, segundo recentes investigações, sobre um dos templos antigos, possivelmente de época paleocristã (século VI). O outro monumento que se destaca na praça é o baptistério com o seu ar toscano (século XIV), transferido para aqui em 1898.

Gastronomia saborosa

Pode caminhar-se em Bergamo de piazzetta para piazzetta por ruas repletas de lojas encantadoras e trattorie onde podemos saborear pratos típicos de Bérgamo: casonsei (ravioli de carne de vaca), scapinocc (pasta recheada de queijo), a clássica polenta e os deliciosos queijos e enchidos das vizinhas montanhas alpinas. No fim do jantar, quando regressamos para as ruas nas sempre frescas noites de Bérgamo, somos surpreendidos pela animação exibida nesta pequena cidade de 120 mil habitantes. Muitos estudantes de Erasmus escolhem esta cidade como destino e a sua actividade febril domina o quotidiano.

As scalette (ou escadarias) ajudam a descer à Cidade Baixa, onde os distritos novos e os bairros populares como o Pignolo merecem uma visita. Aí concentram-se as lojas de marcas internacionais, a maioria dos hotéis e os principais museus. Destaca-se a Academia Carrara, cuja colecção de pintura clássica inclui artistas como Botticelli, Rafael, Tiepolo e Canaletto.

Bérgamo

Basílica Bendita - Santa Maria Maior. Erguida no século XII, é considerada o principal monumento da cidade pelo seu valor artístico. Em 1133, Bérgamo sofreu uma grave seca seguida de fome e de uma epidemia de peste. Os cidadãos rogaram à Virgem para que intercedesse e, em 1135, decidiram construir uma igreja em seu nome como voto de agradecimento pela ajuda divina recebida. Dois anos mais tarde, o bispo de Bérgamo abençoou a primeira pedra da Basílica de Santa Maria Maior.

Escapadela aos Alpes

Os Alpes, força dominadora em Bérgamo, exercem poderosa influência sobre o ambiente da cidade. Talvez o viajante sinta tentação de caminhar nessas montanhas tão próximas, como o fizeram duas lendas do alpinismo nascidas aqui, Walter Bonatti (1930-2011) e Simone Moro (1967). Ou talvez prefira uma opção mais prazenteira: parar a meio caminho em São Pellegrino (a 25 quilómetros) para experimentar a exuberância das termas.

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