EVOA

O centro de acolhimento aos visitantes foi construído com materiais biodegradáveis.

Há quase uma década que se constrói um paraíso perto de Vila Franca de Xira.

Texto: Gonçalo Pereira Rosa

Imagine-se num filme de ficção científica que lhe permite recuar no tempo. Por capricho do guionista, um dos portais foi colocado na Ponta da Erva, a escassas dezenas de metros do local mágico onde o rio Sorraia conflui com o estuário do Tejo. Ali, a subida e descida da maré modifica há séculos a paisagem com a regularidade de um relógio suíço. À medida que as águas baixam, a lama aprisiona sedimentos e pequenos organismos. Conhecendo melhor o fenómeno do que qualquer ser humano, as aves espreitam. Em breve, chegará a hora de se banquetearem.

Imaginemos, no entanto, que o portal nos permite recuar no tempo. Se recuássemos século e meio, todo este território mostrar-se-ia agrário. A Companhia das Lezírias foi fundada na sequência das guerras liberais, com a expectativa de vender alguns terrenos férteis da Coroa para a urgente produção agrícola. As zonas húmidas, regularmente irrigadas pelas cheias, são incrivelmente férteis. Não é difícil imaginar esta região repleta de aves, tal como hoje, aguardando oportunidades alimentares.

Calibrando o portal para o último quartel do século XX, já o panorama seria mais desolador. As culturas que precisavam de muitos trabalhadores quase desapareceram. A lezíria continuaria produtiva, mas conforme se caminha para sul, o sal torna as terras mais propícias para os pastos. Os habitantes da lezíria saíram, deixando vago o espaço para a vida selvagem. A zona integraria já a Reserva Natural do Estuário do Tejo.

Em 2000, a história começou a mudar. Foi proposto à Companhia das Lezírias a criação de estruturas de interpretação e conservação, num processo de renaturalização de espaços. Se o nosso portal nos conduzisse à Ponta da Erva em 2010, talvez víssemos então retroescavadoras em plena actividade, criando três lagoas no espaço entre o sapal e a Vala de Mar de Cães. A intervenção em 70 hectares de terreno constituiu uma profissão de fé, com a expectativa de que, recuperando habitats, as aves apressar-se-iam a colonizar o espaço. E assim foi.

Inaugurado em 2013, a meia hora de caminho de Lisboa, o EVOA (Espaço de Visitação e Observação de Aves) tornou-se uma zona húmida de referência. Todos os dias, pode agendar a visita e circular num trajecto de cinco quilómetros, a pé ou em carro eléctrico, acompanhado de um guia. Cada dia é uma experiência diferente, como se o portal do tempo continuasse a funcionar.

As aves limícolas interrompem grandes migrações quando descobrem a lagoa Principal, a lagoa Rasa ou a lagoa Grande. São avistadas aqui 32 espécies limícolas, entre borrelhos, alfaiates e pernilongos, deleitando-se na lama e petiscando. Os anatídeos são outros fregueses regulares. Nos seis abrigos dispostos ao longo do percurso, estão garantidos avistamentos de arrábios, marrequinhas ou patos-reais, por vezes em bandos com milhares de indivíduos. Há por fim espaço para as majestosas águias-pesqueiras, que retiram alimento abundante do estuário e das lagoas. Aves de rapina ocasionais, lontras e pequenos mamíferos carnívoros investem também no EVOA, confirmando o sucesso da renaturalização do espaço. O EVOA encerra em Julho para corte de vegetação e manutenção. Ao longo de todo o ano, promove projectos de investigação, capturando e marcando anatídeos, anilhando passeriformes e completando o censo de todos os insectos da área.

A única forma de captar a abundância de avifauna na lezíria é pela multiplicação das visitas, distribuindo-as ao longo do ano e tirando partido das condições favoráveis que o EVOA oferece aos membros regulares. Para o viajante que procure maior diversidade de espécies, os meses de Setembro e Outubro são mais ricos. Em contrapartida, entre Dezembro e Janeiro, concentram-se aqui grandes bandos, que chegam a tapar a área abrangida pela lente dos fotógrafos profissionais e amadores que, em silêncio, esperam nos abrigos pela oportunidade de uma vida. Em Fevereiro, as aves de rapina fazem aparições pontuais. Entre Março e Maio chegam as espécies estivais e, com a eclosão das primeiras crias, o EVOA fervilha de vida. No Verão, os flamingos aproveitam as águas mais quentes das lagoas, cheias de pequenos invertebrados, para se alimentar.

Sentado no abrigo, camuflado por cortinas e por um vidro, o visitante abstrai-se da complexidade da vida urbana. Não há sons produzidos por máquinas. Apenas o piar das aves que guardam distâncias respeitosas até sentirem que não há perigo. O momento em que a fotografia capta uma ave livre num espaço renaturalizado pelo homem produz uma alegria difícil de quantificar. Como se a última peça do puzzle, de repente, encontrasse o seu lugar.

EVOA

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