Lagoa do fogo

Da lagoa do Fogo, disse um dia a poetisa Natália Correia que era um dos poucos sítios dos Açores habitados por deuses.

É impossível falar dos Açores sem mencionar a lagoa do Fogo. A aventura exige meia hora de caminhada, mas compensa largamente o viajante.

Texto: António Luís Campos

A par das Furnas e das Sete Cidades, é uma das mais imponentes formações vulcânicas de São Miguel, a ilha de maior dimensão. Das grandes caldeiras, é a mais bravia, quase sem vestígios de presença humana assim que se deixa o conspícuo parque de estacionamento, de onde a esmagadora maioria das pessoas se limita a espreitar e tirar um instantâneo com o telemóvel.

Por muito popular que seja este miradouro, é preciso pôr os pés ao caminho e sujar as botas para saborear a magia da lagoa do Fogo. A descida do sinuoso e assaz escorregadio trilho leva, em menos de meia hora, o caminhante até à margem da imensa lagoa azulada. Aqui, a escala muda e, se exceptuarmos as sobranceiras antenas do Pico da Barrosa e um pequeno pontão há muito abandonado, a presença humana esfuma-se. A neblina é quase omnipresente. A bruma que se instala invade o enorme caldeirão, emprestando um ar fantasmagórico às encostas verdejantes, repletas de vegetação autóctone, com espécies como o louro, a urze, o cedro-do-mato ou o sanguinho. É um cenário digno de um filme e Frodo não se sentiria deslocado aqui!

Lagoa do fogo

Esta massa de água é uma das maiores do arquipélago. Localiza-se numa caldeira de formação recente, de há apenas 15 mil anos – uma mera piscadela de olhos em termos geológicos.

Terminada a descida até ao nível da água, abre-se aí uma extensa praia de areias claras, resultantes da pedra-pomes, dada a natureza traquítica como se formou a caldeira. Por companhia, o caminhante tem apenas as gaivotas e ocasionais garajaus, que nidificam nas margens da lagoa, esbeltos, de asas pontiagudas e bico carmim, cruzando o éter como se de algum feitiço se tratasse e a gravidade não se lhes aplicasse.

É imperativo contornar a sinuosa linha de “costa” e o tempo flui sem que dele se dê conta. A primeira península chega ao fim e um meandro caprichoso da lagoa conduz o visitante na direcção oposta. As margens da enseada são adornadas por vegetação mais densa, com musgos fofos e coloridos atapetando o solo. É talvez a zona mais recolhida deste périplo, onde o som dos passos é abafado e os ruídos inexistentes. Fechando os olhos e dando largas à imaginação, quase juraria ser possível escutar o rugido rouco do magna, incandescente, poucas centenas de metros abaixo dos pés...

Lagoa do fogo

A lagoa está a 577 metros de altitude, a cerca de quatrocentos metros do topo da montanha.

Uma segunda península prolonga a caminhada, após o que se abre a zona ocasionalmente pantanosa e plana que acompanha a vertente norte da caldeira. Ao fundo, por detrás da muralha verde, as Lombadas, outro recanto remoto e pouco visitado da ilha.

Daqui tem-se uma perspectiva mais ampla da lagoa, tendo em frente uma abertura nas paredes da cratera, um V sob o qual Vila Franca do Campo se aninha, escondida. E sente-se ainda mais o isolamento, de tudo e de todos.

Lagoa do fogo

De repente, o capacete de nuvens cede e, por instantes, o Sol penetra, inundando a caldeira com uma luz surreal. Um aguaceiro quente abate-se, logo seguido de um enorme arco-íris, bem desenhado contra o céu cor de chumbo. A máxima açoriana “Se não gostas do tempo nos Açores, senta-te e espera meia hora!” é, pela enésima vez, demonstrada na prática. A reinvenção da paisagem insular é perpétua e a inconstância geológica volta-se a sentir, aqui, agora, sempre.

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