Corno do Bico

Coberta de neblina, a floresta de crescimento antigo ganha misticismo e magia.

Não é só uma área classificada. É um lugar mágico onde a singularidade da paisagem nos remete para o imaginário de uma floresta encantada.

Texto: Tiago Cunha e Pedro Sousa

A Paisagem Protegida do Corno do Bico foi criada em 1999 e tem cerca 2.200 hectares distribuídos por cinco freguesias: Bico, Castanheira, Cristelo, Parada e Vascões. O município de Paredes de Coura faz parte da mais antiga e extensa unidade geomorfológica da Península Ibérica, o Maciço Ibérico. O relevo acentuado deste território resulta de sucessivos levantamentos tectónicos e de dobras e falhas transversais que, por acção mecânica de erosão dos elementos, originou afloramentos graníticos dispersos, designados por caos de blocos.

É esta caótica paisagem granítica que, ao longo do tempo, o homem tem procurado domar e transformar, na medida da sua força e habilidade, em alimento, abrigo, monumento fúnebre, casa, calçada, moinho, ermida, espigueiro, eira, tanque, cruzeiro, fontanário ou nicho… num ciclo frenético movido pela força da água. É este vigor que parece espreitar-nos em cada recanto e, numa mistura de sagrado e profano, revigora-nos o corpo e a alma. Os monumentos neolíticos testemunham a longa ocupação humana destas paragens. O homem ocupou primeiro os topos montanhosos mais elevados, como o demonstra a Antela da Cruz Vermelha, o complexo das mamoas de Chã de Lamas e o Castro de Cristelo. Progressivamente, foi conquistando as zonas mais baixas e ribeirinhas que converteu com engenho e arte em áreas agrícolas. Surgiram os lameiros extensos, organizados matematicamente em plataformas e esculpidos na paisagem com muretes, sebes e socalcos, como um extenso escadório verdejante que se ergue desde o mais profundo ribeiro até ao azul montanhoso.

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Colonizando as curvas de nível surgiram também as levadas, escavadas a partir dos ribeiros e riachos, que transportam água e fertilidade do topo da montanha ao longínquo vale que se perde no horizonte.

A Paisagem Protegida do Corno do Bico é um santuário natural e, simultaneamente, uma prova de coexistência e resiliência humana ao carácter inóspito e agreste da natureza. É um testemunho de humanização de uma montanha que o homem rasgou com a força dos animais e transformou em jardim verde pungente com cheiro de urze e terra molhada. Imperdível é a passagem pela Colónia Agrícola de Chã de Lamas, implantada na década de 1960, e pelo Centro de Educação e Interpretação Ambiental do Corno do Bico.

Este equipamento de desenho encantador, totalmente inserido na paisagem, possui valências de educação e interpretação ambiental, permitindo alojamento, acesso a laboratórios e oficinas. A ele estão associadas a Casa do Cogumelo e o mais recente Centro de Cycling do Corno do Bico de onde partem mais de duzentos quilómetros de percursos sinalizados. O BTT é hoje, a par do pedestrianismo, uma das formas mais apropriadas de fruição deste território. A pé, toda a grandiosidade da paisagem revela-se ao longo do Trilho do Corno de Bico que conduz à diversidade biológica de frondosos bosques de folhosas, convidativos à observação de aves ou à colheita de cogumelos.

É também a pé, pelo Trilho do Sistema Solar, que poderá alcançar o miradouro do Corno do Bico, com imponentes 883 metros de altitude, na cabeceira de três dos principais cursos de água minhotos (o Coura, o Labruja e o Vez). Ao conquistá-lo, respire fundo. Contemple o que apenas de lá se pode ver: todo o vale abraçado pelas extensas montanhas em redor, como se fossem paredes. São as paredes do Coura. Ali compreende-se por que motivo esta realidade geológica dá nome ao concelho.

A floresta do Corno de Bico é uma densa mata de carvalhos, castanheiros, faias e ciprestes plantados na década de 1940 pelas campanhas de arborização. Ficaram magicamente esquecidos por 80 anos. Na floresta, cruzam-se os elementos: os líquenes atestam a qualidade do ar, as mais de duzentas espécies de cogumelos já identificadas confirmam a riqueza do solo; as árvores frondosas garantem a pureza da água e os jogos de sombra e luz evocam uma experiência de fogo.

Não estranha que um lugar tão especial seja refúgio e habitat privilegiado de espécies únicas como o lobo-ibérico, a salamandra-lusitânica, a víbora-de-seoane e a toupeira-de-água. No total, estão identificadas neste reduto natural 188 espécies de vertebrados e 439 espécies de flora, entre as quais o azevinho, o machadinho e a orvalhinha, uma das poucas plantas carnívoras existentes em Portugal. Não é possível entrar nesta paisagem sem sentir que há nela um espírito de lugar, uma aura de conto de fadas, pela exuberância das cores, pela intensidade dos cheiros, pela profundidade do silêncio da natureza. Visitá-la é lançar um encanto aos seus sentidos.

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